Texto de Urbano Tavares Rodrigues
Carta Anónima Recebida por Maria Virgínia
" Escrevo-lhe estas laudas com o respeito cempre testemonho a uma senhora embora você nam seja uma senhora nenada que se pareça com isso tenho-me dado munto bem comta das suas maningâncias no Laboratório onde se fasem peditórios pera comprar tratores e para os bandidos do Alentejo fique sabendo que eu sou um trabalhador tanto ou más que você estive imigrado e ajuntei uns cobres comprei uns prediositos que até chegaram a ser ocupados por causa desses miseráveis desses traidores vendilhões da pátria que puseram isto a saque e agora Portugal está tão derrastos que já nem me aceitam na França veja lá você sua comunista sua puta o que ganhámos com tanto palavriado. A liberdade meta-a no cu e limpe o rabo ao 25 deAbril sua desavergonhada háde pagá-las todas você e os seus camaradas da porra que deram cabo desta terra. Se julga que lá por andar de calças manda paraí alguma coisa está bem enganada que isto vai entrar mesmo nos eichos e o papel de uma mulher a serio não é assubir pracima das mesas e descursar. Nam custa adevinhar que você nem sabe temperar um caldo sua matrafona de mamas à mostra quer um conselho vá-se foder".
(Um português patriota)
"Quantas Marias Virgínias haverá no distrito da Guarda? Tenho um nome cem por cento beirão. Pertenço a uma família burguesa e conservadora. Todos são hoje lá em casa CDS menos eu. Enquanto as minhas irmãs faziam licores e casaquinhos de malha eu subia às arvores, jogava à pedrada com os pastorinhos, que me ensinavam a lidar com as ovelhas, e tirava dezoitos nos exames. Por isso o meu pai me tratava como a um rapaz, pesava-lhe não ter um filho varão e eu era quase o mesmo pela força da inteligência e pela agilidade do corpo, cabelo tosquiado, ancas escorridas, canela fina como a das cabrinhas da serra. «Dava-me» a liberdade que eu, de toda a maneira, teria exigido e conquistado, enquanto as manas, ladeavam os interditos, para namorarem.
Vim para Lisboa estudar (que entusiasmo ao pricípio) e nada me era vedado, até que chumbei no segundo ano de medicina e resolvi empregar-me no Laboratório, o que me levou depois a optar pelo curso se analista. A partir daí, caramba, que mudança!, o pai deixou de me ligar importância, era como se fosse um cão, uma coisa atirada para um canto. Um projecto frustrado.
Até que lhe dei um neto, o primeiro, o ùnico macho; as minhas irmãs, apesar de serem muito femininas e de terem a bacia larga, só pariam fêmeas, como ele dizia. Daí em diante voltou a considerar-me. Mas o estatuto é outro. Tanto que é com o meu marido que ele fala de tustas e de terras, e o pobre do Quim ouve-o com toda a atenção, alem do mais é advogado, até lhe podia dar os chamados bons conselhos, se não fosse, como eu, alérgico à ambição. Chego ao telefone, é o pai a falar-me da Guarda e logo a seguir ao boa noite, filha , como estão vocês?, a despachar, «passas-me o teu marido, fazes favor». Quando é que ele perceberá que eu não tenho dono?
E para aqui estou a receber cartas anónimas à razão de duas por semana; Ao princípio até me divertia, agora já só me mete nojo, será que dão tantos erros de ortografia de propósito? Talvez não, a imprensa reacionária também é escrita com os pés. Sempre foi apanágio da burguesia das altas coroas em Portugal competir em ignorância com o Sr Pancrácio da mercearia da esquina, que é também do CDS, valha-nos Santa Bárbara, e com os novos brasileiros da França, que pouco têm a ver com os emigrantes por quem lutamos e que lutam connosco, embora eu possa, evidentemente, compreender o egoísmo dos «self made men», tal como compreendo tudo o que é humano.
Opção de classe, opção ideológica, sim, eu fiz a minha, fi-la até quando era mais duro e mais difícil, mas tenho necessariamente vivências burguesas e nestes tempos de assanhadas contradições, às vezes desoriento-me e sofro, sobretudo quando sou apedrejada, é modo de dizer, claro, por esres pequenos-burgueses de fresca data que vieram de baixo, da terra mais escura, e pagam os seus prédios com mãos calejadas. A minha força são os operários químicos e as operárias com quem convivo. Mesmo quando me dizem a rir «eu sou mais comunista do que você, camarada» (pedi-lhes que não me tratassem por doutora), fico satisfeita, acho que estes é que estão certos".
Continua
Quelha Funda
quarta-feira, 30 de junho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
As Pombas São Vermelhas
Texto de Urbano Tavares Rodrigues
Maria Virgina
"--Pois que dúvida!, também eu penso que os orgãos do poder popular são o caminho para a Revolução. Mas não julguem vocês que inventaram uma fórmula. Tudo isso vem da Comuna e dos sovietes de Outubro. Mesmo de mais longe: da Revolução Francesa.
Agora todos dizem que é a hora do regresso à normalidade, que acabou o que eles chamam as desordens. É o tempo das cartas anónimas, das nove ou vinte nove mentiras que se equilibram em cima de uma semiverdade, quando não de uma mentira mais verosímil. Lá para o Norte vêem-se os padres de gorra com marginais, açulando-os contra os operários mais renitentes à rendição. Fui lá num fim de semana. É de susto, e eu, vá que não vá, ainda passava despercebida, ninguém me conhece a cara. As nossas canções revolucionárias quase só se ouvem na rádio pela calada da noite. Não faltam agora açambarcadores. Oportunistas a ganharem dinheiro e mais dinheiro. E, entre duas explosões, nas vilas onde os Centros de Trabalho tiveram de fechar por precaução, temos outra vez, como durante o fascismo, as nossas casas iluminadas à cautela, para as reuniões, que pouca diferença fazem das antigas. Ainda se fala de justiça e em socialismo, mas as palavras têm já outro valor. É triste. É um bluff de interesses de classe.
De toda a maneira, não podemos ignorar tudo o que aconteceu. Não pdemos, mesmo nós, empregar a mesma linguagem de Março de 75. Seria fazer o jogo do adversário, facilitar-lhe a tarefa. Quanto às comissões de moradores e de trabalhadores, será a vossa memória tão curta que não se lembrem do esforço clandestino do Partido e da organização da CDE em 73, da divisão de Lisboa em bases, por freguesias, e em grupos socioprofissionais? Fazíamos o que podíamos. Agora , amigos, os tempos são outros. Mas não desmoralizamos. pelo contário. Não podemos é dexar-nos ultrapassar. Mais do que nunca temos de ir aos bairros de barracas, onde moram tantos trabalhadores, infelizmente, e onde os demagogos de esquerda, que também os há, prometem sem poder cumprir. Mas, reparem --e agora em termos de realidade concreta--se há alguém que tudo tem a ganhar (logo, logo!) com o triunfo da nossa linha, é precisamente essa gente. A burguesia demora mais a convencer, porque é matreira, pensa cada um em si, estão-se nas tintas para o País e só admitem a ausreridade que afecte os outros...
O meu moral!? Nem sei... Há muito que não penso (ou faço por não pensar) em mim, como célula isolada. Mato-me a trabalhar no laboratório. Produzo? Creio que sim. E vivo a vida de todos, no desespero, no ressurgir da confiança, na organização da luta na resistência, na convivência com os «outros», dia a dia..."
Continua
Quelha Funda
Maria Virgina
"--Pois que dúvida!, também eu penso que os orgãos do poder popular são o caminho para a Revolução. Mas não julguem vocês que inventaram uma fórmula. Tudo isso vem da Comuna e dos sovietes de Outubro. Mesmo de mais longe: da Revolução Francesa.
Agora todos dizem que é a hora do regresso à normalidade, que acabou o que eles chamam as desordens. É o tempo das cartas anónimas, das nove ou vinte nove mentiras que se equilibram em cima de uma semiverdade, quando não de uma mentira mais verosímil. Lá para o Norte vêem-se os padres de gorra com marginais, açulando-os contra os operários mais renitentes à rendição. Fui lá num fim de semana. É de susto, e eu, vá que não vá, ainda passava despercebida, ninguém me conhece a cara. As nossas canções revolucionárias quase só se ouvem na rádio pela calada da noite. Não faltam agora açambarcadores. Oportunistas a ganharem dinheiro e mais dinheiro. E, entre duas explosões, nas vilas onde os Centros de Trabalho tiveram de fechar por precaução, temos outra vez, como durante o fascismo, as nossas casas iluminadas à cautela, para as reuniões, que pouca diferença fazem das antigas. Ainda se fala de justiça e em socialismo, mas as palavras têm já outro valor. É triste. É um bluff de interesses de classe.
De toda a maneira, não podemos ignorar tudo o que aconteceu. Não pdemos, mesmo nós, empregar a mesma linguagem de Março de 75. Seria fazer o jogo do adversário, facilitar-lhe a tarefa. Quanto às comissões de moradores e de trabalhadores, será a vossa memória tão curta que não se lembrem do esforço clandestino do Partido e da organização da CDE em 73, da divisão de Lisboa em bases, por freguesias, e em grupos socioprofissionais? Fazíamos o que podíamos. Agora , amigos, os tempos são outros. Mas não desmoralizamos. pelo contário. Não podemos é dexar-nos ultrapassar. Mais do que nunca temos de ir aos bairros de barracas, onde moram tantos trabalhadores, infelizmente, e onde os demagogos de esquerda, que também os há, prometem sem poder cumprir. Mas, reparem --e agora em termos de realidade concreta--se há alguém que tudo tem a ganhar (logo, logo!) com o triunfo da nossa linha, é precisamente essa gente. A burguesia demora mais a convencer, porque é matreira, pensa cada um em si, estão-se nas tintas para o País e só admitem a ausreridade que afecte os outros...
O meu moral!? Nem sei... Há muito que não penso (ou faço por não pensar) em mim, como célula isolada. Mato-me a trabalhar no laboratório. Produzo? Creio que sim. E vivo a vida de todos, no desespero, no ressurgir da confiança, na organização da luta na resistência, na convivência com os «outros», dia a dia..."
Continua
Quelha Funda
segunda-feira, 28 de junho de 2010
As Pombas São Vermelhas
Texto de Urbano Tavares Rodrigues
Cornélia:
"--O assassino do Neto! Nem na têvê posso vê-lo. Destruiram Angola. Quando penso, meu Deus, em tudo o que tem acontecido neste pobre país! Felizmente que as vítimas do 11 de Março já estão a sair reabilitadas. Ao menos isso. Nem tudo está perdido. Agora, vá lá que as coisas começam a endireitar-se. Muito temos que aprender com esta grande catástrofe. Ainda estamos a aprender. E mais aprenderemos. Bem sei que as senhoras, é diferente, perderam muito do que tinham, quase tudo, casas, joias, automóveis, os vossos criados, não imaginam como sinto. Podiam ter ficado as coisas tão compostinhas sm África, com um pouco, só com um poucachinho de diplomacia... E que fizeram esses loucos do MFA?! Deram-lhes tudo de mão beijada. O que era vosso, o que era nosso. Assassinaram a liberdade. Assassinos! Vaidosos, irresponsáveis... Nem imaginam como eu os detesto! Se pudesse, nem sei o que lhes fazia!..."
Dona Maria de Santo André:
"--Não sei se a África terá sido pior que o Alentejo? Já os viu bem de perto, a esses tais líderes dos sindicatos agricolas? Pareciam lobos esfomiados. Dizem que ocuparam as terrras. Ocuparam o quê? roubaram! Apanharam as searas já ceifadas. Tomaram conta das nossas máquinas. E ficaram-se a rir. Ao meu sobrinho Qito, não lhe deixaram nem a casa nem seqier o automóvel. Nada. E andor se não que lhe davam um tiro, ala! Mas não é deles que eu me queixo, são uns pobres brutos, a quem eu tenho mais asco é ao Copcon. Fui lá reclamar e, que é que tu cuidas?, abriram a boca, coçaram o rabo e mandaram-me voltar.
Se, ao menos, me garantissem uns quinhentos hectares! Sim, que eu ainda sou mulher para saltar para cima de um tractor e pôr-me a lavrar. que até sei! Pró que estava destinada, mais os meus filhos! Para isto andou o meu pai a trabalhar toda a vida. Não fazia férias, não ia ao estrangeiro a não ser quando o rei faz anos, e era para comprar , para comprar o que houvesse de melhor nas grandes feiras de gado e de produtos agrícolas. A distracção dele, de verdade, era só o campo. Corria as herdades, de jipe, a ver os homens nos serviços, a fazer recomendações ao feitor. Lá tinha a sua fraqueza e gostava de caçar. Chegámos a ter lá em casa o Thomaz... Já então nós não estávamos de acordo com muita coisa, está claro; e todos o sabem, não me venham dizer o contrário, eu sempre fui contra o que achava mal, mas era uma questão de regras de cortesia...tínhamos que nos dar com as pessoas da nossa condição. Caso contrário, nos anos maus precisava-se de um empréstimo, e sopa!"
Continua
Quelha Funda
Cornélia:
"--O assassino do Neto! Nem na têvê posso vê-lo. Destruiram Angola. Quando penso, meu Deus, em tudo o que tem acontecido neste pobre país! Felizmente que as vítimas do 11 de Março já estão a sair reabilitadas. Ao menos isso. Nem tudo está perdido. Agora, vá lá que as coisas começam a endireitar-se. Muito temos que aprender com esta grande catástrofe. Ainda estamos a aprender. E mais aprenderemos. Bem sei que as senhoras, é diferente, perderam muito do que tinham, quase tudo, casas, joias, automóveis, os vossos criados, não imaginam como sinto. Podiam ter ficado as coisas tão compostinhas sm África, com um pouco, só com um poucachinho de diplomacia... E que fizeram esses loucos do MFA?! Deram-lhes tudo de mão beijada. O que era vosso, o que era nosso. Assassinaram a liberdade. Assassinos! Vaidosos, irresponsáveis... Nem imaginam como eu os detesto! Se pudesse, nem sei o que lhes fazia!..."
Dona Maria de Santo André:
"--Não sei se a África terá sido pior que o Alentejo? Já os viu bem de perto, a esses tais líderes dos sindicatos agricolas? Pareciam lobos esfomiados. Dizem que ocuparam as terrras. Ocuparam o quê? roubaram! Apanharam as searas já ceifadas. Tomaram conta das nossas máquinas. E ficaram-se a rir. Ao meu sobrinho Qito, não lhe deixaram nem a casa nem seqier o automóvel. Nada. E andor se não que lhe davam um tiro, ala! Mas não é deles que eu me queixo, são uns pobres brutos, a quem eu tenho mais asco é ao Copcon. Fui lá reclamar e, que é que tu cuidas?, abriram a boca, coçaram o rabo e mandaram-me voltar.
Se, ao menos, me garantissem uns quinhentos hectares! Sim, que eu ainda sou mulher para saltar para cima de um tractor e pôr-me a lavrar. que até sei! Pró que estava destinada, mais os meus filhos! Para isto andou o meu pai a trabalhar toda a vida. Não fazia férias, não ia ao estrangeiro a não ser quando o rei faz anos, e era para comprar , para comprar o que houvesse de melhor nas grandes feiras de gado e de produtos agrícolas. A distracção dele, de verdade, era só o campo. Corria as herdades, de jipe, a ver os homens nos serviços, a fazer recomendações ao feitor. Lá tinha a sua fraqueza e gostava de caçar. Chegámos a ter lá em casa o Thomaz... Já então nós não estávamos de acordo com muita coisa, está claro; e todos o sabem, não me venham dizer o contrário, eu sempre fui contra o que achava mal, mas era uma questão de regras de cortesia...tínhamos que nos dar com as pessoas da nossa condição. Caso contrário, nos anos maus precisava-se de um empréstimo, e sopa!"
Continua
Quelha Funda
domingo, 27 de junho de 2010
As Pombas São Vermelhas
Texto de Urbano Tavares Rodrigues
"De braço ao pescoço vou na memória do futuro. Rebentam petardos em casa de militantes sindicais, em fábricas dirigidas por comissões de trabalhadores. São fortes, não há dúvida, os desejos (os interesses) dos lobos: e o crime fica impune. Ficará? Dentes aguçados como rochas de mar bravo nesta carantonha hiante da reacção, que rosna em Lisboa pela calada da noite; que morde em Viseu a toda a hora.
Mas as vagas do sol dizem-nos que a vitória há-de chegar. Entretanto, cobrir-nos-ão espumas negras, jogos sujos; e as campainhas do medo hão-de ressoar por muitos lados; os répteis da injuria e da mentira hão-de rastejar pelas ruas da cidade.
Operário amigo, metalurgico, lavador de automóveis, companheiro do meu bairro azul, da minha freguesia, do meu prédio de quartos alugados, ainda bem que me confortas de manhã, com o sorriso da confiança (mesmo que os géneros subam, mesmo que a tua confiança, já vacinada, se indigne com a TV e enrugue a testa). Furtas-me a mão cheia de óleo, submersa a oficina neste Verão de mel e de pobreza, dás-me a apertar o teu braço de ganga autentica.
--Então isto está a voltar ao mesmo?!
Mas não acreditas, lá no fundo não acreditas. Nem preciso de te falar na Constituição. Não a comes, é certo, mas sabes que existe. E, mais do que isso, viveste um Abril que não pode esquecer..."
"Apenas um ano depois, a «Alternativa 76», que há-de falhar, cobre à noite as paredes, por bom preço. Eis a reacção já aos urros numa imprensa de calúnia e difamação (chamada «livre», que insulto à tão boa palavra «livre»!), pedindo as cabeças de Alvaro Cunhal, de Melo Antunes de Vitor Crespo, de Otelo... e verrumando até o nome de Mário Soares.
Vem, camarada, vem escever comigo esta história. Lisboa coze a sua bebedeira de Verão burguês. Tanta coisa mudou. Tão depressa. Mas vento algum fecha as portas da imaginação, nem o líquido deste real sintético--a beber também.
Entremos em duas casas diversas de dois quarteirões da Avenida António aaAugusto de Aguiar. Entremos".
Quelha Funda
"De braço ao pescoço vou na memória do futuro. Rebentam petardos em casa de militantes sindicais, em fábricas dirigidas por comissões de trabalhadores. São fortes, não há dúvida, os desejos (os interesses) dos lobos: e o crime fica impune. Ficará? Dentes aguçados como rochas de mar bravo nesta carantonha hiante da reacção, que rosna em Lisboa pela calada da noite; que morde em Viseu a toda a hora.
Mas as vagas do sol dizem-nos que a vitória há-de chegar. Entretanto, cobrir-nos-ão espumas negras, jogos sujos; e as campainhas do medo hão-de ressoar por muitos lados; os répteis da injuria e da mentira hão-de rastejar pelas ruas da cidade.
Operário amigo, metalurgico, lavador de automóveis, companheiro do meu bairro azul, da minha freguesia, do meu prédio de quartos alugados, ainda bem que me confortas de manhã, com o sorriso da confiança (mesmo que os géneros subam, mesmo que a tua confiança, já vacinada, se indigne com a TV e enrugue a testa). Furtas-me a mão cheia de óleo, submersa a oficina neste Verão de mel e de pobreza, dás-me a apertar o teu braço de ganga autentica.
--Então isto está a voltar ao mesmo?!
Mas não acreditas, lá no fundo não acreditas. Nem preciso de te falar na Constituição. Não a comes, é certo, mas sabes que existe. E, mais do que isso, viveste um Abril que não pode esquecer..."
"Apenas um ano depois, a «Alternativa 76», que há-de falhar, cobre à noite as paredes, por bom preço. Eis a reacção já aos urros numa imprensa de calúnia e difamação (chamada «livre», que insulto à tão boa palavra «livre»!), pedindo as cabeças de Alvaro Cunhal, de Melo Antunes de Vitor Crespo, de Otelo... e verrumando até o nome de Mário Soares.
Vem, camarada, vem escever comigo esta história. Lisboa coze a sua bebedeira de Verão burguês. Tanta coisa mudou. Tão depressa. Mas vento algum fecha as portas da imaginação, nem o líquido deste real sintético--a beber também.
Entremos em duas casas diversas de dois quarteirões da Avenida António aaAugusto de Aguiar. Entremos".
Quelha Funda
sábado, 26 de junho de 2010
As Pombas São Vermelhas
Texto de Urbano Tavares Rodrigues
"Nunca mais estarei só, pensei naquela noite a caminho de São Bento. Ou de Belém? As imagens sobrepôem-se. Protestávamos. Não, ainda não era o tempo dos protestos. Festejávamos vitórias. Marchávamos sobre as reuínas da classe que haviamos combatido, do mundo dos «senhores», do seu nepotismo, da sua corrupção. Desmontamos a maquina do fascismo. Nem é preciso forçar muito para fazer rodar os parafusos e mexer, transformar os órgãos do país que é o nosso.
A Lisboa deste segundo (tão quieta de repente, quando a manifestação se dispersa) tornou-se logo lunar. Repousamos de olhos nos olhos. É tarde. Os cafés estão fechados e só agora nos damos conta de que nem comemos. Há que sujeitar em cada um de nós o homem antigo, surdamente em conflito com a imagem limpa e generosa que queremos moldar para amanhã.
Assim é. Nem sei quem foram há pouco os tribunos. Não importa. As escadarias, as bancadas de uma arena, o povo... A dramatis persona da festa ardente, ou representação, que o torvelinho deste tempo tão rápido já sorveu.
Porque não juntarmos, amiga, as faces, as mãos, os corpos neste cruzamento casual dos nossos destinos? Temos ambos o suor na fronte, os dedos trémulos de fadiga. No teu ventre uma couraça, a do quotidiano de ontem, de há pouco. Mas retira-la (e eu me espanto, eu que nada pedi mas te desejo em silêncio de exaltação extrema), retira-la e abres-te à seta que o cansaço em mim acicata,esmago o silvedo teu onde me firo docemente, sondo-te o verde tão turvo dos olhos pueris, cinza estupefacção, exaspero. Mas nada disto aconteceu. Excepto em imaginação. O tempo era tão veloz, nem consentia paragens, o tempo da Revolução... Vigilân cias, reuniões, plenários. Amávamo-nos, apenas de pé e à distância, a cair de fadiga, de olhos nos olhos, colectivamente.
Vivo?, sonho? Abraçam-me, vou no ar. Do alto do varandim da FIL camaradas gritam e aplaudem. O incêndio dos nossos rostos empalidece os candeeiros. É verdade que acabou mal essa manifestação da FUR, mas também é certo que teve para nós sem galões qualquer coisa de juramento de sangue, tão cedo quebrado. Claro, era lógico. O absurdo seria acreditar. Mas se as palavras eram como aves, pombos-correios deste barco Portugal à procura de si mesmo?!
Março, Maio, o Verão decisivo. As comissões de trabalhadores controlam as empresas onde o Estado interveio. Apareceram, como as agulhas que têm de orientar esta cruzada ao contrário
(porque é a do povo bastardo contra as velhas instituições), os jovens determinados, de barba ao acaso, inimigos da gravata, que falam com muitos «pás» (que saudade desse mau português tão puro!) e tomam a dianteira nas avançadas, gritam mais mais claro nos plenários.
Pedro, Joaquim, Augusto, Belchior, Guerreiro, uma gota de sol em cada um de vós.
Continua
Quelha Funda
"Nunca mais estarei só, pensei naquela noite a caminho de São Bento. Ou de Belém? As imagens sobrepôem-se. Protestávamos. Não, ainda não era o tempo dos protestos. Festejávamos vitórias. Marchávamos sobre as reuínas da classe que haviamos combatido, do mundo dos «senhores», do seu nepotismo, da sua corrupção. Desmontamos a maquina do fascismo. Nem é preciso forçar muito para fazer rodar os parafusos e mexer, transformar os órgãos do país que é o nosso.
A Lisboa deste segundo (tão quieta de repente, quando a manifestação se dispersa) tornou-se logo lunar. Repousamos de olhos nos olhos. É tarde. Os cafés estão fechados e só agora nos damos conta de que nem comemos. Há que sujeitar em cada um de nós o homem antigo, surdamente em conflito com a imagem limpa e generosa que queremos moldar para amanhã.
Assim é. Nem sei quem foram há pouco os tribunos. Não importa. As escadarias, as bancadas de uma arena, o povo... A dramatis persona da festa ardente, ou representação, que o torvelinho deste tempo tão rápido já sorveu.
Porque não juntarmos, amiga, as faces, as mãos, os corpos neste cruzamento casual dos nossos destinos? Temos ambos o suor na fronte, os dedos trémulos de fadiga. No teu ventre uma couraça, a do quotidiano de ontem, de há pouco. Mas retira-la (e eu me espanto, eu que nada pedi mas te desejo em silêncio de exaltação extrema), retira-la e abres-te à seta que o cansaço em mim acicata,esmago o silvedo teu onde me firo docemente, sondo-te o verde tão turvo dos olhos pueris, cinza estupefacção, exaspero. Mas nada disto aconteceu. Excepto em imaginação. O tempo era tão veloz, nem consentia paragens, o tempo da Revolução... Vigilân cias, reuniões, plenários. Amávamo-nos, apenas de pé e à distância, a cair de fadiga, de olhos nos olhos, colectivamente.
Vivo?, sonho? Abraçam-me, vou no ar. Do alto do varandim da FIL camaradas gritam e aplaudem. O incêndio dos nossos rostos empalidece os candeeiros. É verdade que acabou mal essa manifestação da FUR, mas também é certo que teve para nós sem galões qualquer coisa de juramento de sangue, tão cedo quebrado. Claro, era lógico. O absurdo seria acreditar. Mas se as palavras eram como aves, pombos-correios deste barco Portugal à procura de si mesmo?!
Março, Maio, o Verão decisivo. As comissões de trabalhadores controlam as empresas onde o Estado interveio. Apareceram, como as agulhas que têm de orientar esta cruzada ao contrário
(porque é a do povo bastardo contra as velhas instituições), os jovens determinados, de barba ao acaso, inimigos da gravata, que falam com muitos «pás» (que saudade desse mau português tão puro!) e tomam a dianteira nas avançadas, gritam mais mais claro nos plenários.
Pedro, Joaquim, Augusto, Belchior, Guerreiro, uma gota de sol em cada um de vós.
Continua
Quelha Funda
sexta-feira, 25 de junho de 2010
As Pombas São Vermelhas
Texto de Urbano Tavares Rodrigues
"A manhã decorria ao ritmo de uma paixão, mais rápida do que os gritos, do que o estalar dos tiros desgarrados, disparados para o ar, que faziam refluir muitos dos populares para debaixo das arcadas de um prédio novo fronteiro ao RAL I
Escarranchados no muro da cerca, soldados de camuflado, com a barba e o cabelo crecidos, confraternizavam com jovens militantes da LUAR.
Dinis de Almeida surgiu no terreiro e subiu a uma peça antiaéria, para serenar e controlar os voluntários de mãos nuas que se comprimiam em redor. Os pára-quedistas tinham-se rendido.
Mais tarde havia de chegar o Dias Lourenço, logo convidado a falar para a TV. A Revolução triunfara.
Tinhamos as calças e os sapatos cheios de lama, o coração como um balão a subir aos ares. O que é meu, o que é teu, tudo isso ficava na noite de ontem. Tratava-se agora de criar a claridade necessária às grandes transformações históricas por que o País havia de passar.
É certo que nem tudo era belo. Os maoístas clamavam pelo sangue dos dos culpados; uns sinceramente convictos de que o sangue chama o sangue e de que só pelo terror se poderia aprofundar a Revolução; outros, os do sector reaccionário e traidor da clique pró-chinesa, visavam apenas, como o futuro havia de demonstrar, quebrar à nascença, maculando-a aos olhos do povo ( o que não conseguiram), essa arrancada que se iniciava na húmida manhã do 11 de Março. Distinguian-se os comunistas pela sua enérgica humanidade. Mesmo os mais esquerdistas, que os havia, e compreensivelmente, no seio do Partido, e que em capacidade de luta e de dádiva pediam meças fosse a quem fosse.
--Amigos--gritava, junto ao portão (vim depois a saber que era enfermeira), uma rapariga alta e loira, desse áspero loiro alentejano cor do trigo maduro, quase masculina de tão ginasticada e decidida, corpo espartano, olhos garços em alvorço--, amigos, vamos daqui ao Carmo: o pvo já mostrou que pode derrubar as armas, que pode tudo, se quiser. Não deixamos, nem deixaremos,
que alguem se volte contra a Revolução. Ao Carmo, camaradas! Ao Carmo!
Havia ainda quem chamasse pelo Copcon. Mas o Copcon já não fazia falta. O Ralis consagrara-se, corpo e mito de vitória, com o unico apoio das massas."
Continua
Quelha Funda
"A manhã decorria ao ritmo de uma paixão, mais rápida do que os gritos, do que o estalar dos tiros desgarrados, disparados para o ar, que faziam refluir muitos dos populares para debaixo das arcadas de um prédio novo fronteiro ao RAL I
Escarranchados no muro da cerca, soldados de camuflado, com a barba e o cabelo crecidos, confraternizavam com jovens militantes da LUAR.
Dinis de Almeida surgiu no terreiro e subiu a uma peça antiaéria, para serenar e controlar os voluntários de mãos nuas que se comprimiam em redor. Os pára-quedistas tinham-se rendido.
Mais tarde havia de chegar o Dias Lourenço, logo convidado a falar para a TV. A Revolução triunfara.
Tinhamos as calças e os sapatos cheios de lama, o coração como um balão a subir aos ares. O que é meu, o que é teu, tudo isso ficava na noite de ontem. Tratava-se agora de criar a claridade necessária às grandes transformações históricas por que o País havia de passar.
É certo que nem tudo era belo. Os maoístas clamavam pelo sangue dos dos culpados; uns sinceramente convictos de que o sangue chama o sangue e de que só pelo terror se poderia aprofundar a Revolução; outros, os do sector reaccionário e traidor da clique pró-chinesa, visavam apenas, como o futuro havia de demonstrar, quebrar à nascença, maculando-a aos olhos do povo ( o que não conseguiram), essa arrancada que se iniciava na húmida manhã do 11 de Março. Distinguian-se os comunistas pela sua enérgica humanidade. Mesmo os mais esquerdistas, que os havia, e compreensivelmente, no seio do Partido, e que em capacidade de luta e de dádiva pediam meças fosse a quem fosse.
--Amigos--gritava, junto ao portão (vim depois a saber que era enfermeira), uma rapariga alta e loira, desse áspero loiro alentejano cor do trigo maduro, quase masculina de tão ginasticada e decidida, corpo espartano, olhos garços em alvorço--, amigos, vamos daqui ao Carmo: o pvo já mostrou que pode derrubar as armas, que pode tudo, se quiser. Não deixamos, nem deixaremos,
que alguem se volte contra a Revolução. Ao Carmo, camaradas! Ao Carmo!
Havia ainda quem chamasse pelo Copcon. Mas o Copcon já não fazia falta. O Ralis consagrara-se, corpo e mito de vitória, com o unico apoio das massas."
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Quelha Funda
quinta-feira, 24 de junho de 2010
As Pombas São Vermelhas
Texto de Urbano Tavares Rodrigues
Os coros. As árvores secas. Sacudo a gaiola onde um canário morreu. O extintor de incêndios jaz, partido e abandonado, no meio da rua.
Um homem espirra na atmosfera quente. Os rostos de indiferença. Assim vais, meu país reencontrado e perdido, meu país interior, meu país Portugal que nos rodeias, onde sou, onde somos, mesmo os que te conduzem à beira do precipício ou da glória, cabeças de alfinete sem valor, porque só a vontade do povo é a verdade--e ainda há povo que não sabe que tem vontade.
Que me lembram estes coros?
Eram, são, duas raparigas coradas e tranquilas (empregadas de escritório, disseram-mo depois), sob a sombra da asa dos caças a picarem, discutindo com os pára-quedistas no alto de um talude, na manhã da morte do soldado Luís. Inquietando-os, tentando explicar-lhes a sem-razão do seu acto inconscientemente contra-revolucionário, logo contra eles próprios.
--Vem, camarada--chamaram-me
A passagem para o RAL I estava aberta. Tinhamos sido dos primeiros a chegar. Depois, muitos, muitos mais vieram e desarmaram os olhos que apontavam, inutilizaram os canos das espingardas. A aliança MFA-Povo ainda era então sagrada.
Continua
Quelha Funda
Os coros. As árvores secas. Sacudo a gaiola onde um canário morreu. O extintor de incêndios jaz, partido e abandonado, no meio da rua.
Um homem espirra na atmosfera quente. Os rostos de indiferença. Assim vais, meu país reencontrado e perdido, meu país interior, meu país Portugal que nos rodeias, onde sou, onde somos, mesmo os que te conduzem à beira do precipício ou da glória, cabeças de alfinete sem valor, porque só a vontade do povo é a verdade--e ainda há povo que não sabe que tem vontade.
Que me lembram estes coros?
Eram, são, duas raparigas coradas e tranquilas (empregadas de escritório, disseram-mo depois), sob a sombra da asa dos caças a picarem, discutindo com os pára-quedistas no alto de um talude, na manhã da morte do soldado Luís. Inquietando-os, tentando explicar-lhes a sem-razão do seu acto inconscientemente contra-revolucionário, logo contra eles próprios.
--Vem, camarada--chamaram-me
A passagem para o RAL I estava aberta. Tinhamos sido dos primeiros a chegar. Depois, muitos, muitos mais vieram e desarmaram os olhos que apontavam, inutilizaram os canos das espingardas. A aliança MFA-Povo ainda era então sagrada.
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Quelha Funda
quarta-feira, 23 de junho de 2010
As Pombas São Vermelhas
Vasculhando nos velhos papeis e alguns livros, esquecidos num cartão, encontrei um livro de Urbano Tavares Rodrigues, editado em 1977, e que tem como título. «As Pombas São Vermelhas». Sabendo que Urbano não me levará a mal resolvi publicar, no meu blog, alguns dos textos. Começo hoje e procurarei publicar um por dia.
"Praia loira de trigo ainda arecolher. Os gestos novos, a vida nova nas cooperativas. É onde passo as férias, olhando o ceu de esmalte, desejando a chuva, temendo-a depois. Não há abrigo para os cereais, não há meta (ou não se avista na governação) para este espaço imenso, este deserto humanizado dos rurais alentejanos.
Alteia-se, apesar da quietude do ar, a albufeira da «Pedro Soares», onde ninguém toma banho. As moças ainda trajam de negro. Por dentro e por fora. Suados os corpos do trabalho, liquidados (?) os medos antigos, fresca, tão fresca a água guardada nas bilhas, e no frigorífico do monte, as excursões chegam, partem, deslizam pelas vidraças, pelos olhares sem espanto dos que estão, não chegam a tocar a pele das sobreiras nem a ternura da tarde asfixiante. São alemães, italianos, espanhois, com palavras políticas na boca. Falamos. Os camponeses apenas os observam.
Pergunto-me se sou «político». Não. «Político» profissional não sou nnem serei nunca. Escritor, sim. E, contudo, a Revolução é para mim mais importante do que a literatura.
Simultaniamente doloroso e exaltante é que nesta cooperativa--e noutras-- fala-se ainda a linguagem de Abril de 75. Há quem me diga que em Portugal só existem duas possibilidades: socialismo ou fascismo ( as técnicas sofisticadas da recuperação capitalista ficam para lá de Vendas Novas, para lá da «Sol Nascente», a anos de distância dos barrancos secos, das casas velhas, do caminho aos solavancos até aqui).
O discurso actual só chegou à vila. Aqui mói-se a esperança no moinho do trabalho (quase) feliz.
Quatro mil e quinhentos hectares de socialismo. Ainda.
Ajuda aí pá!
E eis-me a meter o ombro aos quarenta quilos de um saco de cevada-aveia. Um riso esguelhado, mas amigo, é o fruto do mau jeito que ganhei no pescoço. E que me aquece. Enfim, saio da ilha das palavras. Nem venerado nem excluido. Aqui o discurso de oh pá, tu pá, diz pá, eh pá vamos embora, a Revolução não espera--continua a ressoar. E as cigarras , os gafanhotos, as libélulas, tudo, todos me adoptaram, seres, coisas, olhos invisiveis que povoam os arredores do calor alentejano, o velho cão amarelento que me fareja, já familiar, os bonecos de louça dentro de casa, de pelico no pino do Verão, assim são os pastores...
Continua
Quelha Funda
"Praia loira de trigo ainda arecolher. Os gestos novos, a vida nova nas cooperativas. É onde passo as férias, olhando o ceu de esmalte, desejando a chuva, temendo-a depois. Não há abrigo para os cereais, não há meta (ou não se avista na governação) para este espaço imenso, este deserto humanizado dos rurais alentejanos.
Alteia-se, apesar da quietude do ar, a albufeira da «Pedro Soares», onde ninguém toma banho. As moças ainda trajam de negro. Por dentro e por fora. Suados os corpos do trabalho, liquidados (?) os medos antigos, fresca, tão fresca a água guardada nas bilhas, e no frigorífico do monte, as excursões chegam, partem, deslizam pelas vidraças, pelos olhares sem espanto dos que estão, não chegam a tocar a pele das sobreiras nem a ternura da tarde asfixiante. São alemães, italianos, espanhois, com palavras políticas na boca. Falamos. Os camponeses apenas os observam.
Pergunto-me se sou «político». Não. «Político» profissional não sou nnem serei nunca. Escritor, sim. E, contudo, a Revolução é para mim mais importante do que a literatura.
Simultaniamente doloroso e exaltante é que nesta cooperativa--e noutras-- fala-se ainda a linguagem de Abril de 75. Há quem me diga que em Portugal só existem duas possibilidades: socialismo ou fascismo ( as técnicas sofisticadas da recuperação capitalista ficam para lá de Vendas Novas, para lá da «Sol Nascente», a anos de distância dos barrancos secos, das casas velhas, do caminho aos solavancos até aqui).
O discurso actual só chegou à vila. Aqui mói-se a esperança no moinho do trabalho (quase) feliz.
Quatro mil e quinhentos hectares de socialismo. Ainda.
Ajuda aí pá!
E eis-me a meter o ombro aos quarenta quilos de um saco de cevada-aveia. Um riso esguelhado, mas amigo, é o fruto do mau jeito que ganhei no pescoço. E que me aquece. Enfim, saio da ilha das palavras. Nem venerado nem excluido. Aqui o discurso de oh pá, tu pá, diz pá, eh pá vamos embora, a Revolução não espera--continua a ressoar. E as cigarras , os gafanhotos, as libélulas, tudo, todos me adoptaram, seres, coisas, olhos invisiveis que povoam os arredores do calor alentejano, o velho cão amarelento que me fareja, já familiar, os bonecos de louça dentro de casa, de pelico no pino do Verão, assim são os pastores...
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Quelha Funda
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Política e Religião
A Nova Teocracia do Dinheiro
Roubar aos pobres para dar aos ricos. Obediência ou morte...
Os tecnocratas do grande capital estão cheios de dinheiro e de problemas que não conseguem resolver. Inventaram, no tempo, uma vasta gramática de utopias e de mentiras e agora, perante uma situação extrema e quase desesperada, compreendem que o arsenal de palavras de que dispõem mesmo assim não chega. É preciso ir mais além. Fazer em contra-mão os percursos da história e recuperar estratégias já esquecidas e cujas raízes mergulham nos terrores metafísicos de outrora, nas guerras imperiais de expansão ou nos jogos de palavras que determinaram anteriormente a sujeição ou a impunidade dos homens. Palavras cujo conteúdo se esgotou e agora permanecem em repouso na linguagem dos homens, apenas como símbolos. Todas elas fizeram sentido no passado, no quadro de totalidades que foram depois ultrapassadas.
Os tecnocratas bem sabem que tudo isto é verdade. Têm presente, entretanto, que o engano das palavras também pouco dura. É preciso renovar a mentira dando-lhe outras formas e outros volumes. Banindo escrúpulos e transportando mecanicamente o passado para o presente. Mudando precipitadamente, de modo a não deixar espaço para pensar. É o que se está a passar em Portugal. Foi impossível silenciar a crise – económica, financeira, social e política: uma crise global. Criou-se então o mito do «antes» e do «depois» da crise. Antes, a única receita pública que conduziria à felicidade dos povos passava pela destruição do Estado patrão e pela liberalização total dos jogos da concorrência. Veio a crise (causada pelas leis imprevisíveis da história) e tudo se inverteu. O que agora se torna necessidade urgente e obrigatória, para «salvar a Pátria», é retomar os ritmos do século XVIII, repor no trono um Estado encabeçado por um «Rei Sol», desculpabilizar os crimes económicos e promover uma corte revestida a oiro.
Dizia Albert Mathiez na sua Revolução Francesa: «Para dominar a crise que se anunciava teria sido necessário ter, à cabeça da monarquia, um rei. Houve apenas Luís XVI!». E nós temos Sócrates, um pretendente a Rei Sol. Parece de opereta mas a situação com que nos deparamos é extremamente séria, a exigir de todos nós – trabalhadores e esmagadora maioria do povo – coragem, desassombro, capacidade de sacrifício e poder de luta.
O que torna os povos invencíveis perante a tirania é a sua capacidade de justa medida e o seu poder de analisar os verdadeiros riscos. Sabemos, por exemplo, que o inimigo é poderoso mas não tanto como pretende fazer crer. Os liberais e os seus aliados apoderaram-se do poder mas veja-se a que estado de ruína conduziram Portugal. Sem crédito, já, junto das populações, procuram agora impor-se pela autoridade, «puxar pelos galões», explicar que apenas estão a obedecer às ordens da Internacional do Dinheiro e que nada resta fazer senão rendermo-nos. E que este comportamento de bons alunos nos valerá as bênçãos do Papa e dos mais altos patrões. Mas – acrescentam – para chegarmos a este estado de beatitude o povo precisa de aceitar sacrifícios, comprimente. O desemprego, sem ressentimentos. Os aumentos dos preços, com compreensão. Os cortes orçamentais na saúde, no ensino, na segurança social, percebendo que tudo isto concorre para maior glória da Pátria. É neste sentido que Sócrates e os seus ministros falam do povo, a «bem» mas sem mostrarem os dentes. Se o povo não quiser, que não queira, muito bem... Mas o poder legitimado nas urnas, com largas maiorias parlamentares asseguradas, tão bem visto que quase sempre ganha nos tribunais – o poder dito democrático – está solidamente nas suas mãos. Em caso de desobediência popular – declaram os ministros – é sempre possível o recurso às forças da ordem, tudo em defesa dos direitos democráticos do povo!...
Mas o povo português, tal como os outros povos, não teme as ameaças quando está seguro e certo dos riscos que deve enfrentar. Lutou antes e depois do 25 de Abril, ganhou e foi vencido. Sabe que a verdadeira democracia não se decalca nas sebentas mas é sacrificadamente construída – gota a gota, pulso a pulso – nas ruas, nos campos, nos mares, nas fábricas, nas oficinas nas escolas e nas universidades. A Democracia é o poder do Povo e este a maior força do Universo.
Jorge Messias (Jornal Avante)
Roubar aos pobres para dar aos ricos. Obediência ou morte...
Os tecnocratas do grande capital estão cheios de dinheiro e de problemas que não conseguem resolver. Inventaram, no tempo, uma vasta gramática de utopias e de mentiras e agora, perante uma situação extrema e quase desesperada, compreendem que o arsenal de palavras de que dispõem mesmo assim não chega. É preciso ir mais além. Fazer em contra-mão os percursos da história e recuperar estratégias já esquecidas e cujas raízes mergulham nos terrores metafísicos de outrora, nas guerras imperiais de expansão ou nos jogos de palavras que determinaram anteriormente a sujeição ou a impunidade dos homens. Palavras cujo conteúdo se esgotou e agora permanecem em repouso na linguagem dos homens, apenas como símbolos. Todas elas fizeram sentido no passado, no quadro de totalidades que foram depois ultrapassadas.
Os tecnocratas bem sabem que tudo isto é verdade. Têm presente, entretanto, que o engano das palavras também pouco dura. É preciso renovar a mentira dando-lhe outras formas e outros volumes. Banindo escrúpulos e transportando mecanicamente o passado para o presente. Mudando precipitadamente, de modo a não deixar espaço para pensar. É o que se está a passar em Portugal. Foi impossível silenciar a crise – económica, financeira, social e política: uma crise global. Criou-se então o mito do «antes» e do «depois» da crise. Antes, a única receita pública que conduziria à felicidade dos povos passava pela destruição do Estado patrão e pela liberalização total dos jogos da concorrência. Veio a crise (causada pelas leis imprevisíveis da história) e tudo se inverteu. O que agora se torna necessidade urgente e obrigatória, para «salvar a Pátria», é retomar os ritmos do século XVIII, repor no trono um Estado encabeçado por um «Rei Sol», desculpabilizar os crimes económicos e promover uma corte revestida a oiro.
Dizia Albert Mathiez na sua Revolução Francesa: «Para dominar a crise que se anunciava teria sido necessário ter, à cabeça da monarquia, um rei. Houve apenas Luís XVI!». E nós temos Sócrates, um pretendente a Rei Sol. Parece de opereta mas a situação com que nos deparamos é extremamente séria, a exigir de todos nós – trabalhadores e esmagadora maioria do povo – coragem, desassombro, capacidade de sacrifício e poder de luta.
O que torna os povos invencíveis perante a tirania é a sua capacidade de justa medida e o seu poder de analisar os verdadeiros riscos. Sabemos, por exemplo, que o inimigo é poderoso mas não tanto como pretende fazer crer. Os liberais e os seus aliados apoderaram-se do poder mas veja-se a que estado de ruína conduziram Portugal. Sem crédito, já, junto das populações, procuram agora impor-se pela autoridade, «puxar pelos galões», explicar que apenas estão a obedecer às ordens da Internacional do Dinheiro e que nada resta fazer senão rendermo-nos. E que este comportamento de bons alunos nos valerá as bênçãos do Papa e dos mais altos patrões. Mas – acrescentam – para chegarmos a este estado de beatitude o povo precisa de aceitar sacrifícios, comprimente. O desemprego, sem ressentimentos. Os aumentos dos preços, com compreensão. Os cortes orçamentais na saúde, no ensino, na segurança social, percebendo que tudo isto concorre para maior glória da Pátria. É neste sentido que Sócrates e os seus ministros falam do povo, a «bem» mas sem mostrarem os dentes. Se o povo não quiser, que não queira, muito bem... Mas o poder legitimado nas urnas, com largas maiorias parlamentares asseguradas, tão bem visto que quase sempre ganha nos tribunais – o poder dito democrático – está solidamente nas suas mãos. Em caso de desobediência popular – declaram os ministros – é sempre possível o recurso às forças da ordem, tudo em defesa dos direitos democráticos do povo!...
Mas o povo português, tal como os outros povos, não teme as ameaças quando está seguro e certo dos riscos que deve enfrentar. Lutou antes e depois do 25 de Abril, ganhou e foi vencido. Sabe que a verdadeira democracia não se decalca nas sebentas mas é sacrificadamente construída – gota a gota, pulso a pulso – nas ruas, nos campos, nos mares, nas fábricas, nas oficinas nas escolas e nas universidades. A Democracia é o poder do Povo e este a maior força do Universo.
Jorge Messias (Jornal Avante)
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