quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Política e Religião

Bem aventurados os mais ricos da Terra

«Dinheiro é poder. O poder enlaçou-se com a política. A partir deste ponto, os problemas políticos fundem-se com a influência financeira do Vaticano na administração monetária» (Estebam Torres/Internet).
«A Igreja está a tornar-se para muitos no principal obstáculo à fé. Nela não conseguem ver mais que a ambição humana pelo poder... » (Joseph Ratzinger, 1977, como Prefeito do ex-Tribunal do Santo Ofício), antes de ser papa.
«A constituição de uma Autoridade Pública Mundial ao serviço do bem comum é o único horizonte compatível com as realidades globais… dando vida a alguma forma de controlo monetário para gerir o mercado financeiro… mesmo que à custa da transferência gradual e equilibrada de uma parte das atribuições (de soberania) nacionais» («Nota sobre a reforma do sistema financeiro e monetário mundial», Comissão Pontifícia Justiça e Paz, Outubro 2011).
O Vaticano abandonou o seu silêncio «de chumbo» para mostrar como está atento à crise geral do capitalismo e como se empenha em salvar o sistema. Não é sem razão de ser que isto acontece. A Igreja católica é actualmente o mais poderoso grupo financeiro mundial. Embora seja impossível dar sequer uma ideia aproximada das dimensões reais do seu poderio – sobretudo político, económico e financeiro – façamos no entanto uma incursão no que é praticamente desconhecido.
Temos visto pelos jornais como o preço dos metais preciosos, nomeadamente o oiro, tem crescido em flecha nos recentes tempos da crise. Pois a Igreja mundial, reconhecida como a mais importante detentora de metais preciosos, tem recolhido a maior parte dos lucros destas oscilações cambiais. Nos anos 80 do século vinte, antes da galopada dos preços começar, calculava-se que em todo o mundo o Vaticano detivesse nos seus cofres lingotes num valor superior a 6 mil milhões de dólares. Isso, só em «oiro sólido» (oiro em barras, com exclusão de outros metais preciosos trabalhados ou não (pepitas, objectos de oiro, moedas, peças incrustadas em altares, etc.).
Também, tanto quanto se sabe, por alturas dos finais do século XX e só nos bancos suíços e ingleses o Vaticano detinha em acções, pedras preciosas, objectos de arte, etc., etc., reservas superiores a 11 biliões de dólares. Os poucos dados conhecidos permitem, igualmente, calcular que os bens eclesiásticos num só país – os EUA – considerado espelho da prosperidade capitalista, a Igreja administrava valores em bens imobiliários, acções, depósitos financeiros e outros investimentos que excediam a soma dos capitais sociais dos dez principais grupos económicos norte-americanos.
Na declaração da «Comissão Pontifícia Justiça e Paz» a que à margem deste texto se alude, reconhece-se que actualmente, em todo o mundo, um trilião de seres humanos sobrevive com um rendimento de 1 dólar por dia. Por outro lado, admite-se que uma tal situação resulta de deficiências da gestão política e da prática de um liberalismo «tecnocrático». Mas não se fala no papel activo que o Vaticano tem desempenhado na construção deste quadro político e social.
A complexa rede financeira dirigida pela Santa Sé depende directamente do Papa, da Cúria Romana e do IOR – Instituto para Obras Religiosas, correntemente conhecido como Banco do Vaticano. Aparentemente, desempenha as funções que são comuns a qualquer banco. Na realidade, a rede vai muito mais além e é a sede da mais importante central financeira mundial. Giram na sua órbita bancos extremamente poderosos como o Pax, o J.P. Morgan ou o Deutsch Bank. Domina extensos impérios bancários, através da compra directa de grandes lotes de acções. Domina, por intervenção de terceiros, interesses que determinam as orientações dos verdadeiros centros de decisão mundial, tais como o G20, o Clube de Bilderberg,o Foreign Council norte-americano ou os Illuminati. Desenvolve constantes actividades criminosas, nomeadamente as lavagens de dinheiros, os desfalques, o contrabando e a corrupção, como está demonstrado pelos permanentes escândalos que envolvem o IOR (Ambrosiano, P2, falsas fundações, IPSS ou Fundos de Caridade, desvio de subsídios do Estado, operação «Mãos Limpas», etc., etc.).
Em Itália, como em Portugal, aos responsáveis por estes crimes nada acontece.Estão protegidos pelos escudos invisíveis das «Concordatas».É o princípio de uma longa história. Mas, por hoje, temos de ficar por aqui.

Jorge Messias ( Jornal Avante)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Argumentos

O Natal dos ricos


Dificilmente esquecerei aquele dia em que, devido aos bons ofícios da televisão, soube da enorme dificuldade, pela própria confessada, que a drª. Manuela Ferreira Leite tem em distinguir os ricos dos pobres. Lembro-me de que durante muito tempo andei deprimido, a imaginar a confusão que andaria por aquela pobre cabeça, aliás excelente e porque excelente com grande vocação ministerial na área das finanças e não só, como é sabido. A mim, felizmente, pouparam os céus tamanha desgraça, e por isso vou distinguindo entre ricos e pobres decerto graças aos sinais que decerto me são enviados do alto acompanhados pelo discernimento que me permite distinguir entre uns e outros. E por esta altura do ano, muito especialmente neste ano de 2011 que se acaba agora, essa capacidade tem ainda maiores possibilidades de se exercer. É que a chamada quadra do Natal é particularmente propícia não só a que a televisão se lembre dos pobres mas também a que os próprios pobres surjam pessoalmente nos ecrãs dos televisores, o que dificilmente ocorre durante o resto ano. Bem se pode dizer, pelo menos quando se fala de TV, que o Natal é o tempo da hiperpublicidade dirigida ao consumismo infantil e das imagens de pobrezinhos a aquecerem-se com uma sopa que generosamente lhes é servida por excelentes senhoras ou, se não propriamente por elas, pelo menos a seu mandado e sob seu apoio financeiro. São imagens que de um modo ou de outro nos tocam o coração, naturalmente. Tanto ou mais quanto as mensagens natalícias do senhor Presidente da República, desta vez coadjuvado pela sua esposa, assim se provando como é pesado o exercício das funções que exerce e como lhe é conveniente que alguém o ajude a suportar-lhes o peso.

Se
Entretanto, e decerto porque a providência suprema nunca está totalmente adormecida, nem tudo são penúrias e carências neste Natal português de 2011. Não apenas pelo que a televisão nos vem contando mas também pelo que à margem dela se vai conhecendo, vamos tendo o reconforto de saber não apenas que os ricos continuam a existir em Portugal mas também que, segundo fontes internacionais, estão cada vez mais distantes e acima dos pobres, o que certamente lhes é óptimo. É certo que o País globalmente considerado não ganha nada com isso: esses «ricos cada vez mais ricos» não se dão ao incómodo de investir sequer parte das suas capacidades financeiras em actividades produtivas que possam atenuar o défice das nossas contas externas, preferindo presumivelmente a transferência para off-shores que são colocação mais compensadora, mas pelo menos permitem que Portugal se possa orgulhar da sua existência, o que já é bonito. É de crer, além disto, que pelo menos uma pequena parte deles dê algum apoio a iniciativas caritativas que um pouco por todo o lado vão acontecendo, o que não só pode calar a boca aos que se obstinam em falar de classes e da sua permanente luta como garantirá a esses ricos, em reconhecimento do seu excelente coração, um lugar na primeira fila do Além quando lhes chegar a hora final. Entretanto e enquanto esse inevitável desenlace não chega, é óbvio que os ricos, os tais que a doutora não consegue distinguir, vão recebendo nesta vida substanciais adiantamentos por conta e, precisamente, este Natal é um momento óptimo para que isso se torne visível. Todos nós, gente comum, graças ou não à TV podemos saber dos milhares de cidadãos em quem o desemprego frutificou em fome, das crianças a quem mesmo durante as férias de Natal as cantinas escolares fornecem a comida que elas não encontram em casas dos pais, do total desamparo que acaba por se exprimir no aumento da delinquência. Mas, porque a mesma TV nos disse do aumento do tal fosso entre ricos e pobres, sabemos também que forçosamente haverá excelentes e muito felizes Natais entre os mais ricos, e bem se poderá dizer que é o que nos vale, pois do horizonte permitido pela intensa actividade do Governo não é visível que nos possa valer mais nada. De tudo quanto se sabe pela TV e não só, este Natal de 2011 vai ser o Natal dos ricos e o inferno dos pobres. Com um só factor para um eventual e muito relativo sentimento de conformação: o Governo já anunciou, ainda que indirectamente e por meias palavras que aos bons entendedores hão-de bastar, que o Natal de 2012 será ainda pior. Para os pobres. Entenda-se: se estes, compreensivos, deixarem.

Correia da Fonseca (Jornal Avante)

Política e Religião

Camarote para a Concordata

«A espada que não se enterra no coração dos senhores,
dos culpados/enterra-se no coração dos pobres,
dos inocentes» (Paul Eluard, poeta francês comunista, século XX, «Poemas para todos»).

«Para transformar o mundo é preciso mais do que orações. São necessários actos. Mais do que actos privados actos universais, políticos. O proletariado aprendeu isso à sua custa e ensina-o hoje a toda a humanidade. O amor moderno que se tem aos outros é político ou, então, não será amor. Poder-se-á hoje amar os homens sem pôr em causa o Capital, quando tanto sofrimento ele lhes causa? Poder-se-á amar a humanidade, ou as pessoas, sem lutar contra a guerra quando esta pode pôr em causa a existência da humanidade, como espécie? E, uma vez que a propriedade e a guerra são negócios de Estado, poder-se-á amar os homens do século XX sem vigiar o Estado? Não é a política o único meio de dar ao amor um conteúdo prático e universal?» (Karl Marx, «Sobre a religião»).

«Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever, em razão de ascendência, sexo, raça, língua, territórios de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social» (Constituição da República Portuguesa,
artº. 13º., nº. 2).

De entre os chavões usados pela hierarquia católica contam-se «palavras de ordem» destinadas a descrever a sociedade civil como apolítica e moralmente sensível aos problemas desencadeados pela exploração do homem e aos direitos deste. Não é assim entendido em boa parte do país católico. Mas é por demais evidente que quanto maior for a pobreza, maior é a exploração. Quanto mais crescer o desemprego mais se avolumarão as grandes fortunas. Com o capitalismo neoliberal e imperialista nos comandos do País caminhar-se-á irreversivelmente para uma sociedade concentracionária, monocolor e policial. A «Nova Era» é a «Velha Ordem» fascista. E não é verdade que a influência de uma religião conduza a mais apurada consciência cívica.
O comportamento do alto clero é prova viva desta mortal situação. Apoia explicitamente a «equidade» dos sacrifícios impostos ao povo e os critérios do pacto de agressão e prospera, à sombra disso, com novos subsídios estatais, com a devolução à Igreja de bens e equipamentos, com a vergonhosa protecção do Estado à banca (que a Igreja directa ou indirectamente domina), com o encaixe de grossas fatias das chamadas verbas comunitárias, com crescentes isenções fiscais, com os lucros das suas lotarias e offshores, com os «poços sem fundo» das suas fundações, etc. Isto, no plano dos ganhos materiais.
Mas com a crise provocada pelas vertigens do capitalismo, a Igreja também soma e segue no plano político. Muitos dos atropelos legislativos praticados pela maioria do centro-direita serviram como vias rápidas para a escalada do poder do aparelho católico. Refira-se, a título de simples exemplos, a legislação que permite às instituições não lucrativas (IPSS) a associação com holdings lucrativas; as medidas que reformam ou extinguem freguesias ou serviços essenciais do Poder Local, deixando as populações novamente nas mãos das velhas paróquias e das organizações caritativas da Igreja; o encerramento compulsivo de serviços estatais essenciais, o que promove o aumento da procura de estabelecimentos privados quase sempre ligados à Igreja; leis perversas, tais como as do Programa de Emergência Social e da Rede Nacional de Solidariedade, que minam os alicerces da democracia e são talhadas à medida da capacidade dos meios que a Igreja já possui. Assim, a Igreja católica, tradicionalmente instalada nas cúpulas de todos os centros de decisão, penetra anonimamente nas bases e níveis intermédios do colectivo democrático.
O cardeal e os bispos instalam-se comodamente nos camarotes da Concordata, como se fossem meros espectadores, e deixam andar. A Concordata é um lugar seguro. É indiferente que o Estado português se proclame laico, segundo a Constituição e negue na prática o que afirma em teoria. Também diz que a soberania reside no povo e… na realidade, é o que se vê!
A fortuna total da Igreja é segredo bem guardado, como seria de esperar. Porém, apoiados na comunicação social, talvez possamos arriscar um passo que seja nessa selva ferozmente defendida dos olhares dos leigos. A fonte serão os jornais e a Internet.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Política e Religião

A fatídica pirâmide de degraus


«Os cristãos não se podem limitar a praticar actos de culto, têm de estar na rua, têm de saber dizer não quando sentem que há que dizer “não” … porque dizer não em voz alta, mesmo de forma ruidosa, é um direito que assiste a todos aqueles que se sentem ofendidos na sua dignidade e àqueles a quem são retiradas possibilidades de vida digna» (António Soares, Comissão Justiça e Paz, Setúbal, 21.11.2011).
«A ideia de que a função dos portugueses é dizer mal dos governos… não pode ser ! O problema não se resolve se cada um puxar a brasa à sua sardinha. Portugal sempre honrou os seus compromissos ! Se nós colaborarmos todos, o próprio Governo encontrará as soluções mais adaptadas ...» (D. José Policarpo ao Jornal de Notícias, 4.10.2011).
«Não é a consciência do homem que determina o seu ser; é o inverso, é o seu ser social que determina a sua consciência» (Karl Marx, «Contribuição à crítica da economia política»).
Dizem os conhecedores que a pirâmide perfeita só foi concebida após longas tentativas e a partir de outras pirâmides irregulares, de degraus. O problema não estava na concepção da construção em vista. Residia na deslocação dos materiais pesados; quando essa dificuldade ficou resolvida, logo as pirâmides de faces lisas começaram a surgir nos desertos. Depois, o tempo arruinou a maior parte delas. Tombaram as grandes placas de pedra. Voltaram a surgir os degraus irregulares. Poucas construções sobreviveram.
Esta imagem pode servir de ilustração às realidades actuais do capitalismo como sistema universal o qual, dia-a-dia, irremediavelmente se degrada. No seu percurso, os capitalistas conduziram os povos ao deserto e construíram aí um paraíso artificial. Imaginaram um mundo à medida dos seus desejos. Depois – como não podia deixar de ser – a realidade sobrepôs-se à utopia. Se prestarmos atenção ao que os próprios banqueiros agora reconhecem, notaremos que falam cada vez menos em crise e cada vez mais em derrocada eminente do euro, alicerce principal da União Europeia e do próprio capitalismo como sistema político e financeiro.
Entretanto, os próximos tempos vão surpreender multidões desprevenidas. Também elas confiaram um dia na «varinha mágica» dos «bons banqueiros» que tudo prometiam. Admitiram, talvez para alimentarem a sua própria ilusão, que o dinheiro fácil do crédito que jorrava da banca era tirado aos ricos para dar os pobres. Completa burla. E a igreja colaborou nesse crime.
Afinal, esse dinheiro era o do povo, pago com o seu suor. Ao «emprestá-lo» aos trabalhadores, os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. O dinheiro produzia cada vez mais dinheiro, mais desemprego, mais fomes e mais guerras, subida do custo de vida, golpe sobre golpe no Estado social. Os lucros concentravam-se nas mãos dos multimilionários. É nesta fase de transição que nos encontramos.
Logo a seguir virá o caos.
Os povos depressa aprenderão que os sacrifícios impostos são dirigidos contra os pobres e que as tentativas de saque selvagem agudizam sempre as lutas de classes. O que ainda falha em muitos cidadãos atingidos pela exploração é a compreensão de que eles próprios constituem um poder decisivo ao qual só falta em parte a consciência da força que possui. Outro será o homem de amanhã. Marx previu-o naquele pensamento citado à cabeça das linhas deste texto: a consciência social forma-se na escola da realidade.
Os católicos começam a entender todas estas razões. A partir de agora nada será como dantes. As portas de oiro cerram-se uma a uma. Encurralado, o Capitalismo vai tentar cilindrar o Trabalho e esmagar os direitos dos trabalhadores, sejam eles ateus, agnósticos ou crentes. Do «outro lado da barricada» alinha a hierarquia da igreja que valida as medidas do grande capital universal, adere às acções do Governo, apoia a troika e reclama um só poder no governo das nações. Os cardeais e os bispos agem em termos de mercado. É-lhes indiferente que as suas opções resultem na recondução das situações que conduziram, entre as duas guerras, à ascensão do fascismo e à militarização da sociedade, factores que voltam a estar sobre a mesa e que apontam para uma III Guerra Mundial.
Será rápida, cruel e decisiva esta fase do despertar das massas populares. Lutaremos lado a lado e sofreremos. Mas, finalmente, venceremos!.
O Socialismo é a única via aberta ao futuro colectivo da Humanidade.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Política e Religião

Um esboço de poder confessional

«As instituições sociais são fundamentais, absolutamente essenciais para podermos dar uma resposta em tempo de crise. É preciso que o Estado tenha a humildade de pedir ajuda às instituições sociais. Neste momento, nós sabemos que o Estado não pode estar sozinho… Conhecemos a situação de cerca de um milhão de pensionistas que recebem uma pensão mínima de 247, 227 ou 189 euros !» (Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade e Segurança Social, Jornal Solidariedade, Novembro de 2011).
«Não gosto de falar em actividades lucrativas em instituições sociais, não têm essa vocação. No entanto, elas podem ter resultados operacionais positivos que ajudem a potenciar as respostas que as próprias instituições têm...» (P. M. Soares, idem, idem).
«São tarefas fundamentais do Estado...Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais» (Constituição da República, Art.º 9.º).
A «dívida soberana» portuguesa e os sacrifícios impostos pelo Estado aos cidadãos não cessam de crescer. Criou-se uma situação irreversível que é da total responsabilidade do sistema capitalista que motiva as actuais forças dominantes. O Estado gastou recursos de que o País não dispunha, asfixiou as actividades produtivas e impôs uma política consumista que conduziu o País à falência. Assinou com o FMI um contrato criminoso que entrega a estrangeiros a soberania nacional. Agora, procura vender património ao desbarato, encontrar sócios financeiros interessados e manter, simultaneamente, as políticas de destruição dos institutos constitucionais. É lixo, a Constituição de Abril.
Naturalmente que o «caso» português seria muito simples de resolver pelas oligarquias e pelos monopólios numa situação capitalista próspera. Mas como o panorama universal que se apresenta é catastrófico, os falidos governantes portugueses precisam de se socorrer de remédios caseiros. Vão sacar o dinheiro onde quer que ele esteja, menos aos bancos. Aí, nas catedrais do capital, o terreno é sagrado.
Em tais cenários, portas adentro as alternativas são mínimas.
O Estado tem muitos produtos para oferta. Mas o mercado é tremendamente limitado. Reduz-se, na verdade, a dois gigantescos grupos económicos: o dos monopólios financeiros e o lobby da Igreja Católica nacional que dispõe igualmente de uma gigantesca massa de recursos e ligações a nível mundial. Constata-se, em termos globais, que nos planos político e económico, esses dois gigantescos polvos se organizam, sobretudo, por detrás de estruturas abissais e secretas como o Opus Dei e a Maçonaria. Nelas se fixam os olhares angustiados dos ministros. Mas para se progredir nessa via é necessário conciliar interesses.

O segredo é a alma do negócio

E é aqui que «a porca torce o rabo».
À boca de cena, Igreja e Maçonaria parecem incompatíveis, o que não é tanto assim. Ambos pretendem a substituição do Estado burguês, falido e desprestigiado, e uma nova arrumação de valores. Simplesmente, num caso e noutro, os figurinos são diferentes. Os grandes capitalistas laicos, puros e duros, querem que a Nova Ordem avance já, sem olhar a consequências, com os olhos postos num universo onde o trabalho seja completamente escravizado ao lucro e ao crescimento monopolista. Tudo pela força.
A Igreja escolhe outros caminhos. Também ela visa assumir o poder e instalar no País uma chefia dura, fundamentalista e confessional com um governo «forte». Mas sabe que tudo tem o seu tempo e que vale a pena esperar… avançando. Para isso, precisa da gerir a crise. O Vaticano sabe que o caos não só pode provocar-se mas que também pode gerir-se. De que modo? Conquistando os centros de decisão, um após outro. A Segurança Social, a Educação, a Saúde, a Cultura, a Justiça. Para já, um a um, todos lhe vão caindo nas mãos. Usando a persuasão ou a força. Não esquecendo, por exemplo, que a caridade em tempos de fome é uma excelente ferramenta do Poder.
É claro que há-de ser o Povo a pagar os custos de tudo isto. E não por um dia, por um mês, por uma semana, por um ano ou por um século. Se no mundo o capitalismo sobreviver penetraremos num novo ciclo da História. O da Nova Era ou Nova Ordem, saqueadora, brutal, fascista e capaz de impor à massa anónima o capitalismo como uma religião e a religião como ópio.
Ocupemos os nossos postos de combate

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Politica e Religião

Caos e Nova Ordem Mundial


«É uma grande ideia a de uma Nova Ordem Mundial, onde diversas nações se unam por uma causa comum para realizarem as aspirações universais da humanidade: paz, segurança, liberdade e autoridade da lei. Para tal, só os Estados Unidos reúnem duas condições essenciais de liderança – a posição moral e os meios de garanti-la!» (Georges Bush, presidente dos EUA e membro da Maçonaria).
«Aproximadamente 200 delegados encerraram uma reunião interfé que durou uma semana, em Standford USA, prevendo-se que tenham criado um Movimento, bem como uma instituição espiritual. Digam às pessoas que existem as Religiões Unidas.... Após vários anos de discussões, os promotores da iniciativa passaram a tratar de negócios». (NETSaber, Walter Cipriano).
«Segundo os ensinamentos do socialismo, isto é, do marxismo (pois de socialismo não-marxista não podemos agora falar seriamente), a verdadeira força motriz da história é a luta revolucionária das classes, ao contrário do que dizem os filósofos burgueses quando afirmam que a força que impulsiona o progresso é a solidariedade de todos os elementos da sociedade» (Lenine e F. Fedosoeyev in «A Teoria marxista das classes e da luta de classes»).
A palavra de ordem dos sistemas agora no poder é destruir. Cultiva-se a desordem e a miséria. Os responsáveis políticos, económicos e religiosos procuram impor ao povo uma só condição: nós gastámos; nós endividámo-nos; nós somos ricos; nós comprometemo-nos a pagar... Vocês pagam!
Os que não cessam de enriquecer são sempre os mesmos. Chega a ser monótono… Banqueiros, especuladores, governantes e ex-governantes, traficantes, demagogos, etc. Os que pagam, também os mesmos são: trabalhadores, famílias, pensionistas, juventude, humildes, crianças e marginalizados. A responsabilidade desta situação – dizem os ladrões –
A falsidade desta alegação é evidente. É fundamental tirar ao povo tudo o que tem e juntar ao roubo a noção de culpa dos próprios espoliados. Com isto, baralhar e confundir todas as classes e a opinião pública. Uma estratégia familiar aos capitalistas.
Por muito que nos pese, o 25 de Abril não foi o acto final do pesadelo fascista. Data inegavelmente básica, apenas marcou uma baliza da «luta de classes». O generoso projecto de uma sociedade mais justa e desenvolvida apenas se deixou entrever. Logo foi reabsorvido pelas forças ultra conservadoras. A princípio, prudentemente, de forma gradual. Mas depois, a operação foi-se acelerando até se mostrar à luz do sol, descaradamente.

Os compadres do episcopado

Seria claramente injusto «meter no mesmo saco» príncipes da Igreja e povo católico. Os príncipes cantam de galo e sobem ao poleiro dos banqueiros. O povo católico vai suportar, exactamente como o povo laico os mesmos assaltos dos ricos. Estes, depois debitam as despesas e as suas facturas não olham à justiça social. Exigem pagamento. Enriquecem os ricos e empobrecem os pobres. Esta arrogância liga o motor de arranque da luta de classes.
O chamado magistério da Igreja está a receber, assim, um rude golpe. A questão é que, ao alinhar incondicionalmente com os objectivos do capitalismo, a hierarquia católica aumenta desmedidamente a sua fortuna e afirma-se como grande pilar das finanças mundiais. Mas destrói irremediavelmente o que resta da sua imagem tutelar de guia espiritual. A Igreja, passa a ser um gestor bem sucedido no mundo dos gestores. Fica com as escolas, com os hospitais, com os off-shores, com os seus bancos, com os seus latifúndios, com as suas sociedades secretas, com a sua manifesta influência a nível do poder. Mas perde perante os seus fiéis todos os sinais distintivos que eventualmente a definiam como entidade aparte do materialismo mais boçal. Paz à sua alma!...
Pelos caminhos que os acontecimentos tomam, o caos é já amanhã. O povo vai erguer-se e lutar, o que exige um enquadramento a que a Igreja renunciou ao optar pela nova ordem fascista dos multimilionários. Que farão nessa altura os cidadãos católicos senhores dos seus direitos e dos seus deveres de cidadania? Calam-se e esperam que a vontade de Deus se revele? Deixam que os seus bispos interpretem os factos ao sabor dos seus interesses? Ou passam à luta?
A luta, amigos católicos, é para todos nós. Complexa e para os católicos livres ainda mais difícil do que para nós. Terão de bater-se em duas frentes: contra o capitalismo e pela moralização da sua própria Igreja.
Combates a que os católicos não virarão as costas!


Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Bento de Jesus Caraça

Em Maio de 1933, numa conferência titulada "A cultura Integral do Indivíduo - Problema do Nosso Tempo"Bento de Jesus Caraça dizia coisas que podemos, sem quaquer problema, transporta-las para os dias de hoje pela sua actualidade!


Dizia ele:


Encargo pesado, pois não é fácil tarefa o alguém abalançar-se hoje a emitir juízo, por
mais despretensioso que ele deseje ser, sobre o tempo que vivemos. Mas não há também
tarefa mais importante nem mais urgente. O que o mundo for amanhã, é o esforço de todos
nós que o determinará. Há que resolver os problemas que estão postos à nossa geração e essa
resolução não a poderemos fazer sem que, por um prévio esforço do pensamento,
procuremos saber, por uma análise fria e raciocinada, quais são esses problemas, quais as
soluções que importa dar-lhes – saber donde vimos, onde estamos, para onde vamos.
E pensemos, agora que ainda o podemos fazer. Amanhã pode ser tarde, porque a
tempestade que tem vindo a acumular-se sobre as nossas cabeças pode desencadear-se e
arrastar-nos nos seus turbilhões brutais. A violência da borrasca não nos permitirá que
façamos mais do que gestos elementares e instintivos que só não nos trairão se forem, a todo
o momento, orientados e dominados por uma personalidade de uma só peça, aquela
personalidade que agora temos de forjar – enquanto é tempo.
O dizer-se que a época actual é caracterizada essencialmente por uma perturbação e
inquietação vivas, é já quase um lugar comum, de tal maneira isso se impõe, mesmo após o
mais superficial exame. Não é, contudo, demasiado repeti-lo, pois há muitos sujeitos de
ouvido duro que ainda o não compreenderam ou não quiseram compreender e que, numa
cegueira teimosa, continuam a querer aplicar, para medida de valores numa sociedade
abalada nos seus fundamentos, aqueles padrões cujo uso já de há muito não é legítimo.
Desenganem-se essas pessoas. O que estamos actualmente vivendo e sofrendo não é
apenas uma borbulhagem fugaz, destinada a passar como tantas coisas passam, sem deixar
sinal; é, muito pelo contrário, uma época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo
que desaparece e o que vai surgir. E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes,
coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na
realidade, um formidável laboratório de vida.


Quelha Funda

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Política e Religião

A Teoria Conspiratória da Nova Ordem

«Debaixo das amplas ondas da História humana fluem as ocultas correntes subterrâneas das sociedades secretas que, frequentemente, determinam das profundezas as mudanças que ocorrerão à superfície...» (Edmond Waite, «A verdadeira história», 1977).

«O movimento dos illuminatti (os iluminados) da Baviera foi fundado por um padre jesuíta, Adam Weishaupt, em 1776 … e, mais tarde, juntou-se à Maçonaria com o objectivo de infiltrá-la, unificá-la e submeter à autoridade dos 'iluminados' todas as ramificações maçónicas... Os planos mais secretos desta seita foram encontrados em 1784, entre as vestes do abade Lanz … Tratava-se de planos secretos para a conquista do mundo» (Wikipedia/Illuminati, Enciclopédia Livre).

«A terceira guerra mundial tem de ser fomentada de forma a tirar vantagem das diferenças causadas pelos agentes Illuminati entre os sionistas políticos e os líderes do mundo islâmico. Essa guerra tem de ser conduzida de forma a que o Islão (Mundo Árabe Muçulmano) e o Sionismo político (Estado de Israel) se destruam mutuamente» (William G. Carr, «Peões em jogo»).

O que mais interessa ao povo comum é saber identificar o passado dos exploradores e a actualidade dos métodos de exploração do homem; e que espécie de mundo prometem reservar as elites dos «illuminati» aos míseros trabalhadores que somos. Por isso voltamos – e voltaremos – a falar nas intrigas que recheiam os Protocolos dos Sábios de Sião, uma espécie de texto sagrado dos pró-nazis monopolistas que dominam os actuais governos em funções.
É cada vez mais evidente que prossegue a uma cadência rápida a recuperação das forças nazi-fascistas. É uma dinâmica que jamais se esgotará por si mesma. Só a luta organizada dos povos e a informação da classe operária a conseguirá deter. Os acontecimentos políticos das últimas semanas têm confirmado que todas as forças dominantes do capitalismo apoiam abertamente a constituição de um só governo da Europa, a divisão financeira da zona euro, com estatutos diferenciados para países ricos e países pobres, o reforço das estratégias da guerra, as seguranças anónimas e privadas, a secundarização das constituições nacionais, etc. Tudo isto são operações clássicas de abertura à passagem de escalão ao poder totalitário da direita.
A Igreja e a acção católica mundial acompanham e intervêm favorecendo estas mudanças. É ver só como os novos ministros gregos prestam juramento com a mão sobre a Bíblia e não sobre a Constituição da República, para depois se benzerem profusamente; ou como as universidades católicas ou de influência católica – com destaque para as universidades de Navarra e de Stanford – desenvolvem febrilmente planos de adaptação da «Teoria do Caos» às estratégias de domínio dos capitais transnacionais monopolistas. Isto, à mistura com a diabolização do «pavor da violência das massas» e o reforço semi-encapotado da corrupção do poder.

A III Guerra Mundial e as ruínas de Portugal

As propostas contidas nos documentos básicos já divulgados revelam cenários de guerra mundial, o reforço da influência das sociedades secretas, a instalação de estados autoritários com reduzidas competências de soberania; todo este novo arranjo institucional convergindo num fecho de cúpula representado por um governo único europeu dotado de poderes globais e responsável central pela instalação da nova ordem mundial dos monopólios. O mesmo já se defendia nos Protocolos, com uma linguagem sem rodeios, directa e brutal. Sem papas na língua.
Recentemente, num Portugal em ruínas, os bispos reuniram-se a pretexto da situação social portuguesa. Falaram em coisas sérias como o desemprego, a indignação, a equidade, a partilha, etc.? Talvez sim, mas o comunicado final da reunião foi um rol de banalidades. Só o cardeal-patriarca se permitiu declarar, com bom humor, que «ninguém pense em dominar os mercados».
Declaração singular, se pensarmos que o Vaticano tem sobre a mesa uma proposta de reforma do sistema financeiro que exige um único governo mundial e um só banco central com capacidade para controlar os mercados financeiros.
O que prova que os mercados afinal podem obedecer (e obedecem!) a ocultos poderes. Acrescente-se ser estranho que um cardeal, num país que se abeira da miséria, apareça em público como um mentor financeiro e não como o pastor de um rebanho crente em transe de vida ou de morte.
Os católicos devem estar atentos às posições da sua Igreja

Jorje Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Política e Religião

Nos bastidores da «crise»

«Todo o poder de decisão das multidões depende de uma maioria ocasional, superficial, instalada na base da sua ignorância dos segredos da política… Assim, a Nova Ordem aposta na fome crónica e na fraqueza dos operários, para que tudo os escravize à vontade dos que mandam e de forma a que fiquem sem poder, força e energias para se oporem às nossas intenções» (Protocolos dos Sábios de Sião)
«A finalidade da justa ordem social é garantir a cada um, no respeito do princípio da subsidiaridade, a própria parte dos bens comuns... Só através da caridade iluminada pela luz da razão e da fé é possível alcançar os objectivos do desenvolvimento» (Caritas in veritate, Bento XVI)
«O descontentamento popular perante os actuais desenvolvimentos nos planos das relações laborais, segurança social, serviços públicos, como também nos planos das incontroladas injustiças e violências nacionais e internacionais, encontrará forma de traduzir-se em acção» (Imperialismo: seus limites e alternativas, Rui Namorado Rosa, 2004)Os capitalistas vivem em sobressalto. Foi-se a arrogância e a euforia dos banqueiros. Os padres, quando falam em «crise» tocam a rebate mas o som que extraem é o do «toque a finados». Entretanto, multiplicam-se os escândalos públicos e o tão badalado aparelho de Estado capitalista estremece e declina aceleradamente.
Degrada-se nas bolsas o valor do euro e do dólar. Também a palavra se desvaloriza. O crédito do palavreado que enche o ouvido cai a pique na opinião pública que pouco a pouco vai entendendo a natureza corrupta dos governantes e o pavor que lhes inspira a possibilidade de uma reacção das massas exploradas.
Ninguém, é certo, pode estabelecer calendários para as fases futuras desta dramática situação. Ou, inclusivamente, pode antecipar as dimensões da tragédia que se desenha. Quando se vê acossado, o capitalismo mostra as garras. É um animal feroz.
O que também aumenta, a par do desemprego e da pobreza, é a confusão geral. O euro tem dez anos de idade e já está de rastos. Prometeu a prosperidade e conduziu à miséria dos povos. Gerou fortunas brutais entre os ricos e os especuladores. Escavou um fosso social ainda mais profundo e mistificou o Estado dito democrático.
Este é um esboço possível das chagas produzidas pelo neoliberalismo global.

O mundo em que vivemos

Segundo afirmam analistas, o euro é europeu e o capitalismo é global. Mas a diferença é irrelevante. Tudo está nas mãos da banca que prospera ao sabor das bolsas de valores e cujos capitais – estatais, privados ou mistos – são sagrados. Em todo o mundo, menos de 1% das empresas financeiras controlam 40% dos bens produzidos. Junte-se a este montante astronómico os lucros reais obtidos pelos offshores, pela economia paralela, pelo mundo do crime, pela especulação, pelos mercados paralelos, pelas engenharias financeiras, etc. Teremos então formado uma ideia – ainda que incompleta – das dimensões do roubo mundial a que muitos ainda assistem como vítimas passivas.
No outro pólo alastra a mancha negra da fome e da miséria. Mesmo nos países mais desenvolvidos, o desemprego atinge 50 milhões de trabalhadores. Há muito mais do que 60 milhões de pobres em todo o mundo ocidental. As estruturas do Estado social são sistematicamente destruídas pelo neoliberalismo.
Isto não pode continuar assim.
A Igreja faz pesquisa e sabe que a passividade das massas não é eterna. Que ela própria tem uma imagem a defender junto da humanidade e que não será intervindo directamente ao lado dos exploradores que conseguirá reforçar a sua influência entre as populações. As sortes, porém, estão lançadas. O Vaticano traçou para si um caminho irreversível.
A Igreja portuguesa (aquela que, naturalmente, está para nós em primeira linha) é um exemplo deste efeito paralisante que rouba aos gigantes a noção da sua fragilidade. As hierarquias eclesiásticas, para garantirem um lugar entre os mais ricos, calam-se perante o crime, a brutalidade, a injustiça e a corrupção. São agentes activos do que acontece em Portugal e no mundo. Isto é, valem-se de um sistema iníquo para consolidarem, em plena crise, os seus patrimónios.
Se o Patriarcado negar que assim é, então aqui fica uma proposta: que divulgue voluntariamente contas honestas das verbas fabulosas que lucra com a especulação financeira, os jogos bolsistas, os offshores, o imobiliário, as isenções fiscais da Concordata, etc., etc.
Os católicos deveriam lutar pelo acesso a estes esclarecimentos elementares

Jorge Messias (Jornal Avante)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

As mentiras da gente que nos governa!

O Discurso da Impostura

No discurso do poder há uma expressão quase insistente que pretende amparar, como bondosas e altamente patrióticas, as decisões tomadas. "Tomámos em conta os superiores interesses do País." Esta impositiva forma de inevitabilidade política inculca-nos a ideia de que não há nada a fazer senão admitir com consideração e aceitar com respeito as determinações governamentais, quaisquer que elas sejam. Faz lembrar a famosa locução do salazarismo: "Tudo pela nação. Nada contra a nação."
Uma espécie de controlo impeditivo de um pensamento contrário. E, afinal, quais são "os superiores interesses do País"? A experiência no-lo tem revelado que a unilateralidade dos resultados desses "interesses" apenas se destina a favorecer uma minoria, e a abrir-lhe os caminhos de acesso ao poder. Esta impostura, por insistente (tanto Guterres, quanto Durão, Sócrates, Passos Coelho ou Seguro serviram-se da expressão), distingue-se por criar uma espécie de absurda legitimidade. Os tais "interesses" não são os da esmagadora maioria dos portugueses, e a perseverança com que os dirigentes políticos os nomeiam constituem o abastardamento da lógica interna da frase e da pressuposta grandeza do seu significado.
A base constitutiva da nação é a maioria dos portugueses, exactamente aqueles que são mais atingidos pelo infortúnio, e que não estão representados nos "interesses" defendidos pela classe dominante. A expressão, no seu formalismo hiperbólico, é o dispositivo gramatical de um sistema que não deseja ser questionado, por estar ausente de qualquer requisito moral.
No entretanto, Pedro Passos Coelho, grave e denso, avisa-nos de que, para sair da crise, "temos" de empobrecer. Temos, quem? Os mais de nós, atingidos pelas políticas cuja natureza dissimula uma devassidão ética e uma triste barragem ideológica. A vida, para os portugueses, vai ser muito difícil, avisa. Logo, porém, sorridente e feliz, o ministro Álvaro Santos Pereira, sossega a inquietação da pátria: "Certamente, a crise vai deixar de o ser em 2012." Erro grosseiro. Disparate político. Comentaram as boas almas. Menos de quatro horas depois, o ministro desmentiu-se a si próprio, mesmo quando as televisões reproduziram o paradoxo.
Talvez seja um episódio pitoresco. Porém, membros do Executivo, inclusive o primeiro-ministro, são useiros e vezeiros em tornar verdades num funesto derivado. A religião da mentira faz o seu caminho, quase sem contrariedade. E o País, quero dizer: a arraia-meúda do Fernão Lopes, continua a ser um elemento de espoliação, que não tem nada a ver com os apregoados "interesses." Aliás, eles nem ambicionam conhecer a exacta propriedade da frase. Têm sede de justiça e apenas exigem, a quem manda, decência, honra e um pouco de humanidade.


Baptista-Bastos (Escritor)----Diário de Notícias

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Política e Religião

Pirâmide de um só olho que tudo vê!


«O Papa, quando explicitamente define uma doutrina, possui a infalibilidade com que o divino Redentor quis dotar a sua Igreja ao definir qualquer matéria respeitante à fé e aos costumes» (Vaticano I, Constituição “Pastor Aeternus”).

«Nós aparecemos ao operário como libertadores do seu jugo, quando lhe propusermos entrar nas fileiras do exército de socialistas, anarquistas e comunistas, que sempre sustentámos sob o pretexto da solidariedade» (Os Protocolos dos Sábios de Sião, Capítulo XV).

«A lei que equilibra o processo de acumulação capitalista amarra o trabalhador ao capital. É esta lei que estabelece uma correlação fatal entre a acumulação do capital e o exército industrial de reserva, de tal modo que num só pólo a acumulação da riqueza é igual à acumulação da pobreza, do sofrimento, da ignorância, do embrutecimento, da degradação moral e da escravidão. São factores que estão na base da classe que suporta o próprio capital» (O Capital, Tomo I).

A Europa capitalista saltita à beira do abismo. O espectáculo anárquico a que se assiste actualmente é disso prova. Os políticos da chamada globalização são incapazes de encontrar saídas para os problemas catastróficos que eles próprios causaram. Teme-se a súbita ruptura do sistema financeiro e, nos quadros presentes, a economia não recupera. Falta, segundo os capitalistas, uma chefia esclarecida e com reforçados poderes de decisão. O Vaticano decidiu, portanto, avançar para a aplicação imediata de um plano já de há muito preparado, desde a era de João Paulo II, de Bush e de António Guterres. Em 1983, afirmou Dan Quayle, vice-presidente dos EUA: «Sob a corajosa liderança de João Paulo II, o Estado do Vaticano tem assumido o lugar que lhe compete no mundo como uma voz internacional. É altura dos EUA mostrarem o seu respeito pelo Vaticano, reconhecendo-o diplomaticamente como uma grande potência mundial». Palavras que revelaram a esperança que os mercados depositam na Igreja. O «olho» que tudo vê figura, aliás, no triângulo maçónico que é emblema do Tesouro americano. E surge igualmente nos símbolos dos poderosos illuminati da igreja.
Desde então tem-se reforçado extraordinariamente a aliança Vaticano/EUA. Ainda que à custa de uma certa ambiguidade em relação ao capitalismo apadrinhado na Europa. Uma simples imagem desta identidade da Santa Sé com as políticas neoliberais norte-americanas resulta de um facto simples embora recente mas «esquecido» pela comunicação social: em plena crise financeira, quando as estruturas bancárias norte-americanas abanavam, Bento XVI não hesitou em expor-se publicamente ao ordenar a urgente transferência para instituições americanas de biliões de dólares, o que permitiu à banca estadunidense retomar um certo reequilíbrio provisório. Para lá da solidariedade que o caso revela, esta operação também chamou a atenção para a solidez e capacidade financeira do Vaticano.

O plano eclesiástico de reforma financeira mundial

Mas que dizem os Protocolos que não se esteja a concretizar, agora?
Por exemplo, as estratégias da Nova Ordem Mundial, tal como foram inicialmente proclamadas, passam pelo fim do conceito de nação e de família; pela fusão das religiões numa só e pela instalação de um único governo mundial planetário e global, isento de qualquer controlo democrático e dotado com um só exército e uma só política. Os seus órgãos executivos deverão ocupar três esferas de poder: a económica e financeira; a militar e policial; e a esfera do poder científico.
A área política, uma vez extinto o Estado, será desempenhada pelos clubes de reflexão, que concentrarão em si as forças actualmente representadas nas reuniões de líderes (tais como o G5, o G8, o Clube de Bilderberg, a Trilateral, os Illuminati, etc.).
É nesta fase capitalista de aparente derrocada que a Igreja pretende assumir os comandos e fazer avançar as fortunas. É um aparente contrasenso. Mas se o conseguir, o capitalismo comandará a vida dos homens no próximo milénio. Se a intenção morrer pelo caminho, como parece provável, será ao homem que cumprirá escolher o seu destino – livre, fraterno e socialista.
Quando estivermos na posse do texto do Vaticano, falaremos então dessa «Proposta da Igreja de reforma do sistema financeiro mundial».

Jeorge Messias (Jornal Avante)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Solidários com as crianças da Etiópia e da Somália

Devemos ser solidários.

Somos um povo extra ordinário. A noite de fados realizada no Seminário do Verbo Divino mostra-o bem. O povo do Tortosendo esteve presente para tão nobre acção.
Mas ao ler esta notícia veio-me à memória, uma declaração de um membro da Junta de Freguesia do Tortosendo. Disse ele: "que a Junta de Freguesia estava a custear refeições nas escolas porque, principalmente à Segunda-Feira, as crianças iam com fome"!
Não nos ficaria nada mal, que olhando para tão longe, o que só nos fica bem, pudessemos olhar ,também, para mais perto.
Eu creio que as crianças, sejam de onde forem, não é de esmolas que precisam mas de justiça.
Mas enquanto esta não chega sejamos solidários

Quelha Funda

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Política e Religião

Sionismo, Secretismo, Maçonaria e Vaticano

«Globalização não é um conceito sério. Nós, americanos, inventámo-lo para dissimular a nossa política de invasão económica de outros países ...»(John Kenett Galbraith, professor norte-americano de Economia, «História da Economia»).
«O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento caracterizada pelo domínio dos monopólios e do capital financeiro, quando adquiriu vincada importância a exportação de capitais e se inicia então a divisão da posse do mundo por parte dos trusts internacionais, bem como se conclui a partilha de toda a Terra entre os países capitalistas mais importantes» (V.I. Lenine, «O Imperialismo, fase superior do Capitalismo»).
«A respeito de Religião, constatamos na sociedade uma indiferença crescente … Porém, um dos fundamentos da convivência bem sucedida é a religião. Assim como a religião precisa de liberdade, também a liberdade tem sede de religião!» (Bento XVI, visita pastoral, 2011).
Passam os dias, voam as horas e o panorama das nações está cada vez mais escuro. O grande capital manteve em cena, anos a fio, os quadros da comédia «vida fácil e sucesso pessoal» que o crédito bancário estimulava e o «confortável» abandono dos campos, das pescas e das oficinas ou a imediata compra e venda do produto tornavam possível.
Tudo era utopia. Aos empresários chamavam empreendedores, aos trabalhadores, parasitas! Os políticos «televisíveis» eram apontados como cidadãos modelo que se colocavam ao serviço da comunidade, sem mais interesses que não fossem os da solidariedade e da entrega. Os milionários convertiam-se em filantropos ou em campeões das «lutas contra a pobreza». Diziam os patrões que progredia a «concórdia» entre as classes sociais quando, na verdade, se agravavam surdamente os índices do desemprego real, do custo de vida e se alargava o fosso entre pobres e ricos.
Aquilo que os governos, os capitalistas e a Igreja católica diziam a respeito do País e do mundo, era mentira radical. Cultivavam o mito. Mas todos os que falavam ou escreviam sabiam que a riqueza era roubada ao povo, passava pelos monopólios e ia concentrar-se nos bancos onde crescia em flecha e se transformava em arma cada vez mais poderosa ao serviço da «nova ordem» do grande capital.
Assim chegámos ao ponto em que as coisas estão. O dinheiro abunda mas é absorvido pelos poucos monopólios de primeira linha os quais, fatalmente, continuam a tentar engolir-se uns aos. O resto é folclore e paisagem. A posse do dinheiro e do poder ocupa o lugar central das atenções dos mais ricos. Que importa que morram milhões de míseras criaturas se o seu sacrifício for exigido pela troika ou pelo saneamento da dívida pública do Estado?
O tempo que vivemos e o mais que está para vir prenunciam dias bem duros e difíceis. Dias de luta e de sacrifício, combates de vida ou de morte contra os corruptos, os profetas das «piedosas» promessas, os usurários, os renegados do 25 de Abril e os fascistas.
Sem ilusões, vamos à luta!
Abril não é um sonho. É um projecto de futuro, ainda por realizar.

O lugar do Vaticano
Em tudo isto, o papel desempenhado pela Igreja é vergonhoso. Bem pode a Cúria continuar a chamar-lhe comunidade do mistério e da fé que poucos nisso ainda acreditarão. O que torna poderosa a Igreja é o dinheiro que tem e as influências que move. Por isso se cala perante a injustiça e pratica, ela própria, o crime. O segredo é a alma do negócio. Mas já ninguém pode ocultar que «o Vaticano é dono do Hemisfério Ocidental». É dono de meio mundo!.. E quer ir à conquista do que ainda não tem.
A sede desse poder situa-se num eixo transatlântico que liga Roma a Washington mas também se ramifica por toda a Europa, por África e pela América Latina. Há quem afirme que o Estado norte-americano é já uma colónia da Santa Sé. Esta, domina 51% do capital dos principais bancos; tem redes instaladas horizontalmente em todos os grandes partidos políticos, na comunicação social e nas instituições assistenciais as quais, nos EUA, desempenham o papel que em Portugal é cobiçado pelas ONG e IPSS. Tem alianças preferenciais com a Maçonaria. Possui uma pesada carteira de interesses no petróleo, nos aços, na indústria automóvel, nos armamentos, na energia, nas linhas aéreas, nas minas, na construção civil, etc.
Todas as grandes decisões políticas americanas se sujeitam, já, aos pareceres prévios do Vaticano.


Jorge Messias (Jornal Avante)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A memória dos amigos

No Jornal "Diário de Notícias",de hoje 2 de Novembro, vem um trabalho de Baptista Bastos que não pode deixar indiferente quem ame a cultura e a liberdade.Tomei então a liberdade de o publicar no meu blog esperando,assim, leva-lo ao conhecimento de alguns,que não lendo o "DN" passem os olhos pelo meu blog



A memória dos amigos


O Governo deixou passar em escuro os centenários do nascimento de Alves Redol e de Manuel da Fonseca. São dois dos maiores escritores da literatura portuguesa. Mas eram neo-realistas e, por isso, desdenhados pela miuçalha que voeja nos canais da cultura. E o Governo actual não é propriamente um arfante frequentador de livros. Basta ouvi-los. Aquela constante troca da expressão "competitividade" por "competividade" causa apreensão. Enfim. A verdade é que qualquer dos dois autores nos legou uma obra incomum e algumas obras-primas. Gaibéus, inaugura o movimento, cujas características se aproximavam do "realismo socialista", ou Barranco de Cegos ou, ainda, entre outros mais, o extraordinário A Barca dos Sete Lemes, de Redol, são textos definitivos, se a expressão não vai incomodar os espíritos de libélula. E O Fogo e as Cinzas, Cerromaior e Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, instituem uma nova maneira de se enten der a literatura, para se compreender o mundo. Fonseca intro duz a short storie e escreve com, apenas setecentas palavras, reduzindo a zero as gorduras da retórica.
Não me interessa, agora, escarmentar um actual membro do Executivo que, em tempos, qualificou de medíocre os livros de Redol. As acções e as definições ficam para quem as pratica. Mas a memória regista e conserva a pelintrice. Manuel da Fonseca e Alves Redol eram amigos, companheiros e camaradas. Redol morreu novo, com 58 anos, e o seu funeral, em Vila Franca de Xira, por um dia embatente de frio, mobilizou muitos milhares de pessoas. A cidade estava cercada de pides, e a emoção popular só teve paralelo com o enterro de António Sérgio. Do património da Esquerda fazem parte integrante esses protagonistas anónimos que, quando é preciso, enchem as ruas, as praças e as cidades, e obrigam a Direita, que dispõe da polícia e da violência, a posar de fera sem unhas.
Redol era o mais bondoso e generoso de todos os homens que conheci. Até os desaforos de que era alvo, as injúrias com que o feriam, pareciam não o afectar grandemente. Uma alma de mármore num corpo de porcelana. E um escritor incansável, com larguíssimo volume de leitores, consciente da responsabilidade do ofício, e do efeito que as palavras podem ter. Manuel da Fonseca, um amigo devotado e o mais felino dos sarcastas. Certa ocasião, uma senhora que muda a cor do cabelo consoante os dias pares ou ímpares, escreveu, numa gazeta semanal, que o Manuel da Fonseca era muito simpático, mas o facto de ser neo-realista a espavoria. Rimo-nos da alarvidade presunçosa. E o Manuel da Fonseca, que não era para graças, resumiu numa frase mortal, o seu desprezo monográfico: "Coitada, é tão feia!"
O Governo cumpre o seu papel de os esquecer. O nosso, é o de sacudir estas inércias, e relembrá-los, com emoção e orgulho.

Baptista Bastos

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Carta dos Avós aos Netos

No ultimo encontro nacional das Associações de Reformados saiu este diamante, em forma de carta, que eu não resisto em transcreve-la. Ela deve chegar ao maior numero de pessoas e em especial aos jovens. É esta a amaneira de eu poder colaborar. Estou certo que os meus amigos estão de acordo comigo.

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

Queridos netos.O motivo desta carta, escrita pelos avós que somos e dirigida aos netos, tem a ver com o nosso passado, o nosso presente e o vosso futuro. Pertencemos à geração que, obrigada, fez aguerra colonial, que lutou e alcançou a Paz.A geração perseguida, reprimida e presa pela polícia política de Salazar e Caetano. Somos a geração que fez a revolução do 25 de Abril.A nossa experiência de vida e de luta, ontem jovens e hoje avós, diz-nos que o momento que o País vive é muito grave para as famílias portuguesas e, em especial para o vosso futuro. Sentimos Por isso, temos a responsabilidade de lançar um alerta aos nossos filhos e netos para o caminhode destruição do país: dos direitos políticos, laborais e sociais dos trabalhadores das novas gerações e do povo português.Não pensem que é exagero dizer que, este é o caminho da destruição do regime democrático, promovido pelo governo do PSD/CDS-PP a mando da Troika do qual o PS foi o primeiro subscritor.Quem, como nós, viveu num tempo de opressão e exploração e, sem condições mínimas de vida, em que o sonho de sermos livres, de dar largas à revolta da falta de liberdades constituiu uma postura combativa, sabe bem que é possível transformar o sonho em realidade.Com orgulho de sermos trabalhadores e lutando para satisfazer justos anseios, em oposição às classes parasitárias e exploradoras, fez de nós intervenientes activos na luta pela mudança das nossas vidas.Muitos de nós, trabalhadores que fomos das fábricas, dos campos, das empresas dos serviços, das forças armadas, pela luta organizada no plano político, social e cultural estivemos no centro da luta que levou à queda do regime fascista e à construção de um país livre e democrático.É preciso lembrar que, nesse tempo, o analfabetismo imperava porque o ensino era privilégio de poucos, amaioria dos partos eram feitos em casa, existia uma elevada taxa de mortalidadeinfantil e materna, a esperança de vida era de 60,7 anos, os serviços de saúde eram pagos por quem podia e os que não podiam pagar tinham de recorrer ao atestado de pobreza passados nas Juntas de Freguesia e as mulheres não podiam trabalhar ou deslocar-se ao estrangeiro sem autorização dos maridos.Queridos netos, depois desses tempos de trevas chegaram os dias luminosos do 25 de Abril, fruto de muitas,muitas lutas: Lutas contra aquilo que parecia, um “muro intransponível”, ou como nos diziam “tem que ser assim, sempre foi assim…” Era uma maneira de dizer e de convencer, tal como hoje - “não há alternativas”.As liberdades e os direitos políticos conquistados: de expressão, de manifestação, de associação, aliberdade sindical e o direito à negociação colectiva, a garantia do direito de todos ao Serviço Nacional de Saúde, o Sistema Público de Segurança Social e à Escola pública de qualidade; a reforma agrária nos campos do sul do País, a dinamização do associativismo dos agricultores a norte do País; o associativismo dos reformados, dos jovens, entre outros, resultou de muitaslutas do nosso povo e dos jovens de então.Hoje, na situação de reformados das nossas profissões, não nos reformámos da luta em defesa dos nossos direitos, mas igualmente da luta pelos direitos dos nossos filhos e netos.Estão a ser atacados o nosso direito de envelhecer com direitos, com autonomia económica e social. Lutamos em sua defesa por nós e pelas futuras gerações. Estamos atentos e interventivos na exigência de um Portugal com direitos e liberdades políticas e sociais para os trabalhadores nossos filhos e, para vós, nossos netos – as novas gerações produtivas, criadores de riqueza e, por isso, merecedoras de um nível de vida compatível com essa condição.Está a ser posto em causa o vosso direito ao trabalho com direitos. A legislação laboral está a ser alvo de ataques violadores da Constituição da República, através de tentativas de liberalizar os despedimentos sem justa causa, de prolongar os horários de trabalho, da redução para metade do valor do trabalho em dias de descanso e das horas extraordinárias, da liquidação da contratação colectiva, da redução da duração e do montante do subsídio de desemprego para um limite máximo de dezoito meses.É importante, que conheçam os princípios, valores e direitos da Constituição da República. O seu conteúdo ajuda a perceber as obrigações do Estado para com os cidadãos e o país. E, também,para perceber a diferença entre os direitos e dádivas dos governos, como a oferta de medicamentos em fim de prazo e os restos de comida para os pobres. Nós sabemos bem a diferença entre direitos e políticas assistencialistas e caritativas. E, sabemos o significado profundo da palavra dignidade – por isso não aceitamos e recusamos a transformação dos direitos em actos de caridade. Está muito actual a conhecida frase de Bento Jesus Caraça – um homem culto é aquele que “Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência humana.”Como exemplo de direitos constitucionais, o artigo 63º da Constituição da República: “Todos têm direito à segurança social. Incumbe ao Estado organizar, coordenar e subsidiar um sistema de segurança social unificado e descentralizado, com a participação das associações sindicais, de outras organizações representativas dos trabalhadores e de associações representativas dos demais trabalhadores.” Queridos netos.Muitos de nós não temos heranças materiais para vos deixar. Temos um legado de saber e experiência, que nalguns casos levou a perdas de postos de trabalho, ou mesmo à prisão. Hoje, no século XXI, tal como no tempo da nossa juventude, para não se perderem direitos históricos e civilizacionais, a luta é uma exigência e uma necessidade.A juventude é a idade dos sonhos. É possível sonhar e alcançar sonhos que pareceriam inatingíveis, sonhos arrojados. Foi o que conseguimos na nossa juventude com a Revolução do 25 de Abril - o maior legado que deixamos aos nossos filhos e netos – a luta e os seus resultados! Encontro Nacional das Associações de Reformados, 22 de Outubro de 2011.

Quelha Funda 28-10 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Política e Religião

A máquina da morte e a utopia
«Enquanto o proletariado tiver necessidade do Estado, não será no interesse da liberdade mas sim para reprimir os seus adversários! E no dia em que for possível falar-se livremente de liberdade, o Estado deixará de existir...» (F. Engels, «Carta a Bebel»).
«A liberdade política é uma ideia e não uma realidade. Ideia que, no entanto, é preciso saber aplicar quando for necessário atrair as massas populares a um lado da questão. Eis onde surgirá o triunfo da nossa teoria. A questão será de fácil solução caso o adversário tenha recebido o poder de uma ideia de liberdade a que se chama liberalismo. As rédeas do poder serão tomadas facilmente porque a força cega de um povo não pode ficar um só dia que seja sem guia. Assim, a nova força nada mais tem a fazer do que assumir um comando enfraquecido pelo liberalismo» (Protocolos dos Sábios de Sião, 1.º Mandamento).
«Há uma necessidade urgente de uma autoridade verdadeira no mundo, para ordenar a economia mundial, reavivar economias atingidas pela crise e evitar qualquer deterioração e os desequilíbrios maiores que dela resultariam. Obviamente, essa autoridade teria de dispor do poder de garantir o cumprimento das suas decisões ...» (Bento XVI, «A Caridade com Verdade»).

A rede conspirativa que se vai instalando na terra tem claramente origem em formações capitalistas proclamadamente religiosas. Basta olhar-se para o esquema organizativo que vai chegando ao conhecimento público para nele se reconhecer a mãozinha sinuosa dos jesuítas e dos illuminati maçónicos. O que está em jogo tem sempre dois pés para andar: um deles, vai sendo gradualmente desvirtuado, o da utopia do Estado; o outro, avança e calça a botifarra nazi.
A história dos Protocolos poderia, em princípio, parecer um conto de fadas. Mas os quadros dos anúncios que aí se promovem são bem reais. A democracia e as liberdades foram um sonho mal escrito e mal entendido pelos homens. As maiorias enganaram-se nas encruzilhadas dos caminhos. E a própria Igreja surgiu com uma inesperada novidade: agora, as hierarquias querem destruir as estruturas da sua própria Igreja para depois realizarem o sonho mefistofélico de uma cristandade apocalíptica que represente o universo de interesses dum Estado capitalista mundial. Tudo poderia ser pura imaginação não fosse o caso do enunciado teórico dos Protocolos ser acompanhado por uma listagem de objectivos a curto e médio prazos: um governo mundial oculto que promova uma Nova Ordem mundial; um único sistema económico, financeiro e monetário, de obediência universal; o fim das crises económicas através da ocupação, por um só exército, de todas as fontes mundiais de matérias-primas e energia, mesmo que para isto seja de prever o desencadear de uma III Guerra Mundial; e o estabelecimento de uma Religião Única cuja chefia seja desempenhado pela Igreja Católica.
Todos os antecedentes desta Nova Era estão lançados ou funcionam já. Há políticas altamente complexas, como as que intervêm na crise financeira internacional, no terrorismo, nas área do gás e do petróleo, etc., que necessariamente estão a ser já coordenadas por um único governo oculto. As grandes disputas financeiras que convergem nos benefícios das grandes fortunas e nas mega fusões, nas troikas ou nas guerrilhas entre os mercados denunciam a existência actual de gigantescas centrais capitalistas articuladas entre si. Em tudo, desde as relações entre as pessoas até ao convívio entre os estados, os ricos serão mais ricos e os pobres conhecerão a miséria. Embora as lutas de classes subam de tom.
Dá-se como certo que na base deste tenebroso programa final figuram os sionistas, o Vaticano e a Maçonaria. Nada custa a crer que assim seja: o plano actual da Nova Era tem as marcas do «Apocalipse», das ambições planetárias ilimitadas dos grandes estados ocidentais, das alfurjas das caves do Vaticano e da Maçonaria e das tenebrosas ordens secretas, laicas ou religiosas.
Uma nota informativa complementar: os Protocolos não são proféticos. Não foram redigidos de uma só vez, para sempre. São fichas que incluem tópicos de matérias já conhecidas no seu tempo. Depois, vão sendo actualizadas à medida do tempo que passa. E os seus mentores e condutores do processo são os illuminati que repartem ligações entre a Santa Sé, a Maçonaria, o Pentágono e a Wall Street.
Voltaremos a este tema. Quem lê os jornais portugueses cada vez mais se enreda na confusão.

Jorge Messias (Jornal Avante

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um poema de vez em quando

Se Eu Tivesse Um Chicote

Se eu tivesse um chicote
chicote de fios de aço
eu nem sei o que faria
mas não fazia o quefaço!

Certos homens que eu conheço
sem alma e sem vergonha
veja você, suponha:
se eu tivesse um chicote!...

(Posso vir a construí-lo
de fino,profundo traço!),
mas se eu tivesse um chicote
chicote de fios de aço

Homem que viva do homem
decerto não haveria...
Se eu tivesse um chicote
eu nem sei o que faria.

Se eu tivesse um chicote
o meu braço e outro braço
o que faria nem sei
-mas não fazia o que faço!


JOAQUIM LAGOEIRO
1918-2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

aviso à navegação

O tempo das cerejas

Um burlão apoderou-se da minha conta de gmail - vmcdias2007@gmail.com - (para a qual não vale a pena escrever mais). Como essa conta gmail estava umbicada com o meu blogue «o tempo das cerejas» fiquei sem acesso como administrador ao blogue e, por isso, nem sequer lá posso colocar qualquer aviso aos seus leitores.Salvo qualquer acto do burlão, em príncipio, todo o histórico de «o tempo das cerejas» continuará a poder ser concultado por eventuais interessados.
Mas a sua continuação e actualização, a contra-gosto meu, terá de ser feita a partir de agora aqui em http://otempodascerejas2.blogspot.com , num produto naturalmente ainda mal amanhado e incompleto.
Naturalmente que ficaria muito grato a todos os blogues que queiram noticiar esta alteração ou que, pelo menos queiram acrescentar aos seus links este «o tempo das cerejas2», se possível e não lhes custar muito, mantendo o link para o original «o tempo das cerejas»

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Os Novos Vampiros


Eles roubam tudo...
Roubar é a sua profissão: eles roubam, roubam, roubam...
Roubam todos os dias e a todas as horas; roubam nos dias úteis e nos dias inúteis; roubam nos domingos, nos feriados e nos dias santos; roubam enquanto dormem e roubam quando estão acordados.
Eles roubam, encapotados, congelando salários e reformas, e roubam, sem máscara, subsídios de Natal a trabalhadores e reformados.
Eles roubam, à mão armada, o direito ao emprego aos jovens e roubam, a tiro, aos idosos, o direito à dignidade, condenando-os a reformas de miséria.
Eles roubam, em quadrilha, o direito ao pão a milhões e, sempre em quadrilha, concedem-lhes o direito à caridadezinha ultrajante e anti-humana.
Eles roubam direitos laborais e roubam direitos humanos fundamentais aos cidadãos.
Eles roubam serviços públicos essenciais, roubam o direito à saúde, à educação, à habitação – e roubam o direito à felicidade.
Eles roubam, roubam, roubam...
Eles roubam aos que trabalham e vivem do seu trabalho.
Eles roubam aos que já trabalharam e ganharam, com trabalho, o direito a uma velhice digna.
Eles roubam o emprego aos que querem trabalhar, pondo-lhes à frente espessos muros.
Eles roubam, roubam, roubam...
Eles roubam ao País a sua independência e, rastejantes, levam o roubo à boca dos grandes e poderosos da Europa e do mundo, aos quais lambem as mãos.
Eles roubam Abril – a democracia, a liberdade, a justiça social, a soberania nacional, a Constituição, o futuro – e semeiam sementes do passado que Abril venceu.
Eles roubam, roubam, roubam...
Roubar é a sua profissão.
E, quais robins dos bosques de patas para o ar, roubam aos pobres para dar aos ricos – e enchem, com o roubo, os cofres das grandes famílias, dos exploradores, dos vampiros parasitas.
E se alguém se engana com o seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada, eles roubam tudo e não deixam nada.
E poisam em toda a parte: poisam no governo e na presidência da República; poisam nas administrações das grandes empresas públicas e privadas; poisam nos bancos falidos fraudulentamente e nos bancos que, fraudulentamente, levam à falência as pequenas e médias empresas.
Poisam nos prédios, poisam nas calçadas...
A luta os vencerá.

José Casanova (Director do Jornal Avante)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mudança ou morte

«A táctica marxista consiste em combinar as diferentes formas de luta, em passar habilmente de uma para a outra, em elevar firmemente a consciência das massas e a amplitude das suas acções colectivas, cada uma das quais é umas vezes ofensiva, outras defensiva enquanto que todas, em conjunto, conduzem a um conflito de classe mais profundo e decisivo».
V.I. Lenine («Obras», tomo 20).

«Os cristãos vivem um momento difícil de esperança a roçar o desespero. Esperança, na profunda renovação da Igreja. Desespero perante as pertinazes resistências oferecidas, sobretudo, pelos mais altos responsáveis eclesiásticos, ao ritmo de evolução anunciado pelo Concílio (Vaticano II).

Não se oculta que esta vivência atinge uma minoria de cristãos (presbíteros ou leigos). A grande maioria não sente qualquer necessidade de renovação. Uns, porque têm nas mãos as alavancas da condução da vida oficial da Igreja. Esses, temem perder a sua incontestada dominação e tudo tentam para que nada mexa...São os patrões da religião. Outros, porque estão modelados por um sistema de alienação
que não lhes permite o exercício do espírito crítico sobre a situação de infantilismo religioso a que estão reduzidos. São os escravos da religião cuja função é sevirem-se da mercadoria religiosa e sustentarem os mandarins».
Padre Felicidade Alves («Enquanto a esperança não morre», 1969).
Para quem esqueça facilmente a História: o padre Felicidade Alves foi um notável pensador dos tempos inacabados da «Teologia da Libertação» e um corajoso antifascista. Sobretudo os católicos deveriam recordá-lo. Hoje, tal como então, a hierarquia eclesiástica continua a envolver-se nos mais repugnantes crimes contra a humanidade. Assim, para ajudar a que a memória se mantenha, vamos arquivar nestas colunas algumas pistas a desenvolver em investigações futuras.
O tema que presentemente mais chama a atenção é o da instalação evidente de um oculto governo mundial único das grandes fortunas, dotado de um minucioso projecto de «Nova Ordem» à escala planetária. Calcula-se que em todo o mundo capitalista o fosso entre ricos e pobres seja de tal ordem que 0,5% da população mundial, dotada de fortunas pessoais gigantescas, comandam as políticas que esmagam os restantes 99,5% de seres humanos.
São óbvias, assim, as razões que tornam urgente a concentração do poder político nas mãos de uma só entidade central da fortuna. O capitalismo selvagem assume dimensões globais. O controlo dos créditos não pode escapar aos próprios banqueiros. No horizonte social, cresce o fantasma da luta de classes. Teme-se que as instituições capitalistas sejam incapazes de dominar com os meios de que dispõem o perigo catastrófico de uma derrocada das bolsas de valores mundiais.
E o tempo urge. A concentração da riqueza assume contornos de uma corrida «contra relógio». Embora seja evidente que, em tempos recentes, a organização financeira neoliberal tenha vindo a alcançar metas importantes. Sobretudo no que se refere à agilização de uma pesada estrutura semi-secreta de «organizações em rede», sociais e lucrativas. O universo capitalista dispõe, pela primeira vez na História, de uma imensa malha, praticamente indetectável, de partilha dos lucros do saque, de consolidação do seu aparelho e de expansão do poder. Simples exemplos disto são as redes de off-shores, o funcionamento interligado de estruturas mundiais como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial de Saúde, a União Europeia ou o G8, etc. Mas todas estas instituições (e muitas outras) têm vindo a actuar sobre si mesmas, com graves perdas para as oligarquias mundiais. É preciso, sem perda de tempo, centralizar o poder num só Governo cujas decisões sem apelo dominem o homem e o mundo.
Tudo está em marcha, a partir das grandes centrais políticas do capitalismo tradicional: a banca, a direita partidária, o mundo subterrâneo do negócio, as religiões, as chamadas organizações filantrópicas com fins não-lucrativos, as sociedades secretas como a Máfia, a Maçonaria ou o Opus Dei, enfim, as forças gigantescas que baralham as pistas mas visam, como objectivo último, a sujeição do homem comum à condição de escravo.
Teremos de progredir aos poucos na invocação destes riscos que nos ameaçam mas que seremos capazes de derrotar. Força positiva que será tanto maior quanto melhor nos soubermos aproximar uns dos outros, num mesmo esforço de ruptura e de revolução social.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O povo que também é povo e a Igreja dos mercadores

«O homem não é um ser abstracto, exterior ao mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a Sociedade, os quais produzem a religião, consciência corrompida do mundo… Os princípios sociais do cristianismo pregam a necessidade de uma classe dominante e limitam-se a fazer votos piedosos de que a primeira seja caridosa com a outra… Os princípios sociais do cristianismo são servis e o proletariado é revolucionário !».
V.I. Lénine (O Comunismo dos Observadores Renanos, 1847)

«Ninguém pode servir a dois patrões. Porque, ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro... Seja pois o vosso falar: sim, sim, não, não. Porque o que passa adiante disto procede das fontes do Mal».
Bíblia Sagrada ( Evangelho Segundo S. Mateus, cap. V e VI )

Na pobreza mundial que cresce a olhos vistos, o universo católico dispersa-se, divide-se em heresias, despreza qualquer noção de mensagem, envolve-se em negócios, mas nesta fase decadente as suas instituições continuam a revelar influência política e social e coesão.
Potencialmente, há uma cisão que se anuncia entre a base e o topo da pirâmide eclesial. O povo católico pobre e trabalhador inquieta-se quanto ao futuro e olha, com uma contida incompreensão, as posições das hierarquias quanto aos gravíssimos problemas que esmagam os humildes e ameaçam as classes médias. Cada vez mais católicos vão-se apercebendo de que as hierarquias eclesiásticas serão tudo o que quiserem menos cristãs. Os seus actos visam apoiar e participar na esfera do grande capital, aquele mesmo que, explicitamente, os textos da Igreja condenam.
Dir-se-ía, então, que a base social da luta de classes está estabelecida no mundo católico. Mas não é, por enquanto, assim. A religião ensinou aos «crentes» (deve reconhecer-se que esta crítica afecta igualmente todas as outras religiões) os princípios da obediência da base ao topo, da origem divina das chefias, do carácter indistinto da Igreja e da fé e dos dogmas que ligam as noções de desobediência, ruptura e pecado.

O povo cristão e os mercadores

É claro que tudo isto também se reflecte nas atitudes dos povos, sejam elas religiosas ou laicas. A Igreja católica, na sua dimensão de instituição altamente organizada, vem desde o Concílio do Niceia, no século IV e a partir de então não cessou de se expandir, de arrecadar fortunas, de participar no mundo dos negócios e de colaborar activamente com as políticas de Estado, primeiro dinásticas e nacionais, depois sucessivamente imperiais, absolutistas, iluministas e liberais. Tudo pode ser consentido desde que contribua para a maior glória de Deus e da Igreja. Pecar contra um é pecar contra o outro. Este preconceito agrilhoa, ainda, milhões de católicos. E continua a fazer todo o sentido dizer-se que «a religião é o ópio do povo».
A situação em que hoje mergulha Portugal, se não é aquela que desejaríamos, é pelos menos aquela que «é», a que «existe», a situação «real». E a realidade que os cidadãos honestos (católicos ou não) registam no dia-a-dia são revoltantes, «bradam aos céus». Bispos, cardeais e o Vaticano metidos em negócios milionários que envolvem o branqueamento financeiro dos lucros resultantes dos offshores, das fraudes bancárias, das misérias morais das transacções subterrâneas resultantes dos armamentos, da prostituição de seres humanos, do jogo e do vício, das falcatruas dos políticos, etc., etc. Havemos de regressar a estas matérias.
De momento, é importante registar que se constata um aumento de nível da consciência cívica e moral do povo católico mas que ela ainda é insuficiente. Tal como em 1974, muitos católicos portugueses limitam-se a «ver, ouvir e ler» os acontecimentos da vida real. Mas não agem consequentemente nem tentam desmascarar os sofismas das hierarquias, denunciá-las ou romper com a dupla adoração de Deus e do Dinheiro. Os católicos só falam no «ladrão» quando ele é ateu ou de outra cor.
A questão é essencialmente ética e moral. Mas enquanto ela dominar os horizontes sociais, parece improvável que se expanda a tão desejável cooperação entre iniciativas católicas e comunistas.
O tempo dirá se assim é.

Jornal Avante (Jorge Messias)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Católicos e Comunistas... por que não?

«Ao que é católico convicto, ao que está certo das doutrinas, também sociais, da Igreja, não devemos dizer : “ Nós queremos trazer-te para o Socialismo ; portanto, deixa de lado essas doutrinas... Mas devemos perguntar-lhe : quais os valores que desejas ver realizados quando falas numa Sociedade Cristã?.»
Palmiro Togliatti, dirigente comunista italiano, 1964.

«A Igreja, pela sua própria natureza, é uma sociedade desigual. Apenas a hierarquia nela decide e manda. Quanto às multidões, é seu dever sofrerem, deixarem-se conduzir submissamente e obedecerem às ordens daqueles que as dirigem».
Papa Pio X, Vaticano, 1906.

Esta ideia de uma formação unitária ligando as forças da resistência ao capitalismo, vem de longe. Fala-se um pouco no assunto, logo surgem os doutos demolidores e a tese volta a esquecer. Porém, tempos passados sobre o silenciar das primeiras vozes, eis que o tema regressa pela mão de novos observadores católicos, comunistas ou aparentemente surgidos de lado nenhum. Esta recorrência é opção alternativa sempre fundamentada nos factos da vida real. Tanto basta para que a História cedo ou tarde a imponha a um grande debate.
Um outro aspecto determinante de uma futura correcção inevitável de atitudes e posições, é a natureza de classe das lutas que por todo o mundo se travam e assumem aparências distintas mas convergentes. Pouco importa que as disputas sejam em torno do petróleo, dos pontos estratégicos ou do ouro. Elas são invariavelmente um reflexo da forma injusta como se organizam e relacionam as sociedades humanas.
A degradação dos valores, por exemplo, tem as suas raízes nas estruturas que formam a base das sociedades que o homem edificou. Assim, é apenas o homem que através de uma luta – dura, prolongada mas vitoriosa- corrigirá os seus próprios erros, castigará os crimes cometidos e estabelecerá uma nova sociedade unitária onde direitos e deveres sejam comuns a todos os seres humanos. No plano político, o homem constituirá a medida de todas as coisas”. Quanto ao resto, ao preenchimento do seu espaço e do seu tempo, gozará de inteira liberdade.
Esta é a perspectiva e o projecto comunista, com os pés cada vez mais assentes na terra e a ideologia sempre mais firme e sempre mais solta para a unidade com os cidadãos honestos de todo o mundo. O próprio Lénine reconhecia que esta ambição de uma sociedade nova é tão desmedida que os comunistas jamais lhe poderão dar corpo sem o concurso dos homens e mulheres não-comunistas.
Insistir nestas imagens não é acto simplesmente gratuito. O pensamento comunista associa inseparavelmente o projecto e a acção ou o fenómeno e a essência.
A acção assenta na experiência concreta e gera, como reflexos, projectos novos. É esta a origem das posições políticas dos comunistas que se recusam a penetrar nesse mar de lama em que mergulham os capitalistas não só portugueses mas do mundo inteiro.
Católicos de hoje, de amanhã ou de um passado tenebroso ?
Vamos citar, de passagem, um problema sério da Igreja católica mas não insistiremos no assunto. É ao povo católico que cumpre enfrentá-lo e resolvê-lo.
Referimo-nos à imagem multiforme da Igreja católica, não apenas em Portugal mas em todo o mundo. Há uma igreja para os ricos e uma igreja para os pobres. Uma igreja progressista (ou melhor, aberta ao progresso) e uma igreja fundamentalista (que assume as posições de Pio X – ver citação no alto da página). Há a igreja voluntária e não-lucrativa e a igreja multimilionária dos offshores, das operações bolsistas, das imobiliárias, do negócio das fundações, etc. Há as igrejas da denúncia, do silêncio, do ópio do povo, da cruzada, da caridade, do milagre, das ciência e do conhecimento, etc., etc. Ou seja, para todas as ocasiões há uma igreja disponível. Os católicos verão o que lhes será possível fazer para tornar credível o Vaticano aos olhos do povo português.
Por ora, é esta a situação real. Com graves prejuízos para os mais pobres entre os quais se contam milhões de crentes e de cidadãos que ainda vivem nas franjas da fé. Se a realidade de hoje é tão tenebrosa como a de ontem o foi, a hierarquia da Igreja há-de convir que no século XXI é mais difícil ocultar do povo os números, os nomes e as cifras que geram a denúncia, a revolta e a indignação.
Ao falarmos destas coisas não perdemos de vista que o nosso objectivo é promovermos a aproximação e a unidade de acção entre comunistas e católicos, pelo menos em certas áreas do campo operacional. Fica para um próximo espaço no Avante!.


Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Uma história das Mil e uma noites

«A miséria religiosa é, por um lado, a expressão da miséria real e, por outro lado, o protesto contra a miséria real. A religião não é só o suspiro da criatura oprimida ou o coração de um mundo sem coração. Ela é também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo»
K. Marx - «A Sagrada Família».

Enquanto aguardamos que passem os dias que nos separam de 5 de Junho, data em que iremos votar, aproveitemos para recordar uma novela vivida há cem anos, por alturas da Proclamação da República.
Andava-se por volta de 1910, nas vésperas da «Revolução de Outubro». O regime monárquico estava de rastos, após o descalabro de sucessivos governos, as exigências do ultimato inglês, o grande fosso entre pobres e ricos e o descrédito moral dos partidos do poder. O povo era quase totalmente analfabeto. O estado dependia dos empréstimos estrangeiros.
Um par de anos antes, em 1908, dois «suicidas», membros da Carbonária (uma sociedade secreta) tinham morto o rei e o príncipe herdeiro. O governo era chefiado por um político duro, demagogo e incapaz: João Franco. Perante um país em destroços e um regime moribundo, a Igreja benzia-se e os padres limitavam-se a clamar dos púlpitos ao povo devoto: «Orai por El-Rei e pelo Príncipe!». Fingiam nada saber acerca da fome nos campos, dos salários de miséria e das «levas» de soldados, marinheiros, operários e camponeses que ousavam gritar a sua revolta contra as injustiças.

A ruptura de 5 de Outubro de 1910

A Igreja era grande beneficiária das políticas do Estado. Detinha a posse de enormes latifúndios, de tesouros alimentados pelos fluxos financeiros vindos das colónias onde predominava o trabalho escravo. A monarquia garantia-lhe o monopólio de sectores vitais da sociedade como, por exemplo, os do Ensino, da Caridade e Assistência Social e da Cultura. Os favores do trono e o Erário Régio permitiam-lhe explorar os lucros de empresas comerciais e financeiras, de milhares de templos e de instalações assistenciais, de confrarias, de enormes conventos que eram centros da vida regional, etc. A tudo a legislação em vigor servia de cobertura.
Em 1911, com a I República, deu-se finalmente uma ruptura formal: a «Lei da Separação do Estado e das Igrejas». O Estado passava a ser laico e a Igreja juridicamente responsável pelos seus actos.
O Clero acusou o toque mas o aparelho católico reorganizou-se em segredo. A influência da Igreja passou a fazer-se nos corredores do Parlamento, nos centros de cavaqueira, no aconchego dos gabinetes e nos partidos onde era suposto gerar-se a vida democrática. Como cogumelos, surgiram novas instituições confessionais, tais como o Centro Católico, as associações católicas, o CADC, o Apostolado da Oração e muitas mais. Todas elas estiveram, depois, envolvidas na degradação da vida dos partidos, na constituição de governos de «União Sagrada» (que viriam a constituir referência para a «União Nacional»), nos golpes militares que levaram ao poder Sidónio Pais e Oliveira Salazar, etc.
A «Lei de Separação do Estado e das Igrejas» nunca chegou a ser totalmente respeitada pelo poder. Mais tarde, com o fascismo (1926) tudo voltou à forma inicial de sujeição ao Vaticano. Neste aspecto, a leitura da Concordata de 1940 é, na verdade, elucidativa. A Concordata é um «golpe de Estado» dentro de um Estado golpista.
Mas importa concluir.
Em termos comparativos, são evidentes as semelhanças que existem entre o que de mais importante se passou, antes e depois do «5 de Outubro», e o que está agora em curso de desenvolvimento. A confusão, a degradação pública moral, a falsificação dos valores, a mentira descarada, a estatística falsa, a notícia por encomenda, o desemprego e a miséria como técnicas de formação do lucro, a promoção das guerras regionais como apoios à expansão dos mercados, todas essas imagens se foram libertando e agora pairam sobre nós como uma nuvem negra. Não só em Portugal mas em todo o mundo capitalista. Se Portugal mergulhou no abismo, tudo aponta também para o próximo desabar do capitalismo mundial.
A vitória será das massas trabalhadoras se elas agora se souberem unir e lutar pelos seus direitos e pelas suas propostas para um mundo melhor.
É neste enquadramento que os católicos, como importante minoria do povo português, deveriam repensar os seus deveres de cidadania.
Há entre eles muita gente lúcida e honesta...


Jorge Messias (Jornal Avante)

sábado, 30 de abril de 2011

Portugal: Bruxelles se prépare por la saignée de Lisbonne

Pierre Lévy revient sur l'épisode de la faillite portugaise : début avril, le Premier ministre Socrates a demandé l'aide de l'Union Européenne, le pays ne parvenant plus à rembourser sa dette publique. Le pays est depuis passé, après la Grèce et l'Irlande, sous la tutelle du FMI et de l'Union Européenne, dans l'attente d'un plan drastique de réduction des dépenses

« Et de trois… » : le commentaire est revenu en boucle dans la presse européenne, mi-ironique, mi-inquiète. Le 6 avril, le premier ministre portugais, le socialiste José Socrates, s’est en effet résolu à demander l’« aide » de l’Union européenne, après avoir affirmé des mois durant que son pays ferait face par lui-même aux échéances de remboursement de sa dette publique – 16 milliards cette année, dont une échéance critique en juin.Lisbonne suit ainsi Athènes (avril 2010), puis Dublin (novembre 2010). A chaque fois, le scénario se déroule de manière analogue : les dirigeants nationaux refusent farouchement l’hypothèse d’un renflouement, avant de finalement céder sous la pression conjuguée des marchés financiers, et de « partenaires » européens inquiets de l’incendie qui se propage.Au Portugal, la situation est d’autant plus délicate qu’elle se double d’une crise politique. Le 23 mars, le quatrième plan d’austérité s’est heurté au refus du parlement. L’opposition de droite, qui avait soutenu les paquets précédents, a cette fois fait défaut au chef du gouvernement qui ne dispose pas d’une majorité stable. Il a été contraint de présenter sa démission. La chambre est dissoute. Des élections sont prévues pour le 5 juin.En principe, un gouvernement démissionnaire n’est plus juridiquement en mesure de placer le pays sous perfusion extérieure, ni, surtout, de s’engager sur les contreparties drastiques exigées en échange. A fortiori, un parlement dissous n’est nullement légitime pour voter celles-ci. José Socrates a donc tenté de demander des prêts-relais de court terme. Pas question, a tranché l’Allemagne : Lisbonne doit s’engager maintenant sur un plan de restrictions et d’« assainissement » à moyen terme.Interviewé par le site spécialisé Euobserver, un porte-parole de la Commission balaie les objections légales : « La légitimité démocratique ? Ce n’est pas nécessaire (…) On ne peut simplement plus se permettre d’attendre. » Amadeu Altafaj précise même que le plan d’austérité à négocier avec Bruxelles sera « contraignant » pour le futur gouvernement, qui ne pourra pas en changer les termes. Et pour que tout soit clair, le porte-parole martèle : « Ce n’est plus leur programme, c’est le nôtre ».Dès le 12 avril, les experts de la Commission européenne, de la BCE, ainsi que du FMI (toujours associé au « redressement » des pays en difficulté) se sont donc rendus à Lisbonne. Ils viennent d’y revenir. C’est que le temps presse : les ministres européens des Finances se réunissent le 16 mai. Le commissaire européen aux Affaires économiques, le Finlandais Olli Rehn, voudrait que l’essentiel soit bouclé d’ici là.Et afin de s’assurer que le programme sera appliqué quel que soit le vote des électeurs, Bruxelles prévoit de négocier tant avec le premier ministre sortant qu’avec l’opposition – sauf naturellement avec celle qui refuse le principe de l’austérité (essentiellement le Parti communiste).M. Rehn précise que le paquet global devra prendre pour « point de départ » le programme d’austérité initialement présenté par M. Socrates, « mais nous avons noté qu’il a été refusé par le Parlement ; le plan ne pourra donc être identique ». Et le Commissaire de conclure… que le paquet « devra être plus dur et plus complet ».

Pour accorder un renflouement à hauteur de 80 milliards, Bruxelles annonce déjà son intention de mettre sur pied un plan sur trois ans comportant des coupes budgétaires et sociales drastiques, un « programme de privatisation ambitieux », et des mesures sauvegardant la liquidité du système bancaire. Les « conditionnalités strictes » exigées par l’UE et le FMI incluent classiquement la baisse du salaire minimum, la diminution des allocations chômage et prestations sociales, et l’« assouplissement » du marché du travail, notamment à travers la simplification des licenciements.Les Portugais ont gardé un souvenir cuisant des saignées opérées par le FMI en 1978 et en 1983. D’ores et déjà, les mobilisations syndicales se préparent. Le secteur public, en particulier, devrait être en grève le 6 mai prochain.

Pierre Lévy (La Marianne)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Romper ou não romper, eis a qestão

«A via das reformas democrático-burguesas é um percurso de dilações, de adiamentos, de agonias dolorosas do organismo popular. Os que mais sofrem com esta putrefacção são o proletariado e o campesinato... De outra forma, seria mais fácil aos operários “mudarem as espingardas de um ombro para o outro”, isto é, dirigirem contra a burguesia a arma que a própria burguesia lhes fornece, a liberdade que esta lhes possa conceder, as instituições democráticas que forem surgindo nos terrenos limpos de regimes de servidão. Portanto, para o proletariado é mais vantajoso que as transformações se produzam por via revolucionária... As partes apodrecidas são eliminadas directamente...
Mas o marxismo (também) ensina o proletariado a não ficar à margem da revolução burguesa, a não lhe ser indiferente, a participar nos seus desenvolvimentos da forma mais enérgica, a lutar pela satisfação das suas reivindicações imediatas e pela instalação de condições que tornem possível preparar as forças revolucionárias para a vitória final. (Porque) há “democracias burguesas” e “democracias burguesas”».
V.I. Lenine, «Duas tácticas da social-democracia na revolução democrática».

Para o nosso povo, nesta fase dramática da sua história, a distinção marxista da lógica da história tem especial interesse.
Primeiro, foi a afirmação do «25 de Abril», com a devolução ao povo dos direitos, liberdades e garantias que o fascismo lhe negara. A intenção central não era ainda banir do Estado o capitalismo mas transformar as instituições através de legislação democrática que fosse o garante das liberdades básicas. O 25 de Abril venceu graças ao apoio popular. Mas manteve, a nível do poder, as suas raízes burguesas. Foi a sua fase de plena afirmação. Este período durou ano e meio.
Com o 25 de Novembro de 1975 (também militar e burguês mas fortemente capitalista), os argentários recuperaram parte das posições perdidas com a queda do fascismo e com o avanço do esboço de uma sociedade nova. Privatizaram, reprivatizaram, tolheram o passo aos trabalhadores. Fizeram cegos pactos entre os poderes públicos e o grande capital. Foi o início do que continua a ser, por enquanto, a era da «ditadura do capital», o espaço da negação da afirmação democrática.
Importa, entretanto, observar que o percurso desta reocupação senhorial não foi total e ficou pontilhado por desaires ocasionais e por recuos estratégicos impostos pelas classes dominadas. Irá chegar o dia em que se verá como tudo isso foi importante e marcou a caminhada para uma ruptura política inevitável. Muitas das conquistas revolucionárias – no plano laboral, na Segurança Social, na economia, na saúde, etc. – sobreviveram na prática diária dos trabalhadores e nos textos da Constituição de Abril. A etapa da retoma política e financeira em Portugal não foi para os banqueiros uma marcha triunfal, tal como alguns esperavam. E aproxima-se agora a «hora da verdade» quando, frontalmente, os democratas se levantarem em defesa das conquistas e valores da República. A primeira barricada a erguer é já em 5 de Junho, com o nosso voto nas urnas.

Os sonhos maus dos encapuzados

Entre escândalos e revelações, a hierarquia religiosa bem poderá tentar as técnicas do silêncio e da abstenção mas não escapará à denúncia pública dos seus ambiciosos projectos de expansão. Os tempos que actualmente passam são particularmente propícios a esse esclarecimento.
O capitalismo mundial está em crise. Bispos e encapuzados são tentáculos do gigantesco polvo dos banqueiros. E as cúpulas católicas representam pilares do sistema capitalista. Não apenas por o apregoarem dos púlpitos que ocupam. A hierarquia pratica também o capitalismo mais «selvagem», totalmente despido de qualquer escrúpulo ético. Gere em todo o mundo centenas de «paraísos fiscais» onde a única palavra de ordem é não olhar a meios para atingir um só objectivo: enriquecer. Usa as suas universidades como uma extensão do governo capitalista mundial. Constrói impérios financeiros a partir de uma malha impressionante de trusts bancários cujas estratégias e financiamentos obedecem às directrizes do Vaticano. É parte interessada no saque dos pobres.
Quando lhe falam em ruptura, o encapuzado todo se arrepia. Recorda: «As hierarquias têm origem divina, os homens nasceram para sofrer e é preciso saber perdoar».
Discurso que já só engana aqueles que procuram ser enganados.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Disparemos as armas do nosso arsenal


«A Moral tem sido sempre uma moral de classe… e vemos que na sociedade burguesa actual os homens vivem dominados pela ética das condições económicas por eles próprios criadas. Isto é a base efectiva da religião que não pode, entretanto, impedir as crises, nem salvaguardar cada capitalista das perdas, das dívidas e da bancarrota, nem imunizar os operários das consequências da paralisação do trabalho e da miséria... Para isso é preciso, antes de tudo, uma Revolução Social!» – Marx, Engels, «Anti-Duhring».

O governo português de Sócrates (ou, mais exactamente, um caricato agrupamento servil) acaba de anunciar que, contra os ventos e marés da clara vontade popular, decidiu estender a mão à caridade dos banqueiros mundiais. Nenhum português parece ter ficado surpreendido. Tal como seria de esperar, terminou em farsa a encenação da nova versão do orgulhosamente sós repescada da propaganda fascista. A verdade veio à tona de água.
O drama que a partir de aqui se vai desenrolar nos palcos nacionais é o da miséria e do sofrimento de milhões de seres humanos. Pedir biliões emprestados é fácil. Nada custa a quem pede. E, também, que dificuldade moral poderá ter qualquer grande senhor de negócios ao calcar aos pés os vermes e os parasitas que para ele são os trabalhadores? Absolutamente nenhuma! – escarnecem os patrões…
Isto, porém, com uma reserva que religiosamente deve ser respeitada pelo Estado, pelo patronato e pela Igreja, até ao próximo dia 6 de Junho, quando forem divulgados os resultados oficiais das eleições. Até lá políticos, sacerdotes e tecnocratas apenas abordarão em termos gerais as causas e consequências da crise, bem como os efeitos previsíveis das medidas a impor. Dirão, por exemplo, que as crises não são só de agora, que a crise não é só nossa, que os culpados da crise somos todos nós, etc. E terão o bom gosto de não virem confessar, preto no branco, que é preciso esticar a corda ainda mais à direita, tratar a democracia e a Constituição como peças de museu e entregar todo o poder a um governo cada vez mais autoritário e omnipotente.
Irresistivelmente, a memória fala-nos de outros tempos. Porque, se tudo correr bem na óptica da direita, outro galo cantará depois do dia 6. Os banqueiros «ajustarão» contas com o povo. Os patrões «corrigirão» brutalmente os excessos proletários da legislação laboral e as dissipações irrealistas das tabelas salariais. O Estado continuará a albergar ladrões e a roubar dinheiro aos pobres e aos velhos, bem como o futuro às novas gerações. Finalmente, as hierarquias religiosas e a sua invisível «teia de ocupação» verão as suas redes enormemente ampliadas, quer em termos financeiros, quer no âmbito da sua esfera de poder oficial. Os serviços sociais do Estado cair-lhes-ão nas mãos. As instituições sem fins lucrativos conquistarão os mercados. Importantíssimas verbas orçamentais transitarão da gestão do Estado para o controlo da Igreja. O púlpito, uma verdadeira «bolsa da palavra», retomará a sua anterior hegemonia e conceitos como solidariedade e globalização capitalista da solidariedade, comunidade e aldeia global, caridade filantrópica, desenvolvimento, justiça social, etc., regressarão à condição antiga de atributos de Deus e da Igreja, o que não é «pouco, muito pouco ou nada». É tudo, em termos de hegemonia cultural.
Seria o fim da estrada, se o povo português cruzasse os braços. Mas, de certeza, que assim não será! …

Ginástica verbal não resolve tragédias

Em sentido figurado, é tempo de «carregarmos as armas do nosso arsenal». Basta de conversa e boa educação. Denunciemos os bandidos onde quer que eles se acoitem. Quer estejam no «ninho das águias», na «caverna dos ladrões» ou na «arca da Aliança».
Estão em Lisboa os «olhos e ouvidos do rei», Sua Majestade o Capitalismo. Vêm fingir que controlam os seus regedores locais e que são capazes de dialogar. Pura farsa. O que já decidiram está decidido. Ao povo, àqueles que «nada têm a perder a não ser as suas algemas» é que cumpre fazer ouvir a sua voz.
Ao povo católico português importa enviar-se exactamente a mesma mensagem mas circunscrita ao governo da Igreja onde, por pleno direito, os católicos se situam. Toda a estrutura eclesiástica mundial está comprometida nos esquemas de exploração capitalistas. É preciso romper esse circuito infernal. Importa falar-se claro e com simplicidade, recusando seculares «paleios de sacristia».
É imprescindível lutar!




Jorge Messias (Jornal Avante)