Novas tarefas e novas forças
O tema que aqui figura como título foi sorvido na imortal obra de Vladímir Ilitch Lénine. Implica o tactear dos percursos da unidade da classe operária em vésperas da mudança revolucionária da sociedade capitalista burguesa. E permite, por comparação, preverem-se os tempos que aí vêm, a partir dos tempos que passaram.
Na Rússia czarista, sobretudo depois da chacina de milhares de manifestantes, em S. Petersburgo (1905), explodiu espontaneamente uma insurreição caracterizada pelas greves em cadeia da classe operária e pelas revoltas dos militares e dos camponeses. Os marinheiros do «Potenkine» sublevaram-se. Por toda a Rússia surgiram levantamentos, da Frota do Mar Negro aos sovietes de Moscovo, de Kiev, de Odessa, de Samara, de Rostov, etc. Através de múltiplas paralisações, o proletariado lutou pela jornada de trabalho das oito horas diárias e aproximou-se dos «camponeses sem terra» e dos excluídos (a Rússia czarista albergava 10 milhões de miseráveis desprovidos de qualquer rendimento). Dir-se-ia ser inevitável o triunfo da Revolução.
Mas o poder czarista tudo afogou em sangue. Bastaram dois anos para asfixiar a revolta popular. Às insurreições dispersas seguiram-se doze anos do mais intenso terror. O essencial do aparelho revolucionário foi desmantelado e o passo dado em frente transformou-se em dois passos atrás. Cem anos depois, a história desses acontecimentos passou a constituir um guia para a acção revolucionária.
Apesar da passagem dos anos, o contexto russo e o mundo circundante de que fazia parte revelam afinidades impressionantes entre um passado que não esquece e um presente em constante movimento. A Europa era - e é - imperialista. Os Estados Unidos da América constituíam já - e constituem - o núcleo central do grande capital monopolista. Os campos estavam - e estão - votados ao abandono. Era abismal – e assim continua a ser - o fosso entre pobres e ricos. As democracias não conseguiam disfarçar a sua irreprimível vocação para as guerras de rapina e para o regresso ao figurino ditatorial. Esta é também uma constante do momento actual. Intensificaram-se, por isso, por um lado, as formas de exploração do homem pelo homem; por outro lado, agudiza-se a luta de classes. Naturalmente que, um século depois, há novas forças nos dois campos e novas tarefas a desenvolver. No essencial, porém, impõe-se o mesmo combate e a mesma firmeza de posições, hoje como ontem.
O potencial da gigantesca concentração de capitais é actualmente muito maior que aquele que caracterizou o poder capitalista em plena revolução industrial. Mas até neste aspecto é interessante observar que questões como as do petróleo ou do desenvolvimento das indústrias da guerra ocupavam um importante lugar no quadro internacional desses tempos antigos. Era já evidente que o domínio das novas tecnologias representava a chave-mestra do poder. Por isso, a concentração dos grandes capitais alimentou, até 1914, uma cadeia bélica de guerras regionais entrelaçadas que culminaram na I Grande Guerra mundial. Feita a paz, nem por isso a guerra acabou e o capitalismo motivou uma verdadeira girândola de outras guerras de conquista e de rapina «em rede», cada uma delas mais mortífera do que a outra. As guerras, para o capitalismo, geram lucros inesgotáveis, animam as bolsas e seleccionam as clientelas. São por isso benvindas. Os problemas sociais que elas criam podem ser convertidos em fontes de lucro dos mais ricos.
Foi justamente no período da mais dura repressão, logo a seguir ao desencanto causado pela derrota de 1904/7 que Lénine produziu grande parte da sua obra teórica.
E o seu pensamento concentrou-se então, sobretudo, em duas questões centrais: qual o significado dos conceitos de «Revolução» e de «Estado»? ; e que limites naturais tem o trabalho de organização no processo revolucionário? Já então estas questões complexas eram consideradas pelos comunistas como assuntos políticos com clarificação urgente.
Lénine apontou o caminho do traçado internacionalista a percorrer: lutar pela instalação de um poder socialista que represente uma primeira fase do comunismo futuro; trazer para a luta as vanguardas do proletariado urbano e do campesinato; e esbater a essência das contradições existentes entre a pequena burguesia, o proletariado e a intelectualidade, através de orientações políticas inteligentes, oportunas e flexíveis.
O que implica, naturalmente, falar-se com todas as forças vivas, incluindo neste naipe a Igreja católica.
Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 25 de março de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
Política e Religião
O horror do povo à mentira
Nas tradições éticas do povo português a mentira é considerada um dos cúmulos da depravação moral. Sobretudo quando o mentiroso não é apenas um fingidor mas mente criminosamente, extraindo lucros das suas mentiras à custa dos danos causados a terceiros ou às instituições. E ainda pior será quando o mentiroso ocupa cargos de responsabilidade e sobe na vida à custa da corrupção. O povo tem-lhe horror.
Na vida pública-política, financeira, comercial, confessional – a carga negativa da mentira atinge as raias da repulsa e da condenação popular. Isto porque há uma graduação natural da escala da mentira e do mentiroso. Uma coisa é enganar o outro, isoladamente, outra bem diferente é mentir a um povo inteiro. O actual caso português traduz-se na escalada das mentiras e da forma de mentir.
Sócrates, por exemplo, disse a todos nós que não sabia do caso da tentativa de compra do grupo Media Capital e do gigantesco plano de controlo da comunicação social que a operação ocultava: mentiu. Mas outras mentiras desenvolvem outras técnicas de ocultação dos mentirosos fabricantes de falsas verdades. É o caso dos mentirosos que foram denunciados e se defendem declarando que nada fizeram e que de nada se lembram. E é, igualmente, a técnica usada pelos altos magistrados coniventes ao invocarem, apenas para ocultarem as suas cumplicidades passivas, a dignidade dos cargos que exercem e a defesa muda do bem comum. Também eles, de maneira diferente, mentem. Dizerem que «sabem mas que o dever obriga a calar» é uma forma ainda mais desprezível de fazerem coro com os outros que declaram nada terem feito ou sabido.
A luta revolucionária e a mentira
A denúncia da mentira prende-se invariavelmente com o levantamento da opinião popular em defesa dos interesses de classe, dos direitos humanos e da nacionalidade. Os exploradores sabem-no, temem o povo e a democracia real e, assim, procuram escudar-se em frases de boca cheia, tais como a «defesa dos direitos do homem», o «respeito pela liberdade de expressão» ou o «acatamento da Constituição». Tudo, nas suas bocas, mentiras e falsidades. Apresentam-se como defensores daquilo que obsessivamente, a todo o custo, procuram destruir.
Foi o caso, recente, de um fundamentalista católico e capitalista neoliberal – o brasileiro da TAP, Fernando Pinto – declarar aos pilotos da empresa, em plena luta pelos seus direitos na empresa, que o uso da greve estava fora de moda, era uma má recordação do século XIX ! Acrescentando logo a seguir a costumada ameaça chantagista: eles que vissem bem o que estava a fazer, visto que a greve os podia conduzir ao desemprego e à morte do Turismo, «menina do olho» da economia capitalista. Usou da mentira, do ódio à Constituição e usou do recurso à intimidação.
Foi igualmente o caso do presidente do conselho de administração do grupo Jerónimo Martins vir a terreiro declarar que Sócrates não prestava, devia ser demitido e o seu governo substituído por um outro, de iniciativa presidencial. Esta declaração não deve passar em claro. A família Jerónimo Martins é um bastião da Igreja católica. A invasão do campo da política pela área financeira não é inesperada mas é inoportuna. De acordo que Sócrates deve ser demitido. Mas de que serve substituí-lo por um governo de iniciativa presidencial com ministros de direita, como acontece com o governo de Sócrates, acolitado pela Igreja e apoiado pela alta finança? Não é um ataque a Sócrates que se faz mas o reforço da sua defesa. A proposta é uma outra colossal mentira. O facto é que, por entre desentendimentos e angústias metafísicas, começa a lavrar o terror nas hostes do grande capital.
O momento actual é confuso mas as forças em presença caminham rapidamente para uma clarificação das suas posições. É a gestação e o contínuo ascenso da luta de classes. A intervenção popular na vida política e económica tem uma importância decisiva. Porém, tal como dizia Lénine num contexto não muito diferente do nosso, o momento actual exige «não em acelerar a revolução mas em intensificar a educação do proletariado». Não perdoar, como untuosamente propõe a Igreja. Seguir em frente, organizando. Recusando o engano e a mentira. Rompendo com as políticas e os políticos corruptos. Assumindo integralmente as responsabilidades de «vanguarda do povo ».
«O povo é quem mais ordena! ...»
Jorge Messias (Jornal Avante)
Nas tradições éticas do povo português a mentira é considerada um dos cúmulos da depravação moral. Sobretudo quando o mentiroso não é apenas um fingidor mas mente criminosamente, extraindo lucros das suas mentiras à custa dos danos causados a terceiros ou às instituições. E ainda pior será quando o mentiroso ocupa cargos de responsabilidade e sobe na vida à custa da corrupção. O povo tem-lhe horror.
Na vida pública-política, financeira, comercial, confessional – a carga negativa da mentira atinge as raias da repulsa e da condenação popular. Isto porque há uma graduação natural da escala da mentira e do mentiroso. Uma coisa é enganar o outro, isoladamente, outra bem diferente é mentir a um povo inteiro. O actual caso português traduz-se na escalada das mentiras e da forma de mentir.
Sócrates, por exemplo, disse a todos nós que não sabia do caso da tentativa de compra do grupo Media Capital e do gigantesco plano de controlo da comunicação social que a operação ocultava: mentiu. Mas outras mentiras desenvolvem outras técnicas de ocultação dos mentirosos fabricantes de falsas verdades. É o caso dos mentirosos que foram denunciados e se defendem declarando que nada fizeram e que de nada se lembram. E é, igualmente, a técnica usada pelos altos magistrados coniventes ao invocarem, apenas para ocultarem as suas cumplicidades passivas, a dignidade dos cargos que exercem e a defesa muda do bem comum. Também eles, de maneira diferente, mentem. Dizerem que «sabem mas que o dever obriga a calar» é uma forma ainda mais desprezível de fazerem coro com os outros que declaram nada terem feito ou sabido.
A luta revolucionária e a mentira
A denúncia da mentira prende-se invariavelmente com o levantamento da opinião popular em defesa dos interesses de classe, dos direitos humanos e da nacionalidade. Os exploradores sabem-no, temem o povo e a democracia real e, assim, procuram escudar-se em frases de boca cheia, tais como a «defesa dos direitos do homem», o «respeito pela liberdade de expressão» ou o «acatamento da Constituição». Tudo, nas suas bocas, mentiras e falsidades. Apresentam-se como defensores daquilo que obsessivamente, a todo o custo, procuram destruir.
Foi o caso, recente, de um fundamentalista católico e capitalista neoliberal – o brasileiro da TAP, Fernando Pinto – declarar aos pilotos da empresa, em plena luta pelos seus direitos na empresa, que o uso da greve estava fora de moda, era uma má recordação do século XIX ! Acrescentando logo a seguir a costumada ameaça chantagista: eles que vissem bem o que estava a fazer, visto que a greve os podia conduzir ao desemprego e à morte do Turismo, «menina do olho» da economia capitalista. Usou da mentira, do ódio à Constituição e usou do recurso à intimidação.
Foi igualmente o caso do presidente do conselho de administração do grupo Jerónimo Martins vir a terreiro declarar que Sócrates não prestava, devia ser demitido e o seu governo substituído por um outro, de iniciativa presidencial. Esta declaração não deve passar em claro. A família Jerónimo Martins é um bastião da Igreja católica. A invasão do campo da política pela área financeira não é inesperada mas é inoportuna. De acordo que Sócrates deve ser demitido. Mas de que serve substituí-lo por um governo de iniciativa presidencial com ministros de direita, como acontece com o governo de Sócrates, acolitado pela Igreja e apoiado pela alta finança? Não é um ataque a Sócrates que se faz mas o reforço da sua defesa. A proposta é uma outra colossal mentira. O facto é que, por entre desentendimentos e angústias metafísicas, começa a lavrar o terror nas hostes do grande capital.
O momento actual é confuso mas as forças em presença caminham rapidamente para uma clarificação das suas posições. É a gestação e o contínuo ascenso da luta de classes. A intervenção popular na vida política e económica tem uma importância decisiva. Porém, tal como dizia Lénine num contexto não muito diferente do nosso, o momento actual exige «não em acelerar a revolução mas em intensificar a educação do proletariado». Não perdoar, como untuosamente propõe a Igreja. Seguir em frente, organizando. Recusando o engano e a mentira. Rompendo com as políticas e os políticos corruptos. Assumindo integralmente as responsabilidades de «vanguarda do povo ».
«O povo é quem mais ordena! ...»
Jorge Messias (Jornal Avante)
sexta-feira, 12 de março de 2010
A Boca Do Inferno
O PEC peca por parco (Ricardo Pereira ---Visão)
Aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote.
É irónico que os problemas económicos possam ser responsáveis pelas maiores desigualdades sociais mas que a economia, enquanto ciência, seja tão igualitária. Alguns dos maiores especialistas em economia previram tanto como eu o aparecimento da crise. A economia tem essa característica fascinante: por muito que alguém se dedique a estudá-la, aparentemente continua a ser um leigo. Um grande administrador tem tanta dificuldade em evitar a calamitosa falência de um banco como um merceeiro versado apenas em contas de somar. Por isso, é com a consciência invulgarmente tranquila que me dedico à análise económica: na pior das hipóteses, os meus comentários farão tão pouco sentido como os de um professor de economia. Quando o governo propôs o Programa de Estabilidade e Crescimento, a minha primeira impressão foi a de que o PEC tinha um E a mais. Duvido de que a nossa economia precise da ajuda de um programa para estabilizar, uma vez que se encontra estável (no sentido em que um paciente em estado comatoso se mantém estável) há muitos anos. As críticas de alguma oposição parecem-me ainda menos pertinentes. É falso que o Programa de Estabilidade e Crescimento obrigue uma parte significativa dos portugueses a apertar o cinto. E é falso sobretudo na medida em que aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote. O que vai ser preciso apertar agora é o garrote.
O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?
A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições.
Resta a consolação de constatar que o congelamento dos salários dos funcionários públicos não é uma medida assim tão áspera. Os salários, a bem dizer, têm estado no frigorífico. Não vão propriamente sofrer um choque térmico.
Aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote.
É irónico que os problemas económicos possam ser responsáveis pelas maiores desigualdades sociais mas que a economia, enquanto ciência, seja tão igualitária. Alguns dos maiores especialistas em economia previram tanto como eu o aparecimento da crise. A economia tem essa característica fascinante: por muito que alguém se dedique a estudá-la, aparentemente continua a ser um leigo. Um grande administrador tem tanta dificuldade em evitar a calamitosa falência de um banco como um merceeiro versado apenas em contas de somar. Por isso, é com a consciência invulgarmente tranquila que me dedico à análise económica: na pior das hipóteses, os meus comentários farão tão pouco sentido como os de um professor de economia. Quando o governo propôs o Programa de Estabilidade e Crescimento, a minha primeira impressão foi a de que o PEC tinha um E a mais. Duvido de que a nossa economia precise da ajuda de um programa para estabilizar, uma vez que se encontra estável (no sentido em que um paciente em estado comatoso se mantém estável) há muitos anos. As críticas de alguma oposição parecem-me ainda menos pertinentes. É falso que o Programa de Estabilidade e Crescimento obrigue uma parte significativa dos portugueses a apertar o cinto. E é falso sobretudo na medida em que aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote. O que vai ser preciso apertar agora é o garrote.
O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?
A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições.
Resta a consolação de constatar que o congelamento dos salários dos funcionários públicos não é uma medida assim tão áspera. Os salários, a bem dizer, têm estado no frigorífico. Não vão propriamente sofrer um choque térmico.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Política e Religião
Paraísos fiscais e infernos humanos De Jorge Messias (Jornal Avante)
Desde sempre, poetas e marinheiros têm cantado as belezas naturais da Madeira: «a Madeira é um jardim». Não há dúvida de que assim é mas em tudo, mesmo na natureza, «uma mão esconde a outra mão». Em poucos instantes, o inferno pode instalar-se no paraíso. Foi o que aconteceu na Ilha da Madeira. Uma tragédia cujas causas ainda mal se conhecem.
Mas também, «a Madeira é do Jardim». Alberto João Jardim tem consciência de que assim acontece. Demagogo, populista e autoritário, desde há muito que sabe puxar os cordelinhos da simpatia popular, dos apoios da Igreja e dos malabarismos político-partidários. Veio a desgraça ao povo madeirense pobre e ele soube defender a imagem pública de um anjo tutelar rico. Mandou limpar as ruas e silenciou as suas pesadas responsabilidades no ordenamento do território. Chamou a si a contagem dos mortos e escondeu-os num montão de palavras, tal como Salazar o fez outrora com as grandes cheias de Lisboa e do Ribatejo. Exibicionista, Jardim não hesitou em comparar-se ao Marquês de Pombal: «agora é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos».
Não foi por acaso que Jardim puxou o lustro a esta imagem. Ele bem sabe que se aproxima o grande momento da reconstrução e dos negócios chorudos. Virá bom dinheiro da Comunidade Europeia. Não tanto como dizem, mas virá. E quem morreu, morreu. Foi tudo gente pobre, cidadãos de segunda. Graças a Deus, o turismo – a alavanca do dinheiro – passou o dilúvio sem um beliscão. A catástrofe em breve será esquecida e não faltarão as multidões de turistas e rodos de dinheiro. Os offshores não serão extintos e prosperarão. As matas transformar-se-ão em campos de golfe. As casas abarracadas dos emigrantes cederão o espaço a luxuosas mansões. A grande reconstrução beneficiará os ricos. Embora uma pequena fatia do dinheiro seja atribuída aos pobres, para os calar. Mas devem ser mantidos no seu lugar. É sem dúvida necessário que aumente a distância entre pobres e ricos e ela está garantida e será alargada.
Todas as palavras de Jardim e de um círculo restrito são cuidadosamente estudadas. A reconstrução permitirá a redenção dos mercados. A Madeira-jardim ressuscitará. Haverá paz social. Prova é que a banca já doou generosamente milhões ao povo da ilha, movida por sentimentos de solidariedade.
É preciso, portanto, ter fé no futuro.
Dois grandes aliados de Jardim
A solidariedade e o espírito caritativo já produziram um milagre, reconciliando dois irmãos desavindos. A catástrofe teve o condão de pacificar as relações entre Jardim e Sócrates. Através deste novo milagre entre as ruínas, PS e PSD voltaram a procurar-se. Estão ambos de acordo no fundamental: a ressurreição da Madeira far-se-á através do turismo, da banca e dos offshores; depois, o bom entendimento entre os dois políticos projectar-se-à num bom entendimento entre os partidos. Estão em jogo milhões de milhões, monumentais obras públicas, a dinamização da zona franca e um fluxo constante de verbas comunitárias. E é possível, através de sucessivas alianças, salvar Sócrates, fortalecer o poder de Jardim e eternizar o governo dos mais ricos.
Este projecto conta ainda com um outro trunfo, o da participação da Igreja. A intervenção católica é insubstituível para desmobilizar as esperadas reacções populares. Por isso nota-se, à vista desarmada, que a linguagem política de Sócrates e dos seus amigos está repleta de conceitos e expressões importadas da doutrina social da Igreja. E, como «amor com amor se paga», em contrapartida todas as opiniões que se vão ouvindo aos bispos servem como uma luva às intenções da direita e dos grandes patrões. No caso do dilúvio da Madeira, para melhor servir as estratégias capitalistas de bastidor, o clero católico não hesitou mesmo em recorrer aos métodos de antanho do apagamento da razão. Citou casos miraculosos, mulheres que sobreviveram rezando o terço, igrejas destruídas onde só a imagem da Virgem se salvou, crucifixos intactos entre destroços, etc. A Igreja chegou ao cúmulo de saltar milhares de quilómetros para, em Paris, onde existe um forte núcleo de emigrantes madeirenses, dizer missa, pregar a resignação e louvar a intervenção dos poderes políticos regionais e centrais.
Tudo aponta no sentido de estarmos a caminhar para a possível reposição do Estado corporativo regido pela divisa, tão grata aos salazaristas, «Deus, Pátria e Família». O Portugal da Concordata de 1940.
Impõe-se cerrar fileiras e resistir.
Desde sempre, poetas e marinheiros têm cantado as belezas naturais da Madeira: «a Madeira é um jardim». Não há dúvida de que assim é mas em tudo, mesmo na natureza, «uma mão esconde a outra mão». Em poucos instantes, o inferno pode instalar-se no paraíso. Foi o que aconteceu na Ilha da Madeira. Uma tragédia cujas causas ainda mal se conhecem.
Mas também, «a Madeira é do Jardim». Alberto João Jardim tem consciência de que assim acontece. Demagogo, populista e autoritário, desde há muito que sabe puxar os cordelinhos da simpatia popular, dos apoios da Igreja e dos malabarismos político-partidários. Veio a desgraça ao povo madeirense pobre e ele soube defender a imagem pública de um anjo tutelar rico. Mandou limpar as ruas e silenciou as suas pesadas responsabilidades no ordenamento do território. Chamou a si a contagem dos mortos e escondeu-os num montão de palavras, tal como Salazar o fez outrora com as grandes cheias de Lisboa e do Ribatejo. Exibicionista, Jardim não hesitou em comparar-se ao Marquês de Pombal: «agora é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos».
Não foi por acaso que Jardim puxou o lustro a esta imagem. Ele bem sabe que se aproxima o grande momento da reconstrução e dos negócios chorudos. Virá bom dinheiro da Comunidade Europeia. Não tanto como dizem, mas virá. E quem morreu, morreu. Foi tudo gente pobre, cidadãos de segunda. Graças a Deus, o turismo – a alavanca do dinheiro – passou o dilúvio sem um beliscão. A catástrofe em breve será esquecida e não faltarão as multidões de turistas e rodos de dinheiro. Os offshores não serão extintos e prosperarão. As matas transformar-se-ão em campos de golfe. As casas abarracadas dos emigrantes cederão o espaço a luxuosas mansões. A grande reconstrução beneficiará os ricos. Embora uma pequena fatia do dinheiro seja atribuída aos pobres, para os calar. Mas devem ser mantidos no seu lugar. É sem dúvida necessário que aumente a distância entre pobres e ricos e ela está garantida e será alargada.
Todas as palavras de Jardim e de um círculo restrito são cuidadosamente estudadas. A reconstrução permitirá a redenção dos mercados. A Madeira-jardim ressuscitará. Haverá paz social. Prova é que a banca já doou generosamente milhões ao povo da ilha, movida por sentimentos de solidariedade.
É preciso, portanto, ter fé no futuro.
Dois grandes aliados de Jardim
A solidariedade e o espírito caritativo já produziram um milagre, reconciliando dois irmãos desavindos. A catástrofe teve o condão de pacificar as relações entre Jardim e Sócrates. Através deste novo milagre entre as ruínas, PS e PSD voltaram a procurar-se. Estão ambos de acordo no fundamental: a ressurreição da Madeira far-se-á através do turismo, da banca e dos offshores; depois, o bom entendimento entre os dois políticos projectar-se-à num bom entendimento entre os partidos. Estão em jogo milhões de milhões, monumentais obras públicas, a dinamização da zona franca e um fluxo constante de verbas comunitárias. E é possível, através de sucessivas alianças, salvar Sócrates, fortalecer o poder de Jardim e eternizar o governo dos mais ricos.
Este projecto conta ainda com um outro trunfo, o da participação da Igreja. A intervenção católica é insubstituível para desmobilizar as esperadas reacções populares. Por isso nota-se, à vista desarmada, que a linguagem política de Sócrates e dos seus amigos está repleta de conceitos e expressões importadas da doutrina social da Igreja. E, como «amor com amor se paga», em contrapartida todas as opiniões que se vão ouvindo aos bispos servem como uma luva às intenções da direita e dos grandes patrões. No caso do dilúvio da Madeira, para melhor servir as estratégias capitalistas de bastidor, o clero católico não hesitou mesmo em recorrer aos métodos de antanho do apagamento da razão. Citou casos miraculosos, mulheres que sobreviveram rezando o terço, igrejas destruídas onde só a imagem da Virgem se salvou, crucifixos intactos entre destroços, etc. A Igreja chegou ao cúmulo de saltar milhares de quilómetros para, em Paris, onde existe um forte núcleo de emigrantes madeirenses, dizer missa, pregar a resignação e louvar a intervenção dos poderes políticos regionais e centrais.
Tudo aponta no sentido de estarmos a caminhar para a possível reposição do Estado corporativo regido pela divisa, tão grata aos salazaristas, «Deus, Pátria e Família». O Portugal da Concordata de 1940.
Impõe-se cerrar fileiras e resistir.
terça-feira, 9 de março de 2010
89º ANIVERSÀRIO DO PCP
89 anos festejam-se. E foi o que fizeram umas largas dezenas de comunistas portugueses, residentes na região de Paris. O evento realizou-se na cidade de Nanterre e como o restaurante era muçulmano, a ementa não poderia ser outra que um bom cuscuz. Antes de degustarmos o bolo de aniversário, ouvimos uma bela intervenção política da camarada Rosa Rabiais do comité central do nosso Partido.
A festa terminou em ambiente de alegria onde se cantou e se leram muitos poemas.
O Partido Comunista Português está bem vivo e respira ainda melhor. por muito que custe a todos os vampiros que nos rodeiam.
Quelha Funda
sexta-feira, 5 de março de 2010
A Dialéctica e Politzer
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DIALÉCTICA
I. — Precauções preliminares.
II. — De onde nasceu o método dialéctico?
III. — Por que foi a dialéctica, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVIII?
V. — Como nasceu o materialismo dialéctico: Hegel e Marx.
I. — Precauções preliminares.
Quando se fala da dialéctica, é, por vezes, com mistério e apresentado-a como qualquer coisa de complicado.
Conhecendo mal o que é, fala-se dela, também, a torto e a direito. Tudo isso é lamentável, e faz cometer
erros que é preciso evitar.
Tomado no seu sentido etimológico, o termo dialéctica significa, simplesmentes, a arte de discutir, e é assim
que se ouve, muitas vezes, dizer de um homem que discute longamente, e mesmo também, por extensão,
daquele que fala bem: é um dialéctico!
Não é nesse sentido que vamos estudar a dialéctica. Tomou, sob o ponto de vista filosófico, uma significação
especial.
A dialéctica, no sentido filosófico, contrariamente ao que se pensa, está ao alcance de todos, porque é uma
coisa muito clara e sem mistério.
Mas, se pode ser compreendida por toda a gente, tem, todavia, as suas dificuldades; e, eis como devemos
compreendê-las.
Entre os trabalhos manuais, alguns são simples, outros, mais complicados. Fazer caixas de embalagem, por
exemplo, é um trabalho simples. Montar um aparelho de T.S.F., pelo contrário, representa um trabalho que
requer muita habilidade, precisão, agilidade dos dedos.
As mãos e os dedos são para nós instrumentos de trabalho. Mas o pensamento também o é. E se os dedos não
fazem sempre um trabalho de precisão, o mesmo acontece com o nosso cérebro.
Na história do trabalho humano, o homem, no início, apenas sabia fazer trabalhos grosseiros. O progresso
nas ciências permitiu trabalhos mais precisos.
Acontece exactamente o mesmo com a história do pensamento. A metafísica é esse método de pensamento
que apenas é capaz, como os nossos dedos, de movimentos grosseiros (como pregar caixotes ou puxar as
gavetas da metafísica).
A dialéctica difere deste método, porque permite uma maior precisão. É apenas um método de pensamento
de grande precisão.
A evolução do pensamento foi a mesma que a do trabalho manual. É a mesma história, não havendo nenhum
mistério: tudo é claro nesta evolução.
I. — Precauções preliminares.
II. — De onde nasceu o método dialéctico?
III. — Por que foi a dialéctica, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVIII?
V. — Como nasceu o materialismo dialéctico: Hegel e Marx.
I. — Precauções preliminares.
Quando se fala da dialéctica, é, por vezes, com mistério e apresentado-a como qualquer coisa de complicado.
Conhecendo mal o que é, fala-se dela, também, a torto e a direito. Tudo isso é lamentável, e faz cometer
erros que é preciso evitar.
Tomado no seu sentido etimológico, o termo dialéctica significa, simplesmentes, a arte de discutir, e é assim
que se ouve, muitas vezes, dizer de um homem que discute longamente, e mesmo também, por extensão,
daquele que fala bem: é um dialéctico!
Não é nesse sentido que vamos estudar a dialéctica. Tomou, sob o ponto de vista filosófico, uma significação
especial.
A dialéctica, no sentido filosófico, contrariamente ao que se pensa, está ao alcance de todos, porque é uma
coisa muito clara e sem mistério.
Mas, se pode ser compreendida por toda a gente, tem, todavia, as suas dificuldades; e, eis como devemos
compreendê-las.
Entre os trabalhos manuais, alguns são simples, outros, mais complicados. Fazer caixas de embalagem, por
exemplo, é um trabalho simples. Montar um aparelho de T.S.F., pelo contrário, representa um trabalho que
requer muita habilidade, precisão, agilidade dos dedos.
As mãos e os dedos são para nós instrumentos de trabalho. Mas o pensamento também o é. E se os dedos não
fazem sempre um trabalho de precisão, o mesmo acontece com o nosso cérebro.
Na história do trabalho humano, o homem, no início, apenas sabia fazer trabalhos grosseiros. O progresso
nas ciências permitiu trabalhos mais precisos.
Acontece exactamente o mesmo com a história do pensamento. A metafísica é esse método de pensamento
que apenas é capaz, como os nossos dedos, de movimentos grosseiros (como pregar caixotes ou puxar as
gavetas da metafísica).
A dialéctica difere deste método, porque permite uma maior precisão. É apenas um método de pensamento
de grande precisão.
A evolução do pensamento foi a mesma que a do trabalho manual. É a mesma história, não havendo nenhum
mistério: tudo é claro nesta evolução.
As dificuldades que encontramos provêm de que, até há vinte e cinco anos, pregámos caixotes, e,
subitamente, nos colocam em frente dos aparelhos de T.S.F. para fazer a montagem. É certo que teremos
grandes dificuldades, que as nossas mãos serão pesadas, osdedos inábeis. Só pouco a pouco conseguiremos
suavizar-nos e realizar esse trabalho. O que era muito difícil no princípio, parecer-nos-á, depois, mais
simples. Para a dialéctica, é a mesma coisa. Estamos embaraçados, perros pelo antigo método de pensamento
metafísico, e devemos adquirir a maleabilidade, a precisão do método dialéctico. Mas, vemos que, ainda aí,
nada há de misterioso nem de muito complicado.
II. — De onde nasceu o método dialéctico?
Sabemos que a metafísica considera o mundo como um conjunto de coisas congeladas, e, ao contrário, se
olharmos a natureza, vemos que tudo se move, tudo muda. Constatamos a mesma coisa com o pensamento.
Resulta desta constatação, portanto, um desacordo entre a metafísica e a realidade. É por isso que, para
definir de uma maneira simples e dar uma ideia essencial, se pode dizer: quem diz «metafísica» diz
«imobilidade», e quem diz «dialéctica» diz «movimento».
O movimento e a mudança, que existem em tudo o que nos rodeia, estão na base da dialéctica.
Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa, própria
actividade mental, o que se nos oferece, em primeiro lugar, é o quadro de uma confusão infinita de relações,
de acções e reacções, onde nada permanece o que era, onde era, como era, onde tudo se move, se
transforma, vem a ser e passa47.
Vemos, depois deste texto tão claro de Engels, que, do ponto de vista dialéctico, tudo muda, nada fica onde
está, nada permanece o que é, e, por consequência, tal ponto de vista está em perfeito acordo com a
realidade. Nenhuma coisa permanece no lugar que ocupa, uma vez que mesmo o que nos aparece como
imóvel se move; move-se com o movimento da terra em volta do sol; e no movimento da terra sobre ela
mesma. Na metafísica, o princípio de identidade quer que uma coisa permaneça ela própria. Vemos, pelo
contrário, que nenhuma coisa permanece o que é.
Temos a impressão de ficar sempre os mesmos, e, portanto, diz-nos Engels, «os mesmos são diferentes».
Pensamos ser iguais e já mudámos. Da criança que éramos, tornámo-nos homem, e este, fisicamente, jamais
fica o mesmo: envelhece todos os dias.
Não é, pois, o movimento que é a aparência enganadora, como o sustentavam os Eleatas, é a imobilidade,
visto que, de facto, tudo se move e tudo muda.
A história também nos prova que as coisas não permanecem o que são. Em nenhum momento a sociedade
está imóvel. Primeiramente, houve, na antiguidade, a sociedade esclavagista, sucedeu-lhe a feudal, depois a
capitalista. O estudo dessas sociedades mostra-nos que, continuamente, insensivelmente, os elementos que
permitiram o nascimento de uma sociedade nova desenvolveram-se nelas. É assim que a sociedade
capitalista muda todos os dias e deixou de existir na U.R.S.S.. Porque nenhuma sociedade fica imóvel, a
socialista, edificada na União Soviética, está destinada, também ela, a desaparecer. Transformasse já a olhos
vistos, e é por isso que os metafísicos não compreendem o que aí se passa. Continuam a julgar uma
sociedade completamente transformada, com os seus sentimentos de homens sofrendo ainda a opressão
capitalista.
Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas
uma simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas vezes, em ódio.
O que vemos por toda a parte, na natureza, na história, no pensamento, é a mudança e o movimento. É por
esta constatação que começa a dialéctica.
subitamente, nos colocam em frente dos aparelhos de T.S.F. para fazer a montagem. É certo que teremos
grandes dificuldades, que as nossas mãos serão pesadas, osdedos inábeis. Só pouco a pouco conseguiremos
suavizar-nos e realizar esse trabalho. O que era muito difícil no princípio, parecer-nos-á, depois, mais
simples. Para a dialéctica, é a mesma coisa. Estamos embaraçados, perros pelo antigo método de pensamento
metafísico, e devemos adquirir a maleabilidade, a precisão do método dialéctico. Mas, vemos que, ainda aí,
nada há de misterioso nem de muito complicado.
II. — De onde nasceu o método dialéctico?
Sabemos que a metafísica considera o mundo como um conjunto de coisas congeladas, e, ao contrário, se
olharmos a natureza, vemos que tudo se move, tudo muda. Constatamos a mesma coisa com o pensamento.
Resulta desta constatação, portanto, um desacordo entre a metafísica e a realidade. É por isso que, para
definir de uma maneira simples e dar uma ideia essencial, se pode dizer: quem diz «metafísica» diz
«imobilidade», e quem diz «dialéctica» diz «movimento».
O movimento e a mudança, que existem em tudo o que nos rodeia, estão na base da dialéctica.
Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa, própria
actividade mental, o que se nos oferece, em primeiro lugar, é o quadro de uma confusão infinita de relações,
de acções e reacções, onde nada permanece o que era, onde era, como era, onde tudo se move, se
transforma, vem a ser e passa47.
Vemos, depois deste texto tão claro de Engels, que, do ponto de vista dialéctico, tudo muda, nada fica onde
está, nada permanece o que é, e, por consequência, tal ponto de vista está em perfeito acordo com a
realidade. Nenhuma coisa permanece no lugar que ocupa, uma vez que mesmo o que nos aparece como
imóvel se move; move-se com o movimento da terra em volta do sol; e no movimento da terra sobre ela
mesma. Na metafísica, o princípio de identidade quer que uma coisa permaneça ela própria. Vemos, pelo
contrário, que nenhuma coisa permanece o que é.
Temos a impressão de ficar sempre os mesmos, e, portanto, diz-nos Engels, «os mesmos são diferentes».
Pensamos ser iguais e já mudámos. Da criança que éramos, tornámo-nos homem, e este, fisicamente, jamais
fica o mesmo: envelhece todos os dias.
Não é, pois, o movimento que é a aparência enganadora, como o sustentavam os Eleatas, é a imobilidade,
visto que, de facto, tudo se move e tudo muda.
A história também nos prova que as coisas não permanecem o que são. Em nenhum momento a sociedade
está imóvel. Primeiramente, houve, na antiguidade, a sociedade esclavagista, sucedeu-lhe a feudal, depois a
capitalista. O estudo dessas sociedades mostra-nos que, continuamente, insensivelmente, os elementos que
permitiram o nascimento de uma sociedade nova desenvolveram-se nelas. É assim que a sociedade
capitalista muda todos os dias e deixou de existir na U.R.S.S.. Porque nenhuma sociedade fica imóvel, a
socialista, edificada na União Soviética, está destinada, também ela, a desaparecer. Transformasse já a olhos
vistos, e é por isso que os metafísicos não compreendem o que aí se passa. Continuam a julgar uma
sociedade completamente transformada, com os seus sentimentos de homens sofrendo ainda a opressão
capitalista.
Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas
uma simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas vezes, em ódio.
O que vemos por toda a parte, na natureza, na história, no pensamento, é a mudança e o movimento. É por
esta constatação que começa a dialéctica.
Os Gregos impressionaram-se pelo facto de se encontrar por toda a parte a mudança e o movimento. Vimos
que Heráclito, o chamado «pai da dialéctica», foi o primeiro a dar-nos uma concepção dialéctica do mundo,
isto é, descreveu-o em movimento e não congelado. A maneira de ver de Heraclito pode tornar-se um
método.
Mas este método dialéctico não pôde afirmar-se senão muito mais tarde, e é-nos necessário ver porque razão
a dialéctica foi muito tempo dominada pela concepção metafísica.
III. — Por que foi a dialéctica, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
Vimos que a concepção dialéctica nascera muito cedo na história, mas que os conhecimentos insuficientes
dos homens permitiram à concepção metafísica desenvolver-se e passar à frente da dialéctica.
Podemos fazer aqui um paralelo entre o idealismo, que nasceu da grande ignorância dos homens, e a
concepção metafísica, que nasceu dos conhecimentos insuficientes da dialéctica.
Como e porquê foi isso possível?
Os homens começaram o estudo da natureza num estado de completa ignorância. Para estudar os fenómenos
que constatam, começam por classificá-los. Mas, da maneira de classificar resulta um hábito do espírito. Ao
criar categorias, e separando-as umas das outras, o nosso espírito habitua-se a efectuar tais separações, e
voltamos a encontrar aí os primeiros caracteres do método metafísico. É, pois, na verdade, da insuficiência
do desenvolvimento das ciências que sai a metafísica. Ainda há 150 anos, se estudava as ciências separandoas
umas das outras. Estudava-se à parte a química, a física, a biologia, por exemplo, e não se via entre elas
qualquer relação. Continuava-se, também, a aplicar esse método no interior das ciências: a física estudava o
som, o calor, o magnetismo, a electricidade,, etc., e pensava-se que estes diferentes fenómenos não tinham
qualquer relação entre si; estudava-se cada um deles em capítulos separados.
Na verdade, reconhecemos, aí, o segundo carácter da metafísica, que quer que se desconheçam as relações
das coisas e nada haja de comum entre elas.
Do mesmo modo, é mais fácil conceber as coisas no estado de repouso do que em movimento. Tomemos
como exemplo a fotografia: vemos que, em primeiro lugar, se procura fixar as coisas na sua imobilidade (é a
fotografia), depois, somente pela sequência, no seu movimento {é o cinema). Pois bem! A imagem da
fotografia e do cinema é a do desenvolvimento das ciências e do espírito humano. Estudamos as coisas em
repouso, antes de as estudar no seu movimento.
E isso porquê? Porque não se sabia. Para aprender, tomou-se o ponto de vista mais fácil; ou as coisas
imóveis são mais fáceis de perceber e estudar. Certamente, o estudo das coisas em repouso é um momento
necessário do pensamento dialéctico — mas só um momento, insuficiente, fragmentário, e que é preciso
integrar no estudo das coisas em transformação.
Encontramos esse estado de espírito na biologia, por exemplo, no estudo da zoologia e da botânica. Porque
não se conheciam bem, classificaram-se, primeiro, os animais em raças, espécies, pensando que entre elas
não havia nada de comum e que fora sempre assim (terceiro carácter da metafísica). Ê daí que vem a teoria a
que se chama o «fixismo» (que afirma, contrariamente ao «evolucionismo», que as espécies animais foram
sempre o que são, que nunca evoluíram), que é, por conseguinte, uma teoria metafísica, proveniente da
ignorância dos homens.
que Heráclito, o chamado «pai da dialéctica», foi o primeiro a dar-nos uma concepção dialéctica do mundo,
isto é, descreveu-o em movimento e não congelado. A maneira de ver de Heraclito pode tornar-se um
método.
Mas este método dialéctico não pôde afirmar-se senão muito mais tarde, e é-nos necessário ver porque razão
a dialéctica foi muito tempo dominada pela concepção metafísica.
III. — Por que foi a dialéctica, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
Vimos que a concepção dialéctica nascera muito cedo na história, mas que os conhecimentos insuficientes
dos homens permitiram à concepção metafísica desenvolver-se e passar à frente da dialéctica.
Podemos fazer aqui um paralelo entre o idealismo, que nasceu da grande ignorância dos homens, e a
concepção metafísica, que nasceu dos conhecimentos insuficientes da dialéctica.
Como e porquê foi isso possível?
Os homens começaram o estudo da natureza num estado de completa ignorância. Para estudar os fenómenos
que constatam, começam por classificá-los. Mas, da maneira de classificar resulta um hábito do espírito. Ao
criar categorias, e separando-as umas das outras, o nosso espírito habitua-se a efectuar tais separações, e
voltamos a encontrar aí os primeiros caracteres do método metafísico. É, pois, na verdade, da insuficiência
do desenvolvimento das ciências que sai a metafísica. Ainda há 150 anos, se estudava as ciências separandoas
umas das outras. Estudava-se à parte a química, a física, a biologia, por exemplo, e não se via entre elas
qualquer relação. Continuava-se, também, a aplicar esse método no interior das ciências: a física estudava o
som, o calor, o magnetismo, a electricidade,, etc., e pensava-se que estes diferentes fenómenos não tinham
qualquer relação entre si; estudava-se cada um deles em capítulos separados.
Na verdade, reconhecemos, aí, o segundo carácter da metafísica, que quer que se desconheçam as relações
das coisas e nada haja de comum entre elas.
Do mesmo modo, é mais fácil conceber as coisas no estado de repouso do que em movimento. Tomemos
como exemplo a fotografia: vemos que, em primeiro lugar, se procura fixar as coisas na sua imobilidade (é a
fotografia), depois, somente pela sequência, no seu movimento {é o cinema). Pois bem! A imagem da
fotografia e do cinema é a do desenvolvimento das ciências e do espírito humano. Estudamos as coisas em
repouso, antes de as estudar no seu movimento.
E isso porquê? Porque não se sabia. Para aprender, tomou-se o ponto de vista mais fácil; ou as coisas
imóveis são mais fáceis de perceber e estudar. Certamente, o estudo das coisas em repouso é um momento
necessário do pensamento dialéctico — mas só um momento, insuficiente, fragmentário, e que é preciso
integrar no estudo das coisas em transformação.
Encontramos esse estado de espírito na biologia, por exemplo, no estudo da zoologia e da botânica. Porque
não se conheciam bem, classificaram-se, primeiro, os animais em raças, espécies, pensando que entre elas
não havia nada de comum e que fora sempre assim (terceiro carácter da metafísica). Ê daí que vem a teoria a
que se chama o «fixismo» (que afirma, contrariamente ao «evolucionismo», que as espécies animais foram
sempre o que são, que nunca evoluíram), que é, por conseguinte, uma teoria metafísica, proveniente da
ignorância dos homens.
IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVlll?
Sabemos que a mecânica desempenhou um grande papel no materialismo do século XVIII e que este é
muitas vezes chamado o «materialismo mecanicista». Por que aconteceu assim? Porque a concepção
materialista está ligada ao desenvolvimento de todas as ciências e, entre estas, foi a mecânica que se
desenvolveu primeiro. Na linguagem corrente, a mecânica é o estudo das máquinas; em linguagem científica,
o do movimento no que respeita a deslocação. E se a mecânica foi a ciência que primeiro se desenvolveu, é
porque o movimento mecânico é o mais simples. Estudar o movimento de uma maçã que balança ao vento,
num pomar, é muito mais fácil do que estudar a mudança que se produz na maçã que amadurece. Pode
estudar-se mais facilmente o efeito do vento sobre a maçã do que a sua maturação. Mas este estudo é
«parcial», abrindo, assim, a porta à metafísica.
Muito embora observem que tudo é movimento, os antigos Gregos não podem tirar partido de tal observação,
porque o seu saber é insuficiente. Então, observam-se as coisas e os fenómenos, classificam-se, contentam-se
em estudar a deslocação, daí a mecânica; e a insuficiência dos conhecimentos nas ciências dá origem à
concepção metafísica.
Sabemos que o materialismo é sempre baseado nas ciências e que, no século XVIII, a ciência era dominada
pelo espírito metafísico. De todas, a mais desenvolvida nessa época era a mecânica.
É por isso que era inevitável, dirá Engels, que o materialismo do século XVIII fosse um materialismo
metafísico e mecanicista, porque as ciências eram assim.
Diremos, portanto, que o materialismo metafísico e mecanicista era materialista, porque respondia à pergunta
fundamental da filosofia - o factor primeiro é a matéria -, mas era metafísico, porque considerava o universo
como um conjunto de coisas congeladas e mecânicas, porque estudava e via todas as coisas através da
mecânica.
Virá um dia em que se chegará, por acumulação das pesquisas, a constatar que as ciências não são imóveis;
aperceber-se-á que, nelas, se produziram transformações. Depois de ter separado a química da biologia e da
física, dar-se-á conta de que se torna impossível tratar qualquer delas sem ter de recorrer às outras. Por
exemplo, o estudo da digestão, que é do domínio da biologia, torna-se impossível sem a química. No século
XIX, aperceber-se-á, pois, que as ciências estão ligadas entre si, e resultará um retrocesso do espírito
metafísico nas ciências, porque se terá um conhecimento mais aprofundado da natureza. Até lá, tinha-se
estudado os fenómenos da física separadamente; agora, era-se obrigado a constatar que todos esses
fenómenos eram da mesma natureza. É assim que a electricidade e o magnetismo, que se estudavam
separadamente, estão reunidos hoje numa ciência única: o electromagnetismo.
Ao estudar os fenómenos do som e do calor, descobriu-se, do mesmo modo, que ambos eram provenientes de
um fenómeno da mesma natureza.
Batendo com um martelo, obtém-se um som e produz-se calor. É o movimento que produz calor. E sabemos
que o som provém de vibrações no ar, também estas são movimento. Portanto, eis dois fenómenos da mesma
natureza.
Em biologia, chegou-se, classificando cada vez mais minuciosamente, a encontrar espécies que não se
podiam classificar, nem como vegetais, nem como animais. Não havia, pois, separação brusca entre uns e
outros. Desenvolvendo-se sempre os estudos, chegou-se a concluir que os animais não foram sempre o que
são. Os factos têm condenado o fixismo e o espírito metafísico.
Foi no decurso do século XIX que se produziu esta transformação que acabamos de ver, e que permitiu ao
materialismo tornar-se dialéctico. A dialéctica é o espírito das ciências que, ao desenvolver-se, abandonaram
a concepção metafísica. O materialismo pôde transformar-se, porque as ciências mudaram. Às ciências
metafísicas corresponde o materialismo metafísico, e às novas um materialismo novo, o dialéctico.
Sabemos que a mecânica desempenhou um grande papel no materialismo do século XVIII e que este é
muitas vezes chamado o «materialismo mecanicista». Por que aconteceu assim? Porque a concepção
materialista está ligada ao desenvolvimento de todas as ciências e, entre estas, foi a mecânica que se
desenvolveu primeiro. Na linguagem corrente, a mecânica é o estudo das máquinas; em linguagem científica,
o do movimento no que respeita a deslocação. E se a mecânica foi a ciência que primeiro se desenvolveu, é
porque o movimento mecânico é o mais simples. Estudar o movimento de uma maçã que balança ao vento,
num pomar, é muito mais fácil do que estudar a mudança que se produz na maçã que amadurece. Pode
estudar-se mais facilmente o efeito do vento sobre a maçã do que a sua maturação. Mas este estudo é
«parcial», abrindo, assim, a porta à metafísica.
Muito embora observem que tudo é movimento, os antigos Gregos não podem tirar partido de tal observação,
porque o seu saber é insuficiente. Então, observam-se as coisas e os fenómenos, classificam-se, contentam-se
em estudar a deslocação, daí a mecânica; e a insuficiência dos conhecimentos nas ciências dá origem à
concepção metafísica.
Sabemos que o materialismo é sempre baseado nas ciências e que, no século XVIII, a ciência era dominada
pelo espírito metafísico. De todas, a mais desenvolvida nessa época era a mecânica.
É por isso que era inevitável, dirá Engels, que o materialismo do século XVIII fosse um materialismo
metafísico e mecanicista, porque as ciências eram assim.
Diremos, portanto, que o materialismo metafísico e mecanicista era materialista, porque respondia à pergunta
fundamental da filosofia - o factor primeiro é a matéria -, mas era metafísico, porque considerava o universo
como um conjunto de coisas congeladas e mecânicas, porque estudava e via todas as coisas através da
mecânica.
Virá um dia em que se chegará, por acumulação das pesquisas, a constatar que as ciências não são imóveis;
aperceber-se-á que, nelas, se produziram transformações. Depois de ter separado a química da biologia e da
física, dar-se-á conta de que se torna impossível tratar qualquer delas sem ter de recorrer às outras. Por
exemplo, o estudo da digestão, que é do domínio da biologia, torna-se impossível sem a química. No século
XIX, aperceber-se-á, pois, que as ciências estão ligadas entre si, e resultará um retrocesso do espírito
metafísico nas ciências, porque se terá um conhecimento mais aprofundado da natureza. Até lá, tinha-se
estudado os fenómenos da física separadamente; agora, era-se obrigado a constatar que todos esses
fenómenos eram da mesma natureza. É assim que a electricidade e o magnetismo, que se estudavam
separadamente, estão reunidos hoje numa ciência única: o electromagnetismo.
Ao estudar os fenómenos do som e do calor, descobriu-se, do mesmo modo, que ambos eram provenientes de
um fenómeno da mesma natureza.
Batendo com um martelo, obtém-se um som e produz-se calor. É o movimento que produz calor. E sabemos
que o som provém de vibrações no ar, também estas são movimento. Portanto, eis dois fenómenos da mesma
natureza.
Em biologia, chegou-se, classificando cada vez mais minuciosamente, a encontrar espécies que não se
podiam classificar, nem como vegetais, nem como animais. Não havia, pois, separação brusca entre uns e
outros. Desenvolvendo-se sempre os estudos, chegou-se a concluir que os animais não foram sempre o que
são. Os factos têm condenado o fixismo e o espírito metafísico.
Foi no decurso do século XIX que se produziu esta transformação que acabamos de ver, e que permitiu ao
materialismo tornar-se dialéctico. A dialéctica é o espírito das ciências que, ao desenvolver-se, abandonaram
a concepção metafísica. O materialismo pôde transformar-se, porque as ciências mudaram. Às ciências
metafísicas corresponde o materialismo metafísico, e às novas um materialismo novo, o dialéctico.
Politzer
V. — Como nasceu o materialismo dialéctico: Hegel e Marx.
Se perguntamos como se operou essa transformação do materialismo metafísico em dialéctico, responde-se
geralmente dizendo:
1. Havia o materialismo metafísico, o do século XVIII;
2. As ciências mudaram;
3 Marx e Engels intervieram; separaram o materialismo metafísico em dois; abandonando a metafísica,
ficaram com o materialismo, juntando-lhe a dialéctica.
Se temos tendência em apresentar as coisas assim, isso provém do método metafísico, que quer que
simplifiquemos as coisas, para fazer um esquema. Devemos, pelo contrário, ter sempre bem presente que
jamais os factos da realidade devem ser esquematizados. Os factos são mais complicados do que parecem,
do que pensamos. Pelo que não há uma transformação tão simples do materialismo metafísico em dialéctico.
A dialéctica foi, de facto, desenvolvida por um filósofo idealista alemão, Hegel (1770-1831), que soube
compreender a mudança operada nas ciências. Retomando a velha ideia de Heráclito, constatou, ajudado
pelos progressos científicos, que, no Universo, tudo é movimento e mudança, nada está isolado, mas tudo
depende de tudo, criando, deste modo, a dialéctica. É a propósito de Hegel que falamos hoje de movimento
dialéctico do mundo. O que Hegel compreendeu primeiro foi o movimento do pensamento, e, naturalmente,
chamou-lhe dialéctico.
Mas Hegel é idealista, isto é, dá a importância primeira ao espírito, e, por consequência, faz do movimento e
da mudança uma concepção particular. Pensa que são as mudanças do espírito que provocam as da matéria.
Para Hegel, o universo é a ideia materializada, e, antes dele, existe primeiramente o espírito que descobre o
universo. Em resumo, constata que o espírito e o universo estão em perpétua mudança, mas, daí, conclui que
as mudanças do espírito determinam as da matéria.
Exemplo: o inventor tem uma ideia, realiza-a, e é esta, materializada, que cria mudanças na matéria.
Hegel é, pois, na verdade, dialéctico, mas subordina a dialéctica ao idealismo.
É então que Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895), discípulos de Hegel, mas discípulos materialistas, e
dando, por consequência, a importância primeira à matéria, pensam que a sua dialéctica dá afirmações
exactas, mas ao contrário. Engels dirá, a este respeito: com Hegel a dialéctica conservava-se na cabeça, era
preciso repô-la nos pés. Marx e Engels, transferem, portanto, para a realidade material a causa inicial desse
movimento do pensamento definido por Hegel, e chamam-no, naturalmente, dialéctico, servindo-se daquele
seu mesmo termo.
Pensam que tem razão para dizer que o pensamento e o universo estão em perpétua mudança, mas se engana,
afirmando que são as mudanças das ideias que determinam as das coisas. São, pelo contrário, estas que nos
dão aquelas, e as ideias modificam-se porque as coisas se modificam.
Outrora, viajava-se em diligência. Hoje, de comboio. Não é por termos a ideia de viajar de comboio que este
meio de locomoção existe. As nossas ideias modificaram-se, porque se modificam as coisas.
Devemos, pois, evitar dizer: «Marx e Engels possuíam, por um lado, o materialismo resultante do
materialismo francês do século XVIII, por outro, a dialéctica de Hegel; por consequência, apenas tinham que
os juntar um ao outro».
É uma concepção simplista, esquemática, que esquece que os fenómenos são mais complicados; é uma
concepção metafísica.
Marx e Engels tomarão, na verdade, a dialéctica a Hegel, mas transformá-la-ão. O mesmo farão do
materialismo, para nos dar o materialismo dialéctico.
Se perguntamos como se operou essa transformação do materialismo metafísico em dialéctico, responde-se
geralmente dizendo:
1. Havia o materialismo metafísico, o do século XVIII;
2. As ciências mudaram;
3 Marx e Engels intervieram; separaram o materialismo metafísico em dois; abandonando a metafísica,
ficaram com o materialismo, juntando-lhe a dialéctica.
Se temos tendência em apresentar as coisas assim, isso provém do método metafísico, que quer que
simplifiquemos as coisas, para fazer um esquema. Devemos, pelo contrário, ter sempre bem presente que
jamais os factos da realidade devem ser esquematizados. Os factos são mais complicados do que parecem,
do que pensamos. Pelo que não há uma transformação tão simples do materialismo metafísico em dialéctico.
A dialéctica foi, de facto, desenvolvida por um filósofo idealista alemão, Hegel (1770-1831), que soube
compreender a mudança operada nas ciências. Retomando a velha ideia de Heráclito, constatou, ajudado
pelos progressos científicos, que, no Universo, tudo é movimento e mudança, nada está isolado, mas tudo
depende de tudo, criando, deste modo, a dialéctica. É a propósito de Hegel que falamos hoje de movimento
dialéctico do mundo. O que Hegel compreendeu primeiro foi o movimento do pensamento, e, naturalmente,
chamou-lhe dialéctico.
Mas Hegel é idealista, isto é, dá a importância primeira ao espírito, e, por consequência, faz do movimento e
da mudança uma concepção particular. Pensa que são as mudanças do espírito que provocam as da matéria.
Para Hegel, o universo é a ideia materializada, e, antes dele, existe primeiramente o espírito que descobre o
universo. Em resumo, constata que o espírito e o universo estão em perpétua mudança, mas, daí, conclui que
as mudanças do espírito determinam as da matéria.
Exemplo: o inventor tem uma ideia, realiza-a, e é esta, materializada, que cria mudanças na matéria.
Hegel é, pois, na verdade, dialéctico, mas subordina a dialéctica ao idealismo.
É então que Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895), discípulos de Hegel, mas discípulos materialistas, e
dando, por consequência, a importância primeira à matéria, pensam que a sua dialéctica dá afirmações
exactas, mas ao contrário. Engels dirá, a este respeito: com Hegel a dialéctica conservava-se na cabeça, era
preciso repô-la nos pés. Marx e Engels, transferem, portanto, para a realidade material a causa inicial desse
movimento do pensamento definido por Hegel, e chamam-no, naturalmente, dialéctico, servindo-se daquele
seu mesmo termo.
Pensam que tem razão para dizer que o pensamento e o universo estão em perpétua mudança, mas se engana,
afirmando que são as mudanças das ideias que determinam as das coisas. São, pelo contrário, estas que nos
dão aquelas, e as ideias modificam-se porque as coisas se modificam.
Outrora, viajava-se em diligência. Hoje, de comboio. Não é por termos a ideia de viajar de comboio que este
meio de locomoção existe. As nossas ideias modificaram-se, porque se modificam as coisas.
Devemos, pois, evitar dizer: «Marx e Engels possuíam, por um lado, o materialismo resultante do
materialismo francês do século XVIII, por outro, a dialéctica de Hegel; por consequência, apenas tinham que
os juntar um ao outro».
É uma concepção simplista, esquemática, que esquece que os fenómenos são mais complicados; é uma
concepção metafísica.
Marx e Engels tomarão, na verdade, a dialéctica a Hegel, mas transformá-la-ão. O mesmo farão do
materialismo, para nos dar o materialismo dialéctico.
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