quinta-feira, 30 de julho de 2009

Religião

O Ateísmo - segundo - Compte-Soonville ( continuação )





Porque não há provas da existência de Deus, os ateus, nesse aspecto, foram sempre mais lúcidos que os crentes. Não há guerra, na história do ateísmo, de pretendidas "provas da existência de Deus"... Como provar uma não existência? Quem poderá provar, por exemplo, que o Pai Natal não existe? Que os fantasmas não existem? Como provar, com maior razão, que Deus não existe? Como demonstrar que a nossa razão não é ultrapassada? Como poderá ela recusar o que, na sua essência, será fora do seu alcance? Esta impossibilidade não nos leva portanto à asneira, nem se justifica, de renunciar a pensar. Não há provas, mas há argumentos. E porque sou ateu, quero esboçar alguns.


O primeiro, muito simples, é puramente negativo: uma forte razão de ser ateu, é em primeiro a fraqueza dos argumentos opostos. Fraqueza de "provar", mas também fraquezas das experiências. Se Deus existice, deveria se ver ou se sentir. Porque é que Deus se esconde? Os crentes respondem, a maior parte das vezes, que é para preservar a nossa liberdade: se Deus se mostrasse em toda a sua glória, nós não seriamos mais livres de crer ou não.


Esta resposta não satisfaz. Primeiro porque nós seriamos mais livres que Deus o que parece filosóficamente e teológicamente difícil de pensar.


Em seguida porque há sempre menos liberdade na ignorancia que no saber. Deviamos nós para respeitar a liberdade das crianças,renunciar as educar? Todos os professores e todos os pais fazem o inverso: que os jovens serão mais livres quanto maior for o seu saber! A ignorancia nunca fez alguem livre. O conhecinento não faz um escravo


No fundo e principalmente, porque o argumento parece incompativel com a imagem, que é hoje dominante, de um Deus Pai. Que se respeite a liberdade das crianças, é evidentemente desejável. Mas a sua liberdade é de amar ou não, de obedecer ou não, de respeitar ou não, o que significa que eles saibam ao menos que os pais existem! Que triste pai não será, aquele que, para respeitar a liberdade dos seus filhos, recusará viver com eles, de os acompanhar, e mesmo de se fazer conhecer! A Revelação? Mas que pai se contentará, para criar os seus filhos, de uma palavra dirigida a outros, mortos depois de séculos, e que lhe é transmitida por textos equivocos ou duvidosos? Que pai é este que dá aos seus filhos a leitura de obras escolhidas ou as dos seus discípulos (A Biblia? O Corão?) em vez de lhes falar directamente e de os apertar contra o seu peito? Drole de pai, drole de Deus! E que pai mais cruel que aquele, que vendo seus filhos sofrer se esconde? Que Pai é esse que se esconde a Auschwitz, que se esconde aoRwanda, que se esconde quando os seus filhos estão doentes ou têm medo. Como o amar? Como podemos acreditar? O ateísmo faz uma hipótese mais credivel. Se Deus não se vê e se o não compreendemos, porque ele se esconde, é talves, simplesmente, que ele não existe...
O segundo argumento é igualmente negativo, mas desta vez menos empírico,que teórico. A principal força de Deus, pelo pensamento, é de explicar o mundo, a vida, o pensamento ele mesmo. Mas que vale esta explicação, logo que Deus, se ele existe, é por definição inexplicável? Que a religião seja uma crença possivel, não o podemos negar. Que ela seja respeitável,convenhamos. Mas temos que nos interrogar sobre o seu conteudo do pensamento. Uma religião, é uma doutrina que explica qualquer coisa que não compreendemos
(a existência do Universo, da vida, do pensamento) por qualquer coisa que se compreende ainda menos (Deus)? E que pode valer, de um ponto de vista racional ésta explicação? É o "asilo da ignorância" como dizia Spinóza, "Deus,ou seja uma substancia constituida por uma infinidade de atributos onde cada um exprime uma essência iterna e infinita, existe necessáriamente". É o que se lê na Ética. Mas que sabemos nós de um tal Deus e desta infinidade de atributos infinitos? Nada, se não o que nos assemelha ou que nos atravessa (o alcance, o pensamento) que não faz um Deus. Mas então porque crer? É Freud que aqui tem razão: " A ignorância é a ignorânci", em outros termos, temos o direito de acreditar mas isso não significa conhecimento.
Ser ateu, não dispensa que se seja inteligente e lúcido. É o que destingue o ateísmo do cientismo,que será um ateísmo cego. O cientismo é uma religião da ciência, não é a essência do ateísmo, do materialismo ou do racionalismo;é o seu coveiro dogmático e religioso. Diga-se que é a religião dos não crentes. Este livre pensamento é o contrário, quase sempre, de um pensamento livre.


Quelha Funda

sábado, 18 de julho de 2009

Religião

O Ateísmo -segundo "Comte-Sponville"

O ateísmo é um objecto filosófico singular. É uma crença,mas negativa. Um pensamento, mas que se alimenta do vazio do seu objecto.
É o que nos diz a etimologia: o pequeno "a" diante o imenso "teu" ( deus)...Ser ateu,é não não ter deus, seja porque não acredita em algum, seja porque afirma a não existência de todos. Num mundo monoteísta, como o nosso, podemos em consequência distinguir dois ateísmos diferentes: não acreditar em Deus (ateísmo negativo) ou acreditar que Deus não existe (ateísmo positivo ou seja militante). Falta de uma crença,ou crença em uma falta. Falta de Deus, ou negação de Deus.
Entre os dois ateísmos, evita-se de muito marcar a diferença. São duas correntes e não dois rios; dois pólos, mas no mesmo espaço. Todo o descrente,entre os dois, pode habitualmente se situar, hesitar,flutuar; não deixa de ser menos ateu por isso.
Ou se acredita em Deus ou não se acredita: é ateu toda a pessoa que escolhe a segunda alternativa.
E o agnóstico? É aquele que recusa de escolher. Muito próximo do que se chama ateísmo negativo, mas mais aberto, à possibilidade de Deus. É como um centrismo metafísico, ou um cepticismo religioso. O agnóstico não tem partido. Ele não é nem crente nem descrente: ele deixa o problema em suspenso e para isso tem excelentes razões.
Desde o momento que não se sabe se Deus existe ( se o soubessemos a questão não se punha), porque nos devemos pronunciar sobre a sua existência? Para quê afirmar ou negar o que se ignora? A etimologia,aqui ainda, é clara. "Agnôstos", em grego, é o desconhecido. O agnóstico, em matéria de religião, é aquele que ignora se Deus existe ou não, e que se agarra a esta ignorância. Como o criticar? A umildade e a lucidês parecem estar do seu lado.
Por exemplo nesta bela formula de Protagoras:"Sobre os deus, não posso dizer qualquer coisa, nem que eles sejam ou que não sejam. Muitas coisas impedem de o saber: primeiro o obscurecimento da questão, em seguida a breviedade da vida humana". Posição respeitável e que parece de bom senso. Ela envia o crente e o ateu aos seus exageros comuns: Um e outro dizem mais que o que sabem.
No entanto, o que faz a força do agnosticísmo também faz a sua fraqueza. Se ser agnóstico fosse somente de saber se Deus existe, nós deviamos todos ser agnósticos- Já que algum de nós, sobre esta questão, não dispõe de um saber. O agnosticismo,neste sentido será menos uma posição filosófica que um dado da condição humana. Se tu encontras alguem que diz "eu sei que Deus não existe", não é um ateu, é um imbecil. Diremos que é um imbecil que toma a sua descrença por um saber. Da mesma maneira se encontramos alguem que diz "eu sei que Deus existe", é um imbecil que tem fé. A verdade,é preciso insistir,é que não sabemos. Crença e descrença são sem prova e é o que as define: quando se sabe, não há razão nem espaço para acreditar ou não.
O agnosticismo não é filosóficamente significativo que logo que ele vai mais longe que a simples afirmaçao da sua ignorância em dizendo que esta afirmaçao chega ou vale mais que as outras. É escolher para não escolher. Isso diz bem, por diferença,o que é o ateísmo: uma escolha que pode ser negativa (não crer em Deus) ou positiva (crer que Deus não existe) mas que toma sempre uma tomada de posição, um engajamento, uma resposta lá onde o agnosticismo se tem à questão e a deixa aberta
O agnóstico não toma partido contra Deus ou antes contra a sua existência.

Continua

Quelha Funda

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Política

O Espectáculo da Crise

A crise planetária da finança, tal como nos é apresentada, assemelha-se a um mau filme fabricado por uma empresa de sucéssos e que lhe dão o nome de cinema. Nada falta: o espectáculo progressivo do desastre, a imcerteza depressiva, o exotismo do identico -A bolsa de Djakarta alojada ao mesmo nivel que New- York, a diagonal de Mosvovo a São Paulo, por todo o lado o mesmo fogo posto aos mesmos bancos-,os acontecimentos que terrorisam: Ai, ai, ai, eis que os planos mais estruturados não impedem a Sesta-Feira negra onde tudo se vai afundar. A esperança demora: desvairados e concentrados como nos filmes catastróficos, a pequena esquadra de poderosos, os bombeiros do fogo monetário, os Sarkozy, Paulson, Merkel, Brown e outros Trichet, afundam no buraco central milhões de milhões de euros. Mais tarde se há-de perguntar (serão os episódios seguintes) de onde eles sairam porque, ao mais pequeno pedido dos pobres, eles respondem, revirando os bolsos, que não têm um centimo. Por momento pouco importa . "Salvar os bancos!" Este nobre grito humanista e democrático sai de todos os peitos políticos e mediáticos. Salva-los a todo o preço! É caso para dizer, por este preço não é nada. No fim de contas os bancos serão mais grossos que antes, e alguns de pequeno ou médio talho, não podendo sobreviver que à custa da benevolência dos Estados, serão oferecidos aos mais grossos por uma cõdea de pão.
Afundamento do capitalismo? Dá para rir. Quem o deseja? Quem sabe o que isto quer dizer? Salvem-se os bancos e o resto seguirá. Para os actores directos do filme ou sejam os ricos, os seus serventes, os parasitas, os que os invejam estão disponiveis para todas as patifarias para que o mundo assim continue.
Virados para este espetáculo a multidão aturdida que, vagamente inquieta, compreende pouca coisa, completamente alheia de todo o engajamento activo, ouve como uma gritaria, ao longe, os alaridos dos banqueiros, adevinha os fins de semana verdadeiramente cansativos, do glorioso pequeno exército de chefes de governo, vê passar os numeros astronómicos e obscuros e compara maquinalmente os recursos que são os seus,ou mesmo, para uma parte muito considerável da humanidade que fáz o fundo amargo e corajoso da sua vida. Falou-se bastante, estes ultimos meses, da "economia real",(a produção e a circulação de bens) e de economia- como dizer, irreal?- de onde vem todo o mal, visto que os seus agentes vieram todos de "irresponsáveis","irracionais","predateures", consumindo na sua rapacidade a massa informe de acções e de dinheiro.
Não há nada mais "real" no paiol da produção do capitalismo que o seu compartimento mercantil e especulativo. Numa sala de cinema o " real" não é o filme mas a sala e o público. Na vida política e económica o "real" não é a burguesia que gosa de todos os privilégios mas sim o Povo que sofre em todo o Universo.
O capitalismo não é que um bandido, irrascional na sua essência e devastador no seu futuro. Ele fez sempre pagar certos momentos de prosperidade selvaticamente inegal por de crises onde desaparecem quantidades astronómicas de valeur, de expedições punitivas sangrentas em todas as zonas julgadas estratégicas ou ameaçadoras, e de guerras mundiais onde se procura fazer uma saúde.
Querem nos fazer crer que é impossivel tapar o buraco da Segurança Social mas que se deve tapar o buraco, sem contar os milhões, dos bancos falidos. Não devemos aprovar que alguém queira nacionalisar uma fábrica, posta em dificuldade pela concorrência, fábrica onde trabalham centenas ou milhares de operários, mas torna-se evidente de o fazer por um banco que a espéculação pôs em falência.
É preciso fazer caír o velho veredicto segundo o qual nós estamos no " fim das ideologias". Vê-se claramente que o pretendido não é outra realidade que a palavra de ordem " Salve-se o capitalismo". Nada é mais importante que reencontrar a paixão das ideias, e de opor ao mundo tal que ele é uma hipótese geral, a certeza antecipada de outro rumo das coisas. Ao espectáculo desacreditado do capitalismo, as massas populares devem impor a realidade dos povos, a vida das pessoas no movimento próprio das ideias. O motivo da emancipação da humanidade nada perdeu da sua força. A palavra "comunismo" que durante muito tempo simbolizou esta força, foi aviltada e prostituida. Mas hoje o seu desaparecimento apenas serve os senhores da ordem. Nós vamos ressucita-la na sua nova clareza. Que é também sua antiga virtude, quando Marx dizia do comunismo que ele "rasgava da maneira mais radical com as ideias tradicionais" e que ele fazia surgir "uma associação onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos.


Publicado por Quelha Funda





sábado, 4 de julho de 2009

Política

Divagar sobre um livro de Badiou lllº

Voltando ao Maio de 68 e seguindo a análise de Alain Badiou leva-nos a reconhecer que houve mais que um Maio 68. Começando por uma revolta estudantil e sendo as imagens desta revolta como os momentos mais fortes que , ainda, hoje revivemos, não se pode esquecer que, nessa época, a juventude estudantil representava uma minoria de toda a juventude francesa.
A força e a particularidade de Maio de 68 é de ter entrelaçado quatro processos bastante heterogêneos. E se o balanço destes acontecimentos é tão diverso, ele mostra um só aspecto e não a totalidade complexa que fez a sua verdadeira grandeza
Nos anos sessenta, quando se falava de estudantes falava-se de uma pequena fracção do conjunto da juventude, muito separada da juventude popular. Um dos elementos mereceu uma reflexão de duas ordens: De uma parte, a força extraordinária da ideologia e de símbolos, o vocabulário marxista, a ideia revolucionária. De outra parte, a aceitação da violência, defensiva de acordo, mas violência. Foi isto que deu côr a esta revolta. Foi isto que fez o Maio de 68.
Mas houve um outro Maio de 68, muito diferente e menos conhecido: Foi a maior greve geral de toda a história francesa. Foi um componente muito importante; ela foi estruturada à volta das grandes fábricas, animada pelos sindicatos, em particular a CGT (Confederação Geral do Trabalho). Ela teve como referência uma outra greve do mesmo tipo, a da Frente Popular de 1936.
Houve, neste Maio de 68 operário, um elemento de revolta que é, também, interno à juventude. Estes jovens operários praticaram, muitas vezes, o que se chama: "greves selvagens" para as distinguir das grandes jornadas sindicais tradicionais.
Um outro elemento nesta revolta é o seu radicalismo: o uso sistemático de ocupações de fábricas. Evidentemente uma herança das grandes greves de 1936 ou 1947, mas é mais generalizada. A maior parte das fábricas são ocupadas e cobertas de bandeiras vermelhas. É uma grande imagem que quem a viu não a pode esquecer.
Um terceiro elemento do Maio de 68 é o que se pode chamar o Maio da libertinagem. Transformaram-se os costumes, as relações amorosas, a liberdade individual, questão que vai dar no movimento das mulheres e depois os direitos da emancipação dos homossexuais.
Estes tres componentes são bem distintos e houve, entre eles, conflitos significativos.Entre o esquerdismo e a esquerda clássica houve vários afrontamentos, igualmente entre o esquerdismo político (representado pelo trotskismo e o maoísmo) e o esquerdismo cultural, mais anarquista.
O quarto elemento é todo ele investido pela questão: "O que é a política?". É uma questão de um lado muito teórica, muito difícil e no entanto tributária de um conjunto de experiências imediatas nas quais nos envolvemos com entusiasmo.
O velho conceito, com o qual se procura romper, repousa sobre a ideia dominante e que é aceite no campo "revolucionário", que existe um agente histórico que tem a possibilidade da emancipação. Chamam-lhe classe operária, proletário, algumas vezes povo discutindo-se por vezes a sua composição mas aceitando a sua existência. Esta convicção partilhada de que existe um agente "objectivo", inscrito na realidade social que tem a possibilidade da emancipação, é sem dúvida a maior diferença entre o passado e o presente. Entre os dois: os sinistros anos oitenta, onde procuravam fazer acreditar que a política de emancipação não era uma ideia pura, uma vontade, mas que ela estava inscrita e quase programada, na realidade histórica e social. Uma consequência desta convicção é que este agente objectivo deve ser transformado em força subjectiva, que esta identidade social se deve transformar num actor subjectivo. Por isso, é preciso que seja representado por um organismo específico que é o que se chama um partido, o partido da classe operária,ou o partido popular. Este partido deve estar presente em todo o lado onde exista poder ou intervenção.
Este partido político deve ter como não pode deixar de ser, relações estreitas com organizações de massas, que mergulhem as suas raízes na realidade social imediata. É toda a questão do lugar do sindicalismo, da sua relação ao partido,o que quer dizer um sindicalismo de massas.
Isto significa qualquer coisa que subsiste ainda hoje, que é a acção políticamente emancipadora a duas faces. Há, em primeiro os movimentos sociais, ligados a reivindicações particulares, e onde as organizações naturais são os sindicatos,e em seguida a componente partido,que consiste a travar batalhas para estar presente em todos os lugares onde haja poder,e transportar com ele a força e o conteudo dos movimentos sociais.


Quelha funda




quarta-feira, 1 de julho de 2009

Poesia

Catarina Eufémia


O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquissimo método obliquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguem não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras mulher e não somente fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste

E a busca da Justiça continua


Sophia de Mello Breyner Andresen

Política

Divagar sobre um livro de Badiou llº

Depois de quarenta anos comemora-se, ainda, o Maio de 68. Livros , artigos, emissões e discussões de todo o género servem para o relembrar perguntando-se: Porquê? Primeiro porque comemorar, hoje, uma coisa que está morta há tanto tempo? Nós somos num outro mundo, tudo mudou; nada do que se passou tem , hoje, algum significado a não ser nostalgia e folclore.
Uma segunda questão, esta mais positiva,nos interroga: Comemora-se o Maio de 68 porque o verdadeiro beneficiádo foi o capitalismo liberal moribundo? As ideias de liberdade de 68, a transformação dos costumes, o individualismo, os prazeres da vida, encontram a sua realização no capitalismo post-moderno e no universo matizado de consumação em todo o género. Finalmente, o produto de Maio de 68 é ter, hoje, nos comandos do Mundo Ocidental, pessoas como Sarkozy, Merkel, Berlesconi, Sócrates e agora o ídolo dos democratas e não só, Obama. Como diz o reaccionário Glucksman, "celebrar o Maio de 68 é celebrar o Ocidente liberal defendido corajosamente contra os bárbaros pelo exército americano".
Podemos,também,opor a tais visões deprimentes de hipóteses mais optimistas em relação às comemorações.
A primeira,é que este interesse por 68,em particular o de uma parte significativa da juventude, é, ao contrário da segunda questão, um sobressalto anti-Sarkozi e seus comparsas, retornando-se para Maio de 68 como uma fonte possivel de inspiração, como uma maneira de reagir quando se encontra ao fundo do poço?
E há ainda uma outra hipótese talves mais optimista. À volta destas comemorações, e também do lado oficial mercantil e deformado, se procure a ideia de que um outro mundo político e social é possivel; que esta grande ideia de mudança radical, que transportou durante dois séculos o nome de revolução e que tanto medo meteu aos senhores da Europa poder ser o prelúdio de uma falência completa do capitalismo