Os baralhos viciados
No panorama político e empresarial português trava-se a batalha final pela posse e conservação do poder. É uma luta de vida ou de morte que pode (e vai mesmo) ser fatal para as estruturas sóciopolíticas do grande capital. Esta fase envolve já todas os organismos dirigentes das instituições superiores do regime, desde o Presidente da República e o primeiro-ministro, à Assembleia da República, aos tribunais, às polícias, à advocacia, ao empresariado, à banca e à Igreja. Todos são apanhados em falta e todos se recolhem à sombra da inocência.
A existência de uma tal situação não é apenas imoral. Ela só é possível com a existência de leis ambíguas destinadas a condenar e impedir o crime mas, na realidade, redigidas de forma a permitir, a cada momento, leituras dúplices e à medida dos interesses financeiros e políticos em jogo. O País afunda-se num lamaçal que não se explica totalmente com as transgressões éticas e o abandono dos valores. Vemos sucederem-se os escândalos, conhecem-se pormenores mínimos da prática das falcatruas, identificam-se culpados, destroem-se provas incriminatórias e... nada acontece depois. Os tribunais invocam os princípios das leis e traem esses princípios. As polícias afadigam-se em encontrar culpados que acabam por ser esquecidos. Os processos arrastam-se tanto tempo quanto o necessário para caducarem as acusações. O Presidente da República finge olhar para o lado. O primeiro-ministro figura na maior parte dos casos fraudulentos mas continua, imperturbável, a proferir as falsidades do seu discurso oco. A Igreja tudo isto conhece mas soma, segue, cala-se e acumula lucros e proveitos.
Entretanto, nada acontece no plano legal. Muitas leis por remunerar a iniquidade. Tudo isto revela a existência de um minucioso sistema de segurança das mafias em competição. Entretanto, digam o que quiserem, Portugal entrou na roda livre da bancarrota nacional. O País já está nas mãos da banca mundial, das multinacionais, da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional. Se apenas estas entidades exigissem para já o pagamento das dívidas contraídas pelos governos portugueses, Portugal entraria irremissívelmente em falência. Entretanto, os grandes negócios dão crescentes lucros. A «crise económica» passa-lhes ao lado.
Um caso exemplar:
a compra e venda da TVI
São muitas as fraudes estrondosas e em não menor número os golpes governativos encapotados que, em qualquer Estado medianamente democrático implicariam a demissão imediata dos governantes. Escolhamos o processo do «caso TVI» para muito resumidamente ilustrarmos o clima que já alastrou a toda a «sociedade civil» e às forças vivas portuguesas.
Os cenários do «caso TVI» são extremamente móveis. O que representa, aliás, uma técnica da ocultação de objectivos e uma via para a valorização do produto a vender mas a conservar, simultaneamente, na mesma área de influência ideológica.
Actualmente, a estação pertence à PRISA, o gigante espanhol que domina as aquisições no mercado televisivo, tem profundas ligações à ultraconservadora Igreja espanhola e conseguiu dominar, através de negociações secretas com a Media Capital, 94,39% das acções da TVI. É ela o novo patrão. Esta posição consolidou-se imediatamente com a compra à norte-americana Liberty Acquisition Holding de um aumento de capitais em dinheiro, operação que lhe vai render 660 milhões de euros de lucro. Dizem os amigos de Sócrates que – coitado dele! - bem tentou conservar a TVI em mão nacionais! Não o conseguiu e votou vencido...
E o folhetim continua.
A PRISA foi à TVI, comprou-a e irá introduzir rapidamente na estação «modificações estatutárias e regulamentares» de forma a garantir o controlo da empresa pelo accionista de referência (a Liberty). Segundo se sabe, esta reforma interna limitará o direito de voto de 30% de todos os accionistas. Fixado o novo administrador, a PRISA passa à frente e entrará nos mercados internacionais, como os norte-americanos, brasileiros, mexicanos e latino-americanos.
Finalmente, no novo panorama televisivo nacional, assim estabelecido, a misteriosa Ongoing, vencida no negócio da TVI mas não convencida, fechou com o «empregado» José Eduardo Moniz um contrato milionário, entrou em reserva estratégica e promete ser a próxima vedeta da Comunicação Social.
«Dividir para reinar» continua a ser a palavra de ordem mais cara à Igreja e aos especuladores. Este «caso da TVI», longe de ficar esgotado, tem no seu subsolo um vasto matagal de intrigas. A ele voltaremos em breve, em espaço mais alargado do nosso Avante!... «Se Deus quiser!»...
Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Política e Religião
Sinais de alarme e um «suave milagre»
O mundo capitalista vai de mal a pior e por muito que o tente não consegue disfarçar essa realidade. Tal como sempre aconteceu em tempos de crise profunda, os capitalistas fazem acompanhar as suas fases de declínio por verdadeiras paradas de ostentação e de vida corrupta que nem sequer já procuram ocultar. São sinais de que estão conscientes da existência de um dramático desagregar do seu sistema que sempre foi corrupto embora envolto num palavreado populista e numa aura de santidade da Igreja. Agora não, agora já isto não é possível. Então tal como as meretrizes - os capitalistas fazem gala de reclamarem para si, publicamente, o direito à aberta imoralidade. A Igreja católica, sua associada em múltiplas patifarias, emudece, financia e participa nos lucros fabulosos que o pôr do sol do capitalismo promove.
Os dias passam e esgotam-se os espaços da agenda nacional da perversão. Silêncio ou gaguez da Igreja perante crimes horríveis do clero (e não apenas em relação a crianças indefesas). Também em escândalos sociais como o combate à pobreza, a tibieza de posições face ao desemprego, a prestação de serviços ao capitalismo, a manutenção de posições ultraconservadoras e reaccionárias, as orientações do Patriarcado para os lucros financeiros e a ambição, conscientemente alimentada, de ocupar e manter indefinidamente o poder e o obscurantismo absoluto, instrumentos de sujeição das camadas mais humildes do povo português. Igreja assim, não serve. Por uma vez, mas de forma desgarrada, a Conferência Episcopal reconheceu que a linguagem falada pela Igreja, confrontada com os graves problemas sociais é «reactiva» e «desfasada da sociedade».
Mercado interno e a visita do Papa
A verdade é que os negócios entre o Governo de Sócrates e o episcopado são cada vez mais noticiados, tendência que convém abafar. Ficou-se a saber, nos últimos dias, que a Segurança Social paga 59% dos financiamentos às IPSS (católicas e «não lucrativas»), que a empresa pública Estradas de Portugal comprou à Igreja (em Lisboa, na Buraca) um pedaço de terreno com a extensão de uma piscina, por 1,2 milhões de euros e que voltaram a ser aumentados os subsídios do Estado às instituições católicas da Acção Social.
O Papa está a chegar e todas as atenções se viram nesse sentido. Os bispos temem manifestações, antecipam-se e declaram: «O Papa não quer confrontações com ninguém!». O Governo, contrariando a sua autoproclamada política da produtividade, decide dar de uma penada três dias de «tolerância de ponto» ao funcionalismo público. As polícias secretas (incluindo a do Vaticano) planificam, em Lisboa, a segurança de Ratzinger. A Igreja planeia em pormenor o programa da visita e o seu êxito, em termos de massas. Detalhe interessante é a forma como se pensa garantir a presença, nas três missas papais (em Lisboa, no Porto e em Fátima), de multidões de fieis, turistas e curiosos: centenas de autocarros funcionarão em cadeia, levando sucessivamente os católicos, primeiro do Sul ao Norte (Porto); depois, do Norte ao Centro (Santuário de Fátima). Portugal de Sócrates lembra o Portugal de Salazar. No caso do Porto, conta-se, ainda, com a chegada de centenas de autocarros espanhóis. Tudo a bem da Igreja e do turismo.
Mas o negócio não fica por aqui.
Toda a malha de organizações da Igreja se encontra mobilizada para a venda de artigos religiosos bentos e lucrativos, nomeadamente, bandeiras, pendões, medalhas e cruzinhas. Cada bandeira custa um euro e os outros objectos devem andar por aí. Há orações disponíveis em telemóvel. Vende-se pendões e velas. Aluga-se quartos e varandas. Os lucros obtidos serão repartidos segundo os seguintes critérios: um terço, vai para as paróquias; um terço, para ajudar as despesas de deslocação do Papa; o terço final reverte para o Patriarcado. Eis o «suave milagre»: a multiplicação dos peixes.
Assim vão os tempos. Um Papa desautorizado pelo seu fanatismo religioso e pelo encobrimento de crimes contra a humanidade, transforma-se em motor da economia da Igreja e em mentor de uma catolicidade intimamente ligada ao poder fraudulento do capitalismo. À partida de Lisboa, mete-se no avião e volta ao Vaticano de onde tornará a partir em breve para outra qualquer parte do mundo católico, sempre apoiado pelos numerosos especialistas em finanças e em negócios que invariavelmente o acompanham nas suas viagens papais.
Temos este conforto: Portugal caminha para a bancarrota mas morrerá confortado com todos os Sacramentos da Santa Madre Igreja.
Jorje Messias ( Jornal Avante)
O mundo capitalista vai de mal a pior e por muito que o tente não consegue disfarçar essa realidade. Tal como sempre aconteceu em tempos de crise profunda, os capitalistas fazem acompanhar as suas fases de declínio por verdadeiras paradas de ostentação e de vida corrupta que nem sequer já procuram ocultar. São sinais de que estão conscientes da existência de um dramático desagregar do seu sistema que sempre foi corrupto embora envolto num palavreado populista e numa aura de santidade da Igreja. Agora não, agora já isto não é possível. Então tal como as meretrizes - os capitalistas fazem gala de reclamarem para si, publicamente, o direito à aberta imoralidade. A Igreja católica, sua associada em múltiplas patifarias, emudece, financia e participa nos lucros fabulosos que o pôr do sol do capitalismo promove.
Os dias passam e esgotam-se os espaços da agenda nacional da perversão. Silêncio ou gaguez da Igreja perante crimes horríveis do clero (e não apenas em relação a crianças indefesas). Também em escândalos sociais como o combate à pobreza, a tibieza de posições face ao desemprego, a prestação de serviços ao capitalismo, a manutenção de posições ultraconservadoras e reaccionárias, as orientações do Patriarcado para os lucros financeiros e a ambição, conscientemente alimentada, de ocupar e manter indefinidamente o poder e o obscurantismo absoluto, instrumentos de sujeição das camadas mais humildes do povo português. Igreja assim, não serve. Por uma vez, mas de forma desgarrada, a Conferência Episcopal reconheceu que a linguagem falada pela Igreja, confrontada com os graves problemas sociais é «reactiva» e «desfasada da sociedade».
Mercado interno e a visita do Papa
A verdade é que os negócios entre o Governo de Sócrates e o episcopado são cada vez mais noticiados, tendência que convém abafar. Ficou-se a saber, nos últimos dias, que a Segurança Social paga 59% dos financiamentos às IPSS (católicas e «não lucrativas»), que a empresa pública Estradas de Portugal comprou à Igreja (em Lisboa, na Buraca) um pedaço de terreno com a extensão de uma piscina, por 1,2 milhões de euros e que voltaram a ser aumentados os subsídios do Estado às instituições católicas da Acção Social.
O Papa está a chegar e todas as atenções se viram nesse sentido. Os bispos temem manifestações, antecipam-se e declaram: «O Papa não quer confrontações com ninguém!». O Governo, contrariando a sua autoproclamada política da produtividade, decide dar de uma penada três dias de «tolerância de ponto» ao funcionalismo público. As polícias secretas (incluindo a do Vaticano) planificam, em Lisboa, a segurança de Ratzinger. A Igreja planeia em pormenor o programa da visita e o seu êxito, em termos de massas. Detalhe interessante é a forma como se pensa garantir a presença, nas três missas papais (em Lisboa, no Porto e em Fátima), de multidões de fieis, turistas e curiosos: centenas de autocarros funcionarão em cadeia, levando sucessivamente os católicos, primeiro do Sul ao Norte (Porto); depois, do Norte ao Centro (Santuário de Fátima). Portugal de Sócrates lembra o Portugal de Salazar. No caso do Porto, conta-se, ainda, com a chegada de centenas de autocarros espanhóis. Tudo a bem da Igreja e do turismo.
Mas o negócio não fica por aqui.
Toda a malha de organizações da Igreja se encontra mobilizada para a venda de artigos religiosos bentos e lucrativos, nomeadamente, bandeiras, pendões, medalhas e cruzinhas. Cada bandeira custa um euro e os outros objectos devem andar por aí. Há orações disponíveis em telemóvel. Vende-se pendões e velas. Aluga-se quartos e varandas. Os lucros obtidos serão repartidos segundo os seguintes critérios: um terço, vai para as paróquias; um terço, para ajudar as despesas de deslocação do Papa; o terço final reverte para o Patriarcado. Eis o «suave milagre»: a multiplicação dos peixes.
Assim vão os tempos. Um Papa desautorizado pelo seu fanatismo religioso e pelo encobrimento de crimes contra a humanidade, transforma-se em motor da economia da Igreja e em mentor de uma catolicidade intimamente ligada ao poder fraudulento do capitalismo. À partida de Lisboa, mete-se no avião e volta ao Vaticano de onde tornará a partir em breve para outra qualquer parte do mundo católico, sempre apoiado pelos numerosos especialistas em finanças e em negócios que invariavelmente o acompanham nas suas viagens papais.
Temos este conforto: Portugal caminha para a bancarrota mas morrerá confortado com todos os Sacramentos da Santa Madre Igreja.
Jorje Messias ( Jornal Avante)
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Política e Religião
O retoque da imagem
Como é do conhecimento público, a Igreja católica romana tem particular atenção ao retoque da sua imagem pública. Sobretudo agora, quando se sobrepõem três níveis de crise: crise do capitalismo, crise interna da Igreja e, contas feitas aos últimos escândalos, crise de credibilidade entre os povos.
No primeiro aspecto, o Vaticano tem de procurar um justo equilíbrio que torne possível continuar a intervir nos mercados, ajudando o capitalismo a gerir com lucro a sua crise geral e evitando que a Igreja fique cativa dos seus poderosos aliados financeiros. Teoricamente, este equilíbrio faz-se investindo em áreas lucrativas e mantendo a imagem da instituição católica não lucrativa que combate a pobreza, opta pela justiça social e defende firmemente o direito à liberdade de expressão.
A prudência é o grande esteio da estratégia actual da Igreja. Desdramatizar e esquecer. A passagem do tempo será o grande regulador dos dias de crise. Foi assim já quando do escândalo das fraudes do Banco do Vaticano ligadas ao processo Marcinkus». Chegou-se a falar no desabar de todas as estruturas eclesiais. Depois, o tempo e a prudência do controlo e do cercear das notícias tudo acabou por resolver favoravelmente, com um prejuízo financeiro mínimo. Assim também aconteceu em Portugal relativamente aos pedófilos da Casa Pia. O processo ainda se arrasta mas já ninguém sequer se recorda de que a Casa Pia é uma instituição partilhada entre o Estado e a Igreja. A opinião pública desinteressou-se do caso. O mesmo certamente acontecerá com a vaga de escândalos da pedofilia dos padres. A Igreja portuguesa ficará à margem dos acontecimentos, mergulhada num banho de santidade. A hierarquia romana se encarregará de desviar as atenções do povo e de retocar a imagem da sua missão divina. Ao fim e ao cabo, tudo se resolverá. Tal como em muitas outras intrigas, a exemplo do plano de controlo da comunicação social, da entrega às instituições sóciocaritativas da sociedade civil de outros patrimónios, no Ensino, na Saúde, na Segurança Social, nos media do Estado, etc.
Para já, humildade, contenção, silêncio e esquecimento. Tudo isto junto, opera milagres. O resto virá mais tarde. A vingança serve-se fria.
Os jogos vocabulares
Esta estratégia do Vaticano, maduramente pensada, completa-se com a sábia repartição de tarefas entre o Sumo Pontífice e a sua guarda pretoriana de «acólitos» que o segue e representa em todo o mundo. Ao Papa, compete manter-se no seu trono, distanciar-se da multidão, pôr os olhos em Deus. Aos cardeais, bispos, padres e aos homens fortes da Igreja na sociedade civil, cabe falar mas de tal maneira que o mistério se adense em lugar de se dissipar. Nas recentes celebrações da Páscoa, esta estratégia tornou-se evidente em relação à pedofilia dos padres e à cumplicidade que a hierarquia católica garantiu aos violadores de crianças.
Bento XVI dormiu sobre este escândalo. Porém, sem nada dizer de explícito, foi mais além. Deslocou o eixo da questão. Ignorou os crimes da Igreja mas referiu-se de forma bem clara às guerras, ao narcotráfico e aos cataclismos que abalam o mundo. Para concluir que «a Humanidade precisa de uma conversão espiritual e moral, para sair da crise que é profunda».
Foi a «deixa» esperada pela guarda pretoriana dos acólitos. Colégio Cardinalício, Primaz da Bélgica, Arcebispo de Paris, Cardeal Patriarca de Lisboa, Bispo do Porto, Bispo das Forças Armadas, todos fizeram coro em apoio da tese da conspiração contra a Igreja e da existência de uma campanha «para caluniar e denegrir o Papa». Concluíram assim ser necessário mobilizar os católicos em defesa da imagem do Papa.
Assim começa a definir-se uma campanha tendente a recuperar a imagem da Igreja tradicional. Não tarda que as pessoas se interroguem: será verdade que os padres violaram as crianças? Ou, como diz o Papa, as culpas de tudo isto têm «o vestuário da morte» e residem «nos pecados do homem: «vício, pureza, obscenidade, idolatria, bruxaria, ódio, querelas, inveja, cólera, divisões, sectarismo». Sobre violações de crianças, nem uma palavra.
A culpa irá morrer solteira, uma vez mais? Não permitamos que tal aconteça!
Jorge Messias (Jornal Avante)
Como é do conhecimento público, a Igreja católica romana tem particular atenção ao retoque da sua imagem pública. Sobretudo agora, quando se sobrepõem três níveis de crise: crise do capitalismo, crise interna da Igreja e, contas feitas aos últimos escândalos, crise de credibilidade entre os povos.
No primeiro aspecto, o Vaticano tem de procurar um justo equilíbrio que torne possível continuar a intervir nos mercados, ajudando o capitalismo a gerir com lucro a sua crise geral e evitando que a Igreja fique cativa dos seus poderosos aliados financeiros. Teoricamente, este equilíbrio faz-se investindo em áreas lucrativas e mantendo a imagem da instituição católica não lucrativa que combate a pobreza, opta pela justiça social e defende firmemente o direito à liberdade de expressão.
A prudência é o grande esteio da estratégia actual da Igreja. Desdramatizar e esquecer. A passagem do tempo será o grande regulador dos dias de crise. Foi assim já quando do escândalo das fraudes do Banco do Vaticano ligadas ao processo Marcinkus». Chegou-se a falar no desabar de todas as estruturas eclesiais. Depois, o tempo e a prudência do controlo e do cercear das notícias tudo acabou por resolver favoravelmente, com um prejuízo financeiro mínimo. Assim também aconteceu em Portugal relativamente aos pedófilos da Casa Pia. O processo ainda se arrasta mas já ninguém sequer se recorda de que a Casa Pia é uma instituição partilhada entre o Estado e a Igreja. A opinião pública desinteressou-se do caso. O mesmo certamente acontecerá com a vaga de escândalos da pedofilia dos padres. A Igreja portuguesa ficará à margem dos acontecimentos, mergulhada num banho de santidade. A hierarquia romana se encarregará de desviar as atenções do povo e de retocar a imagem da sua missão divina. Ao fim e ao cabo, tudo se resolverá. Tal como em muitas outras intrigas, a exemplo do plano de controlo da comunicação social, da entrega às instituições sóciocaritativas da sociedade civil de outros patrimónios, no Ensino, na Saúde, na Segurança Social, nos media do Estado, etc.
Para já, humildade, contenção, silêncio e esquecimento. Tudo isto junto, opera milagres. O resto virá mais tarde. A vingança serve-se fria.
Os jogos vocabulares
Esta estratégia do Vaticano, maduramente pensada, completa-se com a sábia repartição de tarefas entre o Sumo Pontífice e a sua guarda pretoriana de «acólitos» que o segue e representa em todo o mundo. Ao Papa, compete manter-se no seu trono, distanciar-se da multidão, pôr os olhos em Deus. Aos cardeais, bispos, padres e aos homens fortes da Igreja na sociedade civil, cabe falar mas de tal maneira que o mistério se adense em lugar de se dissipar. Nas recentes celebrações da Páscoa, esta estratégia tornou-se evidente em relação à pedofilia dos padres e à cumplicidade que a hierarquia católica garantiu aos violadores de crianças.
Bento XVI dormiu sobre este escândalo. Porém, sem nada dizer de explícito, foi mais além. Deslocou o eixo da questão. Ignorou os crimes da Igreja mas referiu-se de forma bem clara às guerras, ao narcotráfico e aos cataclismos que abalam o mundo. Para concluir que «a Humanidade precisa de uma conversão espiritual e moral, para sair da crise que é profunda».
Foi a «deixa» esperada pela guarda pretoriana dos acólitos. Colégio Cardinalício, Primaz da Bélgica, Arcebispo de Paris, Cardeal Patriarca de Lisboa, Bispo do Porto, Bispo das Forças Armadas, todos fizeram coro em apoio da tese da conspiração contra a Igreja e da existência de uma campanha «para caluniar e denegrir o Papa». Concluíram assim ser necessário mobilizar os católicos em defesa da imagem do Papa.
Assim começa a definir-se uma campanha tendente a recuperar a imagem da Igreja tradicional. Não tarda que as pessoas se interroguem: será verdade que os padres violaram as crianças? Ou, como diz o Papa, as culpas de tudo isto têm «o vestuário da morte» e residem «nos pecados do homem: «vício, pureza, obscenidade, idolatria, bruxaria, ódio, querelas, inveja, cólera, divisões, sectarismo». Sobre violações de crianças, nem uma palavra.
A culpa irá morrer solteira, uma vez mais? Não permitamos que tal aconteça!
Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Religião e Política
O mundo visível dos anjos... (Jorge Messias --- Jornal Avante)
Na «angeologia» ou tratado angélico (um capítulo importante da teologia romana) os «anjos» são considerados puros espíritos e «seres por natureza pessoais e imortais». Na esfera do seu mundo invisível foram elevados por Deus ao estado sobrenatural e estão associados à glória divina. Os anjos são em grande número e presume-se que haja um «anjo da guarda» por cada ser humano vivo. Os anjos, declara a teologia católica com a sua minúcia habitual, encontram-se agrupados em nove «coros» e em três hierarquias. A tradição cristã conhece a composição desta elite dos seres celestes: são serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, etc.
Importa, no entanto, distinguir entre «anjos bons» e «anjos maus». Os «bons» obedecem em tudo a Deus, representado na Terra pela Igreja e pelo Papa. Os «maus», são aqueles que, no momento da Criação, se revoltaram contra Deus. O Ser Supremo agiu então com rapidez. Os anjos maus foram punidos, expulsos do paraíso e lançados nas chamas do Inferno. Mas como são imortais continuam vivos. Recebem o nome de «anjos caídos», demónios ou diabos e são comandados por Lúcifer, também conhecido como Satanás. Continuam intensamente activos no seu propósito de destruir a Igreja.
Tudo isto bem espremido daria «pano para mangas». A história é infantil mas tem governado o mundo. Porque, afinal, é sobre fantasias destas que a Igreja constrói os seus dogmas, a hierarquia oferece ao Papa o seu punho de ferro e a religião funciona como ópio do povo. Os críticos e os insubmissos devem curvar-se e obedecer ou terão as penas dos «anjos caídos»... Ninguém pode contestar a vontade de Deus que subtilmente a tradição associa à vontade do Papa. E os estados católicos e obedientes também são premiados com o seu quinhão. Os «anjos bons» velarão por eles e pelas elites que os governam. Neste caso, recebem a designação de «anjos custódios».
Noutro recanto do Vaticano escondem-se os «acólitos». O «acólito» é um sacerdote leigo encarregado de ajudar à missa. A sua intervenção litúrgica apoia-se nos coros cantados pelos «meninos de coro» também chamados «meninos de Deus». Os sacerdotes católicos revêem-se neles e consideram-nos como seus filhos.
Neste labirinto de alçapões teologais acaba por se esconder todo um sistema de segurança da hierarquia da Igreja que lhe permite, a cada momento, passar da defensiva à ofensiva, forçar a obediência, fustigar e fugir. É o que está a acontecer com o famoso «caso dos padres pedófilos».
A carne é fraca e a Igreja eterna
Rebentou o escândalo e provou-se que os casos de pedofilia na Igreja não são acontecimentos isolados, antes representam uma prática sistematizada entre a classe clerical. O Vaticano mediu imediatamente a alta gravidade desta situação e montou o seu esquema de segurança e de fuga. Justamente a partir daqueles dados infantis que referimos.
Pedofilia entre os padres? Quem o poderá provar a não ser a Igreja? O Vaticano – e só ele – irá investigar. A questão é que por detrás das acusações de pedofilia se esconde uma ofensiva concertada contra a Igreja católica. Os «anjos maus» não cessam de flagelar o Vaticano com o veneno dos escândalos e das intrigas.
Pedofilia sistemática? Acusar é fácil mas é preciso fundamentar as acusações. Onde estão as listas com os nomes dos violadores e dos violados? Que as apresentem os que tanto falam já que a Igreja não trai os seus. O Vaticano vai investigar.
Expulsar os padres? Nunca. Deus é amor e a carne é fraca. É preciso ter a coragem de saber perdoar. Depois, a Igreja não se pode dar ao luxo de perder sacerdotes. Já há poucos e os que estão, ficam. Mas o Vaticano promete investigar.
Há crise no capitalismo e há crise na Igreja. E as crises, para serem vencidas, requerem força e obediência total. O Vaticano «conta baionetas» e engrossa o discurso. Disse há dias o secretário de Estado de Ratzinger, cardeal Narciso Bertini, dirigindo-se a uma audiência de banqueiros e grandes empresários: «A Igreja ainda goza de grande confiança entre os fiéis. Há quem queira minar essa confiança, mas a Igreja tem uma ajuda especial que vem do alto».
Podemos estar certos de que nada acontecerá. A justiça laica não intervirá e o Vaticano irá deixar cair o assunto no esquecimento. «Acólitos» (como é o caso do Cardeal-Patriarca) virão em socorro de Ratzinger, da hierarquia e da Igreja, tão difamada que ela foi pelas ofensas dos «anjos maus» a Jesus e a Maria.
Depois, cai o pano e a pedofilia continua.
Na «angeologia» ou tratado angélico (um capítulo importante da teologia romana) os «anjos» são considerados puros espíritos e «seres por natureza pessoais e imortais». Na esfera do seu mundo invisível foram elevados por Deus ao estado sobrenatural e estão associados à glória divina. Os anjos são em grande número e presume-se que haja um «anjo da guarda» por cada ser humano vivo. Os anjos, declara a teologia católica com a sua minúcia habitual, encontram-se agrupados em nove «coros» e em três hierarquias. A tradição cristã conhece a composição desta elite dos seres celestes: são serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, etc.
Importa, no entanto, distinguir entre «anjos bons» e «anjos maus». Os «bons» obedecem em tudo a Deus, representado na Terra pela Igreja e pelo Papa. Os «maus», são aqueles que, no momento da Criação, se revoltaram contra Deus. O Ser Supremo agiu então com rapidez. Os anjos maus foram punidos, expulsos do paraíso e lançados nas chamas do Inferno. Mas como são imortais continuam vivos. Recebem o nome de «anjos caídos», demónios ou diabos e são comandados por Lúcifer, também conhecido como Satanás. Continuam intensamente activos no seu propósito de destruir a Igreja.
Tudo isto bem espremido daria «pano para mangas». A história é infantil mas tem governado o mundo. Porque, afinal, é sobre fantasias destas que a Igreja constrói os seus dogmas, a hierarquia oferece ao Papa o seu punho de ferro e a religião funciona como ópio do povo. Os críticos e os insubmissos devem curvar-se e obedecer ou terão as penas dos «anjos caídos»... Ninguém pode contestar a vontade de Deus que subtilmente a tradição associa à vontade do Papa. E os estados católicos e obedientes também são premiados com o seu quinhão. Os «anjos bons» velarão por eles e pelas elites que os governam. Neste caso, recebem a designação de «anjos custódios».
Noutro recanto do Vaticano escondem-se os «acólitos». O «acólito» é um sacerdote leigo encarregado de ajudar à missa. A sua intervenção litúrgica apoia-se nos coros cantados pelos «meninos de coro» também chamados «meninos de Deus». Os sacerdotes católicos revêem-se neles e consideram-nos como seus filhos.
Neste labirinto de alçapões teologais acaba por se esconder todo um sistema de segurança da hierarquia da Igreja que lhe permite, a cada momento, passar da defensiva à ofensiva, forçar a obediência, fustigar e fugir. É o que está a acontecer com o famoso «caso dos padres pedófilos».
A carne é fraca e a Igreja eterna
Rebentou o escândalo e provou-se que os casos de pedofilia na Igreja não são acontecimentos isolados, antes representam uma prática sistematizada entre a classe clerical. O Vaticano mediu imediatamente a alta gravidade desta situação e montou o seu esquema de segurança e de fuga. Justamente a partir daqueles dados infantis que referimos.
Pedofilia entre os padres? Quem o poderá provar a não ser a Igreja? O Vaticano – e só ele – irá investigar. A questão é que por detrás das acusações de pedofilia se esconde uma ofensiva concertada contra a Igreja católica. Os «anjos maus» não cessam de flagelar o Vaticano com o veneno dos escândalos e das intrigas.
Pedofilia sistemática? Acusar é fácil mas é preciso fundamentar as acusações. Onde estão as listas com os nomes dos violadores e dos violados? Que as apresentem os que tanto falam já que a Igreja não trai os seus. O Vaticano vai investigar.
Expulsar os padres? Nunca. Deus é amor e a carne é fraca. É preciso ter a coragem de saber perdoar. Depois, a Igreja não se pode dar ao luxo de perder sacerdotes. Já há poucos e os que estão, ficam. Mas o Vaticano promete investigar.
Há crise no capitalismo e há crise na Igreja. E as crises, para serem vencidas, requerem força e obediência total. O Vaticano «conta baionetas» e engrossa o discurso. Disse há dias o secretário de Estado de Ratzinger, cardeal Narciso Bertini, dirigindo-se a uma audiência de banqueiros e grandes empresários: «A Igreja ainda goza de grande confiança entre os fiéis. Há quem queira minar essa confiança, mas a Igreja tem uma ajuda especial que vem do alto».
Podemos estar certos de que nada acontecerá. A justiça laica não intervirá e o Vaticano irá deixar cair o assunto no esquecimento. «Acólitos» (como é o caso do Cardeal-Patriarca) virão em socorro de Ratzinger, da hierarquia e da Igreja, tão difamada que ela foi pelas ofensas dos «anjos maus» a Jesus e a Maria.
Depois, cai o pano e a pedofilia continua.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Política e Religião
S.S. – Sigilo sacramental
«Sigilo sacramental» é a expressão usada pelos teólogos para designarem, em bom e corrente vernáculo, aquilo a que também chamam «segredo de confissão». É, sem dúvida, uma sigla a reter por entre o denso emaranhado barroco da linguagem católica dos símbolos, muitos deles vazios de sentido. Neste caso, porém, do «sigilo sacramental» a expressão pode muito bem servir para apontar um dedo a uma prática comum a múltiplos sectores da Igreja: a do silêncio.
Actualmente, quem se detiver nas colunas dos jornais raramente encontrará um texto que reuna em si as características essenciais capazes de definir claramente as posições da Igreja (sejam elas subscritas pela Igreja de Roma ou pelo Patriarcado português) acerca dos presentes problemas nacionais ou internacionais que exijam esclarecimento e mobilização da opinião pública. De vez em quando, abre-se uma luzinha nos escuros corredores do Vaticano ou nos confessionários de Lisboa, mas são curtos clarões que logo se apagam sem nada iluminarem. A Igreja cultiva o silêncio. Por atavismo, tradição ou técnicas neoliberais, apenas aborda uma pequena mão-cheia de temas requentados, como as visitas do papa, as festarolas litúrgicas ou os milagres de Fátima. Nada que ponha os homens e as mulheres a pensar.
E, no entanto, não são temas nem dilemas o que por aí falta! A riqueza opulenta e a pobreza gritante; o desemprego e a alienação social de camadas cada vez mais extensas da população; as questões de saúde das pessoas, da organização dos serviços sanitários e do preço dos medicamentos; a degradação moral das intervenções dos políticos e a corrupção pública e privada; os crimes perfilhados pelos legisladores e que atingem os jovens, os anciãos pobres e os desadaptados; os «prémios» e os salários de luxo em contraste com os salários de miséria, os salários atrasados e o trabalho instável e sem direitos.
A Igreja vê tudo isto e fecha os olhos. Tem bons ouvidos e cerra os lábios. O silêncio é uma arma suas mãos. Nisto se alinham estrategicamente com os altos magistrados que «paira» acima do comum dos mortais e com os corruptos que afirmam serem vítimas inocentes de calúnias e conspirações. São formas diferentes de atingir os mesmos fins: a impunidade do crime, a destruição dos valores morais e a humilhação e exploração do povo.
Um documento imundo: o PEC
Os trabalhadores portugueses vão prestar toda a atenção a esta injúria que é o «Plano de Estabilidade e Crescimento». Descarrega sobre o povo os custos da cupidez dos financeiros. Amarra os trabalhadores e as famílias a privações que, no mínimo, irão durar quatro anos. Foi imposto pelas altas estruturas financeiras internacionais e pelo «governo sombra» que impõe ao mundo a ditadura do poder dos mais ricos. É um atentado à democracia e ao direito das nações exercerem a sua soberania. Foi negociado nos bastidores e em silêncio entre governos corruptos, grandes patrões e especialistas na manipulação e na ocultação da verdade. A forma como foi «trabalhada» a votação final na Assembleia da República foi conhecida através de uma «fuga» e de uma incontrolável paixão pelo poder absoluto: um dos partidos – o PSD – constituiu-se como «ponteiro da balança». O seu voto seria decisivo e a maioria dos membros da sua estrutura partidária dirigente votaria «não». Mas surgiu o absurdo: a presidente em exercício subiu acima das suas tamanquinhas e impôs o «sim». «Aqui quem manda sou eu.» E o sentido de voto foi modificado. E o jugo caiu sob os pescoços de milhões de portugueses!
Tudo isto é uma vergonha. A exigir que a luta continue e se reforce, lado a lado com o povo católico que será tão duramente atingido como o povo não crente ou como os trabalhadores crentes noutros credos. Quanto à hierarquia da Igreja, a decisão é sua. As combinações de corredor nunca alteram o essencial do curso da História. E os silêncios cúmplices só resultam nos tempos bonançosos da fortuna. Alimentar a crise ou pactuar com a corrupção em nome dos interesses da fé, fez o seu tempo mas agora acabou.
A hierarquia devia reflectir sobre o futuro.
Jorge Messias (Jornal Avante)
«Sigilo sacramental» é a expressão usada pelos teólogos para designarem, em bom e corrente vernáculo, aquilo a que também chamam «segredo de confissão». É, sem dúvida, uma sigla a reter por entre o denso emaranhado barroco da linguagem católica dos símbolos, muitos deles vazios de sentido. Neste caso, porém, do «sigilo sacramental» a expressão pode muito bem servir para apontar um dedo a uma prática comum a múltiplos sectores da Igreja: a do silêncio.
Actualmente, quem se detiver nas colunas dos jornais raramente encontrará um texto que reuna em si as características essenciais capazes de definir claramente as posições da Igreja (sejam elas subscritas pela Igreja de Roma ou pelo Patriarcado português) acerca dos presentes problemas nacionais ou internacionais que exijam esclarecimento e mobilização da opinião pública. De vez em quando, abre-se uma luzinha nos escuros corredores do Vaticano ou nos confessionários de Lisboa, mas são curtos clarões que logo se apagam sem nada iluminarem. A Igreja cultiva o silêncio. Por atavismo, tradição ou técnicas neoliberais, apenas aborda uma pequena mão-cheia de temas requentados, como as visitas do papa, as festarolas litúrgicas ou os milagres de Fátima. Nada que ponha os homens e as mulheres a pensar.
E, no entanto, não são temas nem dilemas o que por aí falta! A riqueza opulenta e a pobreza gritante; o desemprego e a alienação social de camadas cada vez mais extensas da população; as questões de saúde das pessoas, da organização dos serviços sanitários e do preço dos medicamentos; a degradação moral das intervenções dos políticos e a corrupção pública e privada; os crimes perfilhados pelos legisladores e que atingem os jovens, os anciãos pobres e os desadaptados; os «prémios» e os salários de luxo em contraste com os salários de miséria, os salários atrasados e o trabalho instável e sem direitos.
A Igreja vê tudo isto e fecha os olhos. Tem bons ouvidos e cerra os lábios. O silêncio é uma arma suas mãos. Nisto se alinham estrategicamente com os altos magistrados que «paira» acima do comum dos mortais e com os corruptos que afirmam serem vítimas inocentes de calúnias e conspirações. São formas diferentes de atingir os mesmos fins: a impunidade do crime, a destruição dos valores morais e a humilhação e exploração do povo.
Um documento imundo: o PEC
Os trabalhadores portugueses vão prestar toda a atenção a esta injúria que é o «Plano de Estabilidade e Crescimento». Descarrega sobre o povo os custos da cupidez dos financeiros. Amarra os trabalhadores e as famílias a privações que, no mínimo, irão durar quatro anos. Foi imposto pelas altas estruturas financeiras internacionais e pelo «governo sombra» que impõe ao mundo a ditadura do poder dos mais ricos. É um atentado à democracia e ao direito das nações exercerem a sua soberania. Foi negociado nos bastidores e em silêncio entre governos corruptos, grandes patrões e especialistas na manipulação e na ocultação da verdade. A forma como foi «trabalhada» a votação final na Assembleia da República foi conhecida através de uma «fuga» e de uma incontrolável paixão pelo poder absoluto: um dos partidos – o PSD – constituiu-se como «ponteiro da balança». O seu voto seria decisivo e a maioria dos membros da sua estrutura partidária dirigente votaria «não». Mas surgiu o absurdo: a presidente em exercício subiu acima das suas tamanquinhas e impôs o «sim». «Aqui quem manda sou eu.» E o sentido de voto foi modificado. E o jugo caiu sob os pescoços de milhões de portugueses!
Tudo isto é uma vergonha. A exigir que a luta continue e se reforce, lado a lado com o povo católico que será tão duramente atingido como o povo não crente ou como os trabalhadores crentes noutros credos. Quanto à hierarquia da Igreja, a decisão é sua. As combinações de corredor nunca alteram o essencial do curso da História. E os silêncios cúmplices só resultam nos tempos bonançosos da fortuna. Alimentar a crise ou pactuar com a corrupção em nome dos interesses da fé, fez o seu tempo mas agora acabou.
A hierarquia devia reflectir sobre o futuro.
Jorge Messias (Jornal Avante)
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