Texto de Urbano Tavares Rodrigues
Carta Anónima Recebida por Maria Virgínia
" Escrevo-lhe estas laudas com o respeito cempre testemonho a uma senhora embora você nam seja uma senhora nenada que se pareça com isso tenho-me dado munto bem comta das suas maningâncias no Laboratório onde se fasem peditórios pera comprar tratores e para os bandidos do Alentejo fique sabendo que eu sou um trabalhador tanto ou más que você estive imigrado e ajuntei uns cobres comprei uns prediositos que até chegaram a ser ocupados por causa desses miseráveis desses traidores vendilhões da pátria que puseram isto a saque e agora Portugal está tão derrastos que já nem me aceitam na França veja lá você sua comunista sua puta o que ganhámos com tanto palavriado. A liberdade meta-a no cu e limpe o rabo ao 25 deAbril sua desavergonhada háde pagá-las todas você e os seus camaradas da porra que deram cabo desta terra. Se julga que lá por andar de calças manda paraí alguma coisa está bem enganada que isto vai entrar mesmo nos eichos e o papel de uma mulher a serio não é assubir pracima das mesas e descursar. Nam custa adevinhar que você nem sabe temperar um caldo sua matrafona de mamas à mostra quer um conselho vá-se foder".
(Um português patriota)
"Quantas Marias Virgínias haverá no distrito da Guarda? Tenho um nome cem por cento beirão. Pertenço a uma família burguesa e conservadora. Todos são hoje lá em casa CDS menos eu. Enquanto as minhas irmãs faziam licores e casaquinhos de malha eu subia às arvores, jogava à pedrada com os pastorinhos, que me ensinavam a lidar com as ovelhas, e tirava dezoitos nos exames. Por isso o meu pai me tratava como a um rapaz, pesava-lhe não ter um filho varão e eu era quase o mesmo pela força da inteligência e pela agilidade do corpo, cabelo tosquiado, ancas escorridas, canela fina como a das cabrinhas da serra. «Dava-me» a liberdade que eu, de toda a maneira, teria exigido e conquistado, enquanto as manas, ladeavam os interditos, para namorarem.
Vim para Lisboa estudar (que entusiasmo ao pricípio) e nada me era vedado, até que chumbei no segundo ano de medicina e resolvi empregar-me no Laboratório, o que me levou depois a optar pelo curso se analista. A partir daí, caramba, que mudança!, o pai deixou de me ligar importância, era como se fosse um cão, uma coisa atirada para um canto. Um projecto frustrado.
Até que lhe dei um neto, o primeiro, o ùnico macho; as minhas irmãs, apesar de serem muito femininas e de terem a bacia larga, só pariam fêmeas, como ele dizia. Daí em diante voltou a considerar-me. Mas o estatuto é outro. Tanto que é com o meu marido que ele fala de tustas e de terras, e o pobre do Quim ouve-o com toda a atenção, alem do mais é advogado, até lhe podia dar os chamados bons conselhos, se não fosse, como eu, alérgico à ambição. Chego ao telefone, é o pai a falar-me da Guarda e logo a seguir ao boa noite, filha , como estão vocês?, a despachar, «passas-me o teu marido, fazes favor». Quando é que ele perceberá que eu não tenho dono?
E para aqui estou a receber cartas anónimas à razão de duas por semana; Ao princípio até me divertia, agora já só me mete nojo, será que dão tantos erros de ortografia de propósito? Talvez não, a imprensa reacionária também é escrita com os pés. Sempre foi apanágio da burguesia das altas coroas em Portugal competir em ignorância com o Sr Pancrácio da mercearia da esquina, que é também do CDS, valha-nos Santa Bárbara, e com os novos brasileiros da França, que pouco têm a ver com os emigrantes por quem lutamos e que lutam connosco, embora eu possa, evidentemente, compreender o egoísmo dos «self made men», tal como compreendo tudo o que é humano.
Opção de classe, opção ideológica, sim, eu fiz a minha, fi-la até quando era mais duro e mais difícil, mas tenho necessariamente vivências burguesas e nestes tempos de assanhadas contradições, às vezes desoriento-me e sofro, sobretudo quando sou apedrejada, é modo de dizer, claro, por esres pequenos-burgueses de fresca data que vieram de baixo, da terra mais escura, e pagam os seus prédios com mãos calejadas. A minha força são os operários químicos e as operárias com quem convivo. Mesmo quando me dizem a rir «eu sou mais comunista do que você, camarada» (pedi-lhes que não me tratassem por doutora), fico satisfeita, acho que estes é que estão certos".
Continua
Quelha Funda
quarta-feira, 30 de junho de 2010
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