Texto de Urbano Tavares Rodrigues
A Professora:
"Sublinhas os livros que lês. Compras, aliás, tantos que alguns só consegues folheá-los. Por isso o orçamento não dá, em matéria de trapos, para mais do que essas túnicas, ou esses balandraus, onde escondes o teu corpo ágil e torneado de mulher já desabrochada com rosto de menina.
--Por onde andaste que de há tanto tempo te conheço?
--Eu nem assentava os pés no chão. Quantas e quantas vezes fui do Cais do Sodré a Belém! Tenho os olhos ainda cheios de tempestades e de esperanças, vi as noites em que para nós era dia...
Encontrámo-nos a caminho do Terreiro do Paço, quando a multidão se apoderou do Costa Martins, que apenas ia espreitar a manifestação, e o levou em ombros até à praça do discurso popular.
Mas isso não é saudade. Ou, se é, corda de nervos que doem e brilham fundo, descubro-a sempre deitando a âncora para o futuro. A revolução em nós é um constante viver pelo futuro e para o futuro. Estar no futuro, mesmo quando a maré reflui sobre nós com pedras, com sangue e com insultos. Estar num presente que é futuro.
Tens ido algumas vezes com os teu alunos às cooperativas do Alentejo. E só não lhas mostras todas porque a comissão de gestão--evolução dos tempos, mas, atiremos a melancolia para detrás das costas!--recusa-vos verba. Se for para ires passear com eles à Serra da Estrela, então, sim, obténs o que quiseres. Mas o Alentejo é já um pouco tabu no teu liceu...
Sejamos persistentes, não è? Odiemos de amor os obstáculos a vencer. Sejamos hora a hora o exemplo e a semente, se o conseguirmos.
Tu consegues. Mais do que eu, que tanto lutei, mas tenho, de certo modo, meio corpo fora da vida. Se os sinos não tocam a rebate, a própria chuva me calcina. Tempo ou quimera, ou a morte certa que me habita, cada novo dia mais certa, mesmo coroada da minha-tua-nossa-colectiva esperança?
Mas tu consegues. Voltaste de Cuba (onde assistitste à experiência do poder popular em Matanzas) com segura e refletida confiança nos possiveis, nos relativos que contam à escala humana. Olhaste de frente a vida transformada; e o que dela aflorava, pelo menos para ti, era a alegria, era a fraternidade.
Eu sei que sabes muita coisa e que até podias (não, agora já não podes) brincar ao cepticismo elegante, ao denominado bom gosto, que exclui a participação demasiado evidente e que de tanto se cifrar se dissolve. Ainda bem que vives a tua circunstância, que te pões quotidianamente problemas angustiantes, que te fixas métas duras a atingir!
E nada tens de primária. Até gostas de filmes da Marguerite Duras. És capaz de amar o outro, o diferente de ti. Mas sem te desviares da tua rota.
Tu chamas-te Teresa, Filomena, Isabel, Carmo, Fernada. És una e múltipla. Estás, como o caule enraizado na sua terra, ligada ao povo, ao povo que já se tornou altivo e robusto, àquele outro que está ainda despertando, mas que amanhã será também povo totalmente, sem envesgar os olhos, sem chapelada submissa ao seu senhor, padre ou cacique.
Prisioneira tão-só da tua vontade de construção, é no projecto que te libertas do pequenino eu que outros tanto enfantizam, é escutando os trabalhadores em marcha que sentes dentro de ti o choque do mar com o horizonte.
--Sim---dizes-me--, hoje sei o que quero."
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"Nas àguas, nas areias molhadas, no verde fresco de Junho, na continuidade e na vertigem dos dias, na chama da lâmpada que hipnoticamente fixo ou no sol, no verde mesclado dos teus olhos feridos e diversos, mulher renovada, mulher resumo destes dias intensos e inesqueciveis, que ante os nossos olhos se carregam de história e que sabemos (ao dobrarmos a folha de cada noite) feitos de doze a vinte horas de fuga à norma, em toda a parte, em toda a fracção de instante, te encontro--liberdade igual a Revolução--,esfarrapada, mas viva, traída, perseguida, caluniada, mas resistente. Ainda de pé. E de punho erguido. E de pé o futuro te há-de ver.
Continua
Quelha Funda
quinta-feira, 1 de julho de 2010
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