Respingos de um livro
O ultimo livro de Alain Badiou, "O Reveil De L'Histoire", Põe no seu preâmbulo questões que não
podem deixar-nos indiferentes. Elas são de actualidade e se ele se dirige mais ao seu país, a França, não deixa de incluir a Europa e por isso Portugal. Por esta razão decidi publicar alguns extratos com a esperança que eles sejam lidos por alguns amigos e não só.
Alain Badiou se interroga: O que se passa? O´que é que nos está acontecendo? Do que estamos a ser testemunhas meio fascinados, meio devastados? Continuação de um mundo fatigado? Crise benéfica do mesmo mundo, na procura do seu vitorioso alargamento? Fim desse mundo? Começo de um outro mundo? O que é que nos acontece, no começo de um novo século que parece não ter um nome claro dentro de alguma língua tolerada?
Consultamos nossos mestres: Banqueiros discretos , tenores mediáticos, gente incerta de grandes comissões, porta-vozes da "comunidade internacional" presidentes ricalhaços, novos filósofos, professores de fábricas e de domínios, homens da bolsa e dos concelhos de administração, políticos faladores da oposição, notáveis da cidade e da província, economistas do crescimento, sociólogos da cidadania, experto de crises em toda a espécie, profetas da "guerra das civilizações", grandes chefes da polícia, da justiça e da "penitência",avaliadores de benefícios, calculadores dos rendimentos, editariolistas de jornais, diretores de recursos humanos, gente que não são por eles mesmo gente de pouco, gente que não devemos ter por gente de nada. Que dizem eles, todos estes dirigentes, todos estes fazedores de opinião, todos estes responsáveis, todos estes "apanha-migalhas"?
Todos eles dizem que o mundo muda a uma velocidade vertiginosa, e que por isso, para evitar a ruína ou a morte (para eles, é a mesma coisa), temos de nos adaptar a essa mudança, ou não ser mais, dentro de tal mundo, que a sombra de nós mesmo. Que nos devemos adaptar energicamente, aceitando sem hesitação os sofrimentos inevitáveis,dentro da "modernização Incessante). É preciso, dizem eles, visto o terrível mundo concurrencial que todos os dias nos desafia, subir os escarpados obstáculos Dos montes da produção, da redução dos orçamentos, da inovação tecnológica, da boa saúde dos nossos bancos e harmonizar o trabalho. Toda a concorrência é desportiva nos seus princípios: nós devemos, para tudo resumir, participar à ultima escapada ao lado dos campeões do momento (um ás alemão, um outsider tailandês, um veterano britânico, um novo chinês, sem contar com o sempre vigoroso Yankee não mais ficar-mos em fim do pelotão. para isso, toda a gente deve pedalar: modernizar,reformar, mudar!
Rompamos com a rotina! Abaixo os arcaísmos! Temos que mudar.
Mas Mudar o quê? se a mudança deve ser permanente, a sua direção, parece ser constante.Convém de tomar de urgência toas as medidas que a conjuntura nos impõe para que os ricos continuem a se enriquecer continuando a pagar menos impostos; que os efectivos das empresas sejam diminuídos à causa de licenciamentos e de planos sociais; que tudo o que é público seja privatizado contribuindo assim,não ao bem público mas à riqueza dos ricos e dos meios ricos que, formando a barreira de segurança, são um apoio sempre prontos a servir a oligarquia financeira.
É esta a verdadeira linha da mudança, a actualidade da reforma, a dimensão concreta da modernização. É isto para os mestres a lei do mundo.
Quelha Funda
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Política e Religião
O Vaticano e a acumulação da riqueza (2)
«A Doutrina Social da Igreja sustentou sempre que a distribuição equitativa dos bens é prioritária. O lucro é legítimo na justa medida em que for necessário ao desenvolvimento económico. O Capitalismo não é o único modelo válido de organização económica» (João Paulo II, «Centesimus Annus»).
«Sou culpado por ter silenciado covardemente no tempo em que deveria ter falado. Sou culpado de hipocrisia e de infidelidade perante a força. Falhei na compaixão tendo negado os mais humildes dos nossos irmãos ...» (Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano, depois enforcado com cordas de piano pelos nazis, 1945).
«Toda a História, desde a dissolução da antiquíssima posse comum do solo, tem sido uma história de lutas de classes; lutas entre classes exploradas e exploradoras, dominadas e dominantes, em diversos estádios de desenvolvimento social. Esta luta, porém, atingiu agora um nível em que a classe explorada e oprimida (o proletariado) já não se pode libertar da classe exploradora e opressora (a burguesia) sem simultaneamente libertar para sempre toda a sociedade da exploração, da opressão e das próprias lutas de classes» (Friederich Engels, «Manifesto», 1833).
A «camisa de onze varas» em que o capitalismo se meteu é a mesma que imobiliza o Vaticano. O neocapitalismo gerou dinheiro mas destruiu o produto e desmantelou o aparelho social. A Igreja enriqueceu desmedidamente mas apagou a sua identidade, aquela que motivava o seu clero e unia o seu rebanho. Trocou valores como a fé ou o mito por metal bem sonante. Hoje, olha-se para ela e bem pode dizer-se: «o rei vai nu».
Chovem as provas do seu apetite voraz.
A rede de bancos e off-shores que o Vaticano domina, os escândalos que o enlameiam, as ligações que a solidariedade oculta, as contas públicas que se nega a prestar, o seu envolvimento em negócios escuros, etc., etc. O pouco que se sabe deixa calcular o muito que continua oculto.
A matéria daria para um tratado. Só de passagem, recordemos apenas casos falados recentemente: o novo escândalo do IOR – Instituto das Obras Religiosas com monumentais lavagens de dinheiro que a polícia italiana continua a investigar; os crimes de abuso sexual de menores detectados um pouco por toda a parte e que envolvem exclusivamente padres e seminaristas católicos; a descoberta que se fez de que a segunda maior editora alemã de livros pornográficos – a PORNO – afinal, pertence ao Vaticano; só em 2010, o negócio rendeu mais de 1,6 biliões de euros! As ligações de IPSS com os mercados. Etc., etc.
Nada disto causa espanto no mundo dos monopólios capitalistas. Todos eles também guardam na gaveta crimes semelhantes ou mais tenebrosos. Porém, em relação à Igreja, a santidade representava o seu capital social. E este está definitivamente perdido.
Portanto, no plano ideológico a Igreja vai-se apagando. O mesmo não acontece nas áreas política e financeira onde o Vaticano se encontra solidamente instalado e em ascensão. Combina expedientes e formas de pressão à sua vontade, sobretudo nos estados onde mantém concordatas. Mas de outros modos também.
Menciona-se, a propósito destas técnicas de expansão, um dos trunfos ocultos do papado, citado como o Crown ou «Coroa do Vaticano». Trata-se de uma estrutura subterrânea constituída pelos representantes das doze mais ricas famílias do mundo – os Rotschild, Astor, Bundy, Collins, Du Pont, Freeman, Kennedy, Li, Onassis, Rockefeller, Russel e Van Duyn. Junte-se a este monumental bloco o secreto «Óbolo de S.Pedro», saco sem fundo que só o papa conhece e gere, e teremos uma vaga ideia do poder do Vaticano nas políticas mundiais e na distribuição desigual da riqueza. Outras 300 famílias multimilionárias mantêm-se na sombra do papa, sempre disponíveis para qualquer intervenção. É o corpo dos «iluminados» (os «illuminati») força à qual em breve nos voltaremos a referir.
Não espanta, por isso, que o capitalismo actual se cruze constantemente com os interesses da Igreja. Todo o mundo bolsista e milionário; político e argentário; eclesiástico e especulador, está mobilizado para a destruição do Estado social e das estruturas democráticas e para a recolha de todo o dinheiro deixado sem dono pela acção governativa. Destruir as conquistas históricas dos cidadãos e amoldar os homens aos interesses do grande capital são os seus verdadeiros objectivos.
Só os conseguirão alcançar se virarmos a cara à luta.
Jorge Messias ( Jornal Avante )
«A Doutrina Social da Igreja sustentou sempre que a distribuição equitativa dos bens é prioritária. O lucro é legítimo na justa medida em que for necessário ao desenvolvimento económico. O Capitalismo não é o único modelo válido de organização económica» (João Paulo II, «Centesimus Annus»).
«Sou culpado por ter silenciado covardemente no tempo em que deveria ter falado. Sou culpado de hipocrisia e de infidelidade perante a força. Falhei na compaixão tendo negado os mais humildes dos nossos irmãos ...» (Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano, depois enforcado com cordas de piano pelos nazis, 1945).
«Toda a História, desde a dissolução da antiquíssima posse comum do solo, tem sido uma história de lutas de classes; lutas entre classes exploradas e exploradoras, dominadas e dominantes, em diversos estádios de desenvolvimento social. Esta luta, porém, atingiu agora um nível em que a classe explorada e oprimida (o proletariado) já não se pode libertar da classe exploradora e opressora (a burguesia) sem simultaneamente libertar para sempre toda a sociedade da exploração, da opressão e das próprias lutas de classes» (Friederich Engels, «Manifesto», 1833).
A «camisa de onze varas» em que o capitalismo se meteu é a mesma que imobiliza o Vaticano. O neocapitalismo gerou dinheiro mas destruiu o produto e desmantelou o aparelho social. A Igreja enriqueceu desmedidamente mas apagou a sua identidade, aquela que motivava o seu clero e unia o seu rebanho. Trocou valores como a fé ou o mito por metal bem sonante. Hoje, olha-se para ela e bem pode dizer-se: «o rei vai nu».
Chovem as provas do seu apetite voraz.
A rede de bancos e off-shores que o Vaticano domina, os escândalos que o enlameiam, as ligações que a solidariedade oculta, as contas públicas que se nega a prestar, o seu envolvimento em negócios escuros, etc., etc. O pouco que se sabe deixa calcular o muito que continua oculto.
A matéria daria para um tratado. Só de passagem, recordemos apenas casos falados recentemente: o novo escândalo do IOR – Instituto das Obras Religiosas com monumentais lavagens de dinheiro que a polícia italiana continua a investigar; os crimes de abuso sexual de menores detectados um pouco por toda a parte e que envolvem exclusivamente padres e seminaristas católicos; a descoberta que se fez de que a segunda maior editora alemã de livros pornográficos – a PORNO – afinal, pertence ao Vaticano; só em 2010, o negócio rendeu mais de 1,6 biliões de euros! As ligações de IPSS com os mercados. Etc., etc.
Nada disto causa espanto no mundo dos monopólios capitalistas. Todos eles também guardam na gaveta crimes semelhantes ou mais tenebrosos. Porém, em relação à Igreja, a santidade representava o seu capital social. E este está definitivamente perdido.
Portanto, no plano ideológico a Igreja vai-se apagando. O mesmo não acontece nas áreas política e financeira onde o Vaticano se encontra solidamente instalado e em ascensão. Combina expedientes e formas de pressão à sua vontade, sobretudo nos estados onde mantém concordatas. Mas de outros modos também.
Menciona-se, a propósito destas técnicas de expansão, um dos trunfos ocultos do papado, citado como o Crown ou «Coroa do Vaticano». Trata-se de uma estrutura subterrânea constituída pelos representantes das doze mais ricas famílias do mundo – os Rotschild, Astor, Bundy, Collins, Du Pont, Freeman, Kennedy, Li, Onassis, Rockefeller, Russel e Van Duyn. Junte-se a este monumental bloco o secreto «Óbolo de S.Pedro», saco sem fundo que só o papa conhece e gere, e teremos uma vaga ideia do poder do Vaticano nas políticas mundiais e na distribuição desigual da riqueza. Outras 300 famílias multimilionárias mantêm-se na sombra do papa, sempre disponíveis para qualquer intervenção. É o corpo dos «iluminados» (os «illuminati») força à qual em breve nos voltaremos a referir.
Não espanta, por isso, que o capitalismo actual se cruze constantemente com os interesses da Igreja. Todo o mundo bolsista e milionário; político e argentário; eclesiástico e especulador, está mobilizado para a destruição do Estado social e das estruturas democráticas e para a recolha de todo o dinheiro deixado sem dono pela acção governativa. Destruir as conquistas históricas dos cidadãos e amoldar os homens aos interesses do grande capital são os seus verdadeiros objectivos.
Só os conseguirão alcançar se virarmos a cara à luta.
Jorge Messias ( Jornal Avante )
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Política e Religião
Um manual do crime impune
«A Igreja não é uma grande empresa porque a Igreja tem uma desmultiplicação de pessoas jurídicas. Cada uma dessas entidades é uma empresa pequena. O elo entre todas elas é a Igreja como comunhão. Houve outros países que cometeram o erro de concentrar tudo na personalidade jurídica da diocese …» (Cardeal-patriarca, D. José Policarpo em entrevista ao Diário de Notícias, Dezembro de 2011).
«As Misericórdias, as IPSS, os Centros Sociais, representam uma panóplia muito pesada para nós. Esse tecido empresarial está a actuar já neste momento. São instituições que subsistem porque têm tido um apoio estruturado e negociado com o Ministério da Segurança Social e … bem! O Estado tem consciência de que através das nossas instituições presta um serviço público mais barato com grande qualidade humana e espiritual e, hoje, até técnica. A ajuda do Estado, neste momento, não oferece, quanto a mim, razão de queixa. A única coisa que está a acontecer é que não abre a novas frentes!» (idem, ibidem).
Passagens da Constituição da República Portuguesa: «É tarefa fundamental do Estado… promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses... mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais – Art. 9.º; as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado - Art. 41.º; incumbe prioritariamente ao Estado...orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos – Art. 64º »
Numa recente entrevista do cardeal-patriarca de Lisboa, o mais elevado membro da hierarquia católica reconheceu implicitamente um facto evidente mas até aqui deliberadamente ignorado pelo clero: a Igreja amolda-se aos gostos dos mercados. Como empresa capitalista, entra nos negócios correntes para garantir a ampliação dos seus lucros e uma maior penetração na sociedade; sob diferentes capas instala em todos os sectores sociais redes de malha fina cada vez mais extensas e diversificadas que obedecem cegamente às orientações centrais do Vaticano.
Pelo menos, bispos e cardeais esperam que assim seja. Para se justificarem, defendem a tese de que apoiar os ricos é beneficiar os pobres. Mesmo sabendo que é caricatural a noção de caridade que a Igreja propõe como substituto das funções do Estado social.
Portugal tem 89 mil quilómetro de superfície, 11 milhões de habitantes e 20 dioceses que albergam 4364 paróquias. As IPSS são mais de 3000. Lares e pontos de abrigo, para lá dos 2000. As Misericórdias gerem cerca 400 hospitais e centros de Saúde. Mas não é só em Portugal que isto acontece. Se quisessem falar, os multimilionários de Bilderberg muito teriam para contar. E se o discurso papal fosse «sim, sim; não, não», então o povo veria claro nas trevas das concordatas, das sociedades secretas e dos off-shores...
No plano social, com um governo português como este, a Igreja parece imparável mas não é tanto assim. Há IPSS que funcionam só no papel e também muita corrupção no meio de tudo isto. As instituições «não lucrativas» associam-se a «lobies» lucrativos e a breve trecho já ninguém sabe onde «a terra acaba e o mar começa». As tais «empresas pequenas» de que se gaba D. José infiltram-se no SNS com as suas parapúblicas destinadas a criar e a sonegar novos lucros mas os resultados são insuficientes. A nível administrativo – onde as instituições privadas preferencialmente se instalam – na Saúde aumentam os défices, os dinheiros mal parados e a luta pelo poder. Com «cortes sobre cortes» e com a crescente exploração do trabalho, escasseia o pessoal médico e paramédico e degrada-se a qualidade anteriormente reconhecia ao sector. Há hospitais que encerram enquanto outros aguardam a sua vez ou são «oferecidos» à Igreja por um governo para o qual a Constituição não existe. As «taxas» agora estabelecidas para a prestação de serviços do SNS rivalizam com os das clínicas privadas quando, constitucionalmente, seria dever do Estado pagá-los com o dinheiro das contribuições normais dos cidadãos.
Cá fora, nos hospitais estatais que restam, vão acumular-se os jovens, os velhos e os pobres. Como gado. Como nos tempos de Salazar. Como quando a vida dos indefesos dependia dos caprichos da Virgem de Fátima.
A situação social dos portugueses é já uma ruína. Miséria crescente. Até que os pobres deixem de consentir nestes jogos de salão e façam escutar a sua voz.
Mesmo que outros a não queiram ouvir.
Jorge Messias (Jornal Avante)
«A Igreja não é uma grande empresa porque a Igreja tem uma desmultiplicação de pessoas jurídicas. Cada uma dessas entidades é uma empresa pequena. O elo entre todas elas é a Igreja como comunhão. Houve outros países que cometeram o erro de concentrar tudo na personalidade jurídica da diocese …» (Cardeal-patriarca, D. José Policarpo em entrevista ao Diário de Notícias, Dezembro de 2011).
«As Misericórdias, as IPSS, os Centros Sociais, representam uma panóplia muito pesada para nós. Esse tecido empresarial está a actuar já neste momento. São instituições que subsistem porque têm tido um apoio estruturado e negociado com o Ministério da Segurança Social e … bem! O Estado tem consciência de que através das nossas instituições presta um serviço público mais barato com grande qualidade humana e espiritual e, hoje, até técnica. A ajuda do Estado, neste momento, não oferece, quanto a mim, razão de queixa. A única coisa que está a acontecer é que não abre a novas frentes!» (idem, ibidem).
Passagens da Constituição da República Portuguesa: «É tarefa fundamental do Estado… promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses... mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais – Art. 9.º; as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado - Art. 41.º; incumbe prioritariamente ao Estado...orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos – Art. 64º »
Numa recente entrevista do cardeal-patriarca de Lisboa, o mais elevado membro da hierarquia católica reconheceu implicitamente um facto evidente mas até aqui deliberadamente ignorado pelo clero: a Igreja amolda-se aos gostos dos mercados. Como empresa capitalista, entra nos negócios correntes para garantir a ampliação dos seus lucros e uma maior penetração na sociedade; sob diferentes capas instala em todos os sectores sociais redes de malha fina cada vez mais extensas e diversificadas que obedecem cegamente às orientações centrais do Vaticano.
Pelo menos, bispos e cardeais esperam que assim seja. Para se justificarem, defendem a tese de que apoiar os ricos é beneficiar os pobres. Mesmo sabendo que é caricatural a noção de caridade que a Igreja propõe como substituto das funções do Estado social.
Portugal tem 89 mil quilómetro de superfície, 11 milhões de habitantes e 20 dioceses que albergam 4364 paróquias. As IPSS são mais de 3000. Lares e pontos de abrigo, para lá dos 2000. As Misericórdias gerem cerca 400 hospitais e centros de Saúde. Mas não é só em Portugal que isto acontece. Se quisessem falar, os multimilionários de Bilderberg muito teriam para contar. E se o discurso papal fosse «sim, sim; não, não», então o povo veria claro nas trevas das concordatas, das sociedades secretas e dos off-shores...
No plano social, com um governo português como este, a Igreja parece imparável mas não é tanto assim. Há IPSS que funcionam só no papel e também muita corrupção no meio de tudo isto. As instituições «não lucrativas» associam-se a «lobies» lucrativos e a breve trecho já ninguém sabe onde «a terra acaba e o mar começa». As tais «empresas pequenas» de que se gaba D. José infiltram-se no SNS com as suas parapúblicas destinadas a criar e a sonegar novos lucros mas os resultados são insuficientes. A nível administrativo – onde as instituições privadas preferencialmente se instalam – na Saúde aumentam os défices, os dinheiros mal parados e a luta pelo poder. Com «cortes sobre cortes» e com a crescente exploração do trabalho, escasseia o pessoal médico e paramédico e degrada-se a qualidade anteriormente reconhecia ao sector. Há hospitais que encerram enquanto outros aguardam a sua vez ou são «oferecidos» à Igreja por um governo para o qual a Constituição não existe. As «taxas» agora estabelecidas para a prestação de serviços do SNS rivalizam com os das clínicas privadas quando, constitucionalmente, seria dever do Estado pagá-los com o dinheiro das contribuições normais dos cidadãos.
Cá fora, nos hospitais estatais que restam, vão acumular-se os jovens, os velhos e os pobres. Como gado. Como nos tempos de Salazar. Como quando a vida dos indefesos dependia dos caprichos da Virgem de Fátima.
A situação social dos portugueses é já uma ruína. Miséria crescente. Até que os pobres deixem de consentir nestes jogos de salão e façam escutar a sua voz.
Mesmo que outros a não queiram ouvir.
Jorge Messias (Jornal Avante)
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Uma carta
Carta ao Primeiro Ministro Portugues
Aconselho vivamente a leitura desta carta, que está a fazer furor na internet...
Devem ler tudo, mas não percam, particularmente, os parágrafos destacados no final:
Exmo Senhor Primeiro Ministro
Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim.
Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome “de guerra”. Basilio é o apelido pelo
qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo
amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.
Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos.
Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo
porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer,
de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o
tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de
deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e
desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar
e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz
por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não
estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do
país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o
fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava
porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao
regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o
nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.
Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina
exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano:
17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do
que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso.
Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi
intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura
dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios,
desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de
muito do que tinha aprendido.
Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida.
Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais.
Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a
minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de
trabalho. “És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui
dentro.” – disseram-me – “Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado
alto na redacção”. Fiquei.
Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o
desemprego. “Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo,
arranjarei trabalho num instante”. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade.
Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não
fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu
dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira
‘congelada’. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista,
tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três
línguas, duas das quais como “nativa”. Tinha como ordenado ‘fixo’ 485 euros x 7
meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi
preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O
meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas…
Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio.
Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a
besta. Conheci o desespero. Conheci – felizmente! – também outras pessoas que
partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era
minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.
Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho
a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da
Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de
uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas
filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para
conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a
assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa.
Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim,
tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem,
senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais
uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos
verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras
tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos
em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua
vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de
três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito
pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.
Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de
coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil
euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do
meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana.
Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que
fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu
trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me
custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiroministro,
por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em
aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes
públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma
inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor
primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar…
Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe
o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor.
Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor
do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não
falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a
utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o
senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus
governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que
penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que
nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu
país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já
agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me
pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus
interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale
enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que
não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha
comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais
valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores
condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros –
valores: um ser humano em formação.
Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa.
Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito
mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e
não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente
menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu
bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das
minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu
excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você,
senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala
lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiroministro,
para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros
dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.
Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal
OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro
… e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus
Myriam Zaluar, 19/12/2011
Aconselho vivamente a leitura desta carta, que está a fazer furor na internet...
Devem ler tudo, mas não percam, particularmente, os parágrafos destacados no final:
Exmo Senhor Primeiro Ministro
Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim.
Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome “de guerra”. Basilio é o apelido pelo
qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo
amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.
Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos.
Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo
porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer,
de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o
tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de
deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e
desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar
e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz
por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não
estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do
país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o
fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava
porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao
regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o
nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.
Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina
exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano:
17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do
que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso.
Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi
intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura
dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios,
desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de
muito do que tinha aprendido.
Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida.
Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais.
Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a
minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de
trabalho. “És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui
dentro.” – disseram-me – “Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado
alto na redacção”. Fiquei.
Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o
desemprego. “Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo,
arranjarei trabalho num instante”. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade.
Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não
fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu
dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira
‘congelada’. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista,
tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três
línguas, duas das quais como “nativa”. Tinha como ordenado ‘fixo’ 485 euros x 7
meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi
preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O
meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas…
Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio.
Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a
besta. Conheci o desespero. Conheci – felizmente! – também outras pessoas que
partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era
minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.
Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho
a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da
Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de
uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas
filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para
conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a
assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa.
Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim,
tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem,
senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais
uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos
verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras
tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos
em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua
vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de
três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito
pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.
Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de
coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil
euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do
meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana.
Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que
fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu
trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me
custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiroministro,
por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em
aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes
públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma
inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor
primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar…
Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe
o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor.
Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor
do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não
falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a
utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o
senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus
governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que
penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que
nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu
país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já
agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me
pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus
interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale
enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que
não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha
comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais
valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores
condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros –
valores: um ser humano em formação.
Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa.
Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito
mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e
não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente
menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu
bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das
minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu
excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você,
senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala
lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiroministro,
para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros
dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.
Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal
OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro
… e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus
Myriam Zaluar, 19/12/2011
Subscrever:
Mensagens (Atom)