quinta-feira, 29 de julho de 2010

Política

A Matéria e os Materialistas ( De Gorges Politzer)

I. — O que é a matéria?
Importância da pergunta. Cada vez que temos um problema a resolver, devemos pôr as perguntas
bem claramente. Com efeito, aqui, não é tão simples dar uma resposta satisfatória. Para conseguir
isso, devemos fazer uma teoria da matéria.
Em geral, as pessoas pensam que a matéria é o que pode ser tocado, o que é resistente e duro. Na
antiguidade grega, era assim que se definia a matéria.
Hoje, sabemos, graças às ciências, que isso não é exacto.
II. — Teorias sucessivas da matéria.
(O nosso objectivo é passar em revista, o mais simplesmente possível, as diversas teorias relativas à
matéria, sem entrar em explicações científicas.)
Na Grécia, pensava-se que a matéria era uma realidade cheia e impenetrável, que, até ao infinito,
não podia dividir-se. Chega um momento, dizia-se, em que as partículas são indivisíveis; e, a tais
partículas, deu-se o nome de átomos (átomo = indivisível). Uma mesa é, então, um aglomerado de
átomos. Pensava-se, também, que esses átomos eram diferentes uns dos outros: havia os lisos e
redondos, como os do azeite, e os rugosos e curvos, como os do vinagre.
Foi Demócrito, um materialista da antiguidade, que pôs de pé esta teoria; foi ele que, primeiro,
tentou dar uma explicação materialista do mundo. Pensava, por exemplo, que o corpo humano era
composto por átomos grosseiros, que a alma era um aglomerado de átomos mais finos e, como
admitia a existência dos deuses, e quisesse explicar tudo como materialista, afirmava que os
próprios deuses eram compostos por átomos extrafinos.
No século XIX, esta teoria modificou-se profundamente.
Pensava-se sempre que a matéria se dividia em átomos, que estes eram partículas muito duras atraindo-se
umas às outras. Abandonara-se a teoria, dos Gregos, e os átomos já não eram curvos ou lisos, mas continuava
a sustentar-se que eram impenetráveis, indivisíveis e sofriam um movimento de atracção uns contra os
outros.
Hoje, demonstra-se que o átomo não c um grão de matéria impenetrável e insecável (isto é, indivisível), mas
que se compõe de partículas denominadas electrões girando a enorme velocidade à volta de um núcleo, onde
se encontra condensada a quase totalidade da massa do átomo. Se este é neutro, electrões e núcleo têm uma
carga eléctrica, mas a carga positiva do núcleo é igual à soma das cargas negativas transportadas pelos
electrões. A matéria é um aglomerado desses átomos, e se opõe uma resistência à penetração é precisamente
por causa do movimento das partículas que a compõem.
A descoberta destas propriedades eléctricas da matéria e, em particular, a dos electrões provocou, no
princípio do século XX, um assalto dos idealistas contra a própria existência da matéria.
«O electrão não tem nada de material, pretendiam eles. É apenas uma carga eléctrica em movimento. Se não
há matéria na carga negativa, por que a haveria no núcleo positivo? Portanto, a matéria deixou de existir. Só
há energia!»
Lenine, em «Materialismo e empirocriticismo» (cap. V), repôs as coisas no seu devido lugar, mostrando que
energia e matéria são inseparáveis. A energia é material, e o movimento é apenas o modo de existência da
matéria. Em suma, os idealistas interpretavam ao contrário as descobertas da ciência. No momento em que
esta punha em evidência aspectos da matéria ignorados até então, concluíam que a matéria não existe, sob
pretexto de que não é semelhante à ideia que dela se fazia outrora, quando se acreditava que matéria e
movimento eram duas realidades distintas22.
III. — O que é a matéria para os materialistas.
Sobre este assunto, é indispensável fazer uma distinção. Trata-se de ver, em primeiro lugar:
1. O que é a matéria?
depois,
2. Como é a matéria?
A resposta que os materialistas dão à primeira pergunta é que a matéria é uma realidade exterior,
independente do espírito, e que não necessita deste para existir. Lenine diz, a propósito:
A noção de matéria exprime apenas a realidade objectiva que nos é dada na sensação23.
Quanto à segunda pergunta: «Como é a matéria?», os materialistas dizem: «Não é a nós que compete
responder, é à ciência».
22 A II parte deste capítulo foi refeita com a ajuda de Luce Langevin e Jean Orcei. Sobre o progresso realizado depois
do princípio do século no estudo da estrutura da matéria, ver F. JOI-IOT-CURIE: «Textos escolhidos», Edições sociais,
pp. 85-89.
23 LÉNINE: «Materialismo e empirocriticismo», Ed. Avante 1982
A primeira resposta não mudou da antiguidade aos nossos dias.
A segunda mudou e deve mudar, porque depende das ciências, do estado dos conhecimentos humanos. Não é
uma resposta definitiva.
Vemos que é absolutamente indispensável pôr bem o problema e não deixar os idealistas misturar as duas
perguntas. É preciso separá-las bem, mostrar que a primeira é a principal e que a nossa resposta ao assunto é,
desde sempre, invariável.
Porque, a única «propriedade» da matéria cuja admissão definiu o materialismo filosófico é ser uma
realidade objectiva, existir fora da nossa consciência24.
IV. — O espaço, o tempo, o movimento e a matéria.
Se afirmamos, porque o constatamos, que a matéria existe fora de nós, precisamos, também:
1. Que a matéria existe no tempo e no espaço.
2. Que a matéria está em movimento.
Os idealistas, esses pensam que o espaço e o tempo são ideias do nosso espírito {é Kant quem, primeiro, tal
defendeu). Para eles, o espaço é uma forma que damos às coisas, nasceu do espírito do homem. O mesmo
acontece em relação ao tempo.
Os materialistas afirmam, pelo contrário, que o espaço não está em nós, nós é que estamos nele. Afirmam,
também, que o tempo é uma condição indispensável ao desenvolvimento da nossa vida; e que, por
consequência, o tempo e o espaço são inseparáveis do que existe fora de nós, isto é, da matéria.
...As formas fundamentais de todo o ser são o espaço e o tempo, e um ser fora do tempo é um absurdo tão
grande como um ser fora do espaço25.
Pensamos, portanto, que há uma realidade independente da consciência. Acreditamos que o mundo existiu
antes de nós e que, depois de nós, continuará a existir. Acreditamos que o mundo, para existir, não precisa de
nós. Estamos persuadidos que Paris existiu antes de nascermos e, a menos que seja definitivamente arrazada,
existirá depois da nossa morte. Estamos certos que Paris existe, mesmo quando não pensamos nisso, do
mesmo modo que há dezenas de milhares de cidades que nunca visitámos, de que nem sequer sabemos o
nome, e que, todavia, existem. Tal é a convicção geral da humanidade. As ciências permitiram dar a este
argumento uma precisão e uma firmeza que aniquilam as astúcias idealistas.
As ciências da natureza afirmam positivamente que a terra existiu em estados tais, que nem o homem, nem
nenhum ser vivo a habitava, nem podia habitar. A matéria orgânica é um fenómeno tardio, o produto de uma
evolução muito longa26.
Se as ciências nos fornecem, portanto, a prova de que a matéria existe no tempo e no espaço, ensinam-nos,
ao mesmo tempo, que está em movimento. Esta última precisão, que as ciências modernas nos forneceram, é
muito importante, porque destruiu a velha teoria segundo a qual a matéria seria incapaz de movimento,
inerte.
O movimento é o modo de existência da matéria... A matéria sem movimento é tão inconcebível como o
movimento sem matéria27
24
Sabemos que o mundo, no seu estado actual, é o resultado, em todos os domínios, de uma longa evolução e,
por consequência, de um movimento lento, mas contínuo. Precisamos, portanto, depois de ter demonstrado a'
existência da matéria, que
o universo é apenas matéria em movimento, e esta matéria em movimento só se pode mover no espaço e no
tempo28.
V. — Conclusão.
Resulta destas constatações que, a ideia de Deus, a ideia de um «puro espírito» criador do universo não tem
sentido, porque um Deus fora do espaço e do tempo é qualquer coisa que não pode existir.
É preciso participar da mística idealista, por consequência, não admitir nenhum controlo científico, para
acreditar num Deus existindo fora do tempo, isto é, não existindo em nenhum momento, e existindo fora do
espaço, ou seja, não existindo em parte alguma.
Os materialistas, seguros das conclusões das ciências, afirmam que a matéria existe no espaço e num dado
momento (no tempo). Por consequência, o universo não pôde ser criado, porque teria sido preciso a Deus,
para poder criar o mundo, um momento que não existiu em nenhum momento (uma vez que o tempo para
Deus não existe), e seria preciso, também, que de nada saísse o mundo.
Para admitir a criação, é preciso, pois, admitir, em primeiro lugar,, que houve um momento em que o
universo não existia, depois, que de nada saiu qualquer coisa, o que a ciência não pode admitir.
Vemos que os argumentos dos idealistas, confrontados com as ciências, não podem manter-se, enquanto que
os dos filósofos materialistas não podem ser separados das próprias ciências. Sublinhamos assim, uma vez
mais, as relações íntimas que ligam o materialismo e as ciências.


Politzer

domingo, 11 de julho de 2010

Politica e Religião

Os silêncios da fé
A Igreja católica instalou-se em Portugal a par da formação e desenvolvimento de outras classes poderosas de grandes senhores senhores feudais, nomeadamente a dos terra-tenentes que dominavam a economia e as técnicas da guerra. Logo que o território conquistado se constituiu em Condado a Igreja, como classe dirigente mais culta e esclarecida, apoderou-se facilmente da gestão dos negócios públicos e transformou-se, ela própria, em importante factor da economia privada e em elemento central do aparelho militar da Conquista e da Expansão. O Estado, edificado sobre as misérias e os sofrimentos do povo, lançando as massas umas contra as outras e impondo castas de senhores das guerras, da aventura e do comércio, era intransigentemente confessional. O povo português, aristocraticamente ignorado pelo poder, via nos nobres, no rei e na Igreja o espelho de todas as virtudes. À Igreja, em particular, incumbia dissolver em caldos da religião as sementes amargas das iras e das rebeliões populares.
O tempo foi passando, os homens transformaram-se e a sociedade também, mas a Igreja permaneceu estática, dogmática e inamovível. Assim continua e é esse, hoje em dia, o seu problema central. A hierarquia domina o clero e o laicado e é aliada preferencial dos ricos, em cujos interesses participa. Mas sabe que dar a público esse verdadeiro rosto é coisa que de modo algum lhe convém. Por isso tenta controlar e conduzir os crentes propondo parábolas maravilhosas e enredando-se cada vez mais nas mentiras e intrigas que permitam à hierarquia aproveitar, nos quadros do mais feroz capitalismo e até ao último suspiro, o que resta da noção de religião e parte do povo português ainda cultiva.

A quem e de quê falam os bispos?

Em entrevista recentemente concedida a um diário de grande distribuição, o actual cardeal-patriarca português, D. José Policarpo, fez declarações que, não sendo de espantar, ajudam a compreender algumas das razões que conduziram ao atoleiro onde a Igreja portuguesa, pelos seus próprios meios, se meteu. As palavras do cardeal foram reveladoras das angústias eclesiais mas omitiram deliberadamente as questões vitais com que se debate o povo português que, naturalmente, inclui uma larga faixa de católicos pobres. Trata-se de uma habilidosa montagem verbal, tão ao gosto das igrejas encalhadas no tempo. O que se diz é sempre menos importante do que aquilo de que se fala.
Tentou D. José justificar os comportamentos da Igreja portuguesa, declarando: «Estamos a cair na situação anacrónica em que qualquer intervenção da Igreja – e de modo particular da sua hierarquia – em dimensões fundamentais… é facilmente julgada como intervenção na esfera do estritamente político». Depois, desenvolveu esta posição: «A hierarquia, por decisão própria e em defesa do carácter específico do seu magistério, abstém-se habitualmente de se imiscuir no âmbito do estritamente político». Em seguida, o cardeal vai ao que mais interessa. «Mas os cristãos leigos não são a isso obrigados e devem ser porta-vozes no seio da sociedade dos autênticos valores cristãos. Cristãos leigos devem ser porta-vozes da Igreja». E D. José especifica: «Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Cristo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação». Em resumo: o cardeal-patriarca português reconhece a gravidade da situação social de crise permanente, alude à falta de ética da vida política do regime e refere vagamente autênticos valores cristãos que o povo sabe, por experiência própria, não serem os que norteiam o capitalismo e a Igreja. E louva, em contrapartida, a sabedoria da Conferência Episcopal que consiste em ver, ouvir e calar. Vai por fim ao ponto de apelar aos cristãos para que formem uma base sólida à política de espoliação que se encobre nos silêncios e nas fantasias da actual governação. Nem uma só vez D. José referiu o povo ou identificou os responsáveis pelo desemprego, pela subida do custo de vida, pela injustiça da distribuição da riqueza ou pela política financeira portuguesa. Apelou às vítimas para que mobilizem a sua fé a favor da sôfrega ambição dos seus carrascos.
O filme que se desenrola à frente dos nossos olhos torna evidente que Portugal tende a parar no tempo. São os políticos que se imitam uns aos outros e respeitam um mesmo figurino. São os grandes capitalistas que geram a crise e a aproveitam para mais enriquecer. São os filantropos que falam, tal como D. José, nos autênticos valores cristãos, para desenvolverem os seus negócios, ocultarem as fraudes e aprofundarem o fosso entre os ricos e os pobres. E é um Estado que rapidamente se demite da sua condição.
Para pormos Portugal em movimento é imperioso fazermos justamente o oposto àquilo que o cardeal aconselha. É preciso intensificarmos a luta pela ruptura e pela mudança. E temos de subir ao alto das montanhas para denunciarmos aos quatro cantos da terra o que se passa neste país.
Só assim poderemos construir um país novo, a partir de uma visão universal de justiça. Uma terra com desenvolvimento económico e liberdade intelectual. Onde credos e convicções sejam respeitados num plano de igualdade. País novo onde se abram as portas do futuro e se trace um novo rumo em Portugal no âmbito de uma democracia real e avançada, até ao Socialismo.
Tarefa árdua, tarefa dura e cheia de perigos, mas caminho que deve se percorrido, lado a lado, pelos homens e mulheres honestos que têm os olhos postos no Homem e pelos homens e mulheres honestos que têm os olhos postos nos Céus.

Jorge Messias (Jornal Avante)

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Texto de Urbano Tavares Rodrigues

Eu, narrador, me confesso:

Confesso escrever não só com a razão, mas com o próprio corpo, com os meus sentidos, com a minha sensualidade, sublimada ou não; e confesso que disso não me arrependo. Não acredito que prejudique--pelo contrário--a causa que é a minha luta.
A minha literatura foi sempre e continua a ser livre, avessa ao arrivismo, esquecida (no acto da produção) de qualquer perspectiva de lucro. Contudo, é (eu sinto) em certa medida narcísica, porventura no amor excessivo da palavra, da metáfora. Aceito, sem discussão, como um «pecado», se o é, a minha inelutável tendência (ou necessidade?) para o texto poético. Todavia, procuro, nessa minha pesquisa (e jogo) verbal, furtar-me ao determinismo social e ao cunho ideológico do discurso burguês que nem todos os meus camaradas conseguirão esquivar. Se nessa batalha com a linguagem não souber vencer, então serei dominado precisamente pelas instâncias políticas e financeiras que pretendo e creio combater.
Lenine distinguia entre a literatura pretensamente livre e a literatura realmente livre, descondicionada. Vamos mais longe e mais fundo. Não existe acto literário fora das classes. A Lenine, importava-lhe «promover uma literatura vasta, rica, variada, em ligação íntima e indissolúvel com o movimento operário». Lato sensu é o que fazer. Simplesmente, com a minha cultura universitária e cosmopolita (sejamos francos), com as minhas vivências de intelectual (que fez, de há muito, a sua opção ideológica, mas conserva o lastro de um certo «humanismo»), vivências que são diferentes--a isso não há que fugir-- das de um operário ou de um camponês, o que eu escreveria seria provavelmente uma merda se forcejasse por substituir-me, nestas ou noutras páginas do livro, ao proletário. Se forçasse a nota da simulação. No entanto, com toda a força do meu projecto, desejo dar voz a esse proletário: integrar a sua voz no meu discurso. Ouço, tomo apontamentos, gravo conversas (sim, é um trabalho duro e humilde, o mais necessário, o mais belo), mas não abdico da minha escrita, do meu estilo. Nem tudo o que componho e redijo será imediatamente perceptível e mobilizador, para as camadas trabalhadoras menos afeita à leitura, mas admito, espero, aposto no amanhã, na elevação da cultura de massas. De resto, sem me violentar, situo-me sempre, natural, espontaneamente numa perspectiva socialista. O que significa que, fora dos terrenos de uma ortodoxia que sempre se me afigurou anacrónica entre nós, continuo presente, e cada vez mais, na voz dos outros e na minha. No contraponto.
Será que, afinal, eu narrador me confesso ou busco justificar-me?

Quelha Funda

quinta-feira, 1 de julho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Texto de Urbano Tavares Rodrigues

A Professora:

"Sublinhas os livros que lês. Compras, aliás, tantos que alguns só consegues folheá-los. Por isso o orçamento não dá, em matéria de trapos, para mais do que essas túnicas, ou esses balandraus, onde escondes o teu corpo ágil e torneado de mulher já desabrochada com rosto de menina.
--Por onde andaste que de há tanto tempo te conheço?
--Eu nem assentava os pés no chão. Quantas e quantas vezes fui do Cais do Sodré a Belém! Tenho os olhos ainda cheios de tempestades e de esperanças, vi as noites em que para nós era dia...
Encontrámo-nos a caminho do Terreiro do Paço, quando a multidão se apoderou do Costa Martins, que apenas ia espreitar a manifestação, e o levou em ombros até à praça do discurso popular.
Mas isso não é saudade. Ou, se é, corda de nervos que doem e brilham fundo, descubro-a sempre deitando a âncora para o futuro. A revolução em nós é um constante viver pelo futuro e para o futuro. Estar no futuro, mesmo quando a maré reflui sobre nós com pedras, com sangue e com insultos. Estar num presente que é futuro.
Tens ido algumas vezes com os teu alunos às cooperativas do Alentejo. E só não lhas mostras todas porque a comissão de gestão--evolução dos tempos, mas, atiremos a melancolia para detrás das costas!--recusa-vos verba. Se for para ires passear com eles à Serra da Estrela, então, sim, obténs o que quiseres. Mas o Alentejo é já um pouco tabu no teu liceu...
Sejamos persistentes, não è? Odiemos de amor os obstáculos a vencer. Sejamos hora a hora o exemplo e a semente, se o conseguirmos.
Tu consegues. Mais do que eu, que tanto lutei, mas tenho, de certo modo, meio corpo fora da vida. Se os sinos não tocam a rebate, a própria chuva me calcina. Tempo ou quimera, ou a morte certa que me habita, cada novo dia mais certa, mesmo coroada da minha-tua-nossa-colectiva esperança?
Mas tu consegues. Voltaste de Cuba (onde assistitste à experiência do poder popular em Matanzas) com segura e refletida confiança nos possiveis, nos relativos que contam à escala humana. Olhaste de frente a vida transformada; e o que dela aflorava, pelo menos para ti, era a alegria, era a fraternidade.
Eu sei que sabes muita coisa e que até podias (não, agora já não podes) brincar ao cepticismo elegante, ao denominado bom gosto, que exclui a participação demasiado evidente e que de tanto se cifrar se dissolve. Ainda bem que vives a tua circunstância, que te pões quotidianamente problemas angustiantes, que te fixas métas duras a atingir!
E nada tens de primária. Até gostas de filmes da Marguerite Duras. És capaz de amar o outro, o diferente de ti. Mas sem te desviares da tua rota.
Tu chamas-te Teresa, Filomena, Isabel, Carmo, Fernada. És una e múltipla. Estás, como o caule enraizado na sua terra, ligada ao povo, ao povo que já se tornou altivo e robusto, àquele outro que está ainda despertando, mas que amanhã será também povo totalmente, sem envesgar os olhos, sem chapelada submissa ao seu senhor, padre ou cacique.
Prisioneira tão-só da tua vontade de construção, é no projecto que te libertas do pequenino eu que outros tanto enfantizam, é escutando os trabalhadores em marcha que sentes dentro de ti o choque do mar com o horizonte.
--Sim---dizes-me--, hoje sei o que quero."

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"Nas àguas, nas areias molhadas, no verde fresco de Junho, na continuidade e na vertigem dos dias, na chama da lâmpada que hipnoticamente fixo ou no sol, no verde mesclado dos teus olhos feridos e diversos, mulher renovada, mulher resumo destes dias intensos e inesqueciveis, que ante os nossos olhos se carregam de história e que sabemos (ao dobrarmos a folha de cada noite) feitos de doze a vinte horas de fuga à norma, em toda a parte, em toda a fracção de instante, te encontro--liberdade igual a Revolução--,esfarrapada, mas viva, traída, perseguida, caluniada, mas resistente. Ainda de pé. E de punho erguido. E de pé o futuro te há-de ver.

Continua


Quelha Funda