O compasso de espera De Jorge Messias (Jornal Avante)
Como é habitual quando as coisas aquecem a Igreja recolhe-se em oração cumprindo o sábio princípio «o silêncio é de oiro». Perante um panorama social de catástrofe, com a espiral do desemprego e da fome a crescer irresistivelmente, nem mesmo assim sobe dos púlpitos o simples balbuciar de um apagado protesto em defesa dos direitos do povo e dos trabalhadores. No plano ético, cuja condução a Igreja tanto reclama, a mudez dos sacerdotes é também confrangedora. Entretanto, no dia a dia desta sociedade capitalista os escândalos sucedem-se a uma cadência alucinante. A Igreja «pára, escuta e olha», como nas passagens de nível... O voto de mudez do clero mantém-se rigidamente, mesmo quando as famílias recebem o «golpe de misericórdia» do imparável desemprego e, no lado oposto, os bancos têm lucros de 40 milhões por dia!...
Em números redondos e segundo estatísticas oficiais do Patriarcado, há em Portugal um corpo sacerdotal de cerca de 4000 padres, entre clero regular e clero religioso. Pois todos eles se calam perante um estado de coisas que a qualquer cidadão repugna. Esta mudez é gritante. Prova que na Igreja, em vez da «liberdade de expressão» que o Patriarcado apregoa, prevalece a disciplina e a mão de ferro do alto clero.
É claro que esta estratégia do silêncio tem de ter uma explicação. E a explicação mais simples e mais directa é esta: A presente situação política do país é tensa e instável. Ninguém sabe dizer o que virá a seguir. Portanto, o mais prudente é calar e recorrer a um compasso de espera. Porém, a mudez dos bispos não significa inércia. Pelo contrário, nos bastidores a sua actividade é intensa. Porque a Igreja tem de fazer, agora, uma escolha certeira do poder político a que se vai aliar. Logo, prefere não se arriscar.
Relações amor/ódio
Naturalmente que há, por outro lado, importantes interesses económicos que a Igreja tem que resguardar. Por exemplo, as contra-partidas pagas pelo Estado às instituições católicas somam, anualmente, para cima de 90 milhões de euros em subsídios. Instituições essas que já recebem dotações anuais do Orçamento do Estado, de mais de 1000 milhões de euros ...
É evidente que os interesses económicos são importante mas os imperativos do prestígio e do poder da Igreja vêm em primeiro lugar. Assim, o desfiar do rosário do processo «Face oculta» acaba por chamar as atenções para o modo como, perante certas situações, o comportamento do clero católico pode ser, simultaneamente, flexível e inflexível, em questões de prestígio e de afirmação de poder.
Lembremos que, nesta fase que se vive em Portugal, duas instituições há que caminham em sentidos opostos: sobe o prestígio da Maçonaria; desce o prestígio da Igreja. É uma tendência que a hierarquia da Igreja terá de travar. Usando da retórica e da criação de uma melhor imagem. É um dado que ressalta do que se vai sabendo sobre as investigações da chamada «Face oculta». Há forças diversas em presença mas duas delas são as principais: a Maçonaria e a Igreja. Ambas perseguem os mesmos fins, o que as torna naturalmente rivais.
Nos cenários do plano que está a ser investigado, de controlo da comunicação social, abundam nomes de personalidades católicas ligadas, sobretudo, ao Opus Dei.
Mas não menor será o contingente da Maçonaria. Por exemplo, no lóbi principal de toda a intriga – a Ongoing Strategy Investments, holding da família Rocha Santos – a
táctica e a estratégia são conduzidas pelo seu presidente, o banqueiro Nuno Vasconcellos que, simultaneamente, desempenha as funções de Mestre Venerável da Loja Mozart, considerada o núcleo mais rico da Maçonaria Regular Portuguesa, bem como aquele que forma e representa as elites mais sofisticadas da Grande Loja. Depois, citam-se os nomes de personalidades altamente colocadas na sociedade civil.
A Igreja católica que historicamente se tem mostrado inflexível para com a Maçonaria conhece esta relação de forças no processo em curso. Sabe que não há espaço para duas lideranças. Mas como são gigantescos os interesses em jogo, cala-se e consente. Tudo leva a crer que possamos assistir em breve à formação, na área da comunicação social, de uma espécie de «bloco central gnóstico» o que, a acontecer, fará soçobrar toda a «liberdade de expressão», chavão que agora se usa a torto e a direito.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Pinhadouro, Baião. 25.02.2010 16:24
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Grandes figurões...e grupo de "Otários" silencioso
Grandes figurões...e grupo de "Otários" silenciosos - IMPORTANTE DIVULGAR NÃO HÁ PALAVRAS...!!!! Vamos "acompanhar" a GRECIA? Numa pequena notícia do Expresso,foi noticiado que prescreveu uma dívida de 700.000,00 Euros , de IRS de António Carrapatoso, figura de proa da Telecel/Vodafone. Porque razão prescreveu esta dívida? Porque razão não se procedeu à cobrança coerciva, dado que o contribuinte em causa não tem, nem nunca teve, paradeiro desconhecido? Aliás, António Carrapatoso nunca deixou de aparecer, com alguma frequência, nos écrans da televisão para entrevistas e comentários, onde sempre defendeu as virtudes do "sistema" em que vivemos e que nos é imposto (pudera!!!!). Esta dívida não pode prescrever porque se trata de dinheiro devido ao Estado, ou seja a TODOS NÓS. No dia 14 de Janeiro de 2005, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, durante um Encontro dos Correios de Portugal, os CTT pagaram 19.000,00 euros a Luís Felipe Scolari por uma palestra de 45 minutos, que teve como tema algo do tipo «Como fortalecer o espírito de grupo». A decoração custou mais de 430.000,00 euros e havia dois carros de luxo. A despesa efectivamente, com a decoração do gabinete do presidente do Conselho da Administração dos CTT, Carlos Horta e Costa, bem como a sua sala de visitas e ainda das salas de visitas e refeições custou 430.691,00 euros. Carlos Horta e Costa teve à sua disposição, um Jaguar S Type (a renda para o adquirir custou cerca de 50.758,00 euros) e um Mercedes Benz S320CDI comprado por 84.000,00 euros ). Assim, o Relatório da Inspecção-Geral das Obras Públicas conclui haver «indícios de má gestão» e «falta de contenção de uma empresa que gere dinheiros públicos», pelo anterior Conselho de Administração que liderou os CTT. Vítor Constâncio governador do Banco de Portugal ganha 272.628,00 € por ano, ou seja mais de 3 900 contos MENSAIS, 14 meses/ano. Outros ordenados chorudos do Banco de Portugal : O Vice-governador, António Pereira Marta - 244.174,00 €/ano O Vice-governador, José Martins de Matos - 237.198,00 €/ano José Silveira Godinho - 273.700,00 €/ano Vítor Rodrigues Pessoa - 276.983,00 €/ano Manuel Ramos Sebastião - 227.233 €/ano O Vice-governador, António Pereira Marta até acumula com o seu salário com a sua pensão como reformado ... do Banco de Portugal. Aliás, o Vítor Rodrigues Pessoa, também tem uma reforma adicional de 39.101,00 €/ano Total 316.084 €/ano e o José Silveira Godinho também acumula com uma pensão do BP, mais 139.550,00 €/ano Total 413.250,00 €/ano Campos e Cunha, ex-ministro das Finanças recebeu durante os dois meses em que esteve no Executivo 4.600,00 euros mensais de ordenado e uma reforma de 8.000,00 euros do Banco de Portugal. Mira Amaral saiu da Caixa Geral de Depósitos (CGD) com uma reforma de gestor 18.000,00 euros. Na altura acumulava uma pensão de 1,8 mil euros, como deputado e 16.000,00 euros como líder executivo da CGD. O que me choca não é o valor da reforma. É o facto de Mira Amaral poder auferir desta reforma (paga pelos contribuintes) ao fim de apenas um ano e nove meses!!!!!! Esta situação é profundamente escandalosa e tem repercussões que afectam a própria credibilidade do regime democrático. Esta forma aparentemente ligeira como é gasto o dinheiro dos contribuintes é grave pelo acto em si e pelo seu impacto na legitimidade do Estado para impor novas formas de captar receita. LEMBRAM-SE O QUE O POVO PORTUGUÊS FEZ EM RELAÇÃO A TIMOR?????? E AGORA QUE FAZEMOS POR NÓS??????? NADA!!!!!!!! LEMBRAM-SE O QUE O POVO PORTUGUÊS FAZ QUANDO A SELECÇÃO JOGA????? SE NOS MOBILIZAMOS POR DETERMINADAS CAUSAS, PORQUE NÃO POR NÓS PRÓPRIOS? BANDEIRAS NAS JANELAS, COMO FIZEMOS COM A SELECÇÃO PORTUGUESA, MAS EM VEZ DA BANDEIRA PORTUGUESA, BANDEIRAS NEGRAS E ESCREVER NELAS AS PALAVRAS DE ZECA AFONSO "ELES COMEM TUDO E NÃO DEIXAM NADA" Pelo menos divulga este documento, ou faremos parte de um grupo de "Otários" silenciosos. Depois de apresentar este texto só posso dizer que tenho vergonha de ser português em Portugal. Gostava de viver numa verdadeira Democracia! Todos com o mesmo sistema de saúde; Todos a pagarem impostos; Todos a terem reformas merecidas e justas; Todos com o mesmo sistema de Justiça e não um para os ricos (intocáveis) e outro para os pobres.
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Grandes figurões...e grupo de "Otários" silencioso
Grandes figurões...e grupo de "Otários" silenciosos - IMPORTANTE DIVULGAR NÃO HÁ PALAVRAS...!!!! Vamos "acompanhar" a GRECIA? Numa pequena notícia do Expresso,foi noticiado que prescreveu uma dívida de 700.000,00 Euros , de IRS de António Carrapatoso, figura de proa da Telecel/Vodafone. Porque razão prescreveu esta dívida? Porque razão não se procedeu à cobrança coerciva, dado que o contribuinte em causa não tem, nem nunca teve, paradeiro desconhecido? Aliás, António Carrapatoso nunca deixou de aparecer, com alguma frequência, nos écrans da televisão para entrevistas e comentários, onde sempre defendeu as virtudes do "sistema" em que vivemos e que nos é imposto (pudera!!!!). Esta dívida não pode prescrever porque se trata de dinheiro devido ao Estado, ou seja a TODOS NÓS. No dia 14 de Janeiro de 2005, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, durante um Encontro dos Correios de Portugal, os CTT pagaram 19.000,00 euros a Luís Felipe Scolari por uma palestra de 45 minutos, que teve como tema algo do tipo «Como fortalecer o espírito de grupo». A decoração custou mais de 430.000,00 euros e havia dois carros de luxo. A despesa efectivamente, com a decoração do gabinete do presidente do Conselho da Administração dos CTT, Carlos Horta e Costa, bem como a sua sala de visitas e ainda das salas de visitas e refeições custou 430.691,00 euros. Carlos Horta e Costa teve à sua disposição, um Jaguar S Type (a renda para o adquirir custou cerca de 50.758,00 euros) e um Mercedes Benz S320CDI comprado por 84.000,00 euros ). Assim, o Relatório da Inspecção-Geral das Obras Públicas conclui haver «indícios de má gestão» e «falta de contenção de uma empresa que gere dinheiros públicos», pelo anterior Conselho de Administração que liderou os CTT. Vítor Constâncio governador do Banco de Portugal ganha 272.628,00 € por ano, ou seja mais de 3 900 contos MENSAIS, 14 meses/ano. Outros ordenados chorudos do Banco de Portugal : O Vice-governador, António Pereira Marta - 244.174,00 €/ano O Vice-governador, José Martins de Matos - 237.198,00 €/ano José Silveira Godinho - 273.700,00 €/ano Vítor Rodrigues Pessoa - 276.983,00 €/ano Manuel Ramos Sebastião - 227.233 €/ano O Vice-governador, António Pereira Marta até acumula com o seu salário com a sua pensão como reformado ... do Banco de Portugal. Aliás, o Vítor Rodrigues Pessoa, também tem uma reforma adicional de 39.101,00 €/ano Total 316.084 €/ano e o José Silveira Godinho também acumula com uma pensão do BP, mais 139.550,00 €/ano Total 413.250,00 €/ano Campos e Cunha, ex-ministro das Finanças recebeu durante os dois meses em que esteve no Executivo 4.600,00 euros mensais de ordenado e uma reforma de 8.000,00 euros do Banco de Portugal. Mira Amaral saiu da Caixa Geral de Depósitos (CGD) com uma reforma de gestor 18.000,00 euros. Na altura acumulava uma pensão de 1,8 mil euros, como deputado e 16.000,00 euros como líder executivo da CGD. O que me choca não é o valor da reforma. É o facto de Mira Amaral poder auferir desta reforma (paga pelos contribuintes) ao fim de apenas um ano e nove meses!!!!!! Esta situação é profundamente escandalosa e tem repercussões que afectam a própria credibilidade do regime democrático. Esta forma aparentemente ligeira como é gasto o dinheiro dos contribuintes é grave pelo acto em si e pelo seu impacto na legitimidade do Estado para impor novas formas de captar receita. LEMBRAM-SE O QUE O POVO PORTUGUÊS FEZ EM RELAÇÃO A TIMOR?????? E AGORA QUE FAZEMOS POR NÓS??????? NADA!!!!!!!! LEMBRAM-SE O QUE O POVO PORTUGUÊS FAZ QUANDO A SELECÇÃO JOGA????? SE NOS MOBILIZAMOS POR DETERMINADAS CAUSAS, PORQUE NÃO POR NÓS PRÓPRIOS? BANDEIRAS NAS JANELAS, COMO FIZEMOS COM A SELECÇÃO PORTUGUESA, MAS EM VEZ DA BANDEIRA PORTUGUESA, BANDEIRAS NEGRAS E ESCREVER NELAS AS PALAVRAS DE ZECA AFONSO "ELES COMEM TUDO E NÃO DEIXAM NADA" Pelo menos divulga este documento, ou faremos parte de um grupo de "Otários" silenciosos. Depois de apresentar este texto só posso dizer que tenho vergonha de ser português em Portugal. Gostava de viver numa verdadeira Democracia! Todos com o mesmo sistema de saúde; Todos a pagarem impostos; Todos a terem reformas merecidas e justas; Todos com o mesmo sistema de Justiça e não um para os ricos (intocáveis) e outro para os pobres.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Política e Religião
Os bispos católicos e as políticas europeias
Actualmente, na Europa tudo se contradiz. Os sistemas entram em ruptura, gera-se a incerteza, a angústia e o medo. Por entre o dédalo das corrupções, os governantes desprestigiam-se e mentem para salvar a face. Fragilizada a imagem do Estado laico, a acção política tornou-se estéril, desencarnada, ritual, tal como acontece com as teologias. Abandonadas, as multidões de pobres e de famintos ficam à mercê de uma sopa e de uma vaga esperança. Tudo tende a recordar os tempos medievos do «pendão e caldeiro».
Neste quadro caótico gera-se uma situação ideal para a diplomacia da Igreja.
Onde falha o Estado laico a Igreja ocupa imediatamente o espaço vazio. O Vaticano possui uma longa experiência secular no campo diplomático e conduz, na sombra, os políticos e as nações. Acumulou riquezas opulentas resguardadas por redes financeiras multinacionais e por gigantescos grupos de sociedades anónimas. Estabeleceu no interior das instituições de mais alto nível comunitário (como é o caso da União Europeia) estruturas católicas altamente especializadas e permanentes. Veja-se o caso da COMECE – Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia, com um pé no Vaticano e o outro pé em Bruxelas. Onde as nações se dividem e falham, a Igreja subscreve projectos próprios de intervenção e de reforma das estruturas europeias, definindo novos objectivos que depois são simplesmente adoptados pelos responsáveis comunitários.
Assim se estabelece e avança uma bem pensada estratégia que culminará, pensam o Papa e os bispos, na imperceptível hegemonia católica dos centros de decisão da cidade terrestre. Sempre agindo nos bastidores da UE e invocando os valores da fé cristã como fim a alcançar, a partilha das soberanias como método a adoptar e a política da reconciliação e da paz, da liberdade e da solidariedade como normas comportamentais da Comunidade.
O futuro da UE e a responsabilidade dos católicos
Para que melhor se compreenda a importância que a Santa Sé reconhece à sua presença permanente junto das Comunidades europeias basta recordar que para além da COMECE e das suas comissões sectoriais altamente especializadas, o Vaticano instalou em Bruxelas, a partir de 1990, uma Nunciatura Apostólica junto das Instituição Europeias, dirigida por «um representante diplomático ao mais alto nível», como pode ler-se num documento básico editado pela Comissão dos Episcopados e intitulado «O futuro da União Europeia e a Responsabilidade dos Católicos». Foi redigido por «um grupo de teólogos e filósofos originários de vários países europeus» e contém os princípios básicos de uma urgente reforma dos estatutos da UE. Foi divulgado em 2004, no decurso de um congresso teológico efectuado em Santiago de Compostela. Referem os autores desse documento, a propósito do seu próprio trabalho: «Trata-se de um texto com ambições pedagógicas, que exige um trabalho de grupo ou equipa, no seio de uma paróquia, de um movimento ou de uma universidade». Declaração que se choca com o que se diz no interior do documento, a saber com a seguinte citação: «Os católicos na Europa partilham uma convicção comum: a distinção entre religião e política»... Dois pesos e duas medidas disponíveis em todas as situações. Como se pode ver, o Papa está sempre presente nas decisões de Bruxelas.
Presença que é igualmente nítida entre as individualidades que dirigem os centros de decisão comunitários, quase todos eles católicos praticantes. Este importante aspecto não é novo. Vem dos tempos de Robert Schuman, o «pai da UE» e «bom católico». Reflecte-se nos comportamentos políticos dos homens e das mulheres que conduzem os centros de decisão comunitários onde se encontram muitos portugueses.
O Papa vem a Portugal em Maio, como foi oficialmente anunciado. Mas antes, nos dias 23 a 25 de Fevereiro, irá a Bruxelas (como praticamente não foi noticiado) uma extensa delegação de bispos e de especialistas em áreas sociais (30 pessoas) dirigida por D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal.
Os valores do Estado laico português afundam-se no mais repugnante lodaçal. A Constituição é rasgada em mil pedaços. As áreas sociais são negociáveis e ficam ao alcance de quem mais oferecer. Que irão fazer a Bruxelas os bispos portugueses?
Irão, talvez, às compras ...
Jorge Messias (jornal Avante)
Actualmente, na Europa tudo se contradiz. Os sistemas entram em ruptura, gera-se a incerteza, a angústia e o medo. Por entre o dédalo das corrupções, os governantes desprestigiam-se e mentem para salvar a face. Fragilizada a imagem do Estado laico, a acção política tornou-se estéril, desencarnada, ritual, tal como acontece com as teologias. Abandonadas, as multidões de pobres e de famintos ficam à mercê de uma sopa e de uma vaga esperança. Tudo tende a recordar os tempos medievos do «pendão e caldeiro».
Neste quadro caótico gera-se uma situação ideal para a diplomacia da Igreja.
Onde falha o Estado laico a Igreja ocupa imediatamente o espaço vazio. O Vaticano possui uma longa experiência secular no campo diplomático e conduz, na sombra, os políticos e as nações. Acumulou riquezas opulentas resguardadas por redes financeiras multinacionais e por gigantescos grupos de sociedades anónimas. Estabeleceu no interior das instituições de mais alto nível comunitário (como é o caso da União Europeia) estruturas católicas altamente especializadas e permanentes. Veja-se o caso da COMECE – Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia, com um pé no Vaticano e o outro pé em Bruxelas. Onde as nações se dividem e falham, a Igreja subscreve projectos próprios de intervenção e de reforma das estruturas europeias, definindo novos objectivos que depois são simplesmente adoptados pelos responsáveis comunitários.
Assim se estabelece e avança uma bem pensada estratégia que culminará, pensam o Papa e os bispos, na imperceptível hegemonia católica dos centros de decisão da cidade terrestre. Sempre agindo nos bastidores da UE e invocando os valores da fé cristã como fim a alcançar, a partilha das soberanias como método a adoptar e a política da reconciliação e da paz, da liberdade e da solidariedade como normas comportamentais da Comunidade.
O futuro da UE e a responsabilidade dos católicos
Para que melhor se compreenda a importância que a Santa Sé reconhece à sua presença permanente junto das Comunidades europeias basta recordar que para além da COMECE e das suas comissões sectoriais altamente especializadas, o Vaticano instalou em Bruxelas, a partir de 1990, uma Nunciatura Apostólica junto das Instituição Europeias, dirigida por «um representante diplomático ao mais alto nível», como pode ler-se num documento básico editado pela Comissão dos Episcopados e intitulado «O futuro da União Europeia e a Responsabilidade dos Católicos». Foi redigido por «um grupo de teólogos e filósofos originários de vários países europeus» e contém os princípios básicos de uma urgente reforma dos estatutos da UE. Foi divulgado em 2004, no decurso de um congresso teológico efectuado em Santiago de Compostela. Referem os autores desse documento, a propósito do seu próprio trabalho: «Trata-se de um texto com ambições pedagógicas, que exige um trabalho de grupo ou equipa, no seio de uma paróquia, de um movimento ou de uma universidade». Declaração que se choca com o que se diz no interior do documento, a saber com a seguinte citação: «Os católicos na Europa partilham uma convicção comum: a distinção entre religião e política»... Dois pesos e duas medidas disponíveis em todas as situações. Como se pode ver, o Papa está sempre presente nas decisões de Bruxelas.
Presença que é igualmente nítida entre as individualidades que dirigem os centros de decisão comunitários, quase todos eles católicos praticantes. Este importante aspecto não é novo. Vem dos tempos de Robert Schuman, o «pai da UE» e «bom católico». Reflecte-se nos comportamentos políticos dos homens e das mulheres que conduzem os centros de decisão comunitários onde se encontram muitos portugueses.
O Papa vem a Portugal em Maio, como foi oficialmente anunciado. Mas antes, nos dias 23 a 25 de Fevereiro, irá a Bruxelas (como praticamente não foi noticiado) uma extensa delegação de bispos e de especialistas em áreas sociais (30 pessoas) dirigida por D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal.
Os valores do Estado laico português afundam-se no mais repugnante lodaçal. A Constituição é rasgada em mil pedaços. As áreas sociais são negociáveis e ficam ao alcance de quem mais oferecer. Que irão fazer a Bruxelas os bispos portugueses?
Irão, talvez, às compras ...
Jorge Messias (jornal Avante)
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
A Geração de Tecnocratas e Políticos que nos Governam
É raro o dia,depois de algum tempo, e que já é longo, que ao ler os jornais, ouvir a rádio ou ver a televisão, que a nossa atenção não seja tomada pelos casos de corrupção que vão florindo neste jardim à beira mar plantado e que dá pelo nome: Portugal.
Seja nos negócios ou na política, esta geração fecundada e educada nos gabinetes dos partidos do centro-direita (aqui incluo o Partido Socialista) fornece os artesãos de todas as escróquerias que nos últimos tempos têm flagelado o país.
Eles ocupam altos cargos nas empresas publicas e privadas, são administradores de bancos e ao mesmo tempo Conselheiros de Estado, eles passam de administradores de empresas a membros do governo e vice-versa como se o país seja propriedade de suas excelências.
Tudo isto não é obra do acaso, mas o fruto das sementes lançadas ao longo dos anos depois do 11 de Novembro de 1976. Direi, mesmo antes, porque muitos dos nossos democrátas nunca se deram muito bem com o 25 de Abril e os meses que se seguiram.
Não sei se alguns dadores de lições dormem muito bem, pois são responsáveis do muito que hoje se passa. Só podemos lamentar que a idade de alguns seja um pouco avançada para poderem prestar contas ao povo, que sem escrúpulos, traíram.
Compete à Justiça tomar medidas e deixar de ser cúmplice, e muitas vezes conivente. Ao Povo que trabalha e sofre devem-lhe ser dados outros horizontes. Há que pôr no lugar certo muitos dos que ocupam altos cargos nos ministérios e administrações.
Portugal e o seu Povo merecem outra sorte.
Quelha Funda
Seja nos negócios ou na política, esta geração fecundada e educada nos gabinetes dos partidos do centro-direita (aqui incluo o Partido Socialista) fornece os artesãos de todas as escróquerias que nos últimos tempos têm flagelado o país.
Eles ocupam altos cargos nas empresas publicas e privadas, são administradores de bancos e ao mesmo tempo Conselheiros de Estado, eles passam de administradores de empresas a membros do governo e vice-versa como se o país seja propriedade de suas excelências.
Tudo isto não é obra do acaso, mas o fruto das sementes lançadas ao longo dos anos depois do 11 de Novembro de 1976. Direi, mesmo antes, porque muitos dos nossos democrátas nunca se deram muito bem com o 25 de Abril e os meses que se seguiram.
Não sei se alguns dadores de lições dormem muito bem, pois são responsáveis do muito que hoje se passa. Só podemos lamentar que a idade de alguns seja um pouco avançada para poderem prestar contas ao povo, que sem escrúpulos, traíram.
Compete à Justiça tomar medidas e deixar de ser cúmplice, e muitas vezes conivente. Ao Povo que trabalha e sofre devem-lhe ser dados outros horizontes. Há que pôr no lugar certo muitos dos que ocupam altos cargos nos ministérios e administrações.
Portugal e o seu Povo merecem outra sorte.
Quelha Funda
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Filosofia De Politzer
QUE SIGNIFICA SER MATERIALISTA?
I. — União da teoria e da prática.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
III. — Como se é materialista na prática?
a) Primeiro aspecto da questão.
b) Segundo aspecto da questão.
IV. — Conclusão.
I. — União da teoria e da prática.
O estudo que prosseguimos tem por fim fazer conhecer o que é o marxismo, ver como a filosofia do
materialismo, tornando-se dialéctica, se identifica com o marxismo. Sabemos já que um dos fundamentos
desta filosofia é a estreita ligação entre a teoria e a prática.
É por isso que, depois de ter visto o que é a matéria para os materialistas, em seguida, como ela é, é
indispensável dizer, após estas duas questões teóricas, o que significa ser materialista, isto é, como age o
materialista. É o lado prático destes problemas.
A base do materialismo é o reconhecimento do ser como origem do pensamento. Mas basta repetir isso
continuamente? Para ser um verdadeiro adepto do materialismo consequente, é preciso sê-lo:
1. no domínio do pensamento;
2. no domínio da acção.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
Ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento é, conhecendo a fórmula fundamental do
materialismo - o ser produz o pensamento -, saber como se pode aplicar essa fórmula.
Quando dizemos: o ser produz o pensamento, temos uma fórmula abstracta, porque as palavras: ser e
pensamento são abstractas. O «ser», é do ser em geral que se trata; o «pensamento», é do pensamento em
geral que se quer falar. O ser, assim como o pensamento em geral, é uma realidade subjectiva (ver primeira
parte, capítulo IV, a explicação de «realidade subjectiva» e de «realidade objectiva»); isso não existe: é o que
se chama uma abstracção. Dizer: o «ser produz o pensamento» é, pois, uma fórmula abstracta, porque
composta de abstracções.
Assim, por exemplo: conhecemos bem os cavalos, mas se falamos do cavalo, é do cavalo em geral que
queremos falar; pois bem, o cavalo em geral é uma abstracção.
Se pomos, no lugar do cavalo, o homem ou o ser em geral, são ainda abstracções.
Mas se o cavalo em geral não existe, que é que existe? São os cavalos em particular. O veterinário que
dissesse: «Trato do cavalo em geral, mas não do cavalo em particular» seria ridículo; tal como o médico
que mantivesse os mesmos propósitos acerca dos homens.
O ser em geral não existe, portanto; o que existe são seres particulares, que têm qualidades próprias.
Acontece o mesmo com o pensamento.
Diremos, pois, que o ser em geral é qualquer coisa de abstracto e que o ser particular é qualquer coisa de
concreto; assim como o pensamento em geral e o pensamento particular
I. — União da teoria e da prática.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
III. — Como se é materialista na prática?
a) Primeiro aspecto da questão.
b) Segundo aspecto da questão.
IV. — Conclusão.
I. — União da teoria e da prática.
O estudo que prosseguimos tem por fim fazer conhecer o que é o marxismo, ver como a filosofia do
materialismo, tornando-se dialéctica, se identifica com o marxismo. Sabemos já que um dos fundamentos
desta filosofia é a estreita ligação entre a teoria e a prática.
É por isso que, depois de ter visto o que é a matéria para os materialistas, em seguida, como ela é, é
indispensável dizer, após estas duas questões teóricas, o que significa ser materialista, isto é, como age o
materialista. É o lado prático destes problemas.
A base do materialismo é o reconhecimento do ser como origem do pensamento. Mas basta repetir isso
continuamente? Para ser um verdadeiro adepto do materialismo consequente, é preciso sê-lo:
1. no domínio do pensamento;
2. no domínio da acção.
II. — Que significa ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento?
Ser adepto do materialismo, no domínio do pensamento é, conhecendo a fórmula fundamental do
materialismo - o ser produz o pensamento -, saber como se pode aplicar essa fórmula.
Quando dizemos: o ser produz o pensamento, temos uma fórmula abstracta, porque as palavras: ser e
pensamento são abstractas. O «ser», é do ser em geral que se trata; o «pensamento», é do pensamento em
geral que se quer falar. O ser, assim como o pensamento em geral, é uma realidade subjectiva (ver primeira
parte, capítulo IV, a explicação de «realidade subjectiva» e de «realidade objectiva»); isso não existe: é o que
se chama uma abstracção. Dizer: o «ser produz o pensamento» é, pois, uma fórmula abstracta, porque
composta de abstracções.
Assim, por exemplo: conhecemos bem os cavalos, mas se falamos do cavalo, é do cavalo em geral que
queremos falar; pois bem, o cavalo em geral é uma abstracção.
Se pomos, no lugar do cavalo, o homem ou o ser em geral, são ainda abstracções.
Mas se o cavalo em geral não existe, que é que existe? São os cavalos em particular. O veterinário que
dissesse: «Trato do cavalo em geral, mas não do cavalo em particular» seria ridículo; tal como o médico
que mantivesse os mesmos propósitos acerca dos homens.
O ser em geral não existe, portanto; o que existe são seres particulares, que têm qualidades próprias.
Acontece o mesmo com o pensamento.
Diremos, pois, que o ser em geral é qualquer coisa de abstracto e que o ser particular é qualquer coisa de
concreto; assim como o pensamento em geral e o pensamento particular
O materialista é o que sabe reconhecer, em todas as situações, que sabe concretizar onde está o ser e onde
está o pensamento.
Exemplo: o cérebro e as nossas ideias.
É-nos preciso saber transformar a fórmula geral abstracta numa fórmula concreta. O materialista identificará,
portanto, o cérebro como sendo o ser e as nossas ideias como sendo o pensamento. Raciocinará, dizendo: é o
cérebro (o ser) que produz as nossas ideias (o pensamento). É este um exemplo simples, mas tomemos outro
mais complexo, o da sociedade humana, e vejamos como raciocinará um materialista.
A vida da sociedade compõe-se (por junto) de uma vida económica e de uma outra política. Quais as relações
entre elas?... Qual é o factor primeiro desta fórmula abstracta de que queremos fazer uma concreta?
Para o materialista, o factor primeiro, isto é, o ser, aquele que dá a vida à sociedade, é a vida económica.
O factor segundo, o pensamento que é criado pelo ser, que sem ele não pode viver, é a vida política.
O materialista dirá, pois, que a vida económica explica a vida política, uma vez que esta é um produto
daquela.
Tal constatação, feita aqui sumariamente, é a raiz do que se chama o materialismo histórico, e foi feita, pela
primeira vez, por Marx e Engels.
Eis um outro exemplo mais delicado: o poeta. É certo que numerosos elementos entram em linha de conta
para «explicar» o poeta, mas queremos aqui mostrar um aspecto desta questão.
Dir-se-á, geralmente, que o poeta escreve porque a tal é obrigado pela inspiração. É isso suficiente para
explicar que o poeta escreve isto de preferência àquilo? Não. O poeta tem certos pensamentos na cabeça, mas
é também um ser que vive na sociedade. Veremos que o factor primeiro, o que dá vida própria ao poeta, é a
sociedade, visto que o factor segundo são as ideias que o poeta tem no cérebro. Por consequência, um dos
elementos, o elemento fundamental que «explica» o poeta será a sociedade, isto é, o meio em que vive na
sociedade. (Voltaremos a encontrar o «poeta» quando estudarmos a dialéctica, porque teremos então todos os
elementos para estudar bem este problema.)
Vemos, por estes exemplos, que o materialista é aquele que sabe aplicar em toda a parte e sempre, a cada
momento e em todos os casos, a fórmula do materialismo.
III. — Como se é materialista na prática?
1. Primeiro aspecto da questão .
Vimos que não há terceira filosofia e que, se não se é consequente na aplicação do materialismo, ou se é
idealista, ou se obtém uma mistura de idealismo e materialismo.
O sábio burguês, nos seus estudos e experiências, é sempre materialista. Isso é normal, porque, para fazer
avançar a ciência, é preciso trabalhar na matéria, e se o sábio pensasse verdadeiramente que ela apenas existe
no seu espírito, acharia inútil fazer experiências.
Há, portanto, várias espécies de sábios.
1. Aqueles que são materialistas conscientes e consequentes
2. Os que são materialistas sem o saber: isto é, quase todos, porque é impossível fazer ciência sem admitir a
existência da matéria. Mas, entre estes últimos, é preciso distinguir:
a) Os que começam por seguir o materialismo, mas param, porque não ousam assim dizer-se: sãos
os agnósticos, aqueles a que Engels chama os «materialistas envergonhados».
b) Depois, os sábios materialistas sem o saber e inconsequentes. São materialistas no laboratório,
mas, fora do seu trabalho, são idealistas, crentes, religiosos.
está o pensamento.
Exemplo: o cérebro e as nossas ideias.
É-nos preciso saber transformar a fórmula geral abstracta numa fórmula concreta. O materialista identificará,
portanto, o cérebro como sendo o ser e as nossas ideias como sendo o pensamento. Raciocinará, dizendo: é o
cérebro (o ser) que produz as nossas ideias (o pensamento). É este um exemplo simples, mas tomemos outro
mais complexo, o da sociedade humana, e vejamos como raciocinará um materialista.
A vida da sociedade compõe-se (por junto) de uma vida económica e de uma outra política. Quais as relações
entre elas?... Qual é o factor primeiro desta fórmula abstracta de que queremos fazer uma concreta?
Para o materialista, o factor primeiro, isto é, o ser, aquele que dá a vida à sociedade, é a vida económica.
O factor segundo, o pensamento que é criado pelo ser, que sem ele não pode viver, é a vida política.
O materialista dirá, pois, que a vida económica explica a vida política, uma vez que esta é um produto
daquela.
Tal constatação, feita aqui sumariamente, é a raiz do que se chama o materialismo histórico, e foi feita, pela
primeira vez, por Marx e Engels.
Eis um outro exemplo mais delicado: o poeta. É certo que numerosos elementos entram em linha de conta
para «explicar» o poeta, mas queremos aqui mostrar um aspecto desta questão.
Dir-se-á, geralmente, que o poeta escreve porque a tal é obrigado pela inspiração. É isso suficiente para
explicar que o poeta escreve isto de preferência àquilo? Não. O poeta tem certos pensamentos na cabeça, mas
é também um ser que vive na sociedade. Veremos que o factor primeiro, o que dá vida própria ao poeta, é a
sociedade, visto que o factor segundo são as ideias que o poeta tem no cérebro. Por consequência, um dos
elementos, o elemento fundamental que «explica» o poeta será a sociedade, isto é, o meio em que vive na
sociedade. (Voltaremos a encontrar o «poeta» quando estudarmos a dialéctica, porque teremos então todos os
elementos para estudar bem este problema.)
Vemos, por estes exemplos, que o materialista é aquele que sabe aplicar em toda a parte e sempre, a cada
momento e em todos os casos, a fórmula do materialismo.
III. — Como se é materialista na prática?
1. Primeiro aspecto da questão .
Vimos que não há terceira filosofia e que, se não se é consequente na aplicação do materialismo, ou se é
idealista, ou se obtém uma mistura de idealismo e materialismo.
O sábio burguês, nos seus estudos e experiências, é sempre materialista. Isso é normal, porque, para fazer
avançar a ciência, é preciso trabalhar na matéria, e se o sábio pensasse verdadeiramente que ela apenas existe
no seu espírito, acharia inútil fazer experiências.
Há, portanto, várias espécies de sábios.
1. Aqueles que são materialistas conscientes e consequentes
2. Os que são materialistas sem o saber: isto é, quase todos, porque é impossível fazer ciência sem admitir a
existência da matéria. Mas, entre estes últimos, é preciso distinguir:
a) Os que começam por seguir o materialismo, mas param, porque não ousam assim dizer-se: sãos
os agnósticos, aqueles a que Engels chama os «materialistas envergonhados».
b) Depois, os sábios materialistas sem o saber e inconsequentes. São materialistas no laboratório,
mas, fora do seu trabalho, são idealistas, crentes, religiosos.
2. Segundo aspecto da questão .
O materialismo e a acção: Se é verdade que o verdadeiro materialista é aquele que aplica a fórmula que é a
base desta filosofia, em toda a parte e em todos os casos, deve prestar atenção em aplicá-la bem.
Como acabamos de ver, é preciso ser consequente, e, para ser um materialista consequente, transpor o
materialismo para a acção.
Ser materialista na prática é agir em conformidade com a filosofia, tomando por factor primeiro, e o mais
importante, a realidade, e por segundo, o pensamento.
Vamos ver que atitudes assumem os que, sem hesitar, tomam o pensamento pelo factor primeiro, e são,
portanto, nesse momento, idealistas sem o saber.
1. Como se chama o que vive como se estivesse só no mundo? Individualista. Vive curvado sobre si mesmo;
o mundo exterior só existe para ele. Para ele, o importante é ele, é o seu pensamento. É um puro idealista, ou
o que se chama um solipsista. (Ver explicação desta palavra, primeira parte, cap. II.)
O individualista é egoísta, e ser egoísta não é uma atitude materialista. O egoísta limita o universo à sua
própria pessoa.
2. O que aprende pelo prazer de aprender, como diletante, por ele, assimila bem, não tem dificuldades, mas
guarda isso só para si. Concede uma importância primeira a ele próprio, ao seu pensamento.
O idealista é fechado ao mundo exterior, à realidade. O materialista é sempre aberto à realidade; é por isso
que aqueles que seguem cursos de marxismo, e que aprendem facilmente, devem tentar transmitir o que
aprendem.
3. O que raciocina em todas as coisas relacionando-as consigo mesmo sofre uma deformação idealista.
Dirá, por exemplo, de uma reunião onde foram ditas coisas desagradáveis para ele: «É uma reunião
maldizente». Não é assim que as coisas devem ser analisadas; é preciso julgar a reunião relacionando-a com
a organização, a sua finalidade, e não em relação consigo mesmo.
4. O sectarismo também não é uma atitude materialista. Porque o sectário que compreendeu os problemas, e
está de acordo consigo próprio, pretende que os outros devem ser como ele. É dar ainda a importância
primeira a si ou a uma facção.
5. O doutrinário que estudou os textos, tirou definições, é ainda um idealista quando se contenta em citar
textos materialistas, quando vive somente com os seus textos, porque o mundo real então desaparece. Repete
essas fórmulas sem na realidade as aplicar. Dá a importância primeira aos textos, às ideias. A vida desenrolase
na sua consciência sob a forma de textos, e, em geral, constata-se que o doutrinário é também um sectário.
Crer que a revolução é uma questão de educação, dizer que explicando, «de uma vez para sempre», aos
operários a necessidade da revolução eles devem compreender, e que, se não querem compreender, não vale
a pena tentar fazer a revolução, é sectarismo, não uma atitude materialista.
O materialismo e a acção: Se é verdade que o verdadeiro materialista é aquele que aplica a fórmula que é a
base desta filosofia, em toda a parte e em todos os casos, deve prestar atenção em aplicá-la bem.
Como acabamos de ver, é preciso ser consequente, e, para ser um materialista consequente, transpor o
materialismo para a acção.
Ser materialista na prática é agir em conformidade com a filosofia, tomando por factor primeiro, e o mais
importante, a realidade, e por segundo, o pensamento.
Vamos ver que atitudes assumem os que, sem hesitar, tomam o pensamento pelo factor primeiro, e são,
portanto, nesse momento, idealistas sem o saber.
1. Como se chama o que vive como se estivesse só no mundo? Individualista. Vive curvado sobre si mesmo;
o mundo exterior só existe para ele. Para ele, o importante é ele, é o seu pensamento. É um puro idealista, ou
o que se chama um solipsista. (Ver explicação desta palavra, primeira parte, cap. II.)
O individualista é egoísta, e ser egoísta não é uma atitude materialista. O egoísta limita o universo à sua
própria pessoa.
2. O que aprende pelo prazer de aprender, como diletante, por ele, assimila bem, não tem dificuldades, mas
guarda isso só para si. Concede uma importância primeira a ele próprio, ao seu pensamento.
O idealista é fechado ao mundo exterior, à realidade. O materialista é sempre aberto à realidade; é por isso
que aqueles que seguem cursos de marxismo, e que aprendem facilmente, devem tentar transmitir o que
aprendem.
3. O que raciocina em todas as coisas relacionando-as consigo mesmo sofre uma deformação idealista.
Dirá, por exemplo, de uma reunião onde foram ditas coisas desagradáveis para ele: «É uma reunião
maldizente». Não é assim que as coisas devem ser analisadas; é preciso julgar a reunião relacionando-a com
a organização, a sua finalidade, e não em relação consigo mesmo.
4. O sectarismo também não é uma atitude materialista. Porque o sectário que compreendeu os problemas, e
está de acordo consigo próprio, pretende que os outros devem ser como ele. É dar ainda a importância
primeira a si ou a uma facção.
5. O doutrinário que estudou os textos, tirou definições, é ainda um idealista quando se contenta em citar
textos materialistas, quando vive somente com os seus textos, porque o mundo real então desaparece. Repete
essas fórmulas sem na realidade as aplicar. Dá a importância primeira aos textos, às ideias. A vida desenrolase
na sua consciência sob a forma de textos, e, em geral, constata-se que o doutrinário é também um sectário.
Crer que a revolução é uma questão de educação, dizer que explicando, «de uma vez para sempre», aos
operários a necessidade da revolução eles devem compreender, e que, se não querem compreender, não vale
a pena tentar fazer a revolução, é sectarismo, não uma atitude materialista.
Devemos constatar os casos em que as pessoas não compreendem; procurar saber porque tal acontece,
constatar a repressão, a propaganda dos jornais burgueses, rádio, cinema, etc, procurando todos os meios
possíveis para fazer compreender o que queremos, pelos panfletos, brochuras, jornais, escolas, etc.
Não ter o sentido das realidades, viver na lua e, praticamente, fazer projectos não tendo em nenhuma conta
situações, realidades, é uma atitude idealista que concede a importância primeira aos belos projectos, sem ver
se são realizáveis ou não. Os que criticam continuamente, mas que nada fazem para que as coisas melhorem,
não propondo nenhum remédio, aqueles a quem falta senso crítico para com eles próprios, todos esses são
materialistas não consequentes
IV. — Conclusão.
Por estes exemplos, vemos que os defeitos, que podemos constatar mais ou menos em cada um de nós, são
idealistas. Somos atingidos, porque separamos a prática da teoria e a burguesia, que nos influenciou, gosta
que não liguemos importância à realidade. Para ela, que defende o idealismo, a teoria e a prática são duas
coisas totalmente diferentes e sem nenhuma relação. Tais defeitos são, pois, nocivos, e devemos combatê-los,
porque aproveitam, no fim de contas, à burguesia. Numa palavra, devemos constatar que esses defeitos,
produzidos em nós pela sociedade, pelas bases teóricas da nossa educação, da nossa cultura, enraizados na
nossa infância, são obra da burguesia - e desembaraçar-nos dele
constatar a repressão, a propaganda dos jornais burgueses, rádio, cinema, etc, procurando todos os meios
possíveis para fazer compreender o que queremos, pelos panfletos, brochuras, jornais, escolas, etc.
Não ter o sentido das realidades, viver na lua e, praticamente, fazer projectos não tendo em nenhuma conta
situações, realidades, é uma atitude idealista que concede a importância primeira aos belos projectos, sem ver
se são realizáveis ou não. Os que criticam continuamente, mas que nada fazem para que as coisas melhorem,
não propondo nenhum remédio, aqueles a quem falta senso crítico para com eles próprios, todos esses são
materialistas não consequentes
IV. — Conclusão.
Por estes exemplos, vemos que os defeitos, que podemos constatar mais ou menos em cada um de nós, são
idealistas. Somos atingidos, porque separamos a prática da teoria e a burguesia, que nos influenciou, gosta
que não liguemos importância à realidade. Para ela, que defende o idealismo, a teoria e a prática são duas
coisas totalmente diferentes e sem nenhuma relação. Tais defeitos são, pois, nocivos, e devemos combatê-los,
porque aproveitam, no fim de contas, à burguesia. Numa palavra, devemos constatar que esses defeitos,
produzidos em nós pela sociedade, pelas bases teóricas da nossa educação, da nossa cultura, enraizados na
nossa infância, são obra da burguesia - e desembaraçar-nos dele
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Liberdade de pressão
Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva disse que dedicava apenas cinco minutos por dia aos jornais, houve indignação. Agora, há saudade
2:00 Quinta-feira, 11 de Fev de 2010
É uma questão que tem sido colocada várias vezes: a internet vai acabar com os jornais? Finalmente, temos a resposta: só se José Sócrates não acabar com eles primeiro. O primeiro-ministro tentou controlar o défice e não conseguiu, tentou controlar o desemprego e não conseguiu, tentou controlar a comunicação social e esteve perto de conseguir. Acaba por ser justo que o plano tenha falhado. Era o que faltava que Sócrates fosse eficaz no que lhe interessa e ineficaz no que interessa ao País. Este caso tem essa dimensão muito reconfortante: ora até que enfim que o primeiro-ministro sofre com a inabilidade política do primeiro-ministro. Apesar disso, todos gostaríamos que José Sócrates colocasse nos assuntos do Estado o mesmo empenho que coloca nos seus assuntos. Que, em vez de Mário Crespo, o desemprego fosse um problema que teria de ser solucionado. Que, em lugar de uma operação financeira para adquirir a TVI, se empenhasse numa operação financeira para reduzir o défice. Talvez falhasse na mesma, mas ficaríamos com a sensação de que teria feito um esforço maior.
Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva disse que dedicava apenas cinco minutos por dia aos jornais, houve indignação. Agora, há saudade. Quem nos dera que o actual primeiro-ministro gastasse apenas cinco minutos do seu dia a pensar nos jornais. Pelo contrário, parece estar interessado em fazer com que bastem cinco minutos para os ler todos: ou porque os jornalistas, a contas com processos judiciais interpostos por ele, não têm tempo para escrever mais que duas ou três páginas, ou porque os que sobram fora dos tribunais escrevem todos o mesmo. Algo de muito grave se passa quando o País suspira pela liberdade de imprensa dos tempos de Cavaco Silva.
Neste momento, Portugal tem um primeiro-ministro que mais depressa se demite por causa das finanças regionais do que por causa da liberdade de imprensa. Trata-se de um homem que quer ser primeiro-ministro para mandar na TVI. Mais do que a ofensa à democracia e à liberdade, o que não se lhe perdoa é a falta de gosto. E um insuportável centralismo: um homem que recebe do povo o poder de governar o País inteiro, mas que deseja sobretudo mandar em Queluz. O mandato que lhe deram nas eleições é manifestamente exagerado.
Apesar de tudo, Sócrates tem uma virtude inestimável: conseguiu fazer despertar um amor pela liberdade de expressão em quem nunca mostrou que lhe tivesse sequer amizade. É bonito que o espírito antidemocrático seja um veículo de democratização. Confuso, mas bonito.
Ricardo Araújo Pereira (Visão)
Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva disse que dedicava apenas cinco minutos por dia aos jornais, houve indignação. Agora, há saudade
2:00 Quinta-feira, 11 de Fev de 2010
É uma questão que tem sido colocada várias vezes: a internet vai acabar com os jornais? Finalmente, temos a resposta: só se José Sócrates não acabar com eles primeiro. O primeiro-ministro tentou controlar o défice e não conseguiu, tentou controlar o desemprego e não conseguiu, tentou controlar a comunicação social e esteve perto de conseguir. Acaba por ser justo que o plano tenha falhado. Era o que faltava que Sócrates fosse eficaz no que lhe interessa e ineficaz no que interessa ao País. Este caso tem essa dimensão muito reconfortante: ora até que enfim que o primeiro-ministro sofre com a inabilidade política do primeiro-ministro. Apesar disso, todos gostaríamos que José Sócrates colocasse nos assuntos do Estado o mesmo empenho que coloca nos seus assuntos. Que, em vez de Mário Crespo, o desemprego fosse um problema que teria de ser solucionado. Que, em lugar de uma operação financeira para adquirir a TVI, se empenhasse numa operação financeira para reduzir o défice. Talvez falhasse na mesma, mas ficaríamos com a sensação de que teria feito um esforço maior.
Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva disse que dedicava apenas cinco minutos por dia aos jornais, houve indignação. Agora, há saudade. Quem nos dera que o actual primeiro-ministro gastasse apenas cinco minutos do seu dia a pensar nos jornais. Pelo contrário, parece estar interessado em fazer com que bastem cinco minutos para os ler todos: ou porque os jornalistas, a contas com processos judiciais interpostos por ele, não têm tempo para escrever mais que duas ou três páginas, ou porque os que sobram fora dos tribunais escrevem todos o mesmo. Algo de muito grave se passa quando o País suspira pela liberdade de imprensa dos tempos de Cavaco Silva.
Neste momento, Portugal tem um primeiro-ministro que mais depressa se demite por causa das finanças regionais do que por causa da liberdade de imprensa. Trata-se de um homem que quer ser primeiro-ministro para mandar na TVI. Mais do que a ofensa à democracia e à liberdade, o que não se lhe perdoa é a falta de gosto. E um insuportável centralismo: um homem que recebe do povo o poder de governar o País inteiro, mas que deseja sobretudo mandar em Queluz. O mandato que lhe deram nas eleições é manifestamente exagerado.
Apesar de tudo, Sócrates tem uma virtude inestimável: conseguiu fazer despertar um amor pela liberdade de expressão em quem nunca mostrou que lhe tivesse sequer amizade. É bonito que o espírito antidemocrático seja um veículo de democratização. Confuso, mas bonito.
Ricardo Araújo Pereira (Visão)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Politzer
A MATÉRIA E OS MATERIALISTAS
I. — O que é a matéria?
II. — Teorias sucessivas da matéria.
III. — O que é a matéria para os materialistas.
IV. — O espaço, o tempo, o movimento e a matéria.
V. — Conclusão.
Depois de ter definido:
Primeiro, as ideias comuns a todos os materialistas, em seguida, os seus argumentos contra as
filosofias idealistas, e, por último, demonstrado o erro do agnosticismo, vamos tirar as conclusões
deste ensino e reforçar os nossos argumentos materialistas, trazendo as nossas respostas às duas
perguntas seguintes:
1. O que é a matéria?
2. Que significa ser materialista?
I. — O que é a matéria?
Importância da pergunta. Cada vez que temos um problema a resolver, devemos pôr as perguntas
bem claramente. Com efeito, aqui, não é tão simples dar uma resposta satisfatória. Para conseguir
isso, devemos fazer uma teoria da matéria.
Em geral, as pessoas pensam que a matéria é o que pode ser tocado, o que é resistente e duro. Na
antiguidade grega, era assim que se definia a matéria.
Hoje, sabemos, graças às ciências, que isso não é exacto.
II. — Teorias sucessivas da matéria.
(O nosso objectivo é passar em revista, o mais simplesmente possível, as diversas teorias relativas à
matéria, sem entrar em explicações científicas.)
Na Grécia, pensava-se que a matéria era uma realidade cheia e impenetrável, que, até ao infinito,
não podia dividir-se. Chega um momento, dizia-se, em que as partículas são indivisíveis; e, a tais
partículas, deu-se o nome de átomos (átomo = indivisível). Uma mesa é, então, um aglomerado de
átomos. Pensava-se, também, que esses átomos eram diferentes uns dos outros: havia os lisos e
redondos, como os do azeite, e os rugosos e curvos, como os do vinagre.
Foi Demócrito, um materialista da antiguidade, que pôs de pé esta teoria; foi ele que, primeiro,
tentou dar uma explicação materialista do mundo. Pensava, por exemplo, que o corpo humano era
composto por átomos grosseiros, que a alma era um aglomerado de átomos mais finos e, como
admitia a existência dos deuses, e quisesse explicar tudo como materialista, afirmava que os
próprios deuses eram compostos por átomos extrafinos.
No século XIX, esta teoria modificou-se profundamente.
Pensava-se sempre que a matéria se dividia em átomos, que estes eram partículas muito duras atraindo-se
umas às outras. Abandonara-se a teoria, dos Gregos, e os átomos já não eram curvos ou lisos, mas continuava
a sustentar-se que eram impenetráveis, indivisíveis e sofriam um movimento de atracção uns contra os
outros.
Hoje, demonstra-se que o átomo não c um grão de matéria impenetrável e insecável (isto é, indivisível), mas
que se compõe de partículas denominadas electrões girando a enorme velocidade à volta de um núcleo, onde
se encontra condensada a quase totalidade da massa do átomo. Se este é neutro, electrões e núcleo têm uma
carga eléctrica, mas a carga positiva do núcleo é igual à soma das cargas negativas transportadas pelos
electrões. A matéria é um aglomerado desses átomos, e se opõe uma resistência à penetração é precisamente
por causa do movimento das partículas que a compõem.
A descoberta destas propriedades eléctricas da matéria e, em particular, a dos electrões provocou, no
princípio do século XX, um assalto dos idealistas contra a própria existência da matéria.
«O electrão não tem nada de material, pretendiam eles. É apenas uma carga eléctrica em movimento. Se não
há matéria na carga negativa, por que a haveria no núcleo positivo? Portanto, a matéria deixou de existir. Só
há energia!»
Lenine, em «Materialismo e empirocriticismo» (cap. V), repôs as coisas no seu devido lugar, mostrando que
energia e matéria são inseparáveis. A energia é material, e o movimento é apenas o modo de existência da
matéria. Em suma, os idealistas interpretavam ao contrário as descobertas da ciência. No momento em que
esta punha em evidência aspectos da matéria ignorados até então, concluíam que a matéria não existe, sob
pretexto de que não é semelhante à ideia que dela se fazia outrora, quando se acreditava que matéria e
movimento eram duas realidades distintas22.
I. — O que é a matéria?
II. — Teorias sucessivas da matéria.
III. — O que é a matéria para os materialistas.
IV. — O espaço, o tempo, o movimento e a matéria.
V. — Conclusão.
Depois de ter definido:
Primeiro, as ideias comuns a todos os materialistas, em seguida, os seus argumentos contra as
filosofias idealistas, e, por último, demonstrado o erro do agnosticismo, vamos tirar as conclusões
deste ensino e reforçar os nossos argumentos materialistas, trazendo as nossas respostas às duas
perguntas seguintes:
1. O que é a matéria?
2. Que significa ser materialista?
I. — O que é a matéria?
Importância da pergunta. Cada vez que temos um problema a resolver, devemos pôr as perguntas
bem claramente. Com efeito, aqui, não é tão simples dar uma resposta satisfatória. Para conseguir
isso, devemos fazer uma teoria da matéria.
Em geral, as pessoas pensam que a matéria é o que pode ser tocado, o que é resistente e duro. Na
antiguidade grega, era assim que se definia a matéria.
Hoje, sabemos, graças às ciências, que isso não é exacto.
II. — Teorias sucessivas da matéria.
(O nosso objectivo é passar em revista, o mais simplesmente possível, as diversas teorias relativas à
matéria, sem entrar em explicações científicas.)
Na Grécia, pensava-se que a matéria era uma realidade cheia e impenetrável, que, até ao infinito,
não podia dividir-se. Chega um momento, dizia-se, em que as partículas são indivisíveis; e, a tais
partículas, deu-se o nome de átomos (átomo = indivisível). Uma mesa é, então, um aglomerado de
átomos. Pensava-se, também, que esses átomos eram diferentes uns dos outros: havia os lisos e
redondos, como os do azeite, e os rugosos e curvos, como os do vinagre.
Foi Demócrito, um materialista da antiguidade, que pôs de pé esta teoria; foi ele que, primeiro,
tentou dar uma explicação materialista do mundo. Pensava, por exemplo, que o corpo humano era
composto por átomos grosseiros, que a alma era um aglomerado de átomos mais finos e, como
admitia a existência dos deuses, e quisesse explicar tudo como materialista, afirmava que os
próprios deuses eram compostos por átomos extrafinos.
No século XIX, esta teoria modificou-se profundamente.
Pensava-se sempre que a matéria se dividia em átomos, que estes eram partículas muito duras atraindo-se
umas às outras. Abandonara-se a teoria, dos Gregos, e os átomos já não eram curvos ou lisos, mas continuava
a sustentar-se que eram impenetráveis, indivisíveis e sofriam um movimento de atracção uns contra os
outros.
Hoje, demonstra-se que o átomo não c um grão de matéria impenetrável e insecável (isto é, indivisível), mas
que se compõe de partículas denominadas electrões girando a enorme velocidade à volta de um núcleo, onde
se encontra condensada a quase totalidade da massa do átomo. Se este é neutro, electrões e núcleo têm uma
carga eléctrica, mas a carga positiva do núcleo é igual à soma das cargas negativas transportadas pelos
electrões. A matéria é um aglomerado desses átomos, e se opõe uma resistência à penetração é precisamente
por causa do movimento das partículas que a compõem.
A descoberta destas propriedades eléctricas da matéria e, em particular, a dos electrões provocou, no
princípio do século XX, um assalto dos idealistas contra a própria existência da matéria.
«O electrão não tem nada de material, pretendiam eles. É apenas uma carga eléctrica em movimento. Se não
há matéria na carga negativa, por que a haveria no núcleo positivo? Portanto, a matéria deixou de existir. Só
há energia!»
Lenine, em «Materialismo e empirocriticismo» (cap. V), repôs as coisas no seu devido lugar, mostrando que
energia e matéria são inseparáveis. A energia é material, e o movimento é apenas o modo de existência da
matéria. Em suma, os idealistas interpretavam ao contrário as descobertas da ciência. No momento em que
esta punha em evidência aspectos da matéria ignorados até então, concluíam que a matéria não existe, sob
pretexto de que não é semelhante à ideia que dela se fazia outrora, quando se acreditava que matéria e
movimento eram duas realidades distintas22.
III. — O que é a matéria para os materialistas.
Sobre este assunto, é indispensável fazer uma distinção. Trata-se de ver, em primeiro lugar:
1. O que é a matéria?
depois,
2. Como é a matéria?
A resposta que os materialistas dão à primeira pergunta é que a matéria é uma realidade exterior,
independente do espírito, e que não necessita deste para existir. Lenine diz, a propósito:
A noção de matéria exprime apenas a realidade objectiva que nos é dada na sensação23.
Quanto à segunda pergunta: «Como é a matéria?», os materialistas dizem: «Não é a nós que compete
responder, é à ciência»
A primeira resposta não mudou da antiguidade aos nossos dias.
A segunda mudou e deve mudar, porque depende das ciências, do estado dos conhecimentos humanos. Não é
uma resposta definitiva.
Vemos que é absolutamente indispensável pôr bem o problema e não deixar os idealistas misturar as duas
perguntas. É preciso separá-las bem, mostrar que a primeira é a principal e que a nossa resposta ao assunto é,
desde sempre, invariável.
Porque, a única «propriedade» da matéria cuja admissão definiu o materialismo filosófico é ser uma
realidade objectiva, existir fora da nossa consciência24.
IV. — O espaço, o tempo, o movimento e a matéria.
Se afirmamos, porque o constatamos, que a matéria existe fora de nós, precisamos, também:
1. Que a matéria existe no tempo e no espaço.
2. Que a matéria está em movimento.
Os idealistas, esses pensam que o espaço e o tempo são ideias do nosso espírito {é Kant quem, primeiro, tal
defendeu). Para eles, o espaço é uma forma que damos às coisas, nasceu do espírito do homem. O mesmo
acontece em relação ao tempo.
Os materialistas afirmam, pelo contrário, que o espaço não está em nós, nós é que estamos nele. Afirmam,
também, que o tempo é uma condição indispensável ao desenvolvimento da nossa vida; e que, por
consequência, o tempo e o espaço são inseparáveis do que existe fora de nós, isto é, da matéria.
...As formas fundamentais de todo o ser são o espaço e o tempo, e um ser fora do tempo é um absurdo tão
grande como um ser fora do espaço25.
Pensamos, portanto, que há uma realidade independente da consciência. Acreditamos que o mundo existiu
antes de nós e que, depois de nós, continuará a existir. Acreditamos que o mundo, para existir, não precisa de
nós. Estamos persuadidos que Paris existiu antes de nascermos e, a menos que seja definitivamente arrazada,
existirá depois da nossa morte. Estamos certos que Paris existe, mesmo quando não pensamos nisso, do
mesmo modo que há dezenas de milhares de cidades que nunca visitámos, de que nem sequer sabemos o
nome, e que, todavia, existem. Tal é a convicção geral da humanidade. As ciências permitiram dar a este
argumento uma precisão e uma firmeza que aniquilam as astúcias idealistas.
As ciências da natureza afirmam positivamente que a terra existiu em estados tais, que nem o homem, nem
nenhum ser vivo a habitava, nem podia habitar. A matéria orgânica é um fenómeno tardio, o produto de uma
evolução muito longa26.
Se as ciências nos fornecem, portanto, a prova de que a matéria existe no tempo e no espaço, ensinam-nos,
ao mesmo tempo, que está em movimento. Esta última precisão, que as ciências modernas nos forneceram, é
muito importante, porque destruiu a velha teoria segundo a qual a matéria seria incapaz de movimento,
inerte.
O movimento é o modo de existência da matéria... A matéria sem movimento é tão inconcebível como o
movimento sem matéria27
Sabemos que o mundo, no seu estado actual, é o resultado, em todos os domínios, de uma longa evolução e,
por consequência, de um movimento lento, mas contínuo. Precisamos, portanto, depois de ter demonstrado a'
existência da matéria, que
o universo é apenas matéria em movimento, e esta matéria em movimento só se pode mover no espaço e notempo.
V. — Conclusão.
Resulta destas constatações que, a ideia de Deus, a ideia de um «puro espírito» criador do universo não tem
sentido, porque um Deus fora do espaço e do tempo é qualquer coisa que não pode existir.
É preciso participar da mística idealista, por consequência, não admitir nenhum controlo científico, para
acreditar num Deus existindo fora do tempo, isto é, não existindo em nenhum momento, e existindo fora do
espaço, ou seja, não existindo em parte alguma.
Os materialistas, seguros das conclusões das ciências, afirmam que a matéria existe no espaço e num dado
momento (no tempo). Por consequência, o universo não pôde ser criado, porque teria sido preciso a Deus,
para poder criar o mundo, um momento que não existiu em nenhum momento (uma vez que o tempo para
Deus não existe), e seria preciso, também, que de nada saísse o mundo.
Para admitir a criação, é preciso, pois, admitir, em primeiro lugar,, que houve um momento em que o
universo não existia, depois, que de nada saiu qualquer coisa, o que a ciência não pode admitir.
Vemos que os argumentos dos idealistas, confrontados com as ciências, não podem manter-se, enquanto que
os dos filósofos materialistas não podem ser separados das próprias ciências. Sublinhamos assim, uma vez
mais, as relações íntimas que ligam o materialismo e as ciências.
Sobre este assunto, é indispensável fazer uma distinção. Trata-se de ver, em primeiro lugar:
1. O que é a matéria?
depois,
2. Como é a matéria?
A resposta que os materialistas dão à primeira pergunta é que a matéria é uma realidade exterior,
independente do espírito, e que não necessita deste para existir. Lenine diz, a propósito:
A noção de matéria exprime apenas a realidade objectiva que nos é dada na sensação23.
Quanto à segunda pergunta: «Como é a matéria?», os materialistas dizem: «Não é a nós que compete
responder, é à ciência»
A primeira resposta não mudou da antiguidade aos nossos dias.
A segunda mudou e deve mudar, porque depende das ciências, do estado dos conhecimentos humanos. Não é
uma resposta definitiva.
Vemos que é absolutamente indispensável pôr bem o problema e não deixar os idealistas misturar as duas
perguntas. É preciso separá-las bem, mostrar que a primeira é a principal e que a nossa resposta ao assunto é,
desde sempre, invariável.
Porque, a única «propriedade» da matéria cuja admissão definiu o materialismo filosófico é ser uma
realidade objectiva, existir fora da nossa consciência24.
IV. — O espaço, o tempo, o movimento e a matéria.
Se afirmamos, porque o constatamos, que a matéria existe fora de nós, precisamos, também:
1. Que a matéria existe no tempo e no espaço.
2. Que a matéria está em movimento.
Os idealistas, esses pensam que o espaço e o tempo são ideias do nosso espírito {é Kant quem, primeiro, tal
defendeu). Para eles, o espaço é uma forma que damos às coisas, nasceu do espírito do homem. O mesmo
acontece em relação ao tempo.
Os materialistas afirmam, pelo contrário, que o espaço não está em nós, nós é que estamos nele. Afirmam,
também, que o tempo é uma condição indispensável ao desenvolvimento da nossa vida; e que, por
consequência, o tempo e o espaço são inseparáveis do que existe fora de nós, isto é, da matéria.
...As formas fundamentais de todo o ser são o espaço e o tempo, e um ser fora do tempo é um absurdo tão
grande como um ser fora do espaço25.
Pensamos, portanto, que há uma realidade independente da consciência. Acreditamos que o mundo existiu
antes de nós e que, depois de nós, continuará a existir. Acreditamos que o mundo, para existir, não precisa de
nós. Estamos persuadidos que Paris existiu antes de nascermos e, a menos que seja definitivamente arrazada,
existirá depois da nossa morte. Estamos certos que Paris existe, mesmo quando não pensamos nisso, do
mesmo modo que há dezenas de milhares de cidades que nunca visitámos, de que nem sequer sabemos o
nome, e que, todavia, existem. Tal é a convicção geral da humanidade. As ciências permitiram dar a este
argumento uma precisão e uma firmeza que aniquilam as astúcias idealistas.
As ciências da natureza afirmam positivamente que a terra existiu em estados tais, que nem o homem, nem
nenhum ser vivo a habitava, nem podia habitar. A matéria orgânica é um fenómeno tardio, o produto de uma
evolução muito longa26.
Se as ciências nos fornecem, portanto, a prova de que a matéria existe no tempo e no espaço, ensinam-nos,
ao mesmo tempo, que está em movimento. Esta última precisão, que as ciências modernas nos forneceram, é
muito importante, porque destruiu a velha teoria segundo a qual a matéria seria incapaz de movimento,
inerte.
O movimento é o modo de existência da matéria... A matéria sem movimento é tão inconcebível como o
movimento sem matéria27
Sabemos que o mundo, no seu estado actual, é o resultado, em todos os domínios, de uma longa evolução e,
por consequência, de um movimento lento, mas contínuo. Precisamos, portanto, depois de ter demonstrado a'
existência da matéria, que
o universo é apenas matéria em movimento, e esta matéria em movimento só se pode mover no espaço e notempo.
V. — Conclusão.
Resulta destas constatações que, a ideia de Deus, a ideia de um «puro espírito» criador do universo não tem
sentido, porque um Deus fora do espaço e do tempo é qualquer coisa que não pode existir.
É preciso participar da mística idealista, por consequência, não admitir nenhum controlo científico, para
acreditar num Deus existindo fora do tempo, isto é, não existindo em nenhum momento, e existindo fora do
espaço, ou seja, não existindo em parte alguma.
Os materialistas, seguros das conclusões das ciências, afirmam que a matéria existe no espaço e num dado
momento (no tempo). Por consequência, o universo não pôde ser criado, porque teria sido preciso a Deus,
para poder criar o mundo, um momento que não existiu em nenhum momento (uma vez que o tempo para
Deus não existe), e seria preciso, também, que de nada saísse o mundo.
Para admitir a criação, é preciso, pois, admitir, em primeiro lugar,, que houve um momento em que o
universo não existia, depois, que de nada saiu qualquer coisa, o que a ciência não pode admitir.
Vemos que os argumentos dos idealistas, confrontados com as ciências, não podem manter-se, enquanto que
os dos filósofos materialistas não podem ser separados das próprias ciências. Sublinhamos assim, uma vez
mais, as relações íntimas que ligam o materialismo e as ciências.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
"Um Éditocrata"
Num pequeno escrito, há poucos dias, referi-me a um livro, acabado de ser editado, e que tinha como titulo: "Os Éditocratas". Deste grupo, entre outros, faz parte um senhor (Bernard-Henri Levi, Bernard para os amigos), que se diz ser"escritor, romancista,,ensaiador, jornalista e também, sobre tudo, filósofo. Ele, não só dá opinião sobre tudo, como, em tudo, ele julga ter razão. Vejamos algumas das suas diatríbes: Em 2006, muito tempo depois da sua odisseia na Jugoslávia e gostando de mostrar a guerra, embarca para Israel, no momento em que as forças militares deste país, fazem, no Líbano,um autêntico massacre na população civil. Na sua modéstia, o filósofo, reconhece não ser um perito militar e por isso não pode julgar a desproporção numa guerra onde o balanço humano será de 1300 vítimas civis do lado libanês (onde um terço de crianças) contra 48 do lado de Israel.
Pouco tempo depois de ter chegado a Israel, o nosso "amigo"Bernard, monta a Manara, tomada pelos israelitas e onde montaram uma base de artelharia, e logo três coisas lhe chamam a curiosidade: Foi a extrema juventude dos artilheiros: vinte anos; talvez dezoito; o ar estupefacto quando o tiro parte, como se fosse sempre a primeira vez; as brincadeiras de jovens quando o colega não tem tempo de tapar as orelhas e que a detonação os torna surdos; e depois o lado grave ao mesmo tempo, penetrados de quem sabe se encontrar nas primeiras linhas de um drama imenso e que os ultrapassa.
Os libaneses sobre quem tombam os tiros do campo de artelharia de Manara, como se fosse sempre a primeira vez, (Bernard não diz uma palavra) sabem da gravidade do momento e que duvidam que as suas crianças e jovens tenham nesse momento o prazer de se juntar ao amigo que não teve tempo de tapar as orelhas antes que o obus, lançado pelos jovens israelitas, não rebente e os matem a maior parte das vezes.
Estes militares israelitas, jovens alegres e republicanos, fazendo parte de um exército mais simpático que guerreiro; mais democrático que dominador, um exército que nada tem a ver com os brutos, exterminadores sem princípio nem piedade e que são obrigados a combater.
Dum lado, os brutos e os cruéis mas onde os civis são mortos às centenas,do outro, jovens alegres republicanos, simpáticos, sábios e democratas equipados com armas mas que evitam os inocentes. Como a guerra é bela quando Bernard a descreve.
Em 2008, surge o conflito entre a Geórgia e Rússia e lá vai o nosso filósofo verificar , sobre o terreno, se era bem uma guerra entre o bem(Ocidente) e o mal.
Mal põe pé em terra encontra logo um oficial russo que longe de ser simpático,como os artilheiros de Manara, "tem ar de ter bebido muito". continuando o seu caminho encontra um outro oficial, sempre russo, "cheio de importância e de vodka e que para cumulo ainda urla.
Continuando a sua viagem diz ele: "Chegámos a Gori, não estamos no centro da cidade mas podemos constatar os incêndios a perder de vista". E de concluir dramatizando: "Gori é queimada, pilhada, reduzida a cidade fantasma, despojada pelos russos onde a selvageria não conhece limites".
Problema; há sempre um problema, de fonte segura, Bernard nunca entrou em Gori e os russos não queimaram a cidade.
O testemunho é de Marie-Anne Isles Beguin que fazia parte do grupo e que conhece bem a região. "mas não, não estivemos em Gori" corrige ela. "Fomos bloqueados a um quilômetro e meio da cidade; só os campos ardiam. Os exércitos queimam, por vezes, os campos para evitar as emboscadas". Mais tarde, Bernard viu-se obrigado a rever a sua cópia e vir dizer que o que viu era "essencialmente os campos que ardiam".
Poderia continuar com muitas outras histórias, mas tornar-me-ia longo. Só direi que Bernards como este é que por aqui mais há e em Portugal também não faltam.
Termino prefaciando uma canção de Gainsbourg: " QUE GRANDE CANALHA."
QUELHA FUNDA
Pouco tempo depois de ter chegado a Israel, o nosso "amigo"Bernard, monta a Manara, tomada pelos israelitas e onde montaram uma base de artelharia, e logo três coisas lhe chamam a curiosidade: Foi a extrema juventude dos artilheiros: vinte anos; talvez dezoito; o ar estupefacto quando o tiro parte, como se fosse sempre a primeira vez; as brincadeiras de jovens quando o colega não tem tempo de tapar as orelhas e que a detonação os torna surdos; e depois o lado grave ao mesmo tempo, penetrados de quem sabe se encontrar nas primeiras linhas de um drama imenso e que os ultrapassa.
Os libaneses sobre quem tombam os tiros do campo de artelharia de Manara, como se fosse sempre a primeira vez, (Bernard não diz uma palavra) sabem da gravidade do momento e que duvidam que as suas crianças e jovens tenham nesse momento o prazer de se juntar ao amigo que não teve tempo de tapar as orelhas antes que o obus, lançado pelos jovens israelitas, não rebente e os matem a maior parte das vezes.
Estes militares israelitas, jovens alegres e republicanos, fazendo parte de um exército mais simpático que guerreiro; mais democrático que dominador, um exército que nada tem a ver com os brutos, exterminadores sem princípio nem piedade e que são obrigados a combater.
Dum lado, os brutos e os cruéis mas onde os civis são mortos às centenas,do outro, jovens alegres republicanos, simpáticos, sábios e democratas equipados com armas mas que evitam os inocentes. Como a guerra é bela quando Bernard a descreve.
Em 2008, surge o conflito entre a Geórgia e Rússia e lá vai o nosso filósofo verificar , sobre o terreno, se era bem uma guerra entre o bem(Ocidente) e o mal.
Mal põe pé em terra encontra logo um oficial russo que longe de ser simpático,como os artilheiros de Manara, "tem ar de ter bebido muito". continuando o seu caminho encontra um outro oficial, sempre russo, "cheio de importância e de vodka e que para cumulo ainda urla.
Continuando a sua viagem diz ele: "Chegámos a Gori, não estamos no centro da cidade mas podemos constatar os incêndios a perder de vista". E de concluir dramatizando: "Gori é queimada, pilhada, reduzida a cidade fantasma, despojada pelos russos onde a selvageria não conhece limites".
Problema; há sempre um problema, de fonte segura, Bernard nunca entrou em Gori e os russos não queimaram a cidade.
O testemunho é de Marie-Anne Isles Beguin que fazia parte do grupo e que conhece bem a região. "mas não, não estivemos em Gori" corrige ela. "Fomos bloqueados a um quilômetro e meio da cidade; só os campos ardiam. Os exércitos queimam, por vezes, os campos para evitar as emboscadas". Mais tarde, Bernard viu-se obrigado a rever a sua cópia e vir dizer que o que viu era "essencialmente os campos que ardiam".
Poderia continuar com muitas outras histórias, mas tornar-me-ia longo. Só direi que Bernards como este é que por aqui mais há e em Portugal também não faltam.
Termino prefaciando uma canção de Gainsbourg: " QUE GRANDE CANALHA."
QUELHA FUNDA
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