O adensar da confusão e da pobreza – I
Como é característica de fases como esta que estamos a atravessar, as notícias que se publicam do País e do mundo são em geral confusas, contraditórias e incompletas. Há sempre verdades a ocultar e secretos interesses a defender.
Assim acontece em relação à crise económica do capitalismo, um desastre multifacetado que irá atingir as vidas de todos nós, cidadãos comuns. Mas se lermos os noticiários, de fio a pavio, fica-nos a certeza de que o processo que está em curso envolve manobras complexas tendentes a garantir que o que já agora se revela criminoso permaneça e ainda mais se agrave. Os muito ricos ficarão cada vez mais ricos e os muito pobres cada vez mais pobres; dos menos ricos, uns baixarão de escalão e empobrecerão, outros pelo contrário, enriquecerão subitamente e sem explicação aparente; mas o povo, o imenso «exército de reserva» a que pertencemos, será cilindrado pelo desemprego, pelos cortes salariais, pelo agravamento dos preços, pelo aumento dos impostos e pela marginalização social. Tudo sem nos ser explicado por quê. A pobreza vai alastrar no meio da confusão.
Os ministros metem os pés pelas mãos. As teses oficiais baralham as pistas e fica-se na dúvida se a crise resulta de os trabalhadores não quererem trabalhar, se as vozes dos patrões não estão a ser ouvidas ou se os jovens de hoje não são como eram os de ontem mas... piores. Uma tentativa para impor a escravos e ignorantes uma espécie de «Metafísica do Trabalho».
Na realidade, esta crise do capitalismo tem dupla face. É grave e é perigosa para os cidadãos por resultar do assalto ao poder movido por organismos anónimos do grande capital já anteriormente responsáveis pelo arruinar da economia. O outro sintoma grave é que, a ter sucesso, esta gigantesca manobra consolidaria no terreno uma malha poderosa de mercados – ou monopólios privados com poderes de Estado – prontos a sanear o sistema monetário, a reciclar e absorver as pequenas fortunas, a moralizar os preços, a economizar nos custos sociais e a disciplinar o trabalho.
Caso assim acontecesse, ter-se-ia passado a um novo e perigoso patamar da ofensiva neocapitalista.
A crise e a hierarquia
A crise do euro não é apenas financeira. Na perspectiva mais optimista das fortunas, o sinal negativo poderá vir a inverter-se. Talvez mesmo se transforme em ponto de partida para novas situações comparáveis a uma verdadeira vaga de fundo, a uma «contra-reforma». Aproveita-se o que é mau para fazer pior.
É por isso que começa agora a ganhar evidência a aliança estratégica entre o capital (ou os mercados) e a esfera eclesiástica, oculta na penumbra mas poderosa. Banqueiros e políticos comandam as fortunas; os bispos detêm o segredo das técnicas da alquimia da pobreza e do desemprego ao serviço dos interesses privados; e o Estado capitalista funciona como banqueiro dessa monumental conspiração. Nestes quadros gerais, a milenar trilogia – «Estado/Igreja/sociedade civil» – deve cruzar interesses próprios e fixar a reacção nos postos políticos de comando, por tempo ilimitado.
Recorde-se alguns factos recentes. As pedras do «dominó» vão-se encaixando.
Ainda há poucos dias, com o patrocínio do Governo de Sócrates, a Universidade Católica foi galardoada com um prémio pela forma como prepara técnicos em economia capitalista de mercado. Observam os analistas do Financial Times: «Contrariando a tendência de crescimento do desemprego em Portugal, 100% dos alunos da Católica são colocados no mercado de trabalho num máximo de três meses após o término do seu curso». Dias depois, o candidato à PR, Cavaco Silva, tomaria o compromisso público de vetar qualquer decisão dos outros órgãos de soberania que prejudicassem os apoios financeiros aos colégios do ensino privado, isto é – à Igreja.
Noutro caso, «para acalmar os mercados», o Governo cortou recentemente, na área social, milhões de euros nas verbas dos apoios previstos para os mais desprotegidos, para as pensões mais baixas, para as famílias, etc. Reduziu, assim, o famigerado défice público. Simultaneamente, anunciou a atribuição a creches e lares da Igreja católica de 1,25 mil milhões de euros. Agravou o défice, beneficiou amigos, garantiu votos e ainda ficou a lucrar com os cortes iniciais. Uma vez mais os cidadãos financiaram passivamente a sua própria pobreza.
Sobre o «combate à pobreza» e o «jogo às escondidas» que ele encerra também há muito a dizer.
Jorge Messias ( Jornal Avante)
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Política e Religião
Teoria e prática da Caridade
Se os órgãos responsáveis do Estado continuarem a impor as actuais políticas, adeus direitos dos trabalhadores, adeus sonhos de democracia e… adeus derradeiras sombras dos velhos mitos da independência nacional. Dizem os grandes senhores que o simples cidadão deve acatar as ordens dos mais ricos, pagar as dívidas dos especuladores, obedecer à escala de contra-valores das nações poderosas e acabar de vez com essas tontarias dos direitos e liberdades. As «conquistas» são coisas de outros tempos, são «trapos velhos».
Esta invariável e diária introdução mil vezes repetida termina sempre com ameaças veladas expressas num estilo fascizante mais subtil. Mas está à vista que o espectáculo da máquina repressiva visa amordaçar com o medo a ira popular. Que a vaga de despedimentos tenta instalar entre os trabalhadores a instabilidade e a
dúvida. E que a caridade piedosa tem o sentido da esmola que se dá ao pobre e que permite, a quem dá, ocupar o lugar deixado vago pela renúncia ao princípio da dignidade, consagrado na Constituição da República e nos Direitos do Homem.
No desenvolvimento deste esquema de subversão dos valores, a igreja-empresa surge da sombra para lembrar aos homens que o fosso entre ricos e pobres nada tem de novo e sempre com ele convivemos. Trata-se de um fenómeno natural, com uma causa simples e única: pecámos e todos temos de arcar com as consequências do pecado. Os pobres sofrem e trabalham; os ricos gozam os prazeres da vida e, no seu caso, «o pecado mora ao lado».
No correr dos anos, a Igreja tem conservado, em silêncio, esse critério histórico que esmaga uns e premeia outros. Porque à Igreja não cumpre tomar partido. A sua vocação é celestial. Na terra, deve ser cega, surda e muda face aos acidentes da história humana. Mas mantém a legenda: ai dos ricos e daqueles que cometam ou ocultem crimes. Virá o dia em que serão julgados… nos céus. Só então a Igreja falará!
A corrupção como linha de força
Entretanto, na sua «luta contra a pobreza», o episcopado propõe uma alternativa baseada numa leitura teórica da realidade. Se é impossível «extinguir a pobreza» (porque assim «Deus a quer»!) então, pelo menos, ela poderá ser «minorada». Mas como e com quem se tornará possível desenvolver este tipo de estratégia sem beliscar interesses comuns a «capitalistas» e a «cristãos»? Manobras que unam exploradores e explorados, conservadores e progressistas, crentes e ateus?
A fórmula encontrada (ou uma delas) foi esta da «luta contra a pobreza». Parte-se de «movimentos da alma» inspirados pela doutrina cristã (amor ao próximo, solidariedade, espírito caritativo, voluntariado, etc.), apoia-se esses sentimentos no «trabalho de campo» de estruturas organizadas pela Igreja (IPSS, ONGS, «Sociedade Civil», Fundações, Movimentos de Voluntariado, etc.) e liga-se discretamente o conjunto ao mundo dos negócios privados e lucrativos.
A «luta contra a pobreza» revela potencialidades muito interessantes. Nasce na «crise» mas não é crise. É forma privilegiada do escoamento e valorização de stocks. E une provisoriamente nas mesmas intenções os exploradores bem-falantes, os ingénuos explorados e os banqueiros calejados na arte de mentir com um sorriso nos lábios e um lampejo de inocência no olhar. É esta a chave do sucesso, se considerarmos que quem a perder desce inevitavelmente de escalão.
Portugal pode assim transformar-se facilmente num lucrativo mercado da «luta contra a pobreza». Terra católica, tudo aqui se compra e vende e muitos se deixam comprar. Na nossa praça, a «luta contra a pobreza» pode muito bem vir a revelar-se alavanca na promoção dos chamados «mercados emergentes». Caridade e banca, em oculta «união de facto», podem vir a gerar ligações passageiras mas de grande interesse estratégico. Seja o que for que se faça: subsídios para as fundações, recolha de rolhas usadas, peditórios, catequeses infantis, lotarias, bancos alimentares pagos pelas esmolas e abastecidos pelas sobras das mesas dos «ricos», estímulos à iniciativa empresarial – seja o que for – tudo vai concorrer para atenuar nos «pobres» as respostas duras às misérias que promovem as revoltas.
O tempo precipita-se. O ano que aí vem ameaça o povo com muito sacrifício e muito sofrimento. Todos nós sabemos isto, é certo, mas o que importa é que «da escuridão nasça a luz». Através da luta, por dura que seja.
Somos comunistas, não nos deixaremos enganar.
Jorge Messias (Jornal Avante)
Se os órgãos responsáveis do Estado continuarem a impor as actuais políticas, adeus direitos dos trabalhadores, adeus sonhos de democracia e… adeus derradeiras sombras dos velhos mitos da independência nacional. Dizem os grandes senhores que o simples cidadão deve acatar as ordens dos mais ricos, pagar as dívidas dos especuladores, obedecer à escala de contra-valores das nações poderosas e acabar de vez com essas tontarias dos direitos e liberdades. As «conquistas» são coisas de outros tempos, são «trapos velhos».
Esta invariável e diária introdução mil vezes repetida termina sempre com ameaças veladas expressas num estilo fascizante mais subtil. Mas está à vista que o espectáculo da máquina repressiva visa amordaçar com o medo a ira popular. Que a vaga de despedimentos tenta instalar entre os trabalhadores a instabilidade e a
dúvida. E que a caridade piedosa tem o sentido da esmola que se dá ao pobre e que permite, a quem dá, ocupar o lugar deixado vago pela renúncia ao princípio da dignidade, consagrado na Constituição da República e nos Direitos do Homem.
No desenvolvimento deste esquema de subversão dos valores, a igreja-empresa surge da sombra para lembrar aos homens que o fosso entre ricos e pobres nada tem de novo e sempre com ele convivemos. Trata-se de um fenómeno natural, com uma causa simples e única: pecámos e todos temos de arcar com as consequências do pecado. Os pobres sofrem e trabalham; os ricos gozam os prazeres da vida e, no seu caso, «o pecado mora ao lado».
No correr dos anos, a Igreja tem conservado, em silêncio, esse critério histórico que esmaga uns e premeia outros. Porque à Igreja não cumpre tomar partido. A sua vocação é celestial. Na terra, deve ser cega, surda e muda face aos acidentes da história humana. Mas mantém a legenda: ai dos ricos e daqueles que cometam ou ocultem crimes. Virá o dia em que serão julgados… nos céus. Só então a Igreja falará!
A corrupção como linha de força
Entretanto, na sua «luta contra a pobreza», o episcopado propõe uma alternativa baseada numa leitura teórica da realidade. Se é impossível «extinguir a pobreza» (porque assim «Deus a quer»!) então, pelo menos, ela poderá ser «minorada». Mas como e com quem se tornará possível desenvolver este tipo de estratégia sem beliscar interesses comuns a «capitalistas» e a «cristãos»? Manobras que unam exploradores e explorados, conservadores e progressistas, crentes e ateus?
A fórmula encontrada (ou uma delas) foi esta da «luta contra a pobreza». Parte-se de «movimentos da alma» inspirados pela doutrina cristã (amor ao próximo, solidariedade, espírito caritativo, voluntariado, etc.), apoia-se esses sentimentos no «trabalho de campo» de estruturas organizadas pela Igreja (IPSS, ONGS, «Sociedade Civil», Fundações, Movimentos de Voluntariado, etc.) e liga-se discretamente o conjunto ao mundo dos negócios privados e lucrativos.
A «luta contra a pobreza» revela potencialidades muito interessantes. Nasce na «crise» mas não é crise. É forma privilegiada do escoamento e valorização de stocks. E une provisoriamente nas mesmas intenções os exploradores bem-falantes, os ingénuos explorados e os banqueiros calejados na arte de mentir com um sorriso nos lábios e um lampejo de inocência no olhar. É esta a chave do sucesso, se considerarmos que quem a perder desce inevitavelmente de escalão.
Portugal pode assim transformar-se facilmente num lucrativo mercado da «luta contra a pobreza». Terra católica, tudo aqui se compra e vende e muitos se deixam comprar. Na nossa praça, a «luta contra a pobreza» pode muito bem vir a revelar-se alavanca na promoção dos chamados «mercados emergentes». Caridade e banca, em oculta «união de facto», podem vir a gerar ligações passageiras mas de grande interesse estratégico. Seja o que for que se faça: subsídios para as fundações, recolha de rolhas usadas, peditórios, catequeses infantis, lotarias, bancos alimentares pagos pelas esmolas e abastecidos pelas sobras das mesas dos «ricos», estímulos à iniciativa empresarial – seja o que for – tudo vai concorrer para atenuar nos «pobres» as respostas duras às misérias que promovem as revoltas.
O tempo precipita-se. O ano que aí vem ameaça o povo com muito sacrifício e muito sofrimento. Todos nós sabemos isto, é certo, mas o que importa é que «da escuridão nasça a luz». Através da luta, por dura que seja.
Somos comunistas, não nos deixaremos enganar.
Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Política e Religião
Lágrimas de crocodilo (VII)
Uma das técnicas mais comuns no mundo capitalista é a da «insaciedade». Bem podem os lucros aumentar e o mercado crescer: um bom capitalista nunca se confessa saciado. É um princípio de que ele se serve para engordar e crescer. E esta técnica completa-se com uma outra. Se o bom capitalista age em função do lucro e despreza a ética naquilo em que ela lhe possa estorvar a acção, nem por isso deve incorrer no erro de pensar que cada manobra comercial pode deixar de revestir-se de álibis altruístas destinados a convencer a opinião pública de que um roubo é uma louvável acção social. Diziam os antigos que salteadores de estrada e comerciantes tinham um só deus! Assim continua a ser.
Nesta época de crise para o povo multiplicam-se as iniciativas com duas caras (caridade e negócio lucrativo) e os ricos procuram surgir aos olhos dos pobres como benfeitores. É o caso das várias faces generosas da «luta contra a pobreza». Ou o dos milionários que renunciam às fortunas para se dedicarem aos pobres. Contas feitas, os ricos são cada vez mais ricos e só tentam maquilhar a própria imagem dando aparentes esmolas. E essas acções «solidárias» surgem sempre com uma marca cristã, invocando os princípios doutrinais que proclamam deverem os bens essenciais «chegar equitativamente às mãos de todos». Aos apóstolos da banca, falar não custa; e os sacerdotes da Igreja, como sempre, aproveitam a «deixa» para fornecerem ao capitalismo a cobertura moral de que ele, por si só, não dispõe.
O Vaticano é capitalista e, como tal, procura captar o lucro em quaisquer situações. Com o aumento dos subsídios públicos ou com a valorização dos capitais privados (dos quais ele é largamente accionista) a sua Igreja, em tempos de crise e de pobreza, acumula lucros sobre lucros, como qualquer outro banqueiro bem sucedido. Mas também, tal como os empresários, chora e arrepela-se por tudo e por nada. Por exemplo, enquanto a fome alastra diz que os «bancos alimentares» se arruínam ou que muitas IPSS estão à beira da falência, e reclama do Estado aumentos dos subsídios. O mesmo acontece nas outras áreas sociais, tais como o ensino, a saúde, as misericórdias e o campo sócio-caritativo, etc. Em troca, a hierarquia fornece ao capital financeiro a capa de «uma ética de prudência imbuída de caridade», nas palavras de João Paulo II. Estava-se, então, em 1986, muito antes de explodir a actual crise do capitalismo a qual, no entanto, a Igreja nessa altura já previa.
Não há dúvida que o Vaticano profetiza a longo prazo!
Alguns números mesmo que irreais
Antes do mais, devemos pôr os pés na terra e conhecer melhor o poço sem fundo em que o capitalismo nos está a mergulhar. Metendo no mesmo saco capitalismo e neocapitalismo, cruzada e imperialismo, ditadura ou parlamentarismo. Há muitos séculos que todos estes falsos valores vegetam e foram crescendo ocultamente na sociedade portuguesa. Minaram mentalidades e criaram falsos mitos. Por isso mesmo, aceite como um mal inevitável, o capitalismo foi sobrevivendo sem que em nenhum momento houvesse, entre o povo e o polvo, rupturas reais e duradouras.
Actualmente, os números da miséria traduzem, ainda que aquém da realidade, o estado em que as coisas se encontram. São dados retirados de estatísticas oficiais ou dos noticiários bem controlados dos jornais de maiores tiragens. É a partir dessa base concreta que poderemos fundamentar algumas considerações sobre a luta contra a pobreza em Portugal. A pobreza que já cá está e a outra que aí vem.
Portugal, 2011: desemprego, 11% em 6 milhões de postos de trabalho (cerca de 660 mil desempregados); pobreza (-420 euros/mês), à volta de 2 milhões de cidadãos; trabalhadores em risco eminente de pobreza, mais de 500 000; crianças pobres e muito pobres, cerca de 50% da população escolar; abandono precoce da escolaridade, 36%; o salário mínimo nacional, por imposição do Governo, permanece em 475 euros/mês, sensivelmente o mesmo valor do limiar da pobreza.
São alarmantes dados estatísticos que se agravam constantemente. Após uma década de feroz capitalismo, Portugal está pobre e caminha a largos passos para a miséria. O pior vem aí mas já se anuncia: «Todo o poder ao patronato, toda a servidão do povo em benefício do grande capital». O preço astronómico dos crimes e dos erros de cálculo dos ricos terá de ser integralmente pago pelos pobres.
Só a nossa força mudará o nosso destino colectivo. A força de um povo e a sua capacidade de resistência à tirania.
Jorge Messias (Jornal Avante
Uma das técnicas mais comuns no mundo capitalista é a da «insaciedade». Bem podem os lucros aumentar e o mercado crescer: um bom capitalista nunca se confessa saciado. É um princípio de que ele se serve para engordar e crescer. E esta técnica completa-se com uma outra. Se o bom capitalista age em função do lucro e despreza a ética naquilo em que ela lhe possa estorvar a acção, nem por isso deve incorrer no erro de pensar que cada manobra comercial pode deixar de revestir-se de álibis altruístas destinados a convencer a opinião pública de que um roubo é uma louvável acção social. Diziam os antigos que salteadores de estrada e comerciantes tinham um só deus! Assim continua a ser.
Nesta época de crise para o povo multiplicam-se as iniciativas com duas caras (caridade e negócio lucrativo) e os ricos procuram surgir aos olhos dos pobres como benfeitores. É o caso das várias faces generosas da «luta contra a pobreza». Ou o dos milionários que renunciam às fortunas para se dedicarem aos pobres. Contas feitas, os ricos são cada vez mais ricos e só tentam maquilhar a própria imagem dando aparentes esmolas. E essas acções «solidárias» surgem sempre com uma marca cristã, invocando os princípios doutrinais que proclamam deverem os bens essenciais «chegar equitativamente às mãos de todos». Aos apóstolos da banca, falar não custa; e os sacerdotes da Igreja, como sempre, aproveitam a «deixa» para fornecerem ao capitalismo a cobertura moral de que ele, por si só, não dispõe.
O Vaticano é capitalista e, como tal, procura captar o lucro em quaisquer situações. Com o aumento dos subsídios públicos ou com a valorização dos capitais privados (dos quais ele é largamente accionista) a sua Igreja, em tempos de crise e de pobreza, acumula lucros sobre lucros, como qualquer outro banqueiro bem sucedido. Mas também, tal como os empresários, chora e arrepela-se por tudo e por nada. Por exemplo, enquanto a fome alastra diz que os «bancos alimentares» se arruínam ou que muitas IPSS estão à beira da falência, e reclama do Estado aumentos dos subsídios. O mesmo acontece nas outras áreas sociais, tais como o ensino, a saúde, as misericórdias e o campo sócio-caritativo, etc. Em troca, a hierarquia fornece ao capital financeiro a capa de «uma ética de prudência imbuída de caridade», nas palavras de João Paulo II. Estava-se, então, em 1986, muito antes de explodir a actual crise do capitalismo a qual, no entanto, a Igreja nessa altura já previa.
Não há dúvida que o Vaticano profetiza a longo prazo!
Alguns números mesmo que irreais
Antes do mais, devemos pôr os pés na terra e conhecer melhor o poço sem fundo em que o capitalismo nos está a mergulhar. Metendo no mesmo saco capitalismo e neocapitalismo, cruzada e imperialismo, ditadura ou parlamentarismo. Há muitos séculos que todos estes falsos valores vegetam e foram crescendo ocultamente na sociedade portuguesa. Minaram mentalidades e criaram falsos mitos. Por isso mesmo, aceite como um mal inevitável, o capitalismo foi sobrevivendo sem que em nenhum momento houvesse, entre o povo e o polvo, rupturas reais e duradouras.
Actualmente, os números da miséria traduzem, ainda que aquém da realidade, o estado em que as coisas se encontram. São dados retirados de estatísticas oficiais ou dos noticiários bem controlados dos jornais de maiores tiragens. É a partir dessa base concreta que poderemos fundamentar algumas considerações sobre a luta contra a pobreza em Portugal. A pobreza que já cá está e a outra que aí vem.
Portugal, 2011: desemprego, 11% em 6 milhões de postos de trabalho (cerca de 660 mil desempregados); pobreza (-420 euros/mês), à volta de 2 milhões de cidadãos; trabalhadores em risco eminente de pobreza, mais de 500 000; crianças pobres e muito pobres, cerca de 50% da população escolar; abandono precoce da escolaridade, 36%; o salário mínimo nacional, por imposição do Governo, permanece em 475 euros/mês, sensivelmente o mesmo valor do limiar da pobreza.
São alarmantes dados estatísticos que se agravam constantemente. Após uma década de feroz capitalismo, Portugal está pobre e caminha a largos passos para a miséria. O pior vem aí mas já se anuncia: «Todo o poder ao patronato, toda a servidão do povo em benefício do grande capital». O preço astronómico dos crimes e dos erros de cálculo dos ricos terá de ser integralmente pago pelos pobres.
Só a nossa força mudará o nosso destino colectivo. A força de um povo e a sua capacidade de resistência à tirania.
Jorge Messias (Jornal Avante
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Política e Religião
Margens de lucro e mercado social (VI)
Da estagnação passou-se fulminantemente a sucessivas fases de aceleração da acção. O que agora é, dentro de uma hora talvez já não seja. Mas há sempre um fio condutor indisfarçável que liga o passado ao presente para depois sugerir o futuro. É uma lei natural que não é possível escamotear. Não há efeito sem causa.
O eterno retorno da «questão religiosa» – que por razões históricas permanece viva e actual – convida a que chamemos novamente à baila o gravíssimo problema social da pobreza, da sua caracterização e dos objectivos que as forças democráticas invocam para a combater. Devem as lutas sociais apontar como objectivo básico a extinção da pobreza? Ou, inversamente, essa luta deverá ser secundarizada visto a pobreza se revelar inevitável e eterna?
Não é preciso ser-se ateu para se recusar esta última posição doutrinal. É evidente que o homem produz riqueza mais que suficiente para que cada ser humano viva decentemente, progrida, tenha tecto, cuidados de saúde e meios de educação. A pobreza só começa onde a riqueza é injustamente distribuída. Alastra e contamina o espaço social apenas quando elites privilegiadas se apropriam do fruto do trabalho colectivo. Num universo politicamente organizado só o Estado tem recursos e poder para conduzir a bom termo a luta pela extinção da pobreza e o aperfeiçoamento permanente das formas de distribuição mais justa da riqueza.
Não é preciso ser-se marxista para se reconhecer que o caminho para a supressão da pobreza passa por decisões vigorosas do poder político, tão graves e extensas são as mudanças a introduzir no espaço real que o capitalismo criou. Mudanças que necessariamente têm de ser graduais, ter em consideração os factores culturais e éticos das diversas comunidades humanas e recusar o sectarismo. Mas poder forte e centralizado que trave e extinga o subdesenvolvimento, a corrupção e a exploração do homem pelo homem. A «luta contra a pobreza» é uma frente de combate de uma extensa batalha essencialmente política.
As falsas opções e o domíniodo «mercado da pobreza»
Seguramente, em países dramaticamente atrasados como Portugal, o actual declínio do Estado social tem de ser travado quanto antes. Pelo menos, metade da população portuguesa já foi atingida, directa ou indirectamente, pelo desemprego e pela acelerada pauperização. Os tempos próximos serão ainda piores para os pobres.
Ponhamos de parte o humor negro que é a história de fadas dos milionários-filantropos. A outra proposta que fica sobre a mesa é a da Igreja apoiada na sua «sociedade civil», nas ONG e IPSS, nas Misericórdias, na sua rede financeira e nas suas relações internacionais. A tese é esta: a intervenção católica é humanitária, solidária e não lucrativa. Não visa substituir-se ao Estado social mas completá-lo através das práticas cristãs sócio-caritativas. É seu objectivo central combater a pobreza mitigando-a, visto que o fenómeno é de todos os tempos e assim será nos séculos vindouros. Quere-o Deus. São três premissas falsas.
No primeiro caso (e não recusando que muitos católicos envolvidos agem por amor ao próximo), a «solidariedade católica» reclama-se como um «trabalho de missão» e faz proselitismo. E não é desinteressada dos bens materiais: veja-se só a enorme torrente de lucros recolhida pela acção social da Igreja, desde os lucros da Lotaria, aos subsídios per capita dos apoios aos pobres e às isenções fiscais que a Concordata lhe garante.
No segundo caso (não se substitui ao Estado), a prática demonstra estar-se em presença de um mero jogo de palavras. Estimular a «fuga» de técnicos e para os «privados» é tentar destruir o aparelho social do Estado; introduzir na área social as regras do mercado, representa minar as bases financeiras do sistema actual que vive rigorosamente das verbas do orçamento público. Depois, tudo passará quem «mais der».
No terceiro caso (pobreza é fatalidade) revela-se o sentido de classe do projecto católico: calar a revolta dos pobres e entregá-lo, impotente e submisso, nas mãos dos seus verdugos. Eternizar a pobreza.
Mesmo a nível das suas altas estruturas dirigentes começa a notar-se entre os sacerdotes mal-estar e divisão perante as políticas sociais da Igreja. Isso ressalta de uma nota da recente reunião da Conferência Episcopal, a tal ponto cortada pelo lápis do censor que nem sequer foi divulgada na comunicação social; em entrevistas pessoais (nomeadamente numa delas, com o próprio porta-voz da Conferência) e em documentos emitidos pela Liga Operária Católica, em vésperas da Greve Geral, e silenciados.
Fale-se. Quebrem-se os tabus. Os tempos são de posições frontais!
Jorge Messias (Jornal Avante)
Da estagnação passou-se fulminantemente a sucessivas fases de aceleração da acção. O que agora é, dentro de uma hora talvez já não seja. Mas há sempre um fio condutor indisfarçável que liga o passado ao presente para depois sugerir o futuro. É uma lei natural que não é possível escamotear. Não há efeito sem causa.
O eterno retorno da «questão religiosa» – que por razões históricas permanece viva e actual – convida a que chamemos novamente à baila o gravíssimo problema social da pobreza, da sua caracterização e dos objectivos que as forças democráticas invocam para a combater. Devem as lutas sociais apontar como objectivo básico a extinção da pobreza? Ou, inversamente, essa luta deverá ser secundarizada visto a pobreza se revelar inevitável e eterna?
Não é preciso ser-se ateu para se recusar esta última posição doutrinal. É evidente que o homem produz riqueza mais que suficiente para que cada ser humano viva decentemente, progrida, tenha tecto, cuidados de saúde e meios de educação. A pobreza só começa onde a riqueza é injustamente distribuída. Alastra e contamina o espaço social apenas quando elites privilegiadas se apropriam do fruto do trabalho colectivo. Num universo politicamente organizado só o Estado tem recursos e poder para conduzir a bom termo a luta pela extinção da pobreza e o aperfeiçoamento permanente das formas de distribuição mais justa da riqueza.
Não é preciso ser-se marxista para se reconhecer que o caminho para a supressão da pobreza passa por decisões vigorosas do poder político, tão graves e extensas são as mudanças a introduzir no espaço real que o capitalismo criou. Mudanças que necessariamente têm de ser graduais, ter em consideração os factores culturais e éticos das diversas comunidades humanas e recusar o sectarismo. Mas poder forte e centralizado que trave e extinga o subdesenvolvimento, a corrupção e a exploração do homem pelo homem. A «luta contra a pobreza» é uma frente de combate de uma extensa batalha essencialmente política.
As falsas opções e o domíniodo «mercado da pobreza»
Seguramente, em países dramaticamente atrasados como Portugal, o actual declínio do Estado social tem de ser travado quanto antes. Pelo menos, metade da população portuguesa já foi atingida, directa ou indirectamente, pelo desemprego e pela acelerada pauperização. Os tempos próximos serão ainda piores para os pobres.
Ponhamos de parte o humor negro que é a história de fadas dos milionários-filantropos. A outra proposta que fica sobre a mesa é a da Igreja apoiada na sua «sociedade civil», nas ONG e IPSS, nas Misericórdias, na sua rede financeira e nas suas relações internacionais. A tese é esta: a intervenção católica é humanitária, solidária e não lucrativa. Não visa substituir-se ao Estado social mas completá-lo através das práticas cristãs sócio-caritativas. É seu objectivo central combater a pobreza mitigando-a, visto que o fenómeno é de todos os tempos e assim será nos séculos vindouros. Quere-o Deus. São três premissas falsas.
No primeiro caso (e não recusando que muitos católicos envolvidos agem por amor ao próximo), a «solidariedade católica» reclama-se como um «trabalho de missão» e faz proselitismo. E não é desinteressada dos bens materiais: veja-se só a enorme torrente de lucros recolhida pela acção social da Igreja, desde os lucros da Lotaria, aos subsídios per capita dos apoios aos pobres e às isenções fiscais que a Concordata lhe garante.
No segundo caso (não se substitui ao Estado), a prática demonstra estar-se em presença de um mero jogo de palavras. Estimular a «fuga» de técnicos e para os «privados» é tentar destruir o aparelho social do Estado; introduzir na área social as regras do mercado, representa minar as bases financeiras do sistema actual que vive rigorosamente das verbas do orçamento público. Depois, tudo passará quem «mais der».
No terceiro caso (pobreza é fatalidade) revela-se o sentido de classe do projecto católico: calar a revolta dos pobres e entregá-lo, impotente e submisso, nas mãos dos seus verdugos. Eternizar a pobreza.
Mesmo a nível das suas altas estruturas dirigentes começa a notar-se entre os sacerdotes mal-estar e divisão perante as políticas sociais da Igreja. Isso ressalta de uma nota da recente reunião da Conferência Episcopal, a tal ponto cortada pelo lápis do censor que nem sequer foi divulgada na comunicação social; em entrevistas pessoais (nomeadamente numa delas, com o próprio porta-voz da Conferência) e em documentos emitidos pela Liga Operária Católica, em vésperas da Greve Geral, e silenciados.
Fale-se. Quebrem-se os tabus. Os tempos são de posições frontais!
Jorge Messias (Jornal Avante)
Política e Religião
Margens de lucro e mercado social (VI)
Da estagnação passou-se fulminantemente a sucessivas fases de aceleração da acção. O que agora é, dentro de uma hora talvez já não seja. Mas há sempre um fio condutor indisfarçável que liga o passado ao presente para depois sugerir o futuro. É uma lei natural que não é possível escamotear. Não há efeito sem causa.
O eterno retorno da «questão religiosa» – que por razões históricas permanece viva e actual – convida a que chamemos novamente à baila o gravíssimo problema social da pobreza, da sua caracterização e dos objectivos que as forças democráticas invocam para a combater. Devem as lutas sociais apontar como objectivo básico a extinção da pobreza? Ou, inversamente, essa luta deverá ser secundarizada visto a pobreza se revelar inevitável e eterna?
Não é preciso ser-se ateu para se recusar esta última posição doutrinal. É evidente que o homem produz riqueza mais que suficiente para que cada ser humano viva decentemente, progrida, tenha tecto, cuidados de saúde e meios de educação. A pobreza só começa onde a riqueza é injustamente distribuída. Alastra e contamina o espaço social apenas quando elites privilegiadas se apropriam do fruto do trabalho colectivo. Num universo politicamente organizado só o Estado tem recursos e poder para conduzir a bom termo a luta pela extinção da pobreza e o aperfeiçoamento permanente das formas de distribuição mais justa da riqueza.
Não é preciso ser-se marxista para se reconhecer que o caminho para a supressão da pobreza passa por decisões vigorosas do poder político, tão graves e extensas são as mudanças a introduzir no espaço real que o capitalismo criou. Mudanças que necessariamente têm de ser graduais, ter em consideração os factores culturais e éticos das diversas comunidades humanas e recusar o sectarismo. Mas poder forte e centralizado que trave e extinga o subdesenvolvimento, a corrupção e a exploração do homem pelo homem. A «luta contra a pobreza» é uma frente de combate de uma extensa batalha essencialmente política.
As falsas opções e o domíniodo «mercado da pobreza»
Seguramente, em países dramaticamente atrasados como Portugal, o actual declínio do Estado social tem de ser travado quanto antes. Pelo menos, metade da população portuguesa já foi atingida, directa ou indirectamente, pelo desemprego e pela acelerada pauperização. Os tempos próximos serão ainda piores para os pobres.
Ponhamos de parte o humor negro que é a história de fadas dos milionários-filantropos. A outra proposta que fica sobre a mesa é a da Igreja apoiada na sua «sociedade civil», nas ONG e IPSS, nas Misericórdias, na sua rede financeira e nas suas relações internacionais. A tese é esta: a intervenção católica é humanitária, solidária e não lucrativa. Não visa substituir-se ao Estado social mas completá-lo através das práticas cristãs sócio-caritativas. É seu objectivo central combater a pobreza mitigando-a, visto que o fenómeno é de todos os tempos e assim será nos séculos vindouros. Quere-o Deus. São três premissas falsas.
No primeiro caso (e não recusando que muitos católicos envolvidos agem por amor ao próximo), a «solidariedade católica» reclama-se como um «trabalho de missão» e faz proselitismo. E não é desinteressada dos bens materiais: veja-se só a enorme torrente de lucros recolhida pela acção social da Igreja, desde os lucros da Lotaria, aos subsídios per capita dos apoios aos pobres e às isenções fiscais que a Concordata lhe garante.
No segundo caso (não se substitui ao Estado), a prática demonstra estar-se em presença de um mero jogo de palavras. Estimular a «fuga» de técnicos e para os «privados» é tentar destruir o aparelho social do Estado; introduzir na área social as regras do mercado, representa minar as bases financeiras do sistema actual que vive rigorosamente das verbas do orçamento público. Depois, tudo passará quem «mais der».
No terceiro caso (pobreza é fatalidade) revela-se o sentido de classe do projecto católico: calar a revolta dos pobres e entregá-lo, impotente e submisso, nas mãos dos seus verdugos. Eternizar a pobreza.
Mesmo a nível das suas altas estruturas dirigentes começa a notar-se entre os sacerdotes mal-estar e divisão perante as políticas sociais da Igreja. Isso ressalta de uma nota da recente reunião da Conferência Episcopal, a tal ponto cortada pelo lápis do censor que nem sequer foi divulgada na comunicação social; em entrevistas pessoais (nomeadamente numa delas, com o próprio porta-voz da Conferência) e em documentos emitidos pela Liga Operária Católica, em vésperas da Greve Geral, e silenciados.
Fale-se. Quebrem-se os tabus. Os tempos são de posições frontais!
Jorge Messias (Jornal Avante)
Da estagnação passou-se fulminantemente a sucessivas fases de aceleração da acção. O que agora é, dentro de uma hora talvez já não seja. Mas há sempre um fio condutor indisfarçável que liga o passado ao presente para depois sugerir o futuro. É uma lei natural que não é possível escamotear. Não há efeito sem causa.
O eterno retorno da «questão religiosa» – que por razões históricas permanece viva e actual – convida a que chamemos novamente à baila o gravíssimo problema social da pobreza, da sua caracterização e dos objectivos que as forças democráticas invocam para a combater. Devem as lutas sociais apontar como objectivo básico a extinção da pobreza? Ou, inversamente, essa luta deverá ser secundarizada visto a pobreza se revelar inevitável e eterna?
Não é preciso ser-se ateu para se recusar esta última posição doutrinal. É evidente que o homem produz riqueza mais que suficiente para que cada ser humano viva decentemente, progrida, tenha tecto, cuidados de saúde e meios de educação. A pobreza só começa onde a riqueza é injustamente distribuída. Alastra e contamina o espaço social apenas quando elites privilegiadas se apropriam do fruto do trabalho colectivo. Num universo politicamente organizado só o Estado tem recursos e poder para conduzir a bom termo a luta pela extinção da pobreza e o aperfeiçoamento permanente das formas de distribuição mais justa da riqueza.
Não é preciso ser-se marxista para se reconhecer que o caminho para a supressão da pobreza passa por decisões vigorosas do poder político, tão graves e extensas são as mudanças a introduzir no espaço real que o capitalismo criou. Mudanças que necessariamente têm de ser graduais, ter em consideração os factores culturais e éticos das diversas comunidades humanas e recusar o sectarismo. Mas poder forte e centralizado que trave e extinga o subdesenvolvimento, a corrupção e a exploração do homem pelo homem. A «luta contra a pobreza» é uma frente de combate de uma extensa batalha essencialmente política.
As falsas opções e o domíniodo «mercado da pobreza»
Seguramente, em países dramaticamente atrasados como Portugal, o actual declínio do Estado social tem de ser travado quanto antes. Pelo menos, metade da população portuguesa já foi atingida, directa ou indirectamente, pelo desemprego e pela acelerada pauperização. Os tempos próximos serão ainda piores para os pobres.
Ponhamos de parte o humor negro que é a história de fadas dos milionários-filantropos. A outra proposta que fica sobre a mesa é a da Igreja apoiada na sua «sociedade civil», nas ONG e IPSS, nas Misericórdias, na sua rede financeira e nas suas relações internacionais. A tese é esta: a intervenção católica é humanitária, solidária e não lucrativa. Não visa substituir-se ao Estado social mas completá-lo através das práticas cristãs sócio-caritativas. É seu objectivo central combater a pobreza mitigando-a, visto que o fenómeno é de todos os tempos e assim será nos séculos vindouros. Quere-o Deus. São três premissas falsas.
No primeiro caso (e não recusando que muitos católicos envolvidos agem por amor ao próximo), a «solidariedade católica» reclama-se como um «trabalho de missão» e faz proselitismo. E não é desinteressada dos bens materiais: veja-se só a enorme torrente de lucros recolhida pela acção social da Igreja, desde os lucros da Lotaria, aos subsídios per capita dos apoios aos pobres e às isenções fiscais que a Concordata lhe garante.
No segundo caso (não se substitui ao Estado), a prática demonstra estar-se em presença de um mero jogo de palavras. Estimular a «fuga» de técnicos e para os «privados» é tentar destruir o aparelho social do Estado; introduzir na área social as regras do mercado, representa minar as bases financeiras do sistema actual que vive rigorosamente das verbas do orçamento público. Depois, tudo passará quem «mais der».
No terceiro caso (pobreza é fatalidade) revela-se o sentido de classe do projecto católico: calar a revolta dos pobres e entregá-lo, impotente e submisso, nas mãos dos seus verdugos. Eternizar a pobreza.
Mesmo a nível das suas altas estruturas dirigentes começa a notar-se entre os sacerdotes mal-estar e divisão perante as políticas sociais da Igreja. Isso ressalta de uma nota da recente reunião da Conferência Episcopal, a tal ponto cortada pelo lápis do censor que nem sequer foi divulgada na comunicação social; em entrevistas pessoais (nomeadamente numa delas, com o próprio porta-voz da Conferência) e em documentos emitidos pela Liga Operária Católica, em vésperas da Greve Geral, e silenciados.
Fale-se. Quebrem-se os tabus. Os tempos são de posições frontais!
Jorge Messias (Jornal Avante)
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Política e Religião
A preparação de um novo golpe de mão - V
Ter em atenção...vigiar, não significa alarme ou medo. Em todo o caso, no entanto, convém observar com atenção um novo panorama que agora amadurece em silêncio. Vigiar, é uma tarefa revolucionária.
O capitalismo sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Já que não pode encontrar respostas para os problemas que criou, procura agarrar-se ao terreno, mudar estratégias e ser alternativa a si próprio. Assim como é lógico – já que deixou de fazer «passar», entre o povo, a sua imagem de «sucesso» e de «via segura para o bem-estar» que a tantos enganou – que o capitalismo tente projectar agora um outro retrato seu onde figure como vítima dos homens e distribua por todos as culpas da ruína dos seus projectos, enquanto acelera, às ocultas, um esquema de recuperação do terreno perdido.
Tudo aponta no sentido de que é justamente isto que nos próximos tempos vai acontecer em Portugal. Não apenas na área das «religiões», como é evidente. Mas em todos os sectores sociais e económicos da vida nacional e numa vasta malha balizada pelas autarquias, sindicatos, associações e iniciativas populares, áreas como as da Segurança Social, Saúde, terceira idade e juventude, informática e comunicação social, etc., etc. Os banqueiros e os «cérebros» do grande capital conspiram e vão passar à acção.
Trata-se de criar entre o povo nova falsa noção das realidades. No terreno, contam com alianças poderosas que incluem a Igreja. A «Igreja, SA». Dinheiro não lhes falta. Vem de Bruxelas, de Washington, de Roma, dos grupos económicos, da banca, da «sociedade civil», do próprio Estado, das autarquias e outras fontes obscuras, tais como os off-shores, as fundações e as famílias poderosas devotas da filantropia caritativa.
Da confusão nasce a luz... «metafísica»
Tomando como exemplo o caso português no actual ponto da sua situação, facilmente se nota que é de interesse central para a alta finança instalar entre os explorados a dúvida e a confusão permanente. Só da contradição e da angústia poderá surgir a «luz verde» metafísica que abra as portas a um mundo novo com velhas categorias de classe e um fosso cada vez mais profundo entre pobres e ricos. «Luz metafísica», porque ela permite inventar utopias que nada têm a ver com o mundo real. Um mundo fictício, ideal para os ricos e para a conquista do poder pelo patronato.
Em primeiro lugar, porém é preciso «arrumar a casa». Simultaneamente, reconstruir o que interessar reconstruir e deitar fora o que não interessa. Neste ponto social delicado é fundamental ganhar-se eficiência.
Na lista bem ordenada das tarefas a cumprir sobressai a da criação das infraestruturas de uma rede moderna de telecomunicações que ligue os agentes sociais a uma central única de comando. Vimos anteriormente (Avante!, 18.11.2010) que esses trabalhos já se desenvolvem a bom ritmo. Complementarmente, o empreendimento dá origem a novas parcerias entre a Igreja S.A. e grandes grupos empresariais.
Depois, na ordem das prioridades, aponta-se para a urgência inadiável da reciclagem e racionalização da malha dos «agentes sociais». Há que cortar duro, doa a quem doer. Só na área de obediência católica, contam-se mais de 400 misericórdias, 4000 ONGS e IPSS, cerca de 2000 centros de assistência, centenas de lares, hospitais, fundações, dispensários, instituições de tempos livres, grupos de voluntários, etc., etc. Se olharmos para as dimensões do país, são números impressionantes. Impressionantes mas enganadores. A prática demonstra que a maior parte dessas formações não satisfaz mínimos operacionais e que não é assim que um dia a «sociedade civil» virá a ser capaz de «conquistar a tutela» dos serviços nacionais do Estado. É urgente, pois, extinguir instituições inúteis, reciclar muitas outras, centralizar, formar milhares de quadros, combater a corrupção interna e o dogmatismo. «Trabalhos de Hércules!» mas que urge acelerar a qualquer preço. Quanto tempo mais aguentará o sistema capitalista a revolta dos oprimidos?
Entretanto, a «luz metafísica» deve continuar a iluminar os homens. O momento presente é favorável. Como abundantemente tem sido dito: «Nas crises, nem tudo é mau!». Para os bispos, até é mais fácil agir numa sociedade em desespero, à beira de se esboroar. O actual governo é uma ficção política; as autarquias submergem em tremendas dificuldades; muitos homens optam pelo «salve-se quem puder»; e a pobreza, bem trabalhada, pode conduzir a uma desesperada «fé em Deus» e na aceitação da «fatalidade do Destino».
Jorge Messias (Jornal Avante)
Ter em atenção...vigiar, não significa alarme ou medo. Em todo o caso, no entanto, convém observar com atenção um novo panorama que agora amadurece em silêncio. Vigiar, é uma tarefa revolucionária.
O capitalismo sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Já que não pode encontrar respostas para os problemas que criou, procura agarrar-se ao terreno, mudar estratégias e ser alternativa a si próprio. Assim como é lógico – já que deixou de fazer «passar», entre o povo, a sua imagem de «sucesso» e de «via segura para o bem-estar» que a tantos enganou – que o capitalismo tente projectar agora um outro retrato seu onde figure como vítima dos homens e distribua por todos as culpas da ruína dos seus projectos, enquanto acelera, às ocultas, um esquema de recuperação do terreno perdido.
Tudo aponta no sentido de que é justamente isto que nos próximos tempos vai acontecer em Portugal. Não apenas na área das «religiões», como é evidente. Mas em todos os sectores sociais e económicos da vida nacional e numa vasta malha balizada pelas autarquias, sindicatos, associações e iniciativas populares, áreas como as da Segurança Social, Saúde, terceira idade e juventude, informática e comunicação social, etc., etc. Os banqueiros e os «cérebros» do grande capital conspiram e vão passar à acção.
Trata-se de criar entre o povo nova falsa noção das realidades. No terreno, contam com alianças poderosas que incluem a Igreja. A «Igreja, SA». Dinheiro não lhes falta. Vem de Bruxelas, de Washington, de Roma, dos grupos económicos, da banca, da «sociedade civil», do próprio Estado, das autarquias e outras fontes obscuras, tais como os off-shores, as fundações e as famílias poderosas devotas da filantropia caritativa.
Da confusão nasce a luz... «metafísica»
Tomando como exemplo o caso português no actual ponto da sua situação, facilmente se nota que é de interesse central para a alta finança instalar entre os explorados a dúvida e a confusão permanente. Só da contradição e da angústia poderá surgir a «luz verde» metafísica que abra as portas a um mundo novo com velhas categorias de classe e um fosso cada vez mais profundo entre pobres e ricos. «Luz metafísica», porque ela permite inventar utopias que nada têm a ver com o mundo real. Um mundo fictício, ideal para os ricos e para a conquista do poder pelo patronato.
Em primeiro lugar, porém é preciso «arrumar a casa». Simultaneamente, reconstruir o que interessar reconstruir e deitar fora o que não interessa. Neste ponto social delicado é fundamental ganhar-se eficiência.
Na lista bem ordenada das tarefas a cumprir sobressai a da criação das infraestruturas de uma rede moderna de telecomunicações que ligue os agentes sociais a uma central única de comando. Vimos anteriormente (Avante!, 18.11.2010) que esses trabalhos já se desenvolvem a bom ritmo. Complementarmente, o empreendimento dá origem a novas parcerias entre a Igreja S.A. e grandes grupos empresariais.
Depois, na ordem das prioridades, aponta-se para a urgência inadiável da reciclagem e racionalização da malha dos «agentes sociais». Há que cortar duro, doa a quem doer. Só na área de obediência católica, contam-se mais de 400 misericórdias, 4000 ONGS e IPSS, cerca de 2000 centros de assistência, centenas de lares, hospitais, fundações, dispensários, instituições de tempos livres, grupos de voluntários, etc., etc. Se olharmos para as dimensões do país, são números impressionantes. Impressionantes mas enganadores. A prática demonstra que a maior parte dessas formações não satisfaz mínimos operacionais e que não é assim que um dia a «sociedade civil» virá a ser capaz de «conquistar a tutela» dos serviços nacionais do Estado. É urgente, pois, extinguir instituições inúteis, reciclar muitas outras, centralizar, formar milhares de quadros, combater a corrupção interna e o dogmatismo. «Trabalhos de Hércules!» mas que urge acelerar a qualquer preço. Quanto tempo mais aguentará o sistema capitalista a revolta dos oprimidos?
Entretanto, a «luz metafísica» deve continuar a iluminar os homens. O momento presente é favorável. Como abundantemente tem sido dito: «Nas crises, nem tudo é mau!». Para os bispos, até é mais fácil agir numa sociedade em desespero, à beira de se esboroar. O actual governo é uma ficção política; as autarquias submergem em tremendas dificuldades; muitos homens optam pelo «salve-se quem puder»; e a pobreza, bem trabalhada, pode conduzir a uma desesperada «fé em Deus» e na aceitação da «fatalidade do Destino».
Jorge Messias (Jornal Avante)
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