quinta-feira, 31 de março de 2011
Hierarquias exigem mais dinheiro e todo o poder
Em 1975 – um ano apenas após o «25 de Abril» português – o mundo capitalista entrou numa alucinada fase de regeneração. Tratava-se de desenvolver, a curto prazo, um plano de acção cujos objectivos finais visavam a rápida absorção de toda a riqueza produzida pelo homem ou oculta na Natureza sob a forma de matéria-prima. Sabia-se que o plano de campanha teria de adoptar meios nada éticos e de tomar decisões politicamente incorrectas. Esse compromisso central seria assumido à «porta fechada». Em torno, manter-se-ia um silêncio feroz resguardando os segredos de um limitado núcleo de «barões da indústria», formado por banqueiros, governantes políticos, altas patentes das Forças Armadas, hierarquias da Igreja, cientistas e especuladores financeiros – plenipotenciários do capital revestidos com roupagens da defesa das liberdades, do respeito pela democracia, da filantropia e da justa distribuição da riqueza. Nessas etapas iniciais da nova geração capitalista tudo se desenvolveu de forma discreta. As primeiras operações foram «cirúrgicas». Pensa-se agora que em todo o mundo apenas cerca de vinte mil altos funcionários, selectivamente escolhidos, tenham sido afastados da área dos centros de decisão. Pelo contrário, da noite para o dia surgiram milhares e milhares de instituições humanitárias «desinteressadas, altruístas e sem ligações a partidos políticos ou correntes religiosas». Das vanguardas plutocratas destacou-se, também, um grupo de especuladores subitamente «convertidos» à filantropia e à defesa dos direitos do Homem. A partir de então, nas novas universidades (sobretudo nas católicas) desabrocharam milhares de novos quadros, com níveis desiguais de preparação e ausência generalizada de sentido crítico. Das guerras imperialistas, de agressão e de rapina, nunca mais se ouviu falar. Continuavam a multiplicar-se, é certo, mas «crismaram-nas» em intervenções humanitárias em defesa das liberdades, pretensamente impostas pela vontade popular, ainda que depois as populações fossem massacradas pelos «libertadores». Calcula-se que deste modo tenham sido exterminados 200 milhões de seres humanos e outros 600 milhões tenham ficado estropiados. Afirmou então um destacado analista político da América Latina, Ortiz y Carrillo: «Em surdina, lentamente, a partir de 1975 foi iniciada a Terceira Guerra Mundial». Dinheiro sujo e falso A alimentação das várias frentes desta megaoperação capitalista tem exigido caudais inesgotáveis de dinheiro. Não é a preços módicos que se provocam guerras, se compram consciências, se desorganizam economias sociais e se tece o submundo do crime. Estatísticas financeiras credíveis quantificam em 18 triliões de dólares os gastos destas operações, só em valores financeiros e em pouco mais de vinte anos. Foi a partir de 1975 que aceleraram subitamente os ritmos da sabotagem dos sistemas socialistas europeus e mais se agudizaram as divisões entre os movimentos de libertação, a liberalização dos mercados, a promoção bolsista dos capitais especulativos e a farsa dos apelos à paz lançados aos quatro ventos pelos senhores da guerra. Cresceu esmagadoramente o peso financeiro dos mercados internacionais das drogas, o comércio clandestino das armas, a adulteração da moeda, o contrabando de seres humanos e, indistintamente, todas as operações legais e ilegais que pudessem dar lucros imediatos com taxas elevadas. Não se encontrando nestas condições, o pequeno e médio comércios, a agricultura, as pescas e grande parte das actividades económicas reprodutivas foram friamente abandonadas. Como sucede nas esquizofrenias, as sociedades humanas passaram a aceitar ser normal a coexistência entre o real e o mais doentio imaginário. As novas comunidades dizem-se independentes e «democráticas» mas, na realidade, obedecem a ordens imperativas de organismos estranhos e invisíveis, tais como bolsas, mercados, «offshores», G-7 e G-8, Opus Dei, fundações, fundos monetários, sistemas de segurança mundiais ou mesmo aparelhos dotados de poderes majestáticos, como os da Mafia, do Vaticano ou da Al-Qaeda. Ninguém os vê mas toda a poderosa alta burguesia lhes obedece como se fossem deuses. Porém, é cada vez mais evidente que as cartas que os banqueiros lançaram sobre a mesa nada e ninguém as poderá voltar a recolher. Foram longe, de mais. Embriagaram-se com o seu poder. Puseram a terra que é dos homens de pernas para o ar. Não estamos em presença de cenários puramente nacionais. E é evidente que a realidade do processo histórico avança autonomamente, como sempre. Agora, só ao povo compete desfazer essa cambalhota. Voltar a devolver ao homem a posição normal: cabeça levantada e corpo assente sobre os pés. Custe o que custar, assim se fará. E a Igreja deve repensar-se, fazer acto de contrição. Deixar de ser uma pedra encravada nos tempos. Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 24 de março de 2011
A dura luta de classes
Quem ler ou ouvir as notícias do dia ficará certamente seguro de que a vida em Portugal está a entrar em fase de agudíssima conflitualidade política e social. Agora, tudo se precipita, de roldão. Aos pobres, o poder capitalista exige cada vez mais sacrifícios, com o aumento do desemprego, da insegurança e da dependência de um crédito de realidade cada vez mais duvidosa. Agudiza estados de angústia entre os trabalhadores, crivados de impostos. Cumula os ricos de regalias e espezinha os humildes e os indefesos, usando da impunidade de quem se sente senhor todo poderoso dos destinos da Nação. Age como os ditadores e não cumpre as suas próprias leis. Tal como na ascensão do fascismo aconteceu.
A filosofia reinante na área governativa é a de que o conjunto da população portuguesa deve ser classificado em três grandes grupos, com estatutos desiguais: o grupo dos poderosos que controlam os circuitos do dinheiro, o aparelho produtivo, as relações externas e o aparelho político e social; o dos «pobres por natureza», que já nasceram escravos e assim devem permanecer, submissos e muito ligados à Igreja e à caridade cristã; e o dos «terceiros excluídos», dos pagadores de promessas, os cidadãos submissos à propaganda e aos interesses capitalistas e que, pura e simplesmente, buscam o seu próprio bem-estar. Uma sociedade que reage a velocidades variáveis enquanto invoca uma Justiça com duas caras, uma Economia que «troca o passo» a cada passo e uma Constituição flexível quanto baste, disponível para impor em quaisquer circunstâncias as orientações daqueles que representam as forças dominantes do grande capital.
Ficam assim as portas entreabertas ao regresso do Deus, Pátria e Família do passado. Tudo isto nos quadros de uma Europa que não se encontra numa situação muito melhor que a de Portugal. Enquanto por todo o lado se cruzam febrilmente as intrigas políticas impotentes para evitarem que os «milagres da globalização» se desmoronem.
Cenários de destruição e de pobreza. Cenários de duras lutas de classes. É cada vez maior a multidão dos que «não têm nada a perder a não ser as suas algemas».
Ruptura e mudança
O sentimento que os capitalistas temem ver generalizar-se a todos os povos é o da completa perda dos medos das massas populares à repressão do poder central ou do capital privado e dos seus aliados. E o facto é que, em todo o mundo, cresce a consciência de que a justiça social nada tem a ver com o sagrado, confessional ou laico. E de que este pode ser (e é, de facto) usado como camuflagem das manobras que servem para enganar as massas e dilatar as formas de exploração do homem.
Neste aspecto, o caso português é exemplar. Devia ser meditado pelos católicos que se formaram nos automatismos da teologia. E também por todos os crentes de princípios honestos que admitem ser possível que políticos como Sócrates possam ser sinceramente movidos por ideais.
No plano da fé, é mais que tempo dos crentes interpelarem as suas hierarquias. Como entender, no plano ético, que os bispos emudeçam perante crimes terríveis de lesa-humanidade como os que estão na linha do horizonte; os PEC que em breve farão crescer exponencialmente os dois milhões de pobres portugueses que as optimistas estatísticas admitem existirem, os cortes sempre mais profundos nas pensões sociais, as reduções das verbas orçamentais autárquicas, os congelamentos das baixas reformas, o aumento dos preços dos medicamentos enquanto sobem as contribuições e o custo de vida, etc., etc. Emudeceram as balelas do «pelotão da frente», do «enriquecimento na globalização» ou do «combate à pobreza». De súbito, eis que a visão do «paraíso» cede lugar aos pesadelos do lamaçal do «inferno».
Como entenderão, os católicos, estes silêncios cúmplices do seu episcopado? Então, a Igreja (embora tenha como papa um autêntico banqueiro) já nem sequer cuida da sua maquilhagem piedosa? Que é feito da «Mãe dos Pobres «ou do «Milagre dos Pastorinhos»?
Há 53 anos, escrevia António Pato no clandestino Militante, separando as águas: «Nós, comunistas, orientamo-nos pelo marxismo-leninismo cuja base teórica reside no materialismo dialéctico. Como se sabe, a concepção materialista e dialéctica não faz depender de Deus a existência das coisas e dos fenómenos. Mas não devemos confundir a nossa posição ideológica frente à religião com a nossa atitude em relação às massas religiosas e crentes em Deus».
Esta continua a ser a firme posição dos comunistas portugueses.
Jorge Messias (Jornal Avante)
A filosofia reinante na área governativa é a de que o conjunto da população portuguesa deve ser classificado em três grandes grupos, com estatutos desiguais: o grupo dos poderosos que controlam os circuitos do dinheiro, o aparelho produtivo, as relações externas e o aparelho político e social; o dos «pobres por natureza», que já nasceram escravos e assim devem permanecer, submissos e muito ligados à Igreja e à caridade cristã; e o dos «terceiros excluídos», dos pagadores de promessas, os cidadãos submissos à propaganda e aos interesses capitalistas e que, pura e simplesmente, buscam o seu próprio bem-estar. Uma sociedade que reage a velocidades variáveis enquanto invoca uma Justiça com duas caras, uma Economia que «troca o passo» a cada passo e uma Constituição flexível quanto baste, disponível para impor em quaisquer circunstâncias as orientações daqueles que representam as forças dominantes do grande capital.
Ficam assim as portas entreabertas ao regresso do Deus, Pátria e Família do passado. Tudo isto nos quadros de uma Europa que não se encontra numa situação muito melhor que a de Portugal. Enquanto por todo o lado se cruzam febrilmente as intrigas políticas impotentes para evitarem que os «milagres da globalização» se desmoronem.
Cenários de destruição e de pobreza. Cenários de duras lutas de classes. É cada vez maior a multidão dos que «não têm nada a perder a não ser as suas algemas».
Ruptura e mudança
O sentimento que os capitalistas temem ver generalizar-se a todos os povos é o da completa perda dos medos das massas populares à repressão do poder central ou do capital privado e dos seus aliados. E o facto é que, em todo o mundo, cresce a consciência de que a justiça social nada tem a ver com o sagrado, confessional ou laico. E de que este pode ser (e é, de facto) usado como camuflagem das manobras que servem para enganar as massas e dilatar as formas de exploração do homem.
Neste aspecto, o caso português é exemplar. Devia ser meditado pelos católicos que se formaram nos automatismos da teologia. E também por todos os crentes de princípios honestos que admitem ser possível que políticos como Sócrates possam ser sinceramente movidos por ideais.
No plano da fé, é mais que tempo dos crentes interpelarem as suas hierarquias. Como entender, no plano ético, que os bispos emudeçam perante crimes terríveis de lesa-humanidade como os que estão na linha do horizonte; os PEC que em breve farão crescer exponencialmente os dois milhões de pobres portugueses que as optimistas estatísticas admitem existirem, os cortes sempre mais profundos nas pensões sociais, as reduções das verbas orçamentais autárquicas, os congelamentos das baixas reformas, o aumento dos preços dos medicamentos enquanto sobem as contribuições e o custo de vida, etc., etc. Emudeceram as balelas do «pelotão da frente», do «enriquecimento na globalização» ou do «combate à pobreza». De súbito, eis que a visão do «paraíso» cede lugar aos pesadelos do lamaçal do «inferno».
Como entenderão, os católicos, estes silêncios cúmplices do seu episcopado? Então, a Igreja (embora tenha como papa um autêntico banqueiro) já nem sequer cuida da sua maquilhagem piedosa? Que é feito da «Mãe dos Pobres «ou do «Milagre dos Pastorinhos»?
Há 53 anos, escrevia António Pato no clandestino Militante, separando as águas: «Nós, comunistas, orientamo-nos pelo marxismo-leninismo cuja base teórica reside no materialismo dialéctico. Como se sabe, a concepção materialista e dialéctica não faz depender de Deus a existência das coisas e dos fenómenos. Mas não devemos confundir a nossa posição ideológica frente à religião com a nossa atitude em relação às massas religiosas e crentes em Deus».
Esta continua a ser a firme posição dos comunistas portugueses.
Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 17 de março de 2011
A inivitável luta de classes
Lenine citava Marx no Manifesto (1847): «A história de toda a sociedade até aos nossos dias não tem sido mais que a história da luta de classes». Esta constatação do grande revolucionário permanece perfeitamente válida e permite-nos analisar a actualidade. Não são precisas altas acrobacias mentais para percebemos que o mundo penetra agora, a ritmo alucinante, nos processos finais da ruptura social e da inevitável mudança de um ciclo. Inevitáveis são também, pois, as lutas de classes.
Estremecem os pilares da ordem e do poder capitalista. Multidões de pobres fazem nos desertos a aprendizagem da sua força real. Milhões de desempregados vagueiam nas cidades. Os banqueiros afogam-se no dinheiro que abunda mas tem cada vez menor valor. Falta petróleo barato aos grandes barões da indústria. Cindem-se as forças dos poderosos senhores da guerra. Apaga-se o prestígio dos «iluminados» da política e da religião. Governantes e cardeais – os «produtores de mitos» – habituados a olhar as turbas-multas como massa inerte fácil de moldar, olham com espanto e temor os dias que se avizinham.
Tudo isto pode indiciar uma fase pré-revolucionária mas mergulha, por enquanto, no denso nevoeiro de gigantescas contradições. Aos movimentos dos trabalhadores falta unidade e internacionalismo. A consciencialização política ainda não acompanha parte importante da indignação popular. A comunicação social manipulada e as ambiguidades da estatística, bem como as histórias de embalar contadas pelos ministros, pelos clérigos, pelos publicistas e pelos leigos, ainda enganam muita gente. E a Igreja, embora em queda a pique na opinião pública, permanece fiel a uma prudente estratégia de apoio ao capitalismo, com os seus silêncios, a sua retórica bolorenta e os seus inconfessados compromissos.
É certo que aquilo que ainda falta à luta dos trabalhadores será forjado nas batalhas futuras da luta de classes. Mas por enquanto ninguém arrisca prever o futuro próximo da humanidade. Ainda que a luta cresça dia a dia. O que é vivamente de saudar.
Marxistas-leninistas, somos soldados presentes em todas as batalhas.
Estratégias de recurso
Desde sempre que nas suas crises profundas, quando a solução final parece irrevogável, o capitalismo procura saídas de recurso, escadas de salvação. Quando a Inglaterra (na altura o país mais industrializado) mergulhou em crise cíclica profunda, no século XIX, Lenine registou os acontecimentos com palavras singelas e observou, a propósito das cartas que o inimigo ia lançando sobre a mesa: «a nação mais burguesa de entre todas parece querer possuir, no fim de contas, uma aristocracia burguesa e um proletariado burguês». Ao capitalismo impunha-se ganhar tempo.
Mudam as caras, mudam os tempos e o sentido das palavras mas as estratégias doutrinais permanecem. Mais recentemente, poucas décadas bastaram para destruir o mito da «sociedade da abundância». No seu desenvolvimento, qualquer forma de capitalismo conduz elites à posse da riqueza e mergulha o povo na miséria ou na pobreza. É questão de tempo. Então, a tão romanceada liberdade transforma-se rapidamente no mais duro autoritarismo e na mais brutal repressão. Veja-se o que se passa nos territórios árabes do petróleo africano. Populações inteiras erguem-se, de mãos nuas, contra os tiranos capitalistas que lhes sugam o sangue. Os grandes senhores ameaçados negoceiam então entre si as novas formas de eternizar a exploração dos povos. Ou, se assim não for, combinam como esmagar as resistências, a tiro ou com «napalm». Entretanto, enquanto mentem, continuam a dividir para reinar. A Igreja é parte activa do negócio.
Na Europa, o tempo ainda é de sofisticações. O poder capitalista enfrenta mal a crise e procura manter o seu «status» inventando, como nos velhos tempos, a sua própria classe aristocrática e o seu proletariado. Privilegia na escolha os desempregados e a juventude, tal como o fizeram no passado, em fases de ascensão, fascistas italianos e nazis alemães. Os meios que agora usa é que são mais requintados e mais eficientes, como as telecomunicações de última geração, os circuitos financeiros ou as estratégias de grupo. Introduz e banaliza formas de acção inaceitáveis, como a do controlo das multidões desesperadas ou a da convocação anónima de manifestações de massas. Formas de agir politicamente ilegais e moralmente abjectas. A Igreja cala-se, como convém ao grande capital ...
Vigilância revolucionária e firmeza. «Fascismo, nunca mais» – não o deixaremos passar. No pasarán!
Jorge Messias (Jornal Avante)
Estremecem os pilares da ordem e do poder capitalista. Multidões de pobres fazem nos desertos a aprendizagem da sua força real. Milhões de desempregados vagueiam nas cidades. Os banqueiros afogam-se no dinheiro que abunda mas tem cada vez menor valor. Falta petróleo barato aos grandes barões da indústria. Cindem-se as forças dos poderosos senhores da guerra. Apaga-se o prestígio dos «iluminados» da política e da religião. Governantes e cardeais – os «produtores de mitos» – habituados a olhar as turbas-multas como massa inerte fácil de moldar, olham com espanto e temor os dias que se avizinham.
Tudo isto pode indiciar uma fase pré-revolucionária mas mergulha, por enquanto, no denso nevoeiro de gigantescas contradições. Aos movimentos dos trabalhadores falta unidade e internacionalismo. A consciencialização política ainda não acompanha parte importante da indignação popular. A comunicação social manipulada e as ambiguidades da estatística, bem como as histórias de embalar contadas pelos ministros, pelos clérigos, pelos publicistas e pelos leigos, ainda enganam muita gente. E a Igreja, embora em queda a pique na opinião pública, permanece fiel a uma prudente estratégia de apoio ao capitalismo, com os seus silêncios, a sua retórica bolorenta e os seus inconfessados compromissos.
É certo que aquilo que ainda falta à luta dos trabalhadores será forjado nas batalhas futuras da luta de classes. Mas por enquanto ninguém arrisca prever o futuro próximo da humanidade. Ainda que a luta cresça dia a dia. O que é vivamente de saudar.
Marxistas-leninistas, somos soldados presentes em todas as batalhas.
Estratégias de recurso
Desde sempre que nas suas crises profundas, quando a solução final parece irrevogável, o capitalismo procura saídas de recurso, escadas de salvação. Quando a Inglaterra (na altura o país mais industrializado) mergulhou em crise cíclica profunda, no século XIX, Lenine registou os acontecimentos com palavras singelas e observou, a propósito das cartas que o inimigo ia lançando sobre a mesa: «a nação mais burguesa de entre todas parece querer possuir, no fim de contas, uma aristocracia burguesa e um proletariado burguês». Ao capitalismo impunha-se ganhar tempo.
Mudam as caras, mudam os tempos e o sentido das palavras mas as estratégias doutrinais permanecem. Mais recentemente, poucas décadas bastaram para destruir o mito da «sociedade da abundância». No seu desenvolvimento, qualquer forma de capitalismo conduz elites à posse da riqueza e mergulha o povo na miséria ou na pobreza. É questão de tempo. Então, a tão romanceada liberdade transforma-se rapidamente no mais duro autoritarismo e na mais brutal repressão. Veja-se o que se passa nos territórios árabes do petróleo africano. Populações inteiras erguem-se, de mãos nuas, contra os tiranos capitalistas que lhes sugam o sangue. Os grandes senhores ameaçados negoceiam então entre si as novas formas de eternizar a exploração dos povos. Ou, se assim não for, combinam como esmagar as resistências, a tiro ou com «napalm». Entretanto, enquanto mentem, continuam a dividir para reinar. A Igreja é parte activa do negócio.
Na Europa, o tempo ainda é de sofisticações. O poder capitalista enfrenta mal a crise e procura manter o seu «status» inventando, como nos velhos tempos, a sua própria classe aristocrática e o seu proletariado. Privilegia na escolha os desempregados e a juventude, tal como o fizeram no passado, em fases de ascensão, fascistas italianos e nazis alemães. Os meios que agora usa é que são mais requintados e mais eficientes, como as telecomunicações de última geração, os circuitos financeiros ou as estratégias de grupo. Introduz e banaliza formas de acção inaceitáveis, como a do controlo das multidões desesperadas ou a da convocação anónima de manifestações de massas. Formas de agir politicamente ilegais e moralmente abjectas. A Igreja cala-se, como convém ao grande capital ...
Vigilância revolucionária e firmeza. «Fascismo, nunca mais» – não o deixaremos passar. No pasarán!
Jorge Messias (Jornal Avante)
sexta-feira, 11 de março de 2011
Varrer o lixo para debaixo da cama
Não é novidade dizer-se que a propaganda anti-sovética não olhava a meios para atingir os seus fins. As centrais capitalistas mundiais apregoavam, por exemplo, que nos estados socialistas as confissões religiosas eram perseguidas e os crentes eliminados da vida pública. Nada de mais falso, é evidente. Basta olhar-se para o número de templos em actividade, antes e depois da Revolução de Outubro; para o surto dos novas ramos religiosos instalados na URSS; para a normalização jurídica das relações entre o Estado e a Igreja; ou para o direito reconhecido à constituição de associações religiosas nas áreas de cada templo, para se constatar a falsidade dessas acusações. As associações confessionais podiam desenvolver actividades litúrgicas, administrar os patrimónios das igrejas, recolher donativos voluntários (isentos de quaisquer taxas ou contribuições), gerir os valores monetários de cada congregação, etc. Funcionavam em todo o território soviético dezenas de escolas religiosas de ensino especializado. O Estado socialista fornecia gratuitamente aos templos as instalações onde eles funcionavam.
É altura para tudo isto ser recordado. O capitalismo desmantelou os aparelhos dos estados proletários, fez as suas festas e deitou os seus foguetes mas hoje é o que se vê: está de rastos mas continua a ameaçar. Porém, se ele não estoirar com o planeta ou não exterminar a humanidade, então – através da luta – tudo se recomporá: a vida será mais livre e justa, pacífica e trabalhadora, sem classes de senhores e de escravos. Não recorrerá mais a mentiras e ilusões.
A liberdade de consciência
Nesta importante área específica da liberdade de consciência a questão central foi e continua a ser outra. O Partido Comunista no poder e a assembleia das repúblicas socialistas promulgaram, logo após a vitória da «Revolução de Outubro», um conjunto de disposições cujo principal instrumento era a lei da «Separação de poderes da Igreja e do Estado, da Escola e da Igreja». Ou seja: direitos e deveres que ao Estado competissem era ao Estado que incumbia proteger e respeitar. Sem quaisquer excepções, nenhuma confissão religiosa poderia ultrapassar estas marcas do poder revolucionário. E todos os credos e crenças seriam consideradas iguais perante a Lei. Uma solução equilibrada que permitia às igrejas, se quisessem, exercer acções de solidariedade sem que, contudo, tais funções pudessem servir de pretexto a formas políticas de organização, subversivas e antidemocráticas.
O que se passa agora em Portugal, nas áreas públicas onde a Igreja intervém, espelha muito esta segunda intenção. Se os católicos praticassem simplesmente a caridade, nenhuma crítica que lhes fizessem teria razão de ser. Mas não, não é assim.
Num país de pobres e de ricos, é de todo em todo evidente que algumas IPSS menos protegidas lutam com falta de recursos e que um pequeno punhado de leigos católicos se sacrifica efectivamente para ajudar os calvários dos fracos e dos pobres. Mas é intolerável que a Segurança Social, a Saúde, a Economia e o Trabalho, a Educação, sejam campo aberto para manobras políticas.
Na base da pirâmide caritativa da Igreja, apenas um limitado número de instituições surge por gestação natural, como nos tempos do associativismo da I República. Regra geral, esses pequenos núcleos obedecem a leis e normas internas corporativas e articulam-se entre si, estabelecendo pactos com o poder local e criando parcerias com os ricos. Cedo, os frágeis movimentos paroquiais se transformam em IPSS; estas, organizam-se em áreas específicas; depois – caso das Misericórdias, das ONG, das Fundações, das Mutualidades e de outras mais – investem em negócios lucrativos que nada têm a ver com o exercício da caridade; imperceptivelmente, os níveis representativos dessas formações sociocaritativas atingem patamares cada vez mais complexos e formam uniões, federações, confederações (inclusivamente, intercionalizam-se), «arrumando-se» nos degraus de uma pirâmide em cujo cume se situam o aparelho permissivo do Estado e a hierarquia implacável da Igreja.
Pelo caminho, as ruas ficam juncadas do lixo das mentiras e dos crimes que se cometem impunemente e estão cada vez mais à nossa vista. Coisa indiferente para quem detém o poder do capital e o sacramento da absolvição. Porque, com o lixo, faz-se assim: junta-se, divide-se em montinhos e varre-se para debaixo da cama…
A cama do Orçamento onde a Igreja e
Jorge Messias (Jornal Avante)
É altura para tudo isto ser recordado. O capitalismo desmantelou os aparelhos dos estados proletários, fez as suas festas e deitou os seus foguetes mas hoje é o que se vê: está de rastos mas continua a ameaçar. Porém, se ele não estoirar com o planeta ou não exterminar a humanidade, então – através da luta – tudo se recomporá: a vida será mais livre e justa, pacífica e trabalhadora, sem classes de senhores e de escravos. Não recorrerá mais a mentiras e ilusões.
A liberdade de consciência
Nesta importante área específica da liberdade de consciência a questão central foi e continua a ser outra. O Partido Comunista no poder e a assembleia das repúblicas socialistas promulgaram, logo após a vitória da «Revolução de Outubro», um conjunto de disposições cujo principal instrumento era a lei da «Separação de poderes da Igreja e do Estado, da Escola e da Igreja». Ou seja: direitos e deveres que ao Estado competissem era ao Estado que incumbia proteger e respeitar. Sem quaisquer excepções, nenhuma confissão religiosa poderia ultrapassar estas marcas do poder revolucionário. E todos os credos e crenças seriam consideradas iguais perante a Lei. Uma solução equilibrada que permitia às igrejas, se quisessem, exercer acções de solidariedade sem que, contudo, tais funções pudessem servir de pretexto a formas políticas de organização, subversivas e antidemocráticas.
O que se passa agora em Portugal, nas áreas públicas onde a Igreja intervém, espelha muito esta segunda intenção. Se os católicos praticassem simplesmente a caridade, nenhuma crítica que lhes fizessem teria razão de ser. Mas não, não é assim.
Num país de pobres e de ricos, é de todo em todo evidente que algumas IPSS menos protegidas lutam com falta de recursos e que um pequeno punhado de leigos católicos se sacrifica efectivamente para ajudar os calvários dos fracos e dos pobres. Mas é intolerável que a Segurança Social, a Saúde, a Economia e o Trabalho, a Educação, sejam campo aberto para manobras políticas.
Na base da pirâmide caritativa da Igreja, apenas um limitado número de instituições surge por gestação natural, como nos tempos do associativismo da I República. Regra geral, esses pequenos núcleos obedecem a leis e normas internas corporativas e articulam-se entre si, estabelecendo pactos com o poder local e criando parcerias com os ricos. Cedo, os frágeis movimentos paroquiais se transformam em IPSS; estas, organizam-se em áreas específicas; depois – caso das Misericórdias, das ONG, das Fundações, das Mutualidades e de outras mais – investem em negócios lucrativos que nada têm a ver com o exercício da caridade; imperceptivelmente, os níveis representativos dessas formações sociocaritativas atingem patamares cada vez mais complexos e formam uniões, federações, confederações (inclusivamente, intercionalizam-se), «arrumando-se» nos degraus de uma pirâmide em cujo cume se situam o aparelho permissivo do Estado e a hierarquia implacável da Igreja.
Pelo caminho, as ruas ficam juncadas do lixo das mentiras e dos crimes que se cometem impunemente e estão cada vez mais à nossa vista. Coisa indiferente para quem detém o poder do capital e o sacramento da absolvição. Porque, com o lixo, faz-se assim: junta-se, divide-se em montinhos e varre-se para debaixo da cama…
A cama do Orçamento onde a Igreja e
Jorge Messias (Jornal Avante)
domingo, 6 de março de 2011
Histórias de outros tempos
Eram 16 horas e trinta quando o 44 chegou ao Cais do Sodré. Ribeiro foi o ultimo a sair não só porque tinha algum tempo à sua frente mas porque a mala que levava era encobrante e não valia apenas incomodar quem quer que fosse.
Estávamos em pleno Maio e o calor já se fazia sentir. Ribeiro procurou uma sombra para melhor se orientar e ver o melhor caminho para chegar à rua de São Paulo que ficava a algumas centenas de metros. Olhou à sua volta para se assegurar que não era vigiado pois todos os cuidados eram poucos. Tendo a certeza que ninguém se ocupava dele tomou a direcção do Mercado fazendo atenção ao transito que àquela hora começava a ser intenso. Muitos trabalhadores começavam a sair dos seus empregos enchendo os barcos que iam e vinham da outra banda, os eléctricos e autocarros circulavam repletos deixando uns e tomando outros, os comboios chegavam e partiam completamente cheios; era o mundo do trabalho que tomava conta da cidade, era o mundo do Ribeiro que muito o fascinava e no qual se sentia integrado. Cruzava uns,ultrapassava outros ou era ultrapassado por quem tinha pressa de chegar ao seu destino. Não eram desconhecidos para o Ribeiro embora deles nem sequer soubesse o nome; via o homem da lancheira, aparentando os 60 anos, andar lentamente, talvez, devido ao esforço do dia de trabalho, via aquela mulher que quase corria para chegar o mais cedo possível a casa onde, de certeza,outra tarefa a esperava para se ocupar dos filhos e do marido; mais alem aquele par de namorados que no meio de alguns beijos e sorrisos iam fazendo planos confiantes num futuro feliz. Era este cenário, este quadro vivo e animado que numa tarde de Maio de 1969 o Ribeiro contemplava numa rua de Lisboa mas que poderia ser noutra qualquer cidade ou vila do país. Este país que era o seu, o seu Portugal amordaçado e que o leva a estar ali a procurar cumprir uma tarefa, consciente do perigo que o rodeia, mas orgulhoso da confiança que nele depositaram.
Ribeiro ia chegando ao local combinado sem deixar de observar o que se passava à sua volta pois não podia esquecer que a sua tarefa tinha alguns riscos e que era preciso toda a atenção. Chegou ao local do encontro na hora marcada;sabia que não chegando o camarada nos dois ou três minutos que seguissem, teria de abandonar o local e ir dar uma volta sem perder o sitio de vista. Foi isso que aconteceu e mesmo depois do tempo de tolerância o camarada não apareceu o que deixou o Ribeiro preocupado. Não podia ficar mais tempo e havia que sair daquela zona o mais rápido possível, tendo a certeza que não era seguido. Em vez de tomar o 44, que o levaria directamente a casa, tomou outros caminhos mudando várias vezes de autocarro e só depois de ter a certeza que não o seguiam entrou em casa.
-Trazes de novo a mala?- Perguntou-lhe a esposa que o esperava para jantar.
-Como vês, trago-a e estou preocupado, parece confirmar-se o boato que para aí anda, respondeu o Ribeiro que previa o pior. Depois de alguns dias que se falava de umas prisões para o lado do Areeiro, só não se sabia quem tinha perdido mas a não comparência do camarada ao encontro deixava antever o pior.
Não foi preciso muito tempo para que o boato se tornasse realidade. Alguns dias depois lá vinha, nas páginas interiores dos jornais, um comunicado da D.G.S. (PIDE), com as respectivas fotografias, a noticiar a prisão de um grupo de "perturbadores da ordem pública".
Tais acontecimentos trouxeram alguma perturbação e tristeza à casa do Ribeiro. Alguns camaradas presos tinham passado lá por casa e um deles começava a fazer parte da família. Era lá que vinha pernoitar muitas noites e quantas vezes a esposa deixou de comer a isca do fígado ou o carapau frito para que o camarada pudesse retemperar forças.
Alguns meses se passaram sem que algo de importante acontecesse. Mas a vida, cada vez mais difícil, levou o Ribeiro a seguir o rumo de milhares de de portugueses e num fim de semana do mês de Setembro partiu para França. Pouco tempo depois tinha já junto de si a esposa e os filhos; uma vida nova começava com muitas esperanças e algumas desilusões.
Foram passando os dias e ao Ribeiro faltava-lhe algo que tinha deixado em Portugal: o seu Partido. Não lhe foi difícil encontra-lo e alguns meses depois já tinha uma ligação com alguns camaradas. A sua actividade junto da emigração não permitia ir de férias ao país e de Setembro de 69 a Junho de 74 Ribeiro não mais viu o seu Portugal.
Mas Abril aconteceu e o Ribeiro, como milhares de portugueses, pode ir ao seu país para abraçar os seus e todos os amigos.
Ironia da vida, tendo sido o transporte de uma mala a sua ultima tarefa antes de emigrar, foi , também, o transporte de uma outra mala a sua primeira viagem e a sua primeira tarefa no "Portugal Livre e Democrático".
Relembro o meu passado
Que o vivi ao presente
Por onde tenho andado
Há sempre um afluente
Afluente de um grande rio
Que deixa sempre saudade
Que vai indicando aos homens
O caminho da LIBERDADE
Viva o 90 Aniversário do Partido Comunista Português (6-03-2011
Quelha Funda
Estávamos em pleno Maio e o calor já se fazia sentir. Ribeiro procurou uma sombra para melhor se orientar e ver o melhor caminho para chegar à rua de São Paulo que ficava a algumas centenas de metros. Olhou à sua volta para se assegurar que não era vigiado pois todos os cuidados eram poucos. Tendo a certeza que ninguém se ocupava dele tomou a direcção do Mercado fazendo atenção ao transito que àquela hora começava a ser intenso. Muitos trabalhadores começavam a sair dos seus empregos enchendo os barcos que iam e vinham da outra banda, os eléctricos e autocarros circulavam repletos deixando uns e tomando outros, os comboios chegavam e partiam completamente cheios; era o mundo do trabalho que tomava conta da cidade, era o mundo do Ribeiro que muito o fascinava e no qual se sentia integrado. Cruzava uns,ultrapassava outros ou era ultrapassado por quem tinha pressa de chegar ao seu destino. Não eram desconhecidos para o Ribeiro embora deles nem sequer soubesse o nome; via o homem da lancheira, aparentando os 60 anos, andar lentamente, talvez, devido ao esforço do dia de trabalho, via aquela mulher que quase corria para chegar o mais cedo possível a casa onde, de certeza,outra tarefa a esperava para se ocupar dos filhos e do marido; mais alem aquele par de namorados que no meio de alguns beijos e sorrisos iam fazendo planos confiantes num futuro feliz. Era este cenário, este quadro vivo e animado que numa tarde de Maio de 1969 o Ribeiro contemplava numa rua de Lisboa mas que poderia ser noutra qualquer cidade ou vila do país. Este país que era o seu, o seu Portugal amordaçado e que o leva a estar ali a procurar cumprir uma tarefa, consciente do perigo que o rodeia, mas orgulhoso da confiança que nele depositaram.
Ribeiro ia chegando ao local combinado sem deixar de observar o que se passava à sua volta pois não podia esquecer que a sua tarefa tinha alguns riscos e que era preciso toda a atenção. Chegou ao local do encontro na hora marcada;sabia que não chegando o camarada nos dois ou três minutos que seguissem, teria de abandonar o local e ir dar uma volta sem perder o sitio de vista. Foi isso que aconteceu e mesmo depois do tempo de tolerância o camarada não apareceu o que deixou o Ribeiro preocupado. Não podia ficar mais tempo e havia que sair daquela zona o mais rápido possível, tendo a certeza que não era seguido. Em vez de tomar o 44, que o levaria directamente a casa, tomou outros caminhos mudando várias vezes de autocarro e só depois de ter a certeza que não o seguiam entrou em casa.
-Trazes de novo a mala?- Perguntou-lhe a esposa que o esperava para jantar.
-Como vês, trago-a e estou preocupado, parece confirmar-se o boato que para aí anda, respondeu o Ribeiro que previa o pior. Depois de alguns dias que se falava de umas prisões para o lado do Areeiro, só não se sabia quem tinha perdido mas a não comparência do camarada ao encontro deixava antever o pior.
Não foi preciso muito tempo para que o boato se tornasse realidade. Alguns dias depois lá vinha, nas páginas interiores dos jornais, um comunicado da D.G.S. (PIDE), com as respectivas fotografias, a noticiar a prisão de um grupo de "perturbadores da ordem pública".
Tais acontecimentos trouxeram alguma perturbação e tristeza à casa do Ribeiro. Alguns camaradas presos tinham passado lá por casa e um deles começava a fazer parte da família. Era lá que vinha pernoitar muitas noites e quantas vezes a esposa deixou de comer a isca do fígado ou o carapau frito para que o camarada pudesse retemperar forças.
Alguns meses se passaram sem que algo de importante acontecesse. Mas a vida, cada vez mais difícil, levou o Ribeiro a seguir o rumo de milhares de de portugueses e num fim de semana do mês de Setembro partiu para França. Pouco tempo depois tinha já junto de si a esposa e os filhos; uma vida nova começava com muitas esperanças e algumas desilusões.
Foram passando os dias e ao Ribeiro faltava-lhe algo que tinha deixado em Portugal: o seu Partido. Não lhe foi difícil encontra-lo e alguns meses depois já tinha uma ligação com alguns camaradas. A sua actividade junto da emigração não permitia ir de férias ao país e de Setembro de 69 a Junho de 74 Ribeiro não mais viu o seu Portugal.
Mas Abril aconteceu e o Ribeiro, como milhares de portugueses, pode ir ao seu país para abraçar os seus e todos os amigos.
Ironia da vida, tendo sido o transporte de uma mala a sua ultima tarefa antes de emigrar, foi , também, o transporte de uma outra mala a sua primeira viagem e a sua primeira tarefa no "Portugal Livre e Democrático".
Relembro o meu passado
Que o vivi ao presente
Por onde tenho andado
Há sempre um afluente
Afluente de um grande rio
Que deixa sempre saudade
Que vai indicando aos homens
O caminho da LIBERDADE
Viva o 90 Aniversário do Partido Comunista Português (6-03-2011
Quelha Funda
quinta-feira, 3 de março de 2011
Movimento,oportunismo e acção
O labirinto de becos e vielas em que os capitalistas atolaram a humanidade só pode ser corrigido com a resistência frontal que exclui radicalmente a injustiça e o oportunismo. É a coragem popular que enfrenta a força bruta dos poderosos e as ditaduras dos monopolistas. Por outras palavras: na «sociedade de consumo» – que fulminantemente se transforma em «sociedade policial e concentracionária» – apagam-se valores morais que o marxismo jamais desprezou, como a dignidade da pessoa humana e o direito à liberdade. Sucedem-se por toda a parte os roubos, as traições, as mentiras e as promessas vãs. A superioridade moral dos comunistas, ausentes dos escândalos públicos onde impera à solta o grande capital, prova uma vez mais que a afirmação dos grandes valores éticos figura na primeira linha das trincheiras da sua luta de classes. Sem cedências oportunistas. Não esquecendo os crimes nem brindando os culpados com um perdão desonesto. Mas trabalhando para traçar os rumos de um futuro colectivo de progresso, liberdade e de igualdade perante a lei.
Dizia Karl Marx acerca do trabalho revolucionário: «Não nos apresentamos perante o mundo com um novo princípio: eis a nossa verdade… ponde-vos de joelhos ! Mostramos-lhe porque é que ele na verdade luta e porque a consciência é um valor que deve adquirir mesmo que a não deseje».
A derrocada do capitalismo
Já chegavam e sobravam aos senhores da Terra os sinais de próximo colapso dos sistemas capitalistas que impõem as leis na Europa e nas Américas. Mas como se lhes não bastassem os escândalos e os crimes revelados dia a dia, mais a crise económica real em que se afundam, vêm agora os povos africanos explorados erguer o punho e revoltar-se. Povos que vivem na miséria mas que nadam em «ouro negro». É certo que a Europa industrializada possui as máquinas e as tecnologias. Mas tudo depende do petróleo africano de «aqui de ao pé da porta». A nova situação é de tal ordem grave que se não for resolvida a Europa arrisca-se a um recuo histórico desastroso que a devolverá aos tempos da sua Idade Média. Sem energias, nenhuma economia sobreviverá.
A par de tudo isto, verifica-se um fenómeno curioso.
Perante as violações brutais dos direitos humanos, todas as religiões históricas enraizadas em tão gigantescas áreas (e não apenas a Igreja católica) calam-se, desaparecem da cena ou apenas balbuciam protestos. A tal ponto o estado de coisas embaraça as confissões que ainda se não assistiu à invocação da tradicional «questão religiosa» como explicação para as causas das lutas que se desencadearam. As lutas dos pobres europeus ou africanos contra aqueles que os exploram são laicas e revelam possuir uma carga verdadeiramente revolucionária. São lutas de classes.
Como, no entanto, é evidente, nada se pode afirmar quanto ao futuro próximo. As revoltas, tal como no-las descrevem, são espontâneas e instintivas. Os cidadãos erguem-se, lutam e morrem por não poderem sofrer mais humilhações. É a tampa que salta sem enquadramentos de partidos, movimentos ou sindicatos. São traços de «insurreições» e uma Revolução não é isso, é ruptura logo seguida de proposta de organização.
Do outro lado da barricada, no campo monopolista, a «crise» caracteriza-se não apenas pela posse de meios, de projectos, de dinheiro e de formações especializadas, mas também, negativamente, por um enorme défice de enraizamento entre as populações, de ligação às massas. Se nas suas riquíssimas universidades, os grandes patrões do petróleo e os seus accionistas religiosos apuraram estratégias sofisticadas, capazes de combater as revoltas das multidões, é cada vez maior o fosso que separa os ricos dos pobres. Os multimilionários, os políticos, os bispos e os banqueiros, sabem como manipular as tecnologias da comunicação, tecer intrigas, forjar mentiras ou infiltrar agentes e sabotadores; controlam «redes sociais», empresas não lucrativas, «instituições filantrópicas», «sociedades civis», bancos contra a pobreza ou parcerias com a alta finança sempre disposta a prometer ao povo «este mundo e o outro». Agora, o seu objectivo principal não é já suprimir as inevitáveis movimentações populares: é conquistar-lhes o sentido. Mudar-lhes o curso, a direcção e a gramática. Antecipar-se aos acontecimentos, fugir para a frente e «mudar», desde que tudo fique na mesma...
Mas os povos são lúcidos e aprendem depressa. Olhemos com esperança o que está a acontecer!
Jorge Messias (Jornal Avante)
Dizia Karl Marx acerca do trabalho revolucionário: «Não nos apresentamos perante o mundo com um novo princípio: eis a nossa verdade… ponde-vos de joelhos ! Mostramos-lhe porque é que ele na verdade luta e porque a consciência é um valor que deve adquirir mesmo que a não deseje».
A derrocada do capitalismo
Já chegavam e sobravam aos senhores da Terra os sinais de próximo colapso dos sistemas capitalistas que impõem as leis na Europa e nas Américas. Mas como se lhes não bastassem os escândalos e os crimes revelados dia a dia, mais a crise económica real em que se afundam, vêm agora os povos africanos explorados erguer o punho e revoltar-se. Povos que vivem na miséria mas que nadam em «ouro negro». É certo que a Europa industrializada possui as máquinas e as tecnologias. Mas tudo depende do petróleo africano de «aqui de ao pé da porta». A nova situação é de tal ordem grave que se não for resolvida a Europa arrisca-se a um recuo histórico desastroso que a devolverá aos tempos da sua Idade Média. Sem energias, nenhuma economia sobreviverá.
A par de tudo isto, verifica-se um fenómeno curioso.
Perante as violações brutais dos direitos humanos, todas as religiões históricas enraizadas em tão gigantescas áreas (e não apenas a Igreja católica) calam-se, desaparecem da cena ou apenas balbuciam protestos. A tal ponto o estado de coisas embaraça as confissões que ainda se não assistiu à invocação da tradicional «questão religiosa» como explicação para as causas das lutas que se desencadearam. As lutas dos pobres europeus ou africanos contra aqueles que os exploram são laicas e revelam possuir uma carga verdadeiramente revolucionária. São lutas de classes.
Como, no entanto, é evidente, nada se pode afirmar quanto ao futuro próximo. As revoltas, tal como no-las descrevem, são espontâneas e instintivas. Os cidadãos erguem-se, lutam e morrem por não poderem sofrer mais humilhações. É a tampa que salta sem enquadramentos de partidos, movimentos ou sindicatos. São traços de «insurreições» e uma Revolução não é isso, é ruptura logo seguida de proposta de organização.
Do outro lado da barricada, no campo monopolista, a «crise» caracteriza-se não apenas pela posse de meios, de projectos, de dinheiro e de formações especializadas, mas também, negativamente, por um enorme défice de enraizamento entre as populações, de ligação às massas. Se nas suas riquíssimas universidades, os grandes patrões do petróleo e os seus accionistas religiosos apuraram estratégias sofisticadas, capazes de combater as revoltas das multidões, é cada vez maior o fosso que separa os ricos dos pobres. Os multimilionários, os políticos, os bispos e os banqueiros, sabem como manipular as tecnologias da comunicação, tecer intrigas, forjar mentiras ou infiltrar agentes e sabotadores; controlam «redes sociais», empresas não lucrativas, «instituições filantrópicas», «sociedades civis», bancos contra a pobreza ou parcerias com a alta finança sempre disposta a prometer ao povo «este mundo e o outro». Agora, o seu objectivo principal não é já suprimir as inevitáveis movimentações populares: é conquistar-lhes o sentido. Mudar-lhes o curso, a direcção e a gramática. Antecipar-se aos acontecimentos, fugir para a frente e «mudar», desde que tudo fique na mesma...
Mas os povos são lúcidos e aprendem depressa. Olhemos com esperança o que está a acontecer!
Jorge Messias (Jornal Avante)
Subscrever:
Mensagens (Atom)