quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Política e Religião

O adensar da confusão e da pobreza – I

Como é característica de fases como esta que estamos a atravessar, as notícias que se publicam do País e do mundo são em geral confusas, contraditórias e incompletas. Há sempre verdades a ocultar e secretos interesses a defender.
Assim acontece em relação à crise económica do capitalismo, um desastre multifacetado que irá atingir as vidas de todos nós, cidadãos comuns. Mas se lermos os noticiários, de fio a pavio, fica-nos a certeza de que o processo que está em curso envolve manobras complexas tendentes a garantir que o que já agora se revela criminoso permaneça e ainda mais se agrave. Os muito ricos ficarão cada vez mais ricos e os muito pobres cada vez mais pobres; dos menos ricos, uns baixarão de escalão e empobrecerão, outros pelo contrário, enriquecerão subitamente e sem explicação aparente; mas o povo, o imenso «exército de reserva» a que pertencemos, será cilindrado pelo desemprego, pelos cortes salariais, pelo agravamento dos preços, pelo aumento dos impostos e pela marginalização social. Tudo sem nos ser explicado por quê. A pobreza vai alastrar no meio da confusão.
Os ministros metem os pés pelas mãos. As teses oficiais baralham as pistas e fica-se na dúvida se a crise resulta de os trabalhadores não quererem trabalhar, se as vozes dos patrões não estão a ser ouvidas ou se os jovens de hoje não são como eram os de ontem mas... piores. Uma tentativa para impor a escravos e ignorantes uma espécie de «Metafísica do Trabalho».
Na realidade, esta crise do capitalismo tem dupla face. É grave e é perigosa para os cidadãos por resultar do assalto ao poder movido por organismos anónimos do grande capital já anteriormente responsáveis pelo arruinar da economia. O outro sintoma grave é que, a ter sucesso, esta gigantesca manobra consolidaria no terreno uma malha poderosa de mercados – ou monopólios privados com poderes de Estado – prontos a sanear o sistema monetário, a reciclar e absorver as pequenas fortunas, a moralizar os preços, a economizar nos custos sociais e a disciplinar o trabalho.
Caso assim acontecesse, ter-se-ia passado a um novo e perigoso patamar da ofensiva neocapitalista.

A crise e a hierarquia

A crise do euro não é apenas financeira. Na perspectiva mais optimista das fortunas, o sinal negativo poderá vir a inverter-se. Talvez mesmo se transforme em ponto de partida para novas situações comparáveis a uma verdadeira vaga de fundo, a uma «contra-reforma». Aproveita-se o que é mau para fazer pior.
É por isso que começa agora a ganhar evidência a aliança estratégica entre o capital (ou os mercados) e a esfera eclesiástica, oculta na penumbra mas poderosa. Banqueiros e políticos comandam as fortunas; os bispos detêm o segredo das técnicas da alquimia da pobreza e do desemprego ao serviço dos interesses privados; e o Estado capitalista funciona como banqueiro dessa monumental conspiração. Nestes quadros gerais, a milenar trilogia – «Estado/Igreja/sociedade civil» – deve cruzar interesses próprios e fixar a reacção nos postos políticos de comando, por tempo ilimitado.
Recorde-se alguns factos recentes. As pedras do «dominó» vão-se encaixando.
Ainda há poucos dias, com o patrocínio do Governo de Sócrates, a Universidade Católica foi galardoada com um prémio pela forma como prepara técnicos em economia capitalista de mercado. Observam os analistas do Financial Times: «Contrariando a tendência de crescimento do desemprego em Portugal, 100% dos alunos da Católica são colocados no mercado de trabalho num máximo de três meses após o término do seu curso». Dias depois, o candidato à PR, Cavaco Silva, tomaria o compromisso público de vetar qualquer decisão dos outros órgãos de soberania que prejudicassem os apoios financeiros aos colégios do ensino privado, isto é – à Igreja.
Noutro caso, «para acalmar os mercados», o Governo cortou recentemente, na área social, milhões de euros nas verbas dos apoios previstos para os mais desprotegidos, para as pensões mais baixas, para as famílias, etc. Reduziu, assim, o famigerado défice público. Simultaneamente, anunciou a atribuição a creches e lares da Igreja católica de 1,25 mil milhões de euros. Agravou o défice, beneficiou amigos, garantiu votos e ainda ficou a lucrar com os cortes iniciais. Uma vez mais os cidadãos financiaram passivamente a sua própria pobreza.
Sobre o «combate à pobreza» e o «jogo às escondidas» que ele encerra também há muito a dizer.

Jorge Messias ( Jornal Avante)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Política e Religião

Teoria e prática da Caridade

Se os órgãos responsáveis do Estado continuarem a impor as actuais políticas, adeus direitos dos trabalhadores, adeus sonhos de democracia e… adeus derradeiras sombras dos velhos mitos da independência nacional. Dizem os grandes senhores que o simples cidadão deve acatar as ordens dos mais ricos, pagar as dívidas dos especuladores, obedecer à escala de contra-valores das nações poderosas e acabar de vez com essas tontarias dos direitos e liberdades. As «conquistas» são coisas de outros tempos, são «trapos velhos».
Esta invariável e diária introdução mil vezes repetida termina sempre com ameaças veladas expressas num estilo fascizante mais subtil. Mas está à vista que o espectáculo da máquina repressiva visa amordaçar com o medo a ira popular. Que a vaga de despedimentos tenta instalar entre os trabalhadores a instabilidade e a
dúvida. E que a caridade piedosa tem o sentido da esmola que se dá ao pobre e que permite, a quem dá, ocupar o lugar deixado vago pela renúncia ao princípio da dignidade, consagrado na Constituição da República e nos Direitos do Homem.
No desenvolvimento deste esquema de subversão dos valores, a igreja-empresa surge da sombra para lembrar aos homens que o fosso entre ricos e pobres nada tem de novo e sempre com ele convivemos. Trata-se de um fenómeno natural, com uma causa simples e única: pecámos e todos temos de arcar com as consequências do pecado. Os pobres sofrem e trabalham; os ricos gozam os prazeres da vida e, no seu caso, «o pecado mora ao lado».
No correr dos anos, a Igreja tem conservado, em silêncio, esse critério histórico que esmaga uns e premeia outros. Porque à Igreja não cumpre tomar partido. A sua vocação é celestial. Na terra, deve ser cega, surda e muda face aos acidentes da história humana. Mas mantém a legenda: ai dos ricos e daqueles que cometam ou ocultem crimes. Virá o dia em que serão julgados… nos céus. Só então a Igreja falará!

A corrupção como linha de força

Entretanto, na sua «luta contra a pobreza», o episcopado propõe uma alternativa baseada numa leitura teórica da realidade. Se é impossível «extinguir a pobreza» (porque assim «Deus a quer»!) então, pelo menos, ela poderá ser «minorada». Mas como e com quem se tornará possível desenvolver este tipo de estratégia sem beliscar interesses comuns a «capitalistas» e a «cristãos»? Manobras que unam exploradores e explorados, conservadores e progressistas, crentes e ateus?
A fórmula encontrada (ou uma delas) foi esta da «luta contra a pobreza». Parte-se de «movimentos da alma» inspirados pela doutrina cristã (amor ao próximo, solidariedade, espírito caritativo, voluntariado, etc.), apoia-se esses sentimentos no «trabalho de campo» de estruturas organizadas pela Igreja (IPSS, ONGS, «Sociedade Civil», Fundações, Movimentos de Voluntariado, etc.) e liga-se discretamente o conjunto ao mundo dos negócios privados e lucrativos.
A «luta contra a pobreza» revela potencialidades muito interessantes. Nasce na «crise» mas não é crise. É forma privilegiada do escoamento e valorização de stocks. E une provisoriamente nas mesmas intenções os exploradores bem-falantes, os ingénuos explorados e os banqueiros calejados na arte de mentir com um sorriso nos lábios e um lampejo de inocência no olhar. É esta a chave do sucesso, se considerarmos que quem a perder desce inevitavelmente de escalão.
Portugal pode assim transformar-se facilmente num lucrativo mercado da «luta contra a pobreza». Terra católica, tudo aqui se compra e vende e muitos se deixam comprar. Na nossa praça, a «luta contra a pobreza» pode muito bem vir a revelar-se alavanca na promoção dos chamados «mercados emergentes». Caridade e banca, em oculta «união de facto», podem vir a gerar ligações passageiras mas de grande interesse estratégico. Seja o que for que se faça: subsídios para as fundações, recolha de rolhas usadas, peditórios, catequeses infantis, lotarias, bancos alimentares pagos pelas esmolas e abastecidos pelas sobras das mesas dos «ricos», estímulos à iniciativa empresarial – seja o que for – tudo vai concorrer para atenuar nos «pobres» as respostas duras às misérias que promovem as revoltas.
O tempo precipita-se. O ano que aí vem ameaça o povo com muito sacrifício e muito sofrimento. Todos nós sabemos isto, é certo, mas o que importa é que «da escuridão nasça a luz». Através da luta, por dura que seja.
Somos comunistas, não nos deixaremos enganar.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Política e Religião

Lágrimas de crocodilo (VII)

Uma das técnicas mais comuns no mundo capitalista é a da «insaciedade». Bem podem os lucros aumentar e o mercado crescer: um bom capitalista nunca se confessa saciado. É um princípio de que ele se serve para engordar e crescer. E esta técnica completa-se com uma outra. Se o bom capitalista age em função do lucro e despreza a ética naquilo em que ela lhe possa estorvar a acção, nem por isso deve incorrer no erro de pensar que cada manobra comercial pode deixar de revestir-se de álibis altruístas destinados a convencer a opinião pública de que um roubo é uma louvável acção social. Diziam os antigos que salteadores de estrada e comerciantes tinham um só deus! Assim continua a ser.
Nesta época de crise para o povo multiplicam-se as iniciativas com duas caras (caridade e negócio lucrativo) e os ricos procuram surgir aos olhos dos pobres como benfeitores. É o caso das várias faces generosas da «luta contra a pobreza». Ou o dos milionários que renunciam às fortunas para se dedicarem aos pobres. Contas feitas, os ricos são cada vez mais ricos e só tentam maquilhar a própria imagem dando aparentes esmolas. E essas acções «solidárias» surgem sempre com uma marca cristã, invocando os princípios doutrinais que proclamam deverem os bens essenciais «chegar equitativamente às mãos de todos». Aos apóstolos da banca, falar não custa; e os sacerdotes da Igreja, como sempre, aproveitam a «deixa» para fornecerem ao capitalismo a cobertura moral de que ele, por si só, não dispõe.
O Vaticano é capitalista e, como tal, procura captar o lucro em quaisquer situações. Com o aumento dos subsídios públicos ou com a valorização dos capitais privados (dos quais ele é largamente accionista) a sua Igreja, em tempos de crise e de pobreza, acumula lucros sobre lucros, como qualquer outro banqueiro bem sucedido. Mas também, tal como os empresários, chora e arrepela-se por tudo e por nada. Por exemplo, enquanto a fome alastra diz que os «bancos alimentares» se arruínam ou que muitas IPSS estão à beira da falência, e reclama do Estado aumentos dos subsídios. O mesmo acontece nas outras áreas sociais, tais como o ensino, a saúde, as misericórdias e o campo sócio-caritativo, etc. Em troca, a hierarquia fornece ao capital financeiro a capa de «uma ética de prudência imbuída de caridade», nas palavras de João Paulo II. Estava-se, então, em 1986, muito antes de explodir a actual crise do capitalismo a qual, no entanto, a Igreja nessa altura já previa.
Não há dúvida que o Vaticano profetiza a longo prazo!

Alguns números mesmo que irreais

Antes do mais, devemos pôr os pés na terra e conhecer melhor o poço sem fundo em que o capitalismo nos está a mergulhar. Metendo no mesmo saco capitalismo e neocapitalismo, cruzada e imperialismo, ditadura ou parlamentarismo. Há muitos séculos que todos estes falsos valores vegetam e foram crescendo ocultamente na sociedade portuguesa. Minaram mentalidades e criaram falsos mitos. Por isso mesmo, aceite como um mal inevitável, o capitalismo foi sobrevivendo sem que em nenhum momento houvesse, entre o povo e o polvo, rupturas reais e duradouras.
Actualmente, os números da miséria traduzem, ainda que aquém da realidade, o estado em que as coisas se encontram. São dados retirados de estatísticas oficiais ou dos noticiários bem controlados dos jornais de maiores tiragens. É a partir dessa base concreta que poderemos fundamentar algumas considerações sobre a luta contra a pobreza em Portugal. A pobreza que já cá está e a outra que aí vem.
Portugal, 2011: desemprego, 11% em 6 milhões de postos de trabalho (cerca de 660 mil desempregados); pobreza (-420 euros/mês), à volta de 2 milhões de cidadãos; trabalhadores em risco eminente de pobreza, mais de 500 000; crianças pobres e muito pobres, cerca de 50% da população escolar; abandono precoce da escolaridade, 36%; o salário mínimo nacional, por imposição do Governo, permanece em 475 euros/mês, sensivelmente o mesmo valor do limiar da pobreza.
São alarmantes dados estatísticos que se agravam constantemente. Após uma década de feroz capitalismo, Portugal está pobre e caminha a largos passos para a miséria. O pior vem aí mas já se anuncia: «Todo o poder ao patronato, toda a servidão do povo em benefício do grande capital». O preço astronómico dos crimes e dos erros de cálculo dos ricos terá de ser integralmente pago pelos pobres.
Só a nossa força mudará o nosso destino colectivo. A força de um povo e a sua capacidade de resistência à tirania.

Jorge Messias (Jornal Avante

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Política e Religião

Margens de lucro e mercado social (VI)

Da estagnação passou-se fulminantemente a sucessivas fases de aceleração da acção. O que agora é, dentro de uma hora talvez já não seja. Mas há sempre um fio condutor indisfarçável que liga o passado ao presente para depois sugerir o futuro. É uma lei natural que não é possível escamotear. Não há efeito sem causa.
O eterno retorno da «questão religiosa» – que por razões históricas permanece viva e actual – convida a que chamemos novamente à baila o gravíssimo problema social da pobreza, da sua caracterização e dos objectivos que as forças democráticas invocam para a combater. Devem as lutas sociais apontar como objectivo básico a extinção da pobreza? Ou, inversamente, essa luta deverá ser secundarizada visto a pobreza se revelar inevitável e eterna?
Não é preciso ser-se ateu para se recusar esta última posição doutrinal. É evidente que o homem produz riqueza mais que suficiente para que cada ser humano viva decentemente, progrida, tenha tecto, cuidados de saúde e meios de educação. A pobreza só começa onde a riqueza é injustamente distribuída. Alastra e contamina o espaço social apenas quando elites privilegiadas se apropriam do fruto do trabalho colectivo. Num universo politicamente organizado só o Estado tem recursos e poder para conduzir a bom termo a luta pela extinção da pobreza e o aperfeiçoamento permanente das formas de distribuição mais justa da riqueza.
Não é preciso ser-se marxista para se reconhecer que o caminho para a supressão da pobreza passa por decisões vigorosas do poder político, tão graves e extensas são as mudanças a introduzir no espaço real que o capitalismo criou. Mudanças que necessariamente têm de ser graduais, ter em consideração os factores culturais e éticos das diversas comunidades humanas e recusar o sectarismo. Mas poder forte e centralizado que trave e extinga o subdesenvolvimento, a corrupção e a exploração do homem pelo homem. A «luta contra a pobreza» é uma frente de combate de uma extensa batalha essencialmente política.

As falsas opções e o domíniodo «mercado da pobreza»

Seguramente, em países dramaticamente atrasados como Portugal, o actual declínio do Estado social tem de ser travado quanto antes. Pelo menos, metade da população portuguesa já foi atingida, directa ou indirectamente, pelo desemprego e pela acelerada pauperização. Os tempos próximos serão ainda piores para os pobres.
Ponhamos de parte o humor negro que é a história de fadas dos milionários-filantropos. A outra proposta que fica sobre a mesa é a da Igreja apoiada na sua «sociedade civil», nas ONG e IPSS, nas Misericórdias, na sua rede financeira e nas suas relações internacionais. A tese é esta: a intervenção católica é humanitária, solidária e não lucrativa. Não visa substituir-se ao Estado social mas completá-lo através das práticas cristãs sócio-caritativas. É seu objectivo central combater a pobreza mitigando-a, visto que o fenómeno é de todos os tempos e assim será nos séculos vindouros. Quere-o Deus. São três premissas falsas.
No primeiro caso (e não recusando que muitos católicos envolvidos agem por amor ao próximo), a «solidariedade católica» reclama-se como um «trabalho de missão» e faz proselitismo. E não é desinteressada dos bens materiais: veja-se só a enorme torrente de lucros recolhida pela acção social da Igreja, desde os lucros da Lotaria, aos subsídios per capita dos apoios aos pobres e às isenções fiscais que a Concordata lhe garante.
No segundo caso (não se substitui ao Estado), a prática demonstra estar-se em presença de um mero jogo de palavras. Estimular a «fuga» de técnicos e para os «privados» é tentar destruir o aparelho social do Estado; introduzir na área social as regras do mercado, representa minar as bases financeiras do sistema actual que vive rigorosamente das verbas do orçamento público. Depois, tudo passará quem «mais der».
No terceiro caso (pobreza é fatalidade) revela-se o sentido de classe do projecto católico: calar a revolta dos pobres e entregá-lo, impotente e submisso, nas mãos dos seus verdugos. Eternizar a pobreza.
Mesmo a nível das suas altas estruturas dirigentes começa a notar-se entre os sacerdotes mal-estar e divisão perante as políticas sociais da Igreja. Isso ressalta de uma nota da recente reunião da Conferência Episcopal, a tal ponto cortada pelo lápis do censor que nem sequer foi divulgada na comunicação social; em entrevistas pessoais (nomeadamente numa delas, com o próprio porta-voz da Conferência) e em documentos emitidos pela Liga Operária Católica, em vésperas da Greve Geral, e silenciados.
Fale-se. Quebrem-se os tabus. Os tempos são de posições frontais!

Jorge Messias (Jornal Avante)

Política e Religião

Margens de lucro e mercado social (VI)

Da estagnação passou-se fulminantemente a sucessivas fases de aceleração da acção. O que agora é, dentro de uma hora talvez já não seja. Mas há sempre um fio condutor indisfarçável que liga o passado ao presente para depois sugerir o futuro. É uma lei natural que não é possível escamotear. Não há efeito sem causa.
O eterno retorno da «questão religiosa» – que por razões históricas permanece viva e actual – convida a que chamemos novamente à baila o gravíssimo problema social da pobreza, da sua caracterização e dos objectivos que as forças democráticas invocam para a combater. Devem as lutas sociais apontar como objectivo básico a extinção da pobreza? Ou, inversamente, essa luta deverá ser secundarizada visto a pobreza se revelar inevitável e eterna?
Não é preciso ser-se ateu para se recusar esta última posição doutrinal. É evidente que o homem produz riqueza mais que suficiente para que cada ser humano viva decentemente, progrida, tenha tecto, cuidados de saúde e meios de educação. A pobreza só começa onde a riqueza é injustamente distribuída. Alastra e contamina o espaço social apenas quando elites privilegiadas se apropriam do fruto do trabalho colectivo. Num universo politicamente organizado só o Estado tem recursos e poder para conduzir a bom termo a luta pela extinção da pobreza e o aperfeiçoamento permanente das formas de distribuição mais justa da riqueza.
Não é preciso ser-se marxista para se reconhecer que o caminho para a supressão da pobreza passa por decisões vigorosas do poder político, tão graves e extensas são as mudanças a introduzir no espaço real que o capitalismo criou. Mudanças que necessariamente têm de ser graduais, ter em consideração os factores culturais e éticos das diversas comunidades humanas e recusar o sectarismo. Mas poder forte e centralizado que trave e extinga o subdesenvolvimento, a corrupção e a exploração do homem pelo homem. A «luta contra a pobreza» é uma frente de combate de uma extensa batalha essencialmente política.

As falsas opções e o domíniodo «mercado da pobreza»

Seguramente, em países dramaticamente atrasados como Portugal, o actual declínio do Estado social tem de ser travado quanto antes. Pelo menos, metade da população portuguesa já foi atingida, directa ou indirectamente, pelo desemprego e pela acelerada pauperização. Os tempos próximos serão ainda piores para os pobres.
Ponhamos de parte o humor negro que é a história de fadas dos milionários-filantropos. A outra proposta que fica sobre a mesa é a da Igreja apoiada na sua «sociedade civil», nas ONG e IPSS, nas Misericórdias, na sua rede financeira e nas suas relações internacionais. A tese é esta: a intervenção católica é humanitária, solidária e não lucrativa. Não visa substituir-se ao Estado social mas completá-lo através das práticas cristãs sócio-caritativas. É seu objectivo central combater a pobreza mitigando-a, visto que o fenómeno é de todos os tempos e assim será nos séculos vindouros. Quere-o Deus. São três premissas falsas.
No primeiro caso (e não recusando que muitos católicos envolvidos agem por amor ao próximo), a «solidariedade católica» reclama-se como um «trabalho de missão» e faz proselitismo. E não é desinteressada dos bens materiais: veja-se só a enorme torrente de lucros recolhida pela acção social da Igreja, desde os lucros da Lotaria, aos subsídios per capita dos apoios aos pobres e às isenções fiscais que a Concordata lhe garante.
No segundo caso (não se substitui ao Estado), a prática demonstra estar-se em presença de um mero jogo de palavras. Estimular a «fuga» de técnicos e para os «privados» é tentar destruir o aparelho social do Estado; introduzir na área social as regras do mercado, representa minar as bases financeiras do sistema actual que vive rigorosamente das verbas do orçamento público. Depois, tudo passará quem «mais der».
No terceiro caso (pobreza é fatalidade) revela-se o sentido de classe do projecto católico: calar a revolta dos pobres e entregá-lo, impotente e submisso, nas mãos dos seus verdugos. Eternizar a pobreza.
Mesmo a nível das suas altas estruturas dirigentes começa a notar-se entre os sacerdotes mal-estar e divisão perante as políticas sociais da Igreja. Isso ressalta de uma nota da recente reunião da Conferência Episcopal, a tal ponto cortada pelo lápis do censor que nem sequer foi divulgada na comunicação social; em entrevistas pessoais (nomeadamente numa delas, com o próprio porta-voz da Conferência) e em documentos emitidos pela Liga Operária Católica, em vésperas da Greve Geral, e silenciados.
Fale-se. Quebrem-se os tabus. Os tempos são de posições frontais!

Jorge Messias (Jornal Avante)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Política e Religião

A preparação de um novo golpe de mão - V

Ter em atenção...vigiar, não significa alarme ou medo. Em todo o caso, no entanto, convém observar com atenção um novo panorama que agora amadurece em silêncio. Vigiar, é uma tarefa revolucionária.
O capitalismo sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Já que não pode encontrar respostas para os problemas que criou, procura agarrar-se ao terreno, mudar estratégias e ser alternativa a si próprio. Assim como é lógico – já que deixou de fazer «passar», entre o povo, a sua imagem de «sucesso» e de «via segura para o bem-estar» que a tantos enganou – que o capitalismo tente projectar agora um outro retrato seu onde figure como vítima dos homens e distribua por todos as culpas da ruína dos seus projectos, enquanto acelera, às ocultas, um esquema de recuperação do terreno perdido.
Tudo aponta no sentido de que é justamente isto que nos próximos tempos vai acontecer em Portugal. Não apenas na área das «religiões», como é evidente. Mas em todos os sectores sociais e económicos da vida nacional e numa vasta malha balizada pelas autarquias, sindicatos, associações e iniciativas populares, áreas como as da Segurança Social, Saúde, terceira idade e juventude, informática e comunicação social, etc., etc. Os banqueiros e os «cérebros» do grande capital conspiram e vão passar à acção.
Trata-se de criar entre o povo nova falsa noção das realidades. No terreno, contam com alianças poderosas que incluem a Igreja. A «Igreja, SA». Dinheiro não lhes falta. Vem de Bruxelas, de Washington, de Roma, dos grupos económicos, da banca, da «sociedade civil», do próprio Estado, das autarquias e outras fontes obscuras, tais como os off-shores, as fundações e as famílias poderosas devotas da filantropia caritativa.

Da confusão nasce a luz... «metafísica»

Tomando como exemplo o caso português no actual ponto da sua situação, facilmente se nota que é de interesse central para a alta finança instalar entre os explorados a dúvida e a confusão permanente. Só da contradição e da angústia poderá surgir a «luz verde» metafísica que abra as portas a um mundo novo com velhas categorias de classe e um fosso cada vez mais profundo entre pobres e ricos. «Luz metafísica», porque ela permite inventar utopias que nada têm a ver com o mundo real. Um mundo fictício, ideal para os ricos e para a conquista do poder pelo patronato.
Em primeiro lugar, porém é preciso «arrumar a casa». Simultaneamente, reconstruir o que interessar reconstruir e deitar fora o que não interessa. Neste ponto social delicado é fundamental ganhar-se eficiência.
Na lista bem ordenada das tarefas a cumprir sobressai a da criação das infraestruturas de uma rede moderna de telecomunicações que ligue os agentes sociais a uma central única de comando. Vimos anteriormente (Avante!, 18.11.2010) que esses trabalhos já se desenvolvem a bom ritmo. Complementarmente, o empreendimento dá origem a novas parcerias entre a Igreja S.A. e grandes grupos empresariais.
Depois, na ordem das prioridades, aponta-se para a urgência inadiável da reciclagem e racionalização da malha dos «agentes sociais». Há que cortar duro, doa a quem doer. Só na área de obediência católica, contam-se mais de 400 misericórdias, 4000 ONGS e IPSS, cerca de 2000 centros de assistência, centenas de lares, hospitais, fundações, dispensários, instituições de tempos livres, grupos de voluntários, etc., etc. Se olharmos para as dimensões do país, são números impressionantes. Impressionantes mas enganadores. A prática demonstra que a maior parte dessas formações não satisfaz mínimos operacionais e que não é assim que um dia a «sociedade civil» virá a ser capaz de «conquistar a tutela» dos serviços nacionais do Estado. É urgente, pois, extinguir instituições inúteis, reciclar muitas outras, centralizar, formar milhares de quadros, combater a corrupção interna e o dogmatismo. «Trabalhos de Hércules!» mas que urge acelerar a qualquer preço. Quanto tempo mais aguentará o sistema capitalista a revolta dos oprimidos?
Entretanto, a «luz metafísica» deve continuar a iluminar os homens. O momento presente é favorável. Como abundantemente tem sido dito: «Nas crises, nem tudo é mau!». Para os bispos, até é mais fácil agir numa sociedade em desespero, à beira de se esboroar. O actual governo é uma ficção política; as autarquias submergem em tremendas dificuldades; muitos homens optam pelo «salve-se quem puder»; e a pobreza, bem trabalhada, pode conduzir a uma desesperada «fé em Deus» e na aceitação da «fatalidade do Destino».

Jorge Messias (Jornal Avante)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Política e Religião

A nova pele de cordeiro – IV

Tem interesse informativo observar-se como a grande «crise do capitalismo» se reflecte na crise paralela que a Igreja atravessa. Todas as grandes referências de cada uma dessas milenares instituições surgem postas em causa. O Poder central mostra-se incapaz de resolver os problemas fundamentais - económicos, financeiros e sociais. Da parte da Igreja, revelam-se as mesmas fragilidades da perda de influência sobre as massas populares, da capacidade eclesiástica de dar respostas aos problemas que o materialismo agnóstico crescentemente suscita e das dificuldades que revela ao tentar refrescar os estilos do clero ou em renovar as estruturas eclesiais.
A identidade (ou a oposição) entre a natureza da intervenção do Estado e a doutrina social da Igreja tem igualmente inegável interesse, sendo certo que no campo das realidades prevalece sempre uma enorme atracção entre as duas. Há dinheiro e há poder. Há experiência política em ambas as partes. Dir-se-ia, pois, existir actualmente terreno fértil para uma unidade de interesses e de objectivos. Mas não.
Se os objectivos são os mesmos – a posse do poder e do dinheiro – o ponto de partida e a procura das tácticas adequadas estão muito desalinhados. Desde os finais dos anos 50, o capitalismo alucinou-se com os seus próprios êxitos. Queimou etapas para mais depressa atingir o sucesso final. Arriscou «tudo por tudo» e fixou metas utópicas. É a história e o ponto actual do capitalismo, da globalização.
A hierarquia da Igreja, pesadamente ortodoxa, deixou-se embalar demasiado tempo pelos seus antiquíssimos sonhos de grandeza e pelos seus bolorentos dogmas, encobertos pelos véus de uma decrépita e desacreditada santidade. Assim se chega aos quadros que se deparam às actuais hierarquias: a Igreja precisa de se «modernizar» mantendo intactas as alianças com o capitalismo e recobrindo-as com uma original e inovadora «pele de cordeiro».
Quanto ao sistema capitalista, apoiado em complexas estruturas financeiras (para as quais «parar é morrer») e senhor de poderosas tecnologias, reconhece agora ter-se precipitado e precisar de efectuar «recuos tácticos». Avançou cedo de mais e cometeu o erro básico de ter triturado a economia produtiva. Por outro lado, foi pouco hábil no encobrimento da teologia da santificação do lucro e do dinheiro. Julgou poder dispensar o «ópio do povo» tradicional. Erros de palmatória que terá de corrigir urgentemente, se puder. Ficando bem claro que o que se pretende não é «retirar» mas apenas «realinhar». Mudam-se os comparsas, mudam-se os cenários: políticas e objectivos serão exactamente os mesmos.

As contra-ofensivas bem ordenadas
Do lado da Igreja, já as mudanças tácticas começam a revelar-se nos discursos oratorianos. Não há tempo a perder. O clero, «perito em humanidades» e forte em verbo divino, começa por aí a anunciada «transfiguração». Vamos começar a ouvir os bispos a falarem «linguagem de esquerda».Vamos ver padrões do património popular das lutas pela liberdade serem manipulados para veicularem melhor o caos dos padrões da «sociedade civil», do perdão fraterno, da solidariedade cristã, da filantropia dos ricos ou das virtudes teologais. A nuvem negra da exploração do homem pelo homem permanecerá oculta, para melhor desferir depois os seus raios destruidores. Como por magia, o FMI, o Banco Europeu, as centrais patronais, a NATO, a banca ou as Bolsas, transformar-se-ão em catedrais onde os anjos entoam
coros em louvor da paz, da justiça, da liberdade e do progresso. E, tocadas pela «revelação», as grandes fortunas pessoais irão acelerar a sua corrida à filantropia e investir o seu dinheiro na terra de missão que é o «combate à pobreza».
Nesta fase inicial, os bispos portugueses saltam a sua tradicional «barreira de silêncio» e começam a surgir como agitadores político-sociais das lutas de classes: o modelo económico em curso é «indecente» e as altas retribuições a quadros do Estado, «exorbitantes»; o Orçamento do Estado 20l1 consagra graves injustiças sociais; os pobres não são prioridade para o actual Governo; etc. Toda esta verbosidade escorre pelos moldes tradicionais da igreja, através de acusações genéricas que não implicam fundamentação nem identificação precisa de vítimas e culpados, ambiguamente, e com uma porta sempre entreaberta para todos os corredores.
Pior, ainda: permitem-se insinuar que a hierarquia da Igreja não tem informação sobre o que se passa nas esferas do poder e não tem culpas, ela também, em tudo quanto se passou, passa e virá a passar-se em Portugal!...
A culpa morre solteira.

Jorge Messias (jornal Avante)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Opinião

Denunciantes

Os jornais anunciaram que, a partir de agora, é oficialmente reconhecida a nobre profissão de denunciante. Já tardava, é um facto. Mas pronto, antes tarde que nunca. Todos sabemos como a nobre arte da denúncia tem sólidas raízes entre nós. No tempo do senhor D. João III (e nos tempos que depois se seguiram...) muitos foram os que acabaram nas fogueiras da Inquisição, denunciados por vizinhos, familiares ou amigos, prontos a jurar que os tinham visto, por exemplo, "a ter comércio com o demónio", ou a "apartar-se da nossa santa fé católica, passando-se à lei de Moisés, vestindo camisas lavadas aos sábados, e jejuando às segundas e quintas, e não comendo carne de porco".
Sabe-se como a nossa santa fé lhes ficou eternamente grata.
Muito mais tarde, nos saudosos tempos do Estado Novo, a nobre arte da denúncia foi de novo reinstaurada. Uma legião de impolutos cidadãos, amantíssimos esposos e extremosos pais de família, encarregava-se de escrever cartas denunciando vizinhos, colegas de trabalho, familiares, amigos, ou vagamente conhecidos, jurando que os tinham ouvido falar contra a ordem estabelecida, denegrindo a figura do sr. presidente do Conselho, ou pondo em causa a nossa patriótica presença em África, ou ouvindo rádios a soldo de potências inimigas estrangeiras, ou acolhendo gente suspeita em suas casas pela calada da noite. Assim o juravam e assinavam, a bem da nação.
Sabe-se como a nação lhes ficou eternamente grata.
Como se vê, está-nos na massa do sangue.
Agora, se alguém suspeitar de corrupção - as autoridades ordenam que se denuncie imediatamente.
Com a net é uma limpeza, pena ela não existir nos tempos do senhor D. João III ou do sr. dr. Oliveira Salazar, bom jeito tinha dado.
Claro que há uma triagem - dizem.
Claro que há uma investigação - dizem.
Claro que os tempos são outros - dizem
Mas os denunciantes, lá no fundo, nunca mudam.

Alice Vieira (Jornal de Notícias)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Política e Religião

Os fracassos de uma gestão «social» – III

Se as «crises» do capitalismo (internas e externas, financeiras e cambiais, do crédito e do consumo, globais e sectoriais, etc.) afectam gravemente as economias e os pobres, elas nem ao de leve beliscam o Vaticano. Os nebulosos resultados financeiros publicados pela banca «eclesiástica» dão indicações de lucros em ascensão, um «milagre» que brota no deserto e só é comparável à dos lucros dos milionários, em plena crise de recessão. Quanto pior melhor, ao que parece. «O segredo da magia» – respondem cardeais e banqueiros – «consiste numa boa gestão». E, também, no tratamento, «dinâmico e inovador» das «novas oportunidades».
Os bispos portugueses aderem a esta versão dos factos, como é evidente. E reconhecem que em Portugal, um pequeno país pobre e atrasado em relação à Europa, dependente e mergulhado no fosso lamacento que separa os pobres dos ricos, a «gestão social» de modo algum é tão fácil de alcançar como em Roma. De que modo gerir a miséria e o desemprego quando os mitos do «combate à pobreza» ameaçam desabar a cada instante? Como investir pouco e lucrar muito fazendo crer simultaneamente, ao povo crente, que perante a ruína só lhe resta juntar as mãos em oração e confiar no Eterno? omo conciliar entre si Deus e o Diabo, os direitos dos humildes e as mentiras dos poderosos, paralisando nos homens a ânsia de lutar ?
A fase que se atravessa é tremendamente delicada, mesmo para aqueles que põem os olhos em Roma. Mas é a esses que nos devemos dirigir.

As sábias gestões e a luta de classes

É evidente que a hierarquia católica conhece que, no mundo capitalista, as lutas contra a pobreza sempre foram deliberadamente travadas pelo poder com meios inadequados e sem grande vontade de execução. Sistematicamente, nem o pouco que se anunciou ir fazer se fez. Ficou-se sempre aquém. Depois, foi só «embandeirar-em-arco». Os bispos têm esta noção realista mas a grandeza de Roma é para eles invariavelmente bem mais importante que um desempregado. As notícias que chegam sobre a «caridade» e a «filantropia» são reveladoras.
Em termos de «gestão social», de uma administração de recursos «equilibrada» que garanta o bolo para os ricos mas não negue as migalhas aos pobres, a hierarquia portuguesa partiu atrasada. Prendeu-se em excesso aos tempos passados. Agora, tenta «queimar etapas».
O conceito de «luta contra a pobreza» é substituído pela fórmula «negócio social para o combate à pobreza» e apaga-se o papel condutor do Estado Social no esforço comum pelo fim da pobreza e pela melhor distribuição da riqueza. Avança a ideia de que, a partir de agora, essa função compete a vastos consórcios que unem em torno dos objectivos sociais a contribuição «filantrópica» de empresas com tecnologias de ponta, fundações, lobbies financeiros, banca, uniões de misericórdias, ONGS, IPSS, Igreja, «sociedade civil» e... o Estado. Esta nova tábua de salvação do «já visto» propõe-se entregar os serviços sociais a um futuro organismo interdisciplinar capaz de fundir numa só forma, o público e o privado, o confessional e o não-confessional, o lucrativo e o não-lucrativo, as fundações particulares e o Estado. Um projecto financiado não só pelos investimentos dos «accionistas» mas, também, pelos lucros do próprio «negócio social». Em Portugal, este projecto encontra-se já em fase de instalação, embora nele pouco se fale.
A iniciativa partiu da vinda ao nosso país, em 2007, do Prémio Nobel da Paz, o paquistanês Muhamed Yunus, fundador do Banco Grameen que introduziu entre nós o «microcrédito». A ideia mereceu a imediata adesão do Millenium BCP (Jardim Gonçalves, Opus Dei) e dos outros grandes bancos portugueses. «Por coincidência», nos anos seguintes, já em plena «crise», estes bancos iriam acumular resultados altamente positivos e em 2009 registariam lucros de 1445, 6 milhões de euros! Toda a banca nacional participa na economia social de mercado em expansão. Um sector que afirma produzir 5% do PIB português e ter criado, entretanto, 700 mil novos postos de trabalho, directos ou não. O seu campo de acção preferencial é constituído pelas IPSS, cerca de 2000, das quais recebe diariamente (e apenas na rede de gestão financeira) mais de 10 mil consultas. Trabalha igualmente com o Poder Local.
As tentativas de subversão do Estado Social parecem evidentes em mais esta tentativa alucinada da Igreja e dos poderes estabelecidos para fragilizar e destruir as conquistas sociais do povo português.
Tentaremos ver mais fundo em todo este projecto que se prende, aliás, com outros, também esquecidos mas já em curso de concretização.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Política e religião

Caridade solidária

Esboço de um «Novo Império» – II

As portas que Abril abriu voltaram a fechar-se, pelo menos parcialmente, como fica patente no triste espectáculo a que estamos a assistir. Separação de poderes, Constituição, democracia, governo das elites, intrigas palacianas, miséria e opulência, tudo surge aos olhos do nosso povo como uma telenovela protagonizada pelos grandes senhores. Telenovela nada inocente. Por detrás da encenação de tudo isto desenvolve-se um plano bem amadurecido. Mas um dia virá quando, depois de muito sofrer inutilmente, o mesmo povo português, já mais velho e lúcido, reabrirá com as suas mãos as mesmas portas de Abril.
No caso da Igreja, a hierarquia católica desempenha neste processo um papel determinante. Só ela dispõe de uma tradição nacional instalada desde há séculos, tantos quantos os que conta a nacionalidade do território. Só ela manipula na sombra valores de cariz religioso que emudecem revoltas, indignações e a justa ira popular. Só ela sabe unir os ricos e dividir os pobres. E, finalmente, só ela dispõe de um tentacular aparelho instalado na área social.

Alguns dados sobre o poder social da Igreja
Em termos estatísticos divulgados pela própria Igreja, estão em actividade em todo o território nacional (89 mil K2, 10 milhões de habitantes), 20 dioceses dispostas numa rede de 267 vigararias, 2667 paróquias e 2406 centros paroquiais.
Segundo as fontes referidas, 92,7% dos cidadãos portugueses são católicos praticantes ou culturalmente marcados pela religião católica. O enquadramento e a condução de toda a acção social católica está confiado a cerca de 46 bispos, 3100 padres regulares, 1000 sacerdotes do clero religioso (ordens religiosas), e 7000 freiras (ou religiosas professas). A formação deste potencial humano é garantida por 95 centros de instrução de candidatos ao sacerdócio. Completam estes quadros de formação de sacerdotes e leigos centenas de seminários, colégios e cursos sob a orientação central do Secretariado do Apostolado dos Leigos e da Comissão do Clero, Seminários e Vocações.
Na área social cuja importância se avoluma dia a dia, a igreja católica dispõe de mais de 1500 centros de assistência dispersos por hospitais, ambulâncias, dispensário, lares e casas para idosos e deficientes, orfanatos, creches, consultórios, consultadorias familiares e centros especiais de educação e reinserção.
Em todo este vasto universo assistencial, a acção católica é dirigida não só para o apoio ao doente ou ao cidadão necessitado mas, igualmente, para o reforço dos laços que ligam o doente e os seus quadros familiares à Igreja. Todos os vários níveis deste aparelho (que actua indistintamente, ao abrigo da concordata, em instituições católicas ou do Estado) estão interligados no esquema orgânico de funcionamento da igreja portuguesa: uma pirâmide onde a paróquia ocupa a base e a Conferência Episcopal, presidida pelo Patriarca de Lisboa, representa o cume, com poderes deliberativos e executivos finais. Note-se a identidade entre o esquema religioso e o organigrama político do Estado, também com sede em Lisboa e em vésperas de centralização de poderes.
Por outro lado, a CEP tem funções polivalentes e actua, tal como o Estado laico, no plano interno e no plano externo. No caso da CEP, esta estratégia apoia-se, sobretudo, nos organismos e organizações da Santa Sé (veja-se o papel da Nunciatura e as funções da Concordata); e nos invisíveis acordos com as centrais de topo das altas instituições políticas e financeiras do capitalismo.
A Igreja em Portugal constitui, de facto, um Estado dentro de um Estado. Nunca se identificou, não se identifica e jamais se identificará com os valores básicos da Revolução de Abril ou de qualquer outra revolução.Toda a filosofia eclesiástica, independentemente das transformações aparentes que a Igreja possa registar, obedece a dogmas imutáveis: o fraco submete-se ao forte, o pobre ao rico e a lei aos poderes dos ricos e dos fortes. «Deus o quer.»
A Igreja afirma-se como a potência mundial que é, muito provavelmente a mais rica do mundo capitalista. Tem de tudo: latifúndios, grupos financeiros e empresariais, lóbis e offshores, ligações às maiores sedes de interesses bolsistas e de actividades legais ou ilegais. Assim, a condução dos seus imensos negócios e das suas fortunas implica a sujeição às leis dos mercados. Esta escolha exigente entre a fé e o cifrão é fácil de detectar-se num pequeno país, como acontece na presente situação. A «crise» e os silêncios oficiais da hierarquia revelam que a Igreja oficial constitui um Estado no interior de outro Estado, bloqueado pelos seus interesses próprios e pelos seus dogmas; Estado que coexiste com um outro Estado, laico e republicano mas também ele rendido à escravidão do lucro e do dinheiro.
Ao povo compete lutar em defesa dos seus direitos. Sem dúvida que assim será.


Jorge Messias (Jornal Avante)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Política e Religião

Caridade solidária
Um beco nas avenidas da banca –

Os caminhos da direita são os da mentira e do encobrimento. Quanto às verdadeiras forças do socialismo, continuam a lutar e atravessam as crises fazendo a denúncia dos saques dos ricos e da corrupção dos políticos. Lado a lado com as massas populares estabelecem no presente os alicerces do futuro. E nessas lutas, uma lição central importa aprender e decorar : não há verdadeira via social alternativa que não passe pela ruptura frontal com o capitalismo. O futuro é já amanhã, é certo, e aguardam-nos dias duríssimos de lutas de classes. Tudo vai, pois, depender da nossa firmeza e da coragem com que defendermos os nossos valores. E, também, muito dependerá do grau de consciência que tivermos das estratégias dos nossos inimigos.
Na actualidade internacional e no capítulo da solidariedade com os pobres, destaca-se um «fenómeno» que tende a generalizar-se e a alastrar de país para país. Em pleno tempo de crise profunda, os ricos e os muito ricos sentem súbitos movimentos de alma e convertem-se à «luta contra a pobreza», ainda que fiquem cada vez mais ricos. Bill Gates, por exemplo, no ano passado doou aos pobres parte da sua colossal fortuna e viu esta aumentar, num único ano, cinco biliões de dólares. Imediatamente, ele e a mulher fizeram novo donativo – mais 10 mil milhões – destinados a pagar vacinas a quem as não pudesse comprar, nomeadamente no caso das crianças dos países pobres. Bill Gates, diga-se de passagem, possui gigantescos interesses na indústria farmacêutica e a caridade dá lucro. O negócio resultou.
Este casos exemplares multiplicam-se pelos cinco continentes.
Registe-se apenas mais um, protagonizado pelo JP Morgan Chase, o Banco do Vaticano nos EUA. O JP chamou a si uma iniciativa original, particularmente dirigida aos fundos de pensões e de poupanças. Os interessados «emprestam» ao banco lotes de acções que são depois negociadas nas bolsas de valores. Se os resultados forem bons, os accionistas ganham tudo; se forem maus, perdem integralmente aquilo que investiram. É o tudo ou nada. Esta iniciativa iluminada, aparentemente para abrir oportunidades às classes médias, tem-se revelado desastrosa para os pequenos depositantes e fabulosa para os mais ricos. Simultaneamente, fabrica fortunas e gera a pobreza. É fria e deliberada.
Também entre nós proliferam as fundações filantrópicas, como a Gulbenkian, a Luso-Americana, a Oriente, a Champalimaud, a Francisco Manuel dos Santos, os Bancos de Voluntários e Alimentares, os institutos religiosos seculares, as associações, movimentos e obras de socorro social, as redes de solidariedade, etc., etc. Teoricamente, trata-se de instituições caritativas não-lucrativas. Mas não se esconde que nos seus cargos directivos abundam os nomes de individualidades ligadas à banca, às empresas privadas económicas e financeiras, ao mundo político e à Igreja católica. Todas essas instituições financeiras investem directamente no “mercado social”.

O Orçamento do Estado e os lucros da miséria

A lógica e a razão parecem terem-se apagado totalmente da vida pública portuguesa. Por exemplo, numa situação de crise económica e financeira profunda, o governo exige aos cidadãos sacrifícios insuportáveis «para salvar a Nação». Simultaneamente, porém, transfere para o Orçamento do Estado os défices da banca causados pela especulação e pela prática sistemática de fraudes financeiras. Ou seja, protege os ricos.
Assim, os bancos podem continuar a recolher lucros fabulosos, mesmo nas fases agudas da depressão. Um exemplo, apenas, a ilustrar esta noção de «crise», recolhido enquanto rios de tinta relatavam às massas os jogos florais que os políticos e os banqueiros alimentavam sobre a melhor forma de Portugal fugir à miséria: o BCP, famoso grupo bancário ligado de raiz ao Opus Dei, anunciou que, apenas no terceiro trimestre de 2010, tinha registado um lucro líquido de 217,4 milhões de euros. E os outros grandes bancos com sedes em Portugal, somam e seguem pelo mesmo caminho.
A crise é para os pobres. E se Portugal é já considerado o país mais pobre da Europa ocidental, não se deve esconder que nunca foi tão acelerado o ritmo do aparecimento de novas fortunas e do alargamento do fosso entre pobres e ricos.
Dê-se a este feixe de questões as «voltas» que se derem que as grandes linhas de força dos problemas centrais passam pelas centrais do negócio e do dinheiro, pelo Estado e pela Igreja católica.

Jorje Messias ( Jornal Avante )

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Política e Religião

As convulsões do Capitalismo

No Manifesto do Partido Comunista (1843), K. Marx e F. Engels caracterizaram o sistema capitalista com traços que permanecem completamente actuais. No seu percurso político e social a burguesia do dinheiro atinge inevitavelmente uma etapa em que «em lugar da exploração velada por ilusões religiosas e políticas, impõe uma exploração aberta, descarada, directa e brutal».
Nenhuma outra análise poderia sintetizar tão claramente o que hoje se passa no mundo, quase 170 anos volvidos sobre a publicação do Manifesto.
Ferozmente, sem período de transição, banqueiros e ditadores ignorados abandonam as teses do «sucesso» e do «milagre» e mostram aquilo que realmente são: autómatos sedentos do saque e obcecados pela ideia fixa da acumulação do lucro e do poder. Nada mais. Sem ideais, sem noção dos deveres colectivos, sem princípios nem respeito pelos direitos dos povos.
A fase que atravessamos é, no entanto, de eventual duplo sentido na sua conclusão previsível. Pode significar o próximo esmagamento dos trabalhadores e de outras estruturas económicas, políticas e sociais. Mas também pode revelar-se como impulso necessário – o passo decisivo em frente – necessário para concretizar uma mudança radical, uma revolução irreversível que lance o mundo nas vias de um verdadeiro socialismo. Basta que os trabalhadores o queiram firmemente e que olhemos o presente e o futuro com determinação e com coragem. Para isso é necessário organização e espírito de luta.

A «Santa Aliança» da reacção
Escondida na sombra, a hierarquia da Igreja assiste a estas convulsões sociais, encantada com o que vê passar-se à sua volta. Os bispos não deixam de tecer teias de intrigas e combinações nos corredores das catedrais e na comodidade das poltronas dos banqueiros. Porque a Igreja é talvez a única força (para além da banca) que mais tem a ganhar com a crise profunda do capitalismo. Contrariamente às grandes fortunas, nada arrisca. Contrariamente ao universo dos políticos, nada tem a perder. Contrariamente à informação mais íntima dos factos, dispõe de dianteiras que vão muito à frente daquelas que os seus sócios e amigos podem utilizar. A «grande crise» permite reforçar a sua influência junto das massas e das elites. No nosso país, quando milhões de cidadãos estiverem prestes a morrer à fome, a Igreja será a única instituição que poderá fazer chegar a cada português «uma malga de sopa e um naco de pão». Quando os desempregados famintos desistirem de lutar, a caridade da Igreja garantirá a sua sobrevivência, com «uma malga de sopa e um naco de pão».
A Igreja tem as suas ONG, as suas IPSS, as suas escolas, as suas Misericórdias, os seus refeitórios, os seus lares para crianças e os seus lares para idosos. Também por aí pode funcionar a regra de oiro da «malga de sopa e do naco de pão». Quanto maior for a crise tanto maior serão os lucros alimentados pelos subsídios do Estado. Quanto maiores forem as dificuldades na concessão do crédito pessoal, dos subsídios de desemprego, do abono de família, etc., mais à-vontade estarão os tecnocratas católicos ligados à banca confessional. Este campo de acção será ilimitado.
Mas as mais-valias que afluem aos cofres do Patriarcado e aos «nichos» dos offshores do mundo católico não ficam por aqui. A Igreja universal dispõe de um gigantesco sector financeiro apoiado numa rede «não-lucrativa» que se situa à margem de quaisquer danos que a crise possa ocasionar. Segurança que resulta em grande parte das concordatas entre o Vaticano os diversos estados mundiais. O Banco do Santo Espírito está presente em toda a rede financeira do mundo capitalista e os principais lobbies bancários ligam-se ao capital eclesiástico. Tudo somado, a Igreja pode dar-se ao luxo de se abster ou de intervir nos graves problemas que agitam o mundo e a humanidade.
A nível nacional e à escala das dimensões do Estado português, é a uma situação deste tipo que estamos a assistir. São evidentes, a caminhada da sociedade para o desastre final, o agravamento brutal da pobreza e dos desníveis sociais, a riqueza escandalosa das elites e o descalabro de uma ética do conhecimento que acompanhe os progressos das tecnologias. A noção de todos estes desequilíbrios está contida nos vários capítulos da doutrina da Igreja, mas «em abstracto». Nada obriga a hierarquia eclesiástica à luta, a acções coerentes que apoiem as massas no combate à tirania e à marginalização. O objectivo da Igreja é a «salvação das almas». Mesmo quando o povo anónimo for em boa parte constituído por classes médias maioritariamente católicas.
Especialistas em «humanidades» e nas «filosofias do milagre», como reza a tradição, os bispos católicos decerto que já se aperceberam das convulsões do capitalismo, recamado de oiro mas enredado nas malhas das suas insuperáveis contradições. Mas perante a realidade fica paralisada.
Por nós, lutemos firmes e mantenhamos os nossos ideais. O desenlace deste enredo será Socialista!...

Jorge Messias (Jornal Avante)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

POLÍTIca

GUY MOQUET


O oportunismo político não tem limites. Há políticos que, para conseguirem os seus fins
não hesitam a se cobrir de ridículo. Foi o que aconteceu com Benjamin Lancar, chefe de fila da juventude UMP, o partido de Sarkozy.
Querendo seguir as pegadas do seu chefe que em em Abril de 2007 após ser eleito Presidente da República, e tomar posse, fez ler nos colégios de França, uma carta de de Guy Moquet enviada a seus pais antes de ser fuzilado pelas tropas de Hitler, que ocupavam a França. Quis o energúmeno se servir da heroicidade de Guy Moquet, jovem comunista de 17 anos, para apelar aos jovens lhes seguissem o exemplo para aceitarem a nova lei sobre a reforma que lhes está a ser imposta. O ridículo não mata, o que permite a este indivíduo de continuar a dizer ordinarices como a de louvar Pierre Laval, ministro de Vichy e colaborador do nazismo. Para ele, Lancar, "O Laval de 1932 é o Sarkozy de 2010.
Por vezes a verdade sai da boca sem o querer.

Vale a pena contar a história de Guy Moquet: Um Herói da Resistência Francesa

Logo após a prisão do seu pai, deputado comunista, e deportado para um campo de concentração na Argélia em 1939, Guy moquet, então com 16 anos, decide aderir à juventude comunista. Preso um ano mais tarde quando fazia uma distribuição de panfletos em Paris. Apesar de ter sido absolvido pelo tribunal, foi enviado para o campo prisional de Chateaubriand no Loire-Atlantique.
Foi fuzilado a 22 de Outubro de 1941 com mais 26 companheiros de prisão, em represália da morte de um oficial alemão. Antes de morrer, escreveu uma carta a seus pais onde dizia que a sua morte pudesse servir a alguma coisa.
Uma estação do metro de Paris e um grande numero de vilas têm ruas com o seu nome.

A carta escrita a seus pais diz o seguinte:

Minha querida mamã, meu querido papá, meu querido pequeno irmão.Eu vou morrer! O que vos peço, tu, em particular minha querida mamã, é de seres corajosa. Eu sou e quero ser tanto como os que passaram antes de mim. Certo, eu queria viver. Mas o que desejo do coração, é que a minha morte sirva a alguma coisa. Eu não pude abraçar Jean. Abracei meus dois camaradas e irmãos Roger e Rino. Quanto ao verdadeiro não o posso fazer infelizmente. Espero que todos os meus haveres te serão enviados eles poderão servir a Serge, que espero será contente de os usar um dia. A ti querido papá, se eu te fiz, como à querida mamã, algumas penas, te saúdo uma ultima vez. Saibas que fiz o meu melhor para seguir o caminho que tu me traçaste.
Um ultimo adeus a todos os meus amigos, ao meu irmão que amo muito. Que ele estude bem para mais tarde poder ser um homem.
17 anos e meio, a minha vida foi curta, eu não tenho nenhum pesar, a não ser a de vos deixar a todos. Eu vou morrer na companhia de Tintin, de Michel. Mamã o que te peço e quero que me o prometas, é de ser corajosa e superar a tua pena.
Eu não posso escrever muito mais. Vou deixar-vos a todos, Mamã, Papá, Serge em vos abraçando com todo o meu coração de criança Coragem!
Vosso Guy que vos ama.

Ultimo pensamento: Vós todos que ficais sejais dignos de nós dos 27 que vão morrer.


QUELHA FUNDA

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Política

as palavras são armas


Domingo, 24 de Outubro de 2010



Aos vacilantes


Texto publicado por Cid Simões
e copiado do blog: anónimo séc.xx1





O fascismo vem fazendo exercícios de aquecimento.

Um texto oportuno para os que se menosprezam.

A BICICLETA
Aderimos a uma causa impelidos pela emoção. A emoção é o húmus do nosso descontentamento e a injustiça a madre e o alimento que lhe dá consistência e impele à acção. A consciência vamo-la construindo e burilando na realidade onde nos movimentamos e, destarte passando à firmeza da acção consciente. É um processo delicado, moroso, que necessita de criterioso acompanhamento para impedir o individualismo latente em cada um de nós e, se não atentos, se instala facilmente inquinando as relações entre os que se nutrem dos mesmos ideais.
Vivíamos nos meados da década de sessenta. As preocupações corporizavam-se. Refractários e desertores engrossavam o fluxo migratório de um povo que fugia à repressão e às degradantes condições sociais. A guerra colonial começava a inquietar grande parte da população e, alguns por ignorância, cretinismo ou maldade supunham que iríamos aplicar um correctivo aos pretos, – era deste modo que se referiam aos autóctones africanos - e regressaríamos ajoujados de condecorações para exibir nas paradas de glorificação à lusitana valentia.
A CGTP dava os seus primeiros passos na clandestinidade. Nas cooperativas, clubes desportivos -- onde quer que se pudessem organizar mesmo sob uma legalidade vigiada -- os trabalhadores promoviam-se culturalmente realizando debates com escritores, actores, pintores, músicos, alguns padres progressistas, poetas e muitos outros intelectuais democratas que se opunham ao fascismo. As bibliotecas eram os núcleos de todas estas actividades onde se fomentava a leitura e se divulgava livros proibidos e outros que, embora passados pelos crivos da censura, continham ainda alguma substância.
Cada vez mais isolada a nível interno e internacional, acossada pelos movimentos de libertação das colónias e por uma população que despertava e um operariado industrial e agrícola cada vez mais politizado, a besta fascista abria as garras, rosnava: a repressão atingia o paroxismo e, desde sempre, o Partido Comunista era o seu principal alvo.
É neste clima de sufoco que sou abordado por um empregado da livraria onde me deslocava com frequência e com o qual mantinha uma relação de conivência, reservando-me ele livros colocados no índex ou em vias de o serem. Nunca nos havíamos tratado por tu, mas dando a ideia de falarmos de livros coloca-me de chofre a questão: “Precisamos da tua ajuda. Temos que encontrar urgentemente um lugar seguro para um camarada.”
A vida de qualquer um de nós encontra-se suspensa no imprevisível: uma palavra, uma frase, um encontro e o rumo que lhe damos faz de nós outro indivíduo para melhor ou pior, consoante a escala de valores por que nos regemos.
Até então as minhas tarefas eram semi-clandestinas, organizando, embora com forte vigilância da PIDE, sessões culturais, bibliotecas, contactos com intelectuais progressistas, ou no local de trabalho encabeçando reivindicações.
Tendo em conta as tarefas que desenvolvia e o local onde as exercia, não seria propriamente alguém que passasse despercebido ou não estivesse já referenciado.
Esta proposta elevava a um nível qualitativamente superior as tarefas que me eram confiadas, implicava riscos para os quais não me sentia suficientemente preparado e, além do mais, com uma dificuldade acrescida: tinha dois filhos e dependeria da minha mulher a decisão final.
Voltei com a urgência possível para confirmar a nossa disponibilidade e organizar o acolhimento do camarada. Uma satisfação contida e o sabor da adrenalina que noutras ocasiões já havia mastigado.
Trabalhos rotineiros nos primeiros tempos de adaptação, a aprendizagem envolta em cuidados novos e simulações diversas. A memorização de matrículas de automóveis da PIDE e uma atenção constante a comportamentos envolventes mantinham todos os sentidos em permanente alerta.
Só mais tarde e aos poucos fui sentindo que o trabalho clandestino acarretava enormes riscos e responsabilidades, exigindo um esforço constante, muita ponderação, um grande equilíbrio emocional como quem caminha no gume da faca para evitar a queda. Eram os cuidados a ter com a vizinhança, o afinar da linguagem atenuando a agressividade e temperando os nervos no fogo lento em que passámos a viver.
A nível profissional vivia sob um clima de repressão, em virtude da liderança em movimentos de contestação que não rejeitava sempre que necessário. Um outro emprego, a meio-tempo, para equilibrar o orçamento obrigava-me a um esforço suplementar. Eram as reuniões da secção cultural de que fazia parte, a procura de livros para a biblioteca, contactos para as realizações culturais e o apoio ao camarada que vivia no sótão da minha casa e, bem entendido, uma atenção redobrada com a família.
O cansaço condicionava a nossa actividade intelectual e a vida no lamaçal opressivo em que o fascismo nos mergulhava levava-nos a questionar se os riscos a que estávamos sujeitos se justificavam, face aos perigos constantes a que éramos submetidos na actividade clandestina.
É sob este estado de espírito que uma tarde saímos no meu Citroën 2CV a caminho de … eu não sabia onde. O funcionário transportava como bagagem duas tábuas atadas com um cordel. Claro que me apercebi que o nosso destino não seria nenhuma carpintaria e que as tábuas não eram mais que um disfarce, no meu entender bem conseguido.
Atento a alguma movimentação anormal, a viajem prosseguia como habitualmente e o diálogo, reduzido ao essencial, tornava o percurso ainda mais penoso. Frases obsessivas percorriam-me a mente: “justifica-se o risco que estou correndo?” “Servirá para quê o que estou fazendo”? “Que acontecerá à minha mulher e aos meus filhos se me prenderem?”.
Seguindo as indicações que ia recebendo, chegámos a um local na Quinta da Lomba onde o funcionário desceu e, dentro do estabelecido, depois de confirmarmos as horas em ambos os relógios, eu deveria estar nesse mesmo local, precisamente daí a dez minutos e, no caso de um de nós lá não estar, voltaríamos cinco minutos depois e não tornaríamos a aparecer se o encontro não se efectuasse.
Para não ficar parado e gastar esses dez minutos, fui andando pelas imediações do local de encontro, atento às horas e a todas as movimentações. Num caminhar firme, levando à mão uma velha bicicleta, um homem em fato-macaco chamou a minha atenção e aproximei-me ultrapassando-o, dado que se encontrava no meu caminho.
Percorreu-me uma emoção havia muito não sentida e, de olhos marejados, prossegui com dificuldade os poucos segundos que me restavam para o reencontro. No porta-bagagens da bicicleta, atadas com uma corda, seguiam as tábuas que sem mim dificilmente aí teriam chegado. Senti-me um elo dessa grande corrente revolucionária que é o meu Partido, recuperei, nesse breve mas decisivo instante, a vontade de continuar, a necessidade de avançar porque nessa luta estava o futuro dos meus filhos e o dos filhos de todos os oprimidos.
A imagem do camarada da bicicleta e a bagagem que eu lhe havia feito chegar para continuar pelos mais variados modos o seu caminho serviu para alimentar a minha perseverança nos momentos de grandes dificuldades e perigos em que a debilidade espreitava.
A opressão é um lodo onde o caminhar cansa e sufoca; nele germinam vermes que nos sugam a alma e corroem a vontade; os estímulos que recebemos surgem de imagens e encontros que nos marcaram e de rostos e exemplos que não nos é possível esquecer.
Saber controlar a revolta conduzindo-a de acordo com o espaço e o tempo é mérito do revolucionário; um passo em falso e perdem-se anos de organização e sofrimento.

QUELHA FUNDA

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Politica

Editorial Par Patrick Apel-Muller

Un président casseur

«J’en appelle à la responsabilité de l’ensemble des acteurs », a osé déclarer, hier, Nicolas Sarkozy. Comme si lui-même en faisait montre ! Que dire d’un président qui, au mépris de la souveraineté populaire qui fonde la République, tente de passer en force pour briser le droit à la retraite des salariés ? Que penser d’un chef d’État qui fait truquer les chiffres des manifestants ou des grévistes à la SNCF ? Comment qualifier un premier ministre qui prétend contre toute réalité que « le mouvement social plafonne » et qu’il « n’y a jamais eu plus d’un million de personnes dans les rues » ? Comment prendre au sérieux les bonimenteurs UMP qui prétendent qu’il n’y a pas de problème d’approvisionnement en carburant quand des centaines de milliers de Français galèrent pour faire un plein ?

Ce pouvoir a élevé la fausse nouvelle au rang d’industrie, la seule qui se développe sous son règne. Plus, il fait de la provocation à la violence un recours face à la puissance du mouvement de protestation. Là, il dépêche des hordes de CRS contre les salariés des raffineries. Ici, il fait donner la matraque et les lacrymogènes contre les lycéens qui pacifiquement manifestaient sur les Champs-Élysées. Partout, par sa fermeture aux préoccupations sociales, il fait naître de tristes vocations et donne du grain à moudre aux casseurs. Ne cherchez pas ces derniers dans les rangs des manifestants, vous n’en trouverez pas. Les salariés en grève démontrent un sang-froid que pourraient leur envier les snipers de l’UMP, tandis que les syndicats veillent à repousser hors des cortèges ceux qui veulent en découdre. C’est d’ailleurs la préoccupation constante des lycéens en lutte. Si, ici ou là, des élèves – exaspérés par l’absence d’écoute gouvernementale – se laissent entraîner par des groupes violents et sans doute par des provocateurs dépêchés par des officines coutumières du fait, ils sont une minorité qui ne peut cacher l’immense foule résolue et combative qui arpente les pavés. Hier encore, elle était plus nombreuse que la fois précédente. Nicolas Sarkozy a bien enrôlé Angela Merkel pour une séance de propagande, lundi soir sur France 2, rien n’y a fait. Sa cote de popularité plonge vers des abysses et même ses commanditaires du Medef s’inquiètent d’une dégradation de l’économie. Mme Parisot, qui a mis le feu aux poudres en réclamant cette contre-réforme, souhaite désormais que « le climat s’apaise le plus vite possible »…

Dans la comédie de la dramatisation, de grands médias jouent de piètres rôles, décrivant un pays en proie à la « guérilla urbaine ». La vieille ficelle de la peur est agitée. C’est toujours le recours ultime de la droite. L’honnêteté dans le traitement de l’information devrait conduire à constater que l’unité syndicale donne toujours le ton, que personne ne cède aux sirènes du conflit de générations qu’actionne Rama Yade et qu’au contraire salariés et jeunes se retrouvent puissamment solidaires. À chaque étape, le mouvement est décidé démocratiquement à la base. Ses formes s’adaptent au temps long imposé par le pouvoir et adoptent une plasticité nouvelle. Le temps passant et le pouvoir s’enfermant dans l’autoritarisme, la critique s’aiguise et se précise. Souvent, le rejet va au-delà du texte porté par Éric Woerth. Cette mobilisation va avoir des suites. Dans la rue. e dans las urnes

Patrick Apel-Muller (Jornal Humanitè)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Politica e Religião

Os comunistas exigem uma sociedade nova!…

Quanto mais se intensifica a confusão geral como método para prolongar ao máximo a vida do sistema capitalista, tanto mais forte terá de ser a intervenção comunista no sentido da reposição da verdade, de ruptura com o sistema e de proposta alternativa de mudança. Os comunistas reclamam o saneamento da vida pública, é certo, mas ninguém pense que essa é a sua meta final. O marxismo-leninismo visa desmascarar as forças capitalistas, não para as reformar - tal como pretendem socialistas utópicos, católicos progressistas ou democratas pequeno-burgueses – mas para as expulsar definitivamente da área do poder político e económico. Os comunistas lutam por um novo espaço e por um novo tempo quando, rompendo com o actual estado de coisas, os povos conquistarem livre acesso aos centros de decisão e à sua intervenção preponderante em tudo o que diga respeito ao progresso colectivo e aos direitos e deveres de cidadania. Lutam, enfim, pela construção de uma democracia real cujo ponto de partida seja o pleno exercício dos direitos fundamentais já conquistados em Abril e depois se alargue e aperfeiçoe sempre através da livre expressão do voto popular. Repor-se-ão assim os princípios revolucionários da negação do fascismo e abrir-se-ão as portas do futuro a uma sólida base progressista de trabalhadores, intelectuais e outros homens livres, de todos os credos e de todas as cores. As barreiras convencionais serão ultrapassadas e o povo comum – até aqui ignorado pelo Poder - será chamado a pronunciar-se sobre as formas de condução de todas as linhas de força de governação do grande colectivo nacional. Então, se o povo português assim o entender, chegará o dia em que um país rejuvenescido poderá proclamar em Portugal uma sociedade sem classes. Tudo isto não é para já. Só virá mais tarde.
O projecto comunista é pois de unidade e de mudança. Mas os comunistas têm plena consciência de que para se concretizar, o projecto que defendem necessita de ganhar o apoio de uma maioria esmagadora do povo português. Não admira, portanto, que as propostas que vão fazendo, uma a uma, sejam fruto permanente da experiência colectiva dos trabalhadores e do povo em geral. Nem causa espanto que no lamaçal de intrigas e de escândalos a que assistimos, os comunistas permaneçam intocáveis. Têm uma Ética que não lhes é imposta mas que exige de cada um deles entrega e serviço. É o que a história demonstra.
O tema pobreza não surge deslocado num espaço atribuído à crítica das religiões. Por toda a parte no mundo, a pauperização brutal dos trabalhadores e das famílias é acompanhada não só pela formação de novas fortunas milionárias de uma minoria mas também pela valorização em flecha dos patrimónios religiosos. Isto acontece não só com o Catolicismo cristão (a cujas majestáticas instituições financeiras se acolhem os interesses materiais do imenso cortejo de outras confissões religiosas e laicas, das fundações, das estruturas «caritativas» da sociedade civil, da especulação financeira, etc.) mas com todas as grandes religiões organizadas ligadas ao Estado, do Islamismo às obscuras «Novas Igrejas», tão aparentadas com os off-shores.
Em todos estes gigantescos impérios, as religiões aliam-se às classes dominantes e identificam-se com os seus interesses. E como a fortuna pessoal mal distribuída gera a miséria, as religiões acumulam lucros, enriquecem, transformam-se elas próprias em braços da exploração e sofrem, consequentemente, os efeitos da erosão moral. Os tabus vão-se apagando. As igrejas tapam essa brecha com a aquisição de mais poder.
Os próprio livros sagrados manifestam uma certeza: «Os pobres, tê-los-eis sempre convosco». Os pobres são matéria-prima que a doutrina cristã olha com interesse. A «pobreza» pode ser um castigo de Deus. Atinge os mais humildes, os seres inferiores que na vida não não têm talento para se organizarem e defenderem. A pobreza pode resultar do castigo dos pecados. Mas Jeová que a criou, também dotou os crentes com sentimentos de Caridade e de Solidariedade para com os mais desfavorecidos. A oração «contra a pobreza» é uma forma de combater o pecado enquanto Deus ilumina os corações dos ricos. A solidariedade cristã é outra via que passa, naturalmente, pelas instituições católicas.
O marxismo faz uma análise da pobreza completamente oposta.
Há no mundo biliões de pobres. Existem porque a organização social os produz. Morrem de sede, morrem à fome, morrem sem abrigo, morrem vítimas das guerras ? É porque os interesses dominantes de classe assim o impõem. Depois da morte das gerações de pobres, outros pobres virão. Sobre as suas campas rasas erguer-se-ão catedrais, entrepostos, mansões de luxo, prostíbulos doirados, paraísos fiscais…
Só rompendo com tudo isto os povos erguerão cabeça e o rio de lama se estancará! E isso está ao nosso alcance, se tivermos coragem para lutar. Em parceria com os católicos honestos, se quiserem escutar as nossas razões.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Politica e Religião

Os abutres cobiçam a pobreza…

A traços gerais e muito incompletos pode traçar-se o perfil de uma Igreja católica cujo projecto central cresceu à custa de uma troca permanente entre os valores da sua doutrina social e a economia social de mercado exigida pelos interesses do capitalismo. Se revisitarmos o passado recente, iremos constatar como uma constante as cumplicidades entre dois dos grandes parceiros que construíram o Mercado Comum e o coroaram mais tarde como União Europeia – o Capital e a Igreja. Passeio penoso mas de extrema utilidade. Ao longo do percurso veríamos, se tentássemos a aventura, que os mitos europeus e capitalistas se revestem de roupagens litúrgicas; que o discurso dos seus responsáveis vem sempre na linha característica dos grandes pregadores de púlpito; que a poderosa «reviravolta doirada» dos anos 80 colocou no cimo da nuvem não só a banca e os banqueiros mas também o Vaticano, com as suas formações financeiras, as suas instituições caritativas, as suas escolas, os seus hospitais, as suas organizações laborais e patronais. Todas estas áreas foram crescendo com poderes eclesiais redefinidos e jamais sonhados. Fundamentalmente, a nível universal, a Igreja abriu então verdadeiras auto-estradas de acesso ao poder e às formas de destruição do Estado laico, democrático e social. Usou, para tanto, de todas as armas disponíveis, desde a diplomacia à compra silenciosa das consciências. Nesta gigantesca «revolução de veludo», desempenharam papel determinante as operações realizadas à sombra das concordatas firmadas com o capitalismo em vários estados europeus. Quando, enfim, se estabeleceu a União Europeia, o que era particular nas concordatas transformou-se em lei geral e em em norma legal de cumprimento obrigatório, mesmo nos estados comunitários que anteriormente se tinham negado a negociar com a Santa Sé.
Como é evidente, todos estes mega-negócios entre os poderes laicos e capitalistas e o Vaticano foram protegidos por um manto do mais completo sigilo. Mas a prática veio revelar essas relações íntimas entre a cruz e o cifrão : os políticos e os banqueiros discursam como que a pregar os mitos proclamados pelos antigos profetas ; os escândalos financeiros continuaram a estoirar por toda a parte, perante a passividade dos papas, dos bispos e cardeais. Foi reforçada a impunidade implicitamente reconhecida a políticos e ao clero. A tal ponto que é já facto consumado admitir-se ter-se instalado entre os que podem e mandam o crime organizado e aceitar-se que contra isso nada se pode fazer a não ser «resignarmo-nos e perdoar».
Esta filosofia permissiva fez caminho com os «valores cristãos e concordatários» e permitiu que os grandes crimes sociais ficassem por punir. Neste sentido, há-que reconhecer que o pacto europeu entre a Igreja e o capital teve êxito assinalável. Que dimensão terá a massa financeira entretanto desviada dos orçamentos públicos para a assistência confessional sócio-caritativa privada? Que aplicações foram dadas a esse dinheiro ? Que histórias macabras se ocultam atrás dos offshores , dos roubos da banca ou das falências fraudulentas ? Que vem a ser, afinal, essa rábula litúrgica que é a «conversão dos ricos ao combate à pobreza»? Não há sistemas efectivos de controlo fiscal sobre esses valores multimilionários, tudo se anuncia ir ser investigado e nada se investiga. Que respeito merecem à Comissão Europeia e ao Vaticano as normas constitucionais expressas pelo voto democrático das populações que sofrem os efeitos reais de todos esses crimes e vêem alargado, dia após dia, o fosso catastrófico que separa ricos e pobres?

Jogar «às escondidas»...

O alto clero gosta de reeditar a seu favor a velha história do metafísico distraído que um dia, mergulhado nas suas reflexões não reparou no poço que estava no seu caminho e nele acabou por cair. Os cardeais revelam comportamento semelhante quando se trata de jogar com os seus silêncios perante os crimes cometidos pelos ricos sobre os pobres. Sabem e não sabem. Estão presentes e não estão, segundo o que mais lhes convenha. A Igreja condena a «pobreza» imposta pelos ricos mas é à custa dela que vai resolvendo os seus próprios problemas e materialmente prospera. Na Europa do dinheiro, bem instalada na sua «crise financeira», abundam os exemplos destas cumplicidades do «bate e foge».
Segundo as estatísticas oficiais do Estado – torcidas e retorcidas pelos ministros sem escrúpulos de Sócrates – existem em Portugal 700 mil desempregados, número em crescimento mas que, mesmo assim, fica muito aquém da realidade. O desemprego é a fonte principal da miséria entre os pobres. E é, por outro lado, um dos factores principais do aumento dos lucros entre os ricos. Atrás de cada desempregado perfila-se uma família. Em toda a sua crueza, a leitura das estatísticas do desemprego tem de ter em conta esta verdade.
Mas o desemprego não surge por geração espontânea. Resulta do aventureirismo empresarial, da ganância do lucro, do oportunismo da especulação ou do simples desprezo pelos direitos da condição humana. Tudo, anti-valores que a Igreja diz condenar. Mas a «doutrina social da Igreja», sempre que fala em pobreza remete para o divino o que é culpa da organização da sociedade.
A este assunto apaixonante, voltaremos.

Jorge Messias (Jornal Avante)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Politica

POLITZER


CAPÍTULO II
QUE SIGNIFICA SER MATERIALISTA?
I. — União da teoria e da prática.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
III. — Como se é materialista na prática?
a) Primeiro aspecto da questão.
b) Segundo aspecto da questão.
IV. — Conclusão.
I. — União da teoria e da prática.
O estudo que prosseguimos tem por fim fazer conhecer o que é o marxismo, ver como a filosofia do
materialismo, tornando-se dialéctica, se identifica com o marxismo. Sabemos já que um dos fundamentos
desta filosofia é a estreita ligação entre a teoria e a prática.
É por isso que, depois de ter visto o que é a matéria para os materialistas, em seguida, como ela é, é
indispensável dizer, após estas duas questões teóricas, o que significa ser materialista, isto é, como age o
materialista. É o lado prático destes problemas.
A base do materialismo é o reconhecimento do ser como origem do pensamento. Mas basta repetir isso
continuamente? Para ser um verdadeiro adepto do materialismo consequente, é preciso sê-lo:
1. no domínio do pensamento;
2. no domínio da acção.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
Ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento é, conhecendo a fórmula fundamental do
materialismo - o ser produz o pensamento -, saber como se pode aplicar essa fórmula.
Quando dizemos: o ser produz o pensamento, temos uma fórmula abstracta, porque as palavras: ser e
pensamento são abstractas. O «ser», é do ser em geral que se trata; o «pensamento», é do pensamento em
geral que se quer falar. O ser, assim como o pensamento em geral, é uma realidade subjectiva (ver primeira
parte, capítulo IV, a explicação de «realidade subjectiva» e de «realidade objectiva»); isso não existe: é o que
se chama uma abstracção. Dizer: o «ser produz o pensamento» é, pois, uma fórmula abstracta, porque
composta de abstracções.
Assim, por exemplo: conhecemos bem os cavalos, mas se falamos do cavalo, é do cavalo em geral que
queremos falar; pois bem, o cavalo em geral é uma abstracção.
Se pomos, no lugar do cavalo, o homem ou o ser em geral, são ainda abstracções.
Mas se o cavalo em geral não existe, que é que existe? São os cavalos em particular. O veterinário que
dissesse: «Trato do cavalo em geral, mas não do cavalo em particular» seria ridículo; tal como o médico
que mantivesse os mesmos propósitos acerca dos homens.
O ser em geral não existe, portanto; o que existe são seres particulares, que têm qualidades próprias.
Acontece o mesmo com o pensamento.
Diremos, pois, que o ser em geral é qualquer coisa de abstracto e que o ser particular é qualquer coisa de
concreto; assim como o pensamento em geral e o pensamento particular.
Com efeito, estes últimos não souberam ou não quiseram arrumar as suas ideias. Estão em perpétua
contradição com eles próprios. Separam os seus trabalhos, forçosamente materialistas, das suas concepções
filosóficas. São «sábios», e, todavia, se não negam expressamente a existência da matéria, pensam, o que é
pouco científico, que é inútil conhecer a natureza real das coisas. São «sábios», e, no entanto, acreditam, sem
nenhuma prova, em coisas impossíveis. (Ver os casos de Pasteur, Branly e outros que eram crentes, enquanto
que o sábio, se é consequente, deve abandonar a sua crença religiosa.) Ciência e crença opõem-sc
absolutamente.
2. Segundo aspecto da questão .
O materialismo e a acção: Se é verdade que o verdadeiro materialista é aquele que aplica a fórmula que é a
base desta filosofia, em toda a parte e em todos os casos, deve prestar atenção em aplicá-la bem.
Como acabamos de ver, é preciso ser consequente, e, para ser um materialista consequente, transpor o
materialismo para a acção.
Ser materialista na prática é agir em conformidade com a filosofia, tomando por factor primeiro, e o mais
importante, a realidade, e por segundo, o pensamento.
Vamos ver que atitudes assumem os que, sem hesitar, tomam o pensamento pelo factor primeiro, e são,
portanto, nesse momento, idealistas sem o saber.
1. Como se chama o que vive como se estivesse só no mundo? Individualista. Vive curvado sobre si mesmo;
o mundo exterior só existe para ele. Para ele, o importante é ele, é o seu pensamento. É um puro idealista, ou
o que se chama um solipsista. (Ver explicação desta palavra, primeira parte, cap. II.)
O individualista é egoísta, e ser egoísta não é uma atitude materialista. O egoísta limita o universo à sua
própria pessoa.
2. O que aprende pelo prazer de aprender, como diletante, por ele, assimila bem, não tem dificuldades, mas
guarda isso só para si. Concede uma importância primeira a ele próprio, ao seu pensamento.
O idealista é fechado ao mundo exterior, à realidade. O materialista é sempre aberto à realidade; é por isso
que aqueles que seguem cursos de marxismo, e que aprendem facilmente, devem tentar transmitir o que
aprendem.
3. O que raciocina em todas as coisas relacionando-as consigo mesmo sofre uma deformação idealista.
Dirá, por exemplo, de uma reunião onde foram ditas coisas desagradáveis para ele: «É uma reunião
maldizente». Não é assim que as coisas devem ser analisadas; é preciso julgar a reunião relacionando-a com
a organização, a sua finalidade, e não em relação consigo mesmo.
4. O sectarismo também não é uma atitude materialista. Porque o sectário que compreendeu os problemas, e
está de acordo consigo próprio, pretende que os outros devem ser como ele. É dar ainda a importância
primeira a si ou a uma facção.
5. O doutrinário que estudou os textos, tirou definições, é ainda um idealista quando se contenta em citar
textos materialistas, quando vive somente com os seus textos, porque o mundo real então desaparece. Repete
essas fórmulas sem na realidade as aplicar. Dá a importância primeira aos textos, às ideias. A vida desenrolase
na sua consciência sob a forma de textos, e, em geral, constata-se que o doutrinário é também um sectário.
Crer que a revolução é uma questão de educação, dizer que explicando, «de uma vez para sempre», aos
operários a necessidade da revolução eles devem compreender, e que, se não querem compreender, não vale
a pena tentar fazer a revolução, é sectarismo, não uma atitude materialista.
Devemos constatar os casos em que as pessoas não compreendem; procurar saber porque tal acontece,
constatar a repressão, a propaganda dos jornais burgueses, rádio, cinema, etc, procurando todos os meios
possíveis para fazer compreender o que queremos, pelos panfletos, brochuras, jornais, escolas, etc.
Não ter o sentido das realidades, viver na lua e, praticamente, fazer projectos não tendo em nenhuma conta
situações, realidades, é uma atitude idealista que concede a importância primeira aos belos projectos, sem ver
se são realizáveis ou não. Os que criticam continuamente, mas que nada fazem para que as coisas melhorem,
não propondo nenhum remédio, aqueles a quem falta senso crítico para com eles próprios, todos esses são
materialistas não consequentes.
IV. — Conclusão.
Por estes exemplos, vemos que os defeitos, que podemos constatar mais ou menos em cada um de nós, são
idealistas. Somos atingidos, porque separamos a prática da teoria e a burguesia, que nos influenciou, gosta
que não liguemos importância à realidade. Para ela, que defende o idealismo, a teoria e a prática são duas
coisas totalmente diferentes e sem nenhuma relação. Tais defeitos são, pois, nocivos, e devemos combatê-los,
porque aproveitam, no fim de contas, à burguesia. Numa palavra, devemos constatar que esses defeitos,
produzidos em nós pela sociedade, pelas bases teóricas da nossa educação, da nossa cultura, enraizados na
nossa infância, são obra da burguesia - e desembaraçar-nos deles.

Quelha Funda

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Política

A Matéria e os Materialistas ( De Gorges Politzer)

I. — O que é a matéria?
Importância da pergunta. Cada vez que temos um problema a resolver, devemos pôr as perguntas
bem claramente. Com efeito, aqui, não é tão simples dar uma resposta satisfatória. Para conseguir
isso, devemos fazer uma teoria da matéria.
Em geral, as pessoas pensam que a matéria é o que pode ser tocado, o que é resistente e duro. Na
antiguidade grega, era assim que se definia a matéria.
Hoje, sabemos, graças às ciências, que isso não é exacto.
II. — Teorias sucessivas da matéria.
(O nosso objectivo é passar em revista, o mais simplesmente possível, as diversas teorias relativas à
matéria, sem entrar em explicações científicas.)
Na Grécia, pensava-se que a matéria era uma realidade cheia e impenetrável, que, até ao infinito,
não podia dividir-se. Chega um momento, dizia-se, em que as partículas são indivisíveis; e, a tais
partículas, deu-se o nome de átomos (átomo = indivisível). Uma mesa é, então, um aglomerado de
átomos. Pensava-se, também, que esses átomos eram diferentes uns dos outros: havia os lisos e
redondos, como os do azeite, e os rugosos e curvos, como os do vinagre.
Foi Demócrito, um materialista da antiguidade, que pôs de pé esta teoria; foi ele que, primeiro,
tentou dar uma explicação materialista do mundo. Pensava, por exemplo, que o corpo humano era
composto por átomos grosseiros, que a alma era um aglomerado de átomos mais finos e, como
admitia a existência dos deuses, e quisesse explicar tudo como materialista, afirmava que os
próprios deuses eram compostos por átomos extrafinos.
No século XIX, esta teoria modificou-se profundamente.
Pensava-se sempre que a matéria se dividia em átomos, que estes eram partículas muito duras atraindo-se
umas às outras. Abandonara-se a teoria, dos Gregos, e os átomos já não eram curvos ou lisos, mas continuava
a sustentar-se que eram impenetráveis, indivisíveis e sofriam um movimento de atracção uns contra os
outros.
Hoje, demonstra-se que o átomo não c um grão de matéria impenetrável e insecável (isto é, indivisível), mas
que se compõe de partículas denominadas electrões girando a enorme velocidade à volta de um núcleo, onde
se encontra condensada a quase totalidade da massa do átomo. Se este é neutro, electrões e núcleo têm uma
carga eléctrica, mas a carga positiva do núcleo é igual à soma das cargas negativas transportadas pelos
electrões. A matéria é um aglomerado desses átomos, e se opõe uma resistência à penetração é precisamente
por causa do movimento das partículas que a compõem.
A descoberta destas propriedades eléctricas da matéria e, em particular, a dos electrões provocou, no
princípio do século XX, um assalto dos idealistas contra a própria existência da matéria.
«O electrão não tem nada de material, pretendiam eles. É apenas uma carga eléctrica em movimento. Se não
há matéria na carga negativa, por que a haveria no núcleo positivo? Portanto, a matéria deixou de existir. Só
há energia!»
Lenine, em «Materialismo e empirocriticismo» (cap. V), repôs as coisas no seu devido lugar, mostrando que
energia e matéria são inseparáveis. A energia é material, e o movimento é apenas o modo de existência da
matéria. Em suma, os idealistas interpretavam ao contrário as descobertas da ciência. No momento em que
esta punha em evidência aspectos da matéria ignorados até então, concluíam que a matéria não existe, sob
pretexto de que não é semelhante à ideia que dela se fazia outrora, quando se acreditava que matéria e
movimento eram duas realidades distintas22.
III. — O que é a matéria para os materialistas.
Sobre este assunto, é indispensável fazer uma distinção. Trata-se de ver, em primeiro lugar:
1. O que é a matéria?
depois,
2. Como é a matéria?
A resposta que os materialistas dão à primeira pergunta é que a matéria é uma realidade exterior,
independente do espírito, e que não necessita deste para existir. Lenine diz, a propósito:
A noção de matéria exprime apenas a realidade objectiva que nos é dada na sensação23.
Quanto à segunda pergunta: «Como é a matéria?», os materialistas dizem: «Não é a nós que compete
responder, é à ciência».
22 A II parte deste capítulo foi refeita com a ajuda de Luce Langevin e Jean Orcei. Sobre o progresso realizado depois
do princípio do século no estudo da estrutura da matéria, ver F. JOI-IOT-CURIE: «Textos escolhidos», Edições sociais,
pp. 85-89.
23 LÉNINE: «Materialismo e empirocriticismo», Ed. Avante 1982
A primeira resposta não mudou da antiguidade aos nossos dias.
A segunda mudou e deve mudar, porque depende das ciências, do estado dos conhecimentos humanos. Não é
uma resposta definitiva.
Vemos que é absolutamente indispensável pôr bem o problema e não deixar os idealistas misturar as duas
perguntas. É preciso separá-las bem, mostrar que a primeira é a principal e que a nossa resposta ao assunto é,
desde sempre, invariável.
Porque, a única «propriedade» da matéria cuja admissão definiu o materialismo filosófico é ser uma
realidade objectiva, existir fora da nossa consciência24.
IV. — O espaço, o tempo, o movimento e a matéria.
Se afirmamos, porque o constatamos, que a matéria existe fora de nós, precisamos, também:
1. Que a matéria existe no tempo e no espaço.
2. Que a matéria está em movimento.
Os idealistas, esses pensam que o espaço e o tempo são ideias do nosso espírito {é Kant quem, primeiro, tal
defendeu). Para eles, o espaço é uma forma que damos às coisas, nasceu do espírito do homem. O mesmo
acontece em relação ao tempo.
Os materialistas afirmam, pelo contrário, que o espaço não está em nós, nós é que estamos nele. Afirmam,
também, que o tempo é uma condição indispensável ao desenvolvimento da nossa vida; e que, por
consequência, o tempo e o espaço são inseparáveis do que existe fora de nós, isto é, da matéria.
...As formas fundamentais de todo o ser são o espaço e o tempo, e um ser fora do tempo é um absurdo tão
grande como um ser fora do espaço25.
Pensamos, portanto, que há uma realidade independente da consciência. Acreditamos que o mundo existiu
antes de nós e que, depois de nós, continuará a existir. Acreditamos que o mundo, para existir, não precisa de
nós. Estamos persuadidos que Paris existiu antes de nascermos e, a menos que seja definitivamente arrazada,
existirá depois da nossa morte. Estamos certos que Paris existe, mesmo quando não pensamos nisso, do
mesmo modo que há dezenas de milhares de cidades que nunca visitámos, de que nem sequer sabemos o
nome, e que, todavia, existem. Tal é a convicção geral da humanidade. As ciências permitiram dar a este
argumento uma precisão e uma firmeza que aniquilam as astúcias idealistas.
As ciências da natureza afirmam positivamente que a terra existiu em estados tais, que nem o homem, nem
nenhum ser vivo a habitava, nem podia habitar. A matéria orgânica é um fenómeno tardio, o produto de uma
evolução muito longa26.
Se as ciências nos fornecem, portanto, a prova de que a matéria existe no tempo e no espaço, ensinam-nos,
ao mesmo tempo, que está em movimento. Esta última precisão, que as ciências modernas nos forneceram, é
muito importante, porque destruiu a velha teoria segundo a qual a matéria seria incapaz de movimento,
inerte.
O movimento é o modo de existência da matéria... A matéria sem movimento é tão inconcebível como o
movimento sem matéria27
24
Sabemos que o mundo, no seu estado actual, é o resultado, em todos os domínios, de uma longa evolução e,
por consequência, de um movimento lento, mas contínuo. Precisamos, portanto, depois de ter demonstrado a'
existência da matéria, que
o universo é apenas matéria em movimento, e esta matéria em movimento só se pode mover no espaço e no
tempo28.
V. — Conclusão.
Resulta destas constatações que, a ideia de Deus, a ideia de um «puro espírito» criador do universo não tem
sentido, porque um Deus fora do espaço e do tempo é qualquer coisa que não pode existir.
É preciso participar da mística idealista, por consequência, não admitir nenhum controlo científico, para
acreditar num Deus existindo fora do tempo, isto é, não existindo em nenhum momento, e existindo fora do
espaço, ou seja, não existindo em parte alguma.
Os materialistas, seguros das conclusões das ciências, afirmam que a matéria existe no espaço e num dado
momento (no tempo). Por consequência, o universo não pôde ser criado, porque teria sido preciso a Deus,
para poder criar o mundo, um momento que não existiu em nenhum momento (uma vez que o tempo para
Deus não existe), e seria preciso, também, que de nada saísse o mundo.
Para admitir a criação, é preciso, pois, admitir, em primeiro lugar,, que houve um momento em que o
universo não existia, depois, que de nada saiu qualquer coisa, o que a ciência não pode admitir.
Vemos que os argumentos dos idealistas, confrontados com as ciências, não podem manter-se, enquanto que
os dos filósofos materialistas não podem ser separados das próprias ciências. Sublinhamos assim, uma vez
mais, as relações íntimas que ligam o materialismo e as ciências.


Politzer

domingo, 11 de julho de 2010

Politica e Religião

Os silêncios da fé
A Igreja católica instalou-se em Portugal a par da formação e desenvolvimento de outras classes poderosas de grandes senhores senhores feudais, nomeadamente a dos terra-tenentes que dominavam a economia e as técnicas da guerra. Logo que o território conquistado se constituiu em Condado a Igreja, como classe dirigente mais culta e esclarecida, apoderou-se facilmente da gestão dos negócios públicos e transformou-se, ela própria, em importante factor da economia privada e em elemento central do aparelho militar da Conquista e da Expansão. O Estado, edificado sobre as misérias e os sofrimentos do povo, lançando as massas umas contra as outras e impondo castas de senhores das guerras, da aventura e do comércio, era intransigentemente confessional. O povo português, aristocraticamente ignorado pelo poder, via nos nobres, no rei e na Igreja o espelho de todas as virtudes. À Igreja, em particular, incumbia dissolver em caldos da religião as sementes amargas das iras e das rebeliões populares.
O tempo foi passando, os homens transformaram-se e a sociedade também, mas a Igreja permaneceu estática, dogmática e inamovível. Assim continua e é esse, hoje em dia, o seu problema central. A hierarquia domina o clero e o laicado e é aliada preferencial dos ricos, em cujos interesses participa. Mas sabe que dar a público esse verdadeiro rosto é coisa que de modo algum lhe convém. Por isso tenta controlar e conduzir os crentes propondo parábolas maravilhosas e enredando-se cada vez mais nas mentiras e intrigas que permitam à hierarquia aproveitar, nos quadros do mais feroz capitalismo e até ao último suspiro, o que resta da noção de religião e parte do povo português ainda cultiva.

A quem e de quê falam os bispos?

Em entrevista recentemente concedida a um diário de grande distribuição, o actual cardeal-patriarca português, D. José Policarpo, fez declarações que, não sendo de espantar, ajudam a compreender algumas das razões que conduziram ao atoleiro onde a Igreja portuguesa, pelos seus próprios meios, se meteu. As palavras do cardeal foram reveladoras das angústias eclesiais mas omitiram deliberadamente as questões vitais com que se debate o povo português que, naturalmente, inclui uma larga faixa de católicos pobres. Trata-se de uma habilidosa montagem verbal, tão ao gosto das igrejas encalhadas no tempo. O que se diz é sempre menos importante do que aquilo de que se fala.
Tentou D. José justificar os comportamentos da Igreja portuguesa, declarando: «Estamos a cair na situação anacrónica em que qualquer intervenção da Igreja – e de modo particular da sua hierarquia – em dimensões fundamentais… é facilmente julgada como intervenção na esfera do estritamente político». Depois, desenvolveu esta posição: «A hierarquia, por decisão própria e em defesa do carácter específico do seu magistério, abstém-se habitualmente de se imiscuir no âmbito do estritamente político». Em seguida, o cardeal vai ao que mais interessa. «Mas os cristãos leigos não são a isso obrigados e devem ser porta-vozes no seio da sociedade dos autênticos valores cristãos. Cristãos leigos devem ser porta-vozes da Igreja». E D. José especifica: «Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Cristo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação». Em resumo: o cardeal-patriarca português reconhece a gravidade da situação social de crise permanente, alude à falta de ética da vida política do regime e refere vagamente autênticos valores cristãos que o povo sabe, por experiência própria, não serem os que norteiam o capitalismo e a Igreja. E louva, em contrapartida, a sabedoria da Conferência Episcopal que consiste em ver, ouvir e calar. Vai por fim ao ponto de apelar aos cristãos para que formem uma base sólida à política de espoliação que se encobre nos silêncios e nas fantasias da actual governação. Nem uma só vez D. José referiu o povo ou identificou os responsáveis pelo desemprego, pela subida do custo de vida, pela injustiça da distribuição da riqueza ou pela política financeira portuguesa. Apelou às vítimas para que mobilizem a sua fé a favor da sôfrega ambição dos seus carrascos.
O filme que se desenrola à frente dos nossos olhos torna evidente que Portugal tende a parar no tempo. São os políticos que se imitam uns aos outros e respeitam um mesmo figurino. São os grandes capitalistas que geram a crise e a aproveitam para mais enriquecer. São os filantropos que falam, tal como D. José, nos autênticos valores cristãos, para desenvolverem os seus negócios, ocultarem as fraudes e aprofundarem o fosso entre os ricos e os pobres. E é um Estado que rapidamente se demite da sua condição.
Para pormos Portugal em movimento é imperioso fazermos justamente o oposto àquilo que o cardeal aconselha. É preciso intensificarmos a luta pela ruptura e pela mudança. E temos de subir ao alto das montanhas para denunciarmos aos quatro cantos da terra o que se passa neste país.
Só assim poderemos construir um país novo, a partir de uma visão universal de justiça. Uma terra com desenvolvimento económico e liberdade intelectual. Onde credos e convicções sejam respeitados num plano de igualdade. País novo onde se abram as portas do futuro e se trace um novo rumo em Portugal no âmbito de uma democracia real e avançada, até ao Socialismo.
Tarefa árdua, tarefa dura e cheia de perigos, mas caminho que deve se percorrido, lado a lado, pelos homens e mulheres honestos que têm os olhos postos no Homem e pelos homens e mulheres honestos que têm os olhos postos nos Céus.

Jorge Messias (Jornal Avante)

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