sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Política e Religião

A nova pele de cordeiro – IV

Tem interesse informativo observar-se como a grande «crise do capitalismo» se reflecte na crise paralela que a Igreja atravessa. Todas as grandes referências de cada uma dessas milenares instituições surgem postas em causa. O Poder central mostra-se incapaz de resolver os problemas fundamentais - económicos, financeiros e sociais. Da parte da Igreja, revelam-se as mesmas fragilidades da perda de influência sobre as massas populares, da capacidade eclesiástica de dar respostas aos problemas que o materialismo agnóstico crescentemente suscita e das dificuldades que revela ao tentar refrescar os estilos do clero ou em renovar as estruturas eclesiais.
A identidade (ou a oposição) entre a natureza da intervenção do Estado e a doutrina social da Igreja tem igualmente inegável interesse, sendo certo que no campo das realidades prevalece sempre uma enorme atracção entre as duas. Há dinheiro e há poder. Há experiência política em ambas as partes. Dir-se-ia, pois, existir actualmente terreno fértil para uma unidade de interesses e de objectivos. Mas não.
Se os objectivos são os mesmos – a posse do poder e do dinheiro – o ponto de partida e a procura das tácticas adequadas estão muito desalinhados. Desde os finais dos anos 50, o capitalismo alucinou-se com os seus próprios êxitos. Queimou etapas para mais depressa atingir o sucesso final. Arriscou «tudo por tudo» e fixou metas utópicas. É a história e o ponto actual do capitalismo, da globalização.
A hierarquia da Igreja, pesadamente ortodoxa, deixou-se embalar demasiado tempo pelos seus antiquíssimos sonhos de grandeza e pelos seus bolorentos dogmas, encobertos pelos véus de uma decrépita e desacreditada santidade. Assim se chega aos quadros que se deparam às actuais hierarquias: a Igreja precisa de se «modernizar» mantendo intactas as alianças com o capitalismo e recobrindo-as com uma original e inovadora «pele de cordeiro».
Quanto ao sistema capitalista, apoiado em complexas estruturas financeiras (para as quais «parar é morrer») e senhor de poderosas tecnologias, reconhece agora ter-se precipitado e precisar de efectuar «recuos tácticos». Avançou cedo de mais e cometeu o erro básico de ter triturado a economia produtiva. Por outro lado, foi pouco hábil no encobrimento da teologia da santificação do lucro e do dinheiro. Julgou poder dispensar o «ópio do povo» tradicional. Erros de palmatória que terá de corrigir urgentemente, se puder. Ficando bem claro que o que se pretende não é «retirar» mas apenas «realinhar». Mudam-se os comparsas, mudam-se os cenários: políticas e objectivos serão exactamente os mesmos.

As contra-ofensivas bem ordenadas
Do lado da Igreja, já as mudanças tácticas começam a revelar-se nos discursos oratorianos. Não há tempo a perder. O clero, «perito em humanidades» e forte em verbo divino, começa por aí a anunciada «transfiguração». Vamos começar a ouvir os bispos a falarem «linguagem de esquerda».Vamos ver padrões do património popular das lutas pela liberdade serem manipulados para veicularem melhor o caos dos padrões da «sociedade civil», do perdão fraterno, da solidariedade cristã, da filantropia dos ricos ou das virtudes teologais. A nuvem negra da exploração do homem pelo homem permanecerá oculta, para melhor desferir depois os seus raios destruidores. Como por magia, o FMI, o Banco Europeu, as centrais patronais, a NATO, a banca ou as Bolsas, transformar-se-ão em catedrais onde os anjos entoam
coros em louvor da paz, da justiça, da liberdade e do progresso. E, tocadas pela «revelação», as grandes fortunas pessoais irão acelerar a sua corrida à filantropia e investir o seu dinheiro na terra de missão que é o «combate à pobreza».
Nesta fase inicial, os bispos portugueses saltam a sua tradicional «barreira de silêncio» e começam a surgir como agitadores político-sociais das lutas de classes: o modelo económico em curso é «indecente» e as altas retribuições a quadros do Estado, «exorbitantes»; o Orçamento do Estado 20l1 consagra graves injustiças sociais; os pobres não são prioridade para o actual Governo; etc. Toda esta verbosidade escorre pelos moldes tradicionais da igreja, através de acusações genéricas que não implicam fundamentação nem identificação precisa de vítimas e culpados, ambiguamente, e com uma porta sempre entreaberta para todos os corredores.
Pior, ainda: permitem-se insinuar que a hierarquia da Igreja não tem informação sobre o que se passa nas esferas do poder e não tem culpas, ela também, em tudo quanto se passou, passa e virá a passar-se em Portugal!...
A culpa morre solteira.

Jorge Messias (jornal Avante)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Opinião

Denunciantes

Os jornais anunciaram que, a partir de agora, é oficialmente reconhecida a nobre profissão de denunciante. Já tardava, é um facto. Mas pronto, antes tarde que nunca. Todos sabemos como a nobre arte da denúncia tem sólidas raízes entre nós. No tempo do senhor D. João III (e nos tempos que depois se seguiram...) muitos foram os que acabaram nas fogueiras da Inquisição, denunciados por vizinhos, familiares ou amigos, prontos a jurar que os tinham visto, por exemplo, "a ter comércio com o demónio", ou a "apartar-se da nossa santa fé católica, passando-se à lei de Moisés, vestindo camisas lavadas aos sábados, e jejuando às segundas e quintas, e não comendo carne de porco".
Sabe-se como a nossa santa fé lhes ficou eternamente grata.
Muito mais tarde, nos saudosos tempos do Estado Novo, a nobre arte da denúncia foi de novo reinstaurada. Uma legião de impolutos cidadãos, amantíssimos esposos e extremosos pais de família, encarregava-se de escrever cartas denunciando vizinhos, colegas de trabalho, familiares, amigos, ou vagamente conhecidos, jurando que os tinham ouvido falar contra a ordem estabelecida, denegrindo a figura do sr. presidente do Conselho, ou pondo em causa a nossa patriótica presença em África, ou ouvindo rádios a soldo de potências inimigas estrangeiras, ou acolhendo gente suspeita em suas casas pela calada da noite. Assim o juravam e assinavam, a bem da nação.
Sabe-se como a nação lhes ficou eternamente grata.
Como se vê, está-nos na massa do sangue.
Agora, se alguém suspeitar de corrupção - as autoridades ordenam que se denuncie imediatamente.
Com a net é uma limpeza, pena ela não existir nos tempos do senhor D. João III ou do sr. dr. Oliveira Salazar, bom jeito tinha dado.
Claro que há uma triagem - dizem.
Claro que há uma investigação - dizem.
Claro que os tempos são outros - dizem
Mas os denunciantes, lá no fundo, nunca mudam.

Alice Vieira (Jornal de Notícias)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Política e Religião

Os fracassos de uma gestão «social» – III

Se as «crises» do capitalismo (internas e externas, financeiras e cambiais, do crédito e do consumo, globais e sectoriais, etc.) afectam gravemente as economias e os pobres, elas nem ao de leve beliscam o Vaticano. Os nebulosos resultados financeiros publicados pela banca «eclesiástica» dão indicações de lucros em ascensão, um «milagre» que brota no deserto e só é comparável à dos lucros dos milionários, em plena crise de recessão. Quanto pior melhor, ao que parece. «O segredo da magia» – respondem cardeais e banqueiros – «consiste numa boa gestão». E, também, no tratamento, «dinâmico e inovador» das «novas oportunidades».
Os bispos portugueses aderem a esta versão dos factos, como é evidente. E reconhecem que em Portugal, um pequeno país pobre e atrasado em relação à Europa, dependente e mergulhado no fosso lamacento que separa os pobres dos ricos, a «gestão social» de modo algum é tão fácil de alcançar como em Roma. De que modo gerir a miséria e o desemprego quando os mitos do «combate à pobreza» ameaçam desabar a cada instante? Como investir pouco e lucrar muito fazendo crer simultaneamente, ao povo crente, que perante a ruína só lhe resta juntar as mãos em oração e confiar no Eterno? omo conciliar entre si Deus e o Diabo, os direitos dos humildes e as mentiras dos poderosos, paralisando nos homens a ânsia de lutar ?
A fase que se atravessa é tremendamente delicada, mesmo para aqueles que põem os olhos em Roma. Mas é a esses que nos devemos dirigir.

As sábias gestões e a luta de classes

É evidente que a hierarquia católica conhece que, no mundo capitalista, as lutas contra a pobreza sempre foram deliberadamente travadas pelo poder com meios inadequados e sem grande vontade de execução. Sistematicamente, nem o pouco que se anunciou ir fazer se fez. Ficou-se sempre aquém. Depois, foi só «embandeirar-em-arco». Os bispos têm esta noção realista mas a grandeza de Roma é para eles invariavelmente bem mais importante que um desempregado. As notícias que chegam sobre a «caridade» e a «filantropia» são reveladoras.
Em termos de «gestão social», de uma administração de recursos «equilibrada» que garanta o bolo para os ricos mas não negue as migalhas aos pobres, a hierarquia portuguesa partiu atrasada. Prendeu-se em excesso aos tempos passados. Agora, tenta «queimar etapas».
O conceito de «luta contra a pobreza» é substituído pela fórmula «negócio social para o combate à pobreza» e apaga-se o papel condutor do Estado Social no esforço comum pelo fim da pobreza e pela melhor distribuição da riqueza. Avança a ideia de que, a partir de agora, essa função compete a vastos consórcios que unem em torno dos objectivos sociais a contribuição «filantrópica» de empresas com tecnologias de ponta, fundações, lobbies financeiros, banca, uniões de misericórdias, ONGS, IPSS, Igreja, «sociedade civil» e... o Estado. Esta nova tábua de salvação do «já visto» propõe-se entregar os serviços sociais a um futuro organismo interdisciplinar capaz de fundir numa só forma, o público e o privado, o confessional e o não-confessional, o lucrativo e o não-lucrativo, as fundações particulares e o Estado. Um projecto financiado não só pelos investimentos dos «accionistas» mas, também, pelos lucros do próprio «negócio social». Em Portugal, este projecto encontra-se já em fase de instalação, embora nele pouco se fale.
A iniciativa partiu da vinda ao nosso país, em 2007, do Prémio Nobel da Paz, o paquistanês Muhamed Yunus, fundador do Banco Grameen que introduziu entre nós o «microcrédito». A ideia mereceu a imediata adesão do Millenium BCP (Jardim Gonçalves, Opus Dei) e dos outros grandes bancos portugueses. «Por coincidência», nos anos seguintes, já em plena «crise», estes bancos iriam acumular resultados altamente positivos e em 2009 registariam lucros de 1445, 6 milhões de euros! Toda a banca nacional participa na economia social de mercado em expansão. Um sector que afirma produzir 5% do PIB português e ter criado, entretanto, 700 mil novos postos de trabalho, directos ou não. O seu campo de acção preferencial é constituído pelas IPSS, cerca de 2000, das quais recebe diariamente (e apenas na rede de gestão financeira) mais de 10 mil consultas. Trabalha igualmente com o Poder Local.
As tentativas de subversão do Estado Social parecem evidentes em mais esta tentativa alucinada da Igreja e dos poderes estabelecidos para fragilizar e destruir as conquistas sociais do povo português.
Tentaremos ver mais fundo em todo este projecto que se prende, aliás, com outros, também esquecidos mas já em curso de concretização.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Política e religião

Caridade solidária

Esboço de um «Novo Império» – II

As portas que Abril abriu voltaram a fechar-se, pelo menos parcialmente, como fica patente no triste espectáculo a que estamos a assistir. Separação de poderes, Constituição, democracia, governo das elites, intrigas palacianas, miséria e opulência, tudo surge aos olhos do nosso povo como uma telenovela protagonizada pelos grandes senhores. Telenovela nada inocente. Por detrás da encenação de tudo isto desenvolve-se um plano bem amadurecido. Mas um dia virá quando, depois de muito sofrer inutilmente, o mesmo povo português, já mais velho e lúcido, reabrirá com as suas mãos as mesmas portas de Abril.
No caso da Igreja, a hierarquia católica desempenha neste processo um papel determinante. Só ela dispõe de uma tradição nacional instalada desde há séculos, tantos quantos os que conta a nacionalidade do território. Só ela manipula na sombra valores de cariz religioso que emudecem revoltas, indignações e a justa ira popular. Só ela sabe unir os ricos e dividir os pobres. E, finalmente, só ela dispõe de um tentacular aparelho instalado na área social.

Alguns dados sobre o poder social da Igreja
Em termos estatísticos divulgados pela própria Igreja, estão em actividade em todo o território nacional (89 mil K2, 10 milhões de habitantes), 20 dioceses dispostas numa rede de 267 vigararias, 2667 paróquias e 2406 centros paroquiais.
Segundo as fontes referidas, 92,7% dos cidadãos portugueses são católicos praticantes ou culturalmente marcados pela religião católica. O enquadramento e a condução de toda a acção social católica está confiado a cerca de 46 bispos, 3100 padres regulares, 1000 sacerdotes do clero religioso (ordens religiosas), e 7000 freiras (ou religiosas professas). A formação deste potencial humano é garantida por 95 centros de instrução de candidatos ao sacerdócio. Completam estes quadros de formação de sacerdotes e leigos centenas de seminários, colégios e cursos sob a orientação central do Secretariado do Apostolado dos Leigos e da Comissão do Clero, Seminários e Vocações.
Na área social cuja importância se avoluma dia a dia, a igreja católica dispõe de mais de 1500 centros de assistência dispersos por hospitais, ambulâncias, dispensário, lares e casas para idosos e deficientes, orfanatos, creches, consultórios, consultadorias familiares e centros especiais de educação e reinserção.
Em todo este vasto universo assistencial, a acção católica é dirigida não só para o apoio ao doente ou ao cidadão necessitado mas, igualmente, para o reforço dos laços que ligam o doente e os seus quadros familiares à Igreja. Todos os vários níveis deste aparelho (que actua indistintamente, ao abrigo da concordata, em instituições católicas ou do Estado) estão interligados no esquema orgânico de funcionamento da igreja portuguesa: uma pirâmide onde a paróquia ocupa a base e a Conferência Episcopal, presidida pelo Patriarca de Lisboa, representa o cume, com poderes deliberativos e executivos finais. Note-se a identidade entre o esquema religioso e o organigrama político do Estado, também com sede em Lisboa e em vésperas de centralização de poderes.
Por outro lado, a CEP tem funções polivalentes e actua, tal como o Estado laico, no plano interno e no plano externo. No caso da CEP, esta estratégia apoia-se, sobretudo, nos organismos e organizações da Santa Sé (veja-se o papel da Nunciatura e as funções da Concordata); e nos invisíveis acordos com as centrais de topo das altas instituições políticas e financeiras do capitalismo.
A Igreja em Portugal constitui, de facto, um Estado dentro de um Estado. Nunca se identificou, não se identifica e jamais se identificará com os valores básicos da Revolução de Abril ou de qualquer outra revolução.Toda a filosofia eclesiástica, independentemente das transformações aparentes que a Igreja possa registar, obedece a dogmas imutáveis: o fraco submete-se ao forte, o pobre ao rico e a lei aos poderes dos ricos e dos fortes. «Deus o quer.»
A Igreja afirma-se como a potência mundial que é, muito provavelmente a mais rica do mundo capitalista. Tem de tudo: latifúndios, grupos financeiros e empresariais, lóbis e offshores, ligações às maiores sedes de interesses bolsistas e de actividades legais ou ilegais. Assim, a condução dos seus imensos negócios e das suas fortunas implica a sujeição às leis dos mercados. Esta escolha exigente entre a fé e o cifrão é fácil de detectar-se num pequeno país, como acontece na presente situação. A «crise» e os silêncios oficiais da hierarquia revelam que a Igreja oficial constitui um Estado no interior de outro Estado, bloqueado pelos seus interesses próprios e pelos seus dogmas; Estado que coexiste com um outro Estado, laico e republicano mas também ele rendido à escravidão do lucro e do dinheiro.
Ao povo compete lutar em defesa dos seus direitos. Sem dúvida que assim será.


Jorge Messias (Jornal Avante)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Política e Religião

Caridade solidária
Um beco nas avenidas da banca –

Os caminhos da direita são os da mentira e do encobrimento. Quanto às verdadeiras forças do socialismo, continuam a lutar e atravessam as crises fazendo a denúncia dos saques dos ricos e da corrupção dos políticos. Lado a lado com as massas populares estabelecem no presente os alicerces do futuro. E nessas lutas, uma lição central importa aprender e decorar : não há verdadeira via social alternativa que não passe pela ruptura frontal com o capitalismo. O futuro é já amanhã, é certo, e aguardam-nos dias duríssimos de lutas de classes. Tudo vai, pois, depender da nossa firmeza e da coragem com que defendermos os nossos valores. E, também, muito dependerá do grau de consciência que tivermos das estratégias dos nossos inimigos.
Na actualidade internacional e no capítulo da solidariedade com os pobres, destaca-se um «fenómeno» que tende a generalizar-se e a alastrar de país para país. Em pleno tempo de crise profunda, os ricos e os muito ricos sentem súbitos movimentos de alma e convertem-se à «luta contra a pobreza», ainda que fiquem cada vez mais ricos. Bill Gates, por exemplo, no ano passado doou aos pobres parte da sua colossal fortuna e viu esta aumentar, num único ano, cinco biliões de dólares. Imediatamente, ele e a mulher fizeram novo donativo – mais 10 mil milhões – destinados a pagar vacinas a quem as não pudesse comprar, nomeadamente no caso das crianças dos países pobres. Bill Gates, diga-se de passagem, possui gigantescos interesses na indústria farmacêutica e a caridade dá lucro. O negócio resultou.
Este casos exemplares multiplicam-se pelos cinco continentes.
Registe-se apenas mais um, protagonizado pelo JP Morgan Chase, o Banco do Vaticano nos EUA. O JP chamou a si uma iniciativa original, particularmente dirigida aos fundos de pensões e de poupanças. Os interessados «emprestam» ao banco lotes de acções que são depois negociadas nas bolsas de valores. Se os resultados forem bons, os accionistas ganham tudo; se forem maus, perdem integralmente aquilo que investiram. É o tudo ou nada. Esta iniciativa iluminada, aparentemente para abrir oportunidades às classes médias, tem-se revelado desastrosa para os pequenos depositantes e fabulosa para os mais ricos. Simultaneamente, fabrica fortunas e gera a pobreza. É fria e deliberada.
Também entre nós proliferam as fundações filantrópicas, como a Gulbenkian, a Luso-Americana, a Oriente, a Champalimaud, a Francisco Manuel dos Santos, os Bancos de Voluntários e Alimentares, os institutos religiosos seculares, as associações, movimentos e obras de socorro social, as redes de solidariedade, etc., etc. Teoricamente, trata-se de instituições caritativas não-lucrativas. Mas não se esconde que nos seus cargos directivos abundam os nomes de individualidades ligadas à banca, às empresas privadas económicas e financeiras, ao mundo político e à Igreja católica. Todas essas instituições financeiras investem directamente no “mercado social”.

O Orçamento do Estado e os lucros da miséria

A lógica e a razão parecem terem-se apagado totalmente da vida pública portuguesa. Por exemplo, numa situação de crise económica e financeira profunda, o governo exige aos cidadãos sacrifícios insuportáveis «para salvar a Nação». Simultaneamente, porém, transfere para o Orçamento do Estado os défices da banca causados pela especulação e pela prática sistemática de fraudes financeiras. Ou seja, protege os ricos.
Assim, os bancos podem continuar a recolher lucros fabulosos, mesmo nas fases agudas da depressão. Um exemplo, apenas, a ilustrar esta noção de «crise», recolhido enquanto rios de tinta relatavam às massas os jogos florais que os políticos e os banqueiros alimentavam sobre a melhor forma de Portugal fugir à miséria: o BCP, famoso grupo bancário ligado de raiz ao Opus Dei, anunciou que, apenas no terceiro trimestre de 2010, tinha registado um lucro líquido de 217,4 milhões de euros. E os outros grandes bancos com sedes em Portugal, somam e seguem pelo mesmo caminho.
A crise é para os pobres. E se Portugal é já considerado o país mais pobre da Europa ocidental, não se deve esconder que nunca foi tão acelerado o ritmo do aparecimento de novas fortunas e do alargamento do fosso entre pobres e ricos.
Dê-se a este feixe de questões as «voltas» que se derem que as grandes linhas de força dos problemas centrais passam pelas centrais do negócio e do dinheiro, pelo Estado e pela Igreja católica.

Jorje Messias ( Jornal Avante )