POLITZER
CAPÍTULO II
QUE SIGNIFICA SER MATERIALISTA?
I. — União da teoria e da prática.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
III. — Como se é materialista na prática?
a) Primeiro aspecto da questão.
b) Segundo aspecto da questão.
IV. — Conclusão.
I. — União da teoria e da prática.
O estudo que prosseguimos tem por fim fazer conhecer o que é o marxismo, ver como a filosofia do
materialismo, tornando-se dialéctica, se identifica com o marxismo. Sabemos já que um dos fundamentos
desta filosofia é a estreita ligação entre a teoria e a prática.
É por isso que, depois de ter visto o que é a matéria para os materialistas, em seguida, como ela é, é
indispensável dizer, após estas duas questões teóricas, o que significa ser materialista, isto é, como age o
materialista. É o lado prático destes problemas.
A base do materialismo é o reconhecimento do ser como origem do pensamento. Mas basta repetir isso
continuamente? Para ser um verdadeiro adepto do materialismo consequente, é preciso sê-lo:
1. no domínio do pensamento;
2. no domínio da acção.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
Ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento é, conhecendo a fórmula fundamental do
materialismo - o ser produz o pensamento -, saber como se pode aplicar essa fórmula.
Quando dizemos: o ser produz o pensamento, temos uma fórmula abstracta, porque as palavras: ser e
pensamento são abstractas. O «ser», é do ser em geral que se trata; o «pensamento», é do pensamento em
geral que se quer falar. O ser, assim como o pensamento em geral, é uma realidade subjectiva (ver primeira
parte, capítulo IV, a explicação de «realidade subjectiva» e de «realidade objectiva»); isso não existe: é o que
se chama uma abstracção. Dizer: o «ser produz o pensamento» é, pois, uma fórmula abstracta, porque
composta de abstracções.
Assim, por exemplo: conhecemos bem os cavalos, mas se falamos do cavalo, é do cavalo em geral que
queremos falar; pois bem, o cavalo em geral é uma abstracção.
Se pomos, no lugar do cavalo, o homem ou o ser em geral, são ainda abstracções.
Mas se o cavalo em geral não existe, que é que existe? São os cavalos em particular. O veterinário que
dissesse: «Trato do cavalo em geral, mas não do cavalo em particular» seria ridículo; tal como o médico
que mantivesse os mesmos propósitos acerca dos homens.
O ser em geral não existe, portanto; o que existe são seres particulares, que têm qualidades próprias.
Acontece o mesmo com o pensamento.
Diremos, pois, que o ser em geral é qualquer coisa de abstracto e que o ser particular é qualquer coisa de
concreto; assim como o pensamento em geral e o pensamento particular.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Com efeito, estes últimos não souberam ou não quiseram arrumar as suas ideias. Estão em perpétua
contradição com eles próprios. Separam os seus trabalhos, forçosamente materialistas, das suas concepções
filosóficas. São «sábios», e, todavia, se não negam expressamente a existência da matéria, pensam, o que é
pouco científico, que é inútil conhecer a natureza real das coisas. São «sábios», e, no entanto, acreditam, sem
nenhuma prova, em coisas impossíveis. (Ver os casos de Pasteur, Branly e outros que eram crentes, enquanto
que o sábio, se é consequente, deve abandonar a sua crença religiosa.) Ciência e crença opõem-sc
absolutamente.
2. Segundo aspecto da questão .
O materialismo e a acção: Se é verdade que o verdadeiro materialista é aquele que aplica a fórmula que é a
base desta filosofia, em toda a parte e em todos os casos, deve prestar atenção em aplicá-la bem.
Como acabamos de ver, é preciso ser consequente, e, para ser um materialista consequente, transpor o
materialismo para a acção.
Ser materialista na prática é agir em conformidade com a filosofia, tomando por factor primeiro, e o mais
importante, a realidade, e por segundo, o pensamento.
Vamos ver que atitudes assumem os que, sem hesitar, tomam o pensamento pelo factor primeiro, e são,
portanto, nesse momento, idealistas sem o saber.
1. Como se chama o que vive como se estivesse só no mundo? Individualista. Vive curvado sobre si mesmo;
o mundo exterior só existe para ele. Para ele, o importante é ele, é o seu pensamento. É um puro idealista, ou
o que se chama um solipsista. (Ver explicação desta palavra, primeira parte, cap. II.)
O individualista é egoísta, e ser egoísta não é uma atitude materialista. O egoísta limita o universo à sua
própria pessoa.
2. O que aprende pelo prazer de aprender, como diletante, por ele, assimila bem, não tem dificuldades, mas
guarda isso só para si. Concede uma importância primeira a ele próprio, ao seu pensamento.
O idealista é fechado ao mundo exterior, à realidade. O materialista é sempre aberto à realidade; é por isso
que aqueles que seguem cursos de marxismo, e que aprendem facilmente, devem tentar transmitir o que
aprendem.
3. O que raciocina em todas as coisas relacionando-as consigo mesmo sofre uma deformação idealista.
Dirá, por exemplo, de uma reunião onde foram ditas coisas desagradáveis para ele: «É uma reunião
maldizente». Não é assim que as coisas devem ser analisadas; é preciso julgar a reunião relacionando-a com
a organização, a sua finalidade, e não em relação consigo mesmo.
4. O sectarismo também não é uma atitude materialista. Porque o sectário que compreendeu os problemas, e
está de acordo consigo próprio, pretende que os outros devem ser como ele. É dar ainda a importância
primeira a si ou a uma facção.
5. O doutrinário que estudou os textos, tirou definições, é ainda um idealista quando se contenta em citar
textos materialistas, quando vive somente com os seus textos, porque o mundo real então desaparece. Repete
essas fórmulas sem na realidade as aplicar. Dá a importância primeira aos textos, às ideias. A vida desenrolase
na sua consciência sob a forma de textos, e, em geral, constata-se que o doutrinário é também um sectário.
Crer que a revolução é uma questão de educação, dizer que explicando, «de uma vez para sempre», aos
operários a necessidade da revolução eles devem compreender, e que, se não querem compreender, não vale
a pena tentar fazer a revolução, é sectarismo, não uma atitude materialista.
contradição com eles próprios. Separam os seus trabalhos, forçosamente materialistas, das suas concepções
filosóficas. São «sábios», e, todavia, se não negam expressamente a existência da matéria, pensam, o que é
pouco científico, que é inútil conhecer a natureza real das coisas. São «sábios», e, no entanto, acreditam, sem
nenhuma prova, em coisas impossíveis. (Ver os casos de Pasteur, Branly e outros que eram crentes, enquanto
que o sábio, se é consequente, deve abandonar a sua crença religiosa.) Ciência e crença opõem-sc
absolutamente.
2. Segundo aspecto da questão .
O materialismo e a acção: Se é verdade que o verdadeiro materialista é aquele que aplica a fórmula que é a
base desta filosofia, em toda a parte e em todos os casos, deve prestar atenção em aplicá-la bem.
Como acabamos de ver, é preciso ser consequente, e, para ser um materialista consequente, transpor o
materialismo para a acção.
Ser materialista na prática é agir em conformidade com a filosofia, tomando por factor primeiro, e o mais
importante, a realidade, e por segundo, o pensamento.
Vamos ver que atitudes assumem os que, sem hesitar, tomam o pensamento pelo factor primeiro, e são,
portanto, nesse momento, idealistas sem o saber.
1. Como se chama o que vive como se estivesse só no mundo? Individualista. Vive curvado sobre si mesmo;
o mundo exterior só existe para ele. Para ele, o importante é ele, é o seu pensamento. É um puro idealista, ou
o que se chama um solipsista. (Ver explicação desta palavra, primeira parte, cap. II.)
O individualista é egoísta, e ser egoísta não é uma atitude materialista. O egoísta limita o universo à sua
própria pessoa.
2. O que aprende pelo prazer de aprender, como diletante, por ele, assimila bem, não tem dificuldades, mas
guarda isso só para si. Concede uma importância primeira a ele próprio, ao seu pensamento.
O idealista é fechado ao mundo exterior, à realidade. O materialista é sempre aberto à realidade; é por isso
que aqueles que seguem cursos de marxismo, e que aprendem facilmente, devem tentar transmitir o que
aprendem.
3. O que raciocina em todas as coisas relacionando-as consigo mesmo sofre uma deformação idealista.
Dirá, por exemplo, de uma reunião onde foram ditas coisas desagradáveis para ele: «É uma reunião
maldizente». Não é assim que as coisas devem ser analisadas; é preciso julgar a reunião relacionando-a com
a organização, a sua finalidade, e não em relação consigo mesmo.
4. O sectarismo também não é uma atitude materialista. Porque o sectário que compreendeu os problemas, e
está de acordo consigo próprio, pretende que os outros devem ser como ele. É dar ainda a importância
primeira a si ou a uma facção.
5. O doutrinário que estudou os textos, tirou definições, é ainda um idealista quando se contenta em citar
textos materialistas, quando vive somente com os seus textos, porque o mundo real então desaparece. Repete
essas fórmulas sem na realidade as aplicar. Dá a importância primeira aos textos, às ideias. A vida desenrolase
na sua consciência sob a forma de textos, e, em geral, constata-se que o doutrinário é também um sectário.
Crer que a revolução é uma questão de educação, dizer que explicando, «de uma vez para sempre», aos
operários a necessidade da revolução eles devem compreender, e que, se não querem compreender, não vale
a pena tentar fazer a revolução, é sectarismo, não uma atitude materialista.
Devemos constatar os casos em que as pessoas não compreendem; procurar saber porque tal acontece,
constatar a repressão, a propaganda dos jornais burgueses, rádio, cinema, etc, procurando todos os meios
possíveis para fazer compreender o que queremos, pelos panfletos, brochuras, jornais, escolas, etc.
Não ter o sentido das realidades, viver na lua e, praticamente, fazer projectos não tendo em nenhuma conta
situações, realidades, é uma atitude idealista que concede a importância primeira aos belos projectos, sem ver
se são realizáveis ou não. Os que criticam continuamente, mas que nada fazem para que as coisas melhorem,
não propondo nenhum remédio, aqueles a quem falta senso crítico para com eles próprios, todos esses são
materialistas não consequentes.
IV. — Conclusão.
Por estes exemplos, vemos que os defeitos, que podemos constatar mais ou menos em cada um de nós, são
idealistas. Somos atingidos, porque separamos a prática da teoria e a burguesia, que nos influenciou, gosta
que não liguemos importância à realidade. Para ela, que defende o idealismo, a teoria e a prática são duas
coisas totalmente diferentes e sem nenhuma relação. Tais defeitos são, pois, nocivos, e devemos combatê-los,
porque aproveitam, no fim de contas, à burguesia. Numa palavra, devemos constatar que esses defeitos,
produzidos em nós pela sociedade, pelas bases teóricas da nossa educação, da nossa cultura, enraizados na
nossa infância, são obra da burguesia - e desembaraçar-nos deles.
Quelha Funda
constatar a repressão, a propaganda dos jornais burgueses, rádio, cinema, etc, procurando todos os meios
possíveis para fazer compreender o que queremos, pelos panfletos, brochuras, jornais, escolas, etc.
Não ter o sentido das realidades, viver na lua e, praticamente, fazer projectos não tendo em nenhuma conta
situações, realidades, é uma atitude idealista que concede a importância primeira aos belos projectos, sem ver
se são realizáveis ou não. Os que criticam continuamente, mas que nada fazem para que as coisas melhorem,
não propondo nenhum remédio, aqueles a quem falta senso crítico para com eles próprios, todos esses são
materialistas não consequentes.
IV. — Conclusão.
Por estes exemplos, vemos que os defeitos, que podemos constatar mais ou menos em cada um de nós, são
idealistas. Somos atingidos, porque separamos a prática da teoria e a burguesia, que nos influenciou, gosta
que não liguemos importância à realidade. Para ela, que defende o idealismo, a teoria e a prática são duas
coisas totalmente diferentes e sem nenhuma relação. Tais defeitos são, pois, nocivos, e devemos combatê-los,
porque aproveitam, no fim de contas, à burguesia. Numa palavra, devemos constatar que esses defeitos,
produzidos em nós pela sociedade, pelas bases teóricas da nossa educação, da nossa cultura, enraizados na
nossa infância, são obra da burguesia - e desembaraçar-nos deles.
Quelha Funda
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