segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Notícias da Igreja

Já aqui foi dito e repetido acerca dos deveres morais e cívicos da Igreja católica: a Igreja eclesiástica não pode tentar alimentar a lenda que teceu a respeito de si própria de ser «perita em humanidades» e «defensora dos pobres». As realidades que se vão revelando destróem essas teses.A revista de negócios Forbes publicou uma estatística acerca das personalidades mais ricas e poderosas do mundo. Nela figura, logo a seguir a Bill Gates (um multimilionário de coração sensível) o actual Papa Bento XVI que a Forbes descreve como o gestor da «mais antiga multinacional do Mundo». Em todos os países capitalistas continuam as falências das pequenas e médias empresas, o desemprego e a desprotecção dos trabalhadores. Simultaneamente, as superestruturas financeiras injectam na banca e nas mais gigantescas super-holdings biliões de dólares, sem os quais estas já teriam falido e, com elas, todo o sistema capitalista mundial. Políticas desumanas e anti-sociais que, no futuro próximo, os povos pagarão cruelmente. A crise continua e aprofunda-se a níveis e ritmos nunca vistos, tal como o fosso entre ricos e pobres que o Vaticano condena com uma mão e apoia com a outra.Há cada vez mais «guerras e rumores de guerras». Conflitos brutais como os do Médio Oriente e do Afeganistão, continuam a consumir centenas de milhares de vidas. E onde param as promessas de encerramento de Guantánamo e outros centros de tortura, os planos de desarmamento mundial, a defesa da Natureza, a protecção das minorias, o respeito pelos direitos do homem? A Igreja, ou se alheia destas questões, usando uma táctica pré-concebida, ou opta por dois rostos e duas medidas, escolhendo fazer a defesa dos interesses dos ricos contra os direitos básicos dos pobres.Portugal e os políticos eclesiásticos capitalistasNo Portugal da «era de Sócrates», da dinastia de Cavaco Silva e de Guterres, a Igreja portuguesa, nomeadamente através da sua Conferência Episcopal, cala-se ou mal balbucia. Há desemprego endémico e constante? A Igreja não o denúncia.As mentiras e os escândalos sucedem-se, sempre a partir de núcleos da esfera governamental e das fortunas? A Conferência Episcopal silencia e encobre todos eles, «em nome de Deus» e da «reconciliação de classes». Alastra galopantemente a pobreza e a miséria enquanto que, apenas nos nove primeiros meses de 2009, os cinco maiores bancos portugueses tiveram lucros declarados de 1403 milhões de euros e foram beneficiados pelo Estado em mais de cinco mil milhões para «refinanciamento da banca». A Conferência Episcopal talvez que desta infâmia se não aperceba, recolhida como está na Transcendência. No entanto, seria bom que em nome da justiça «denunciasse e anunciasse», como diz a doutrina e revelasse publicamente o montante da carteira de acções que a Igreja gere na banca portuguesa e nas grandes transnacionais.Há mais (há sempre mais) mas isto chega para que os católicos honestos interpelem os seu bispos, em nome da ética cristã e dos princípios da teologia moral.Que papel é necessariamente o de uma igreja numa sociedade corrupta e «tangível», como diria Teillard de Chardin? «Ai daqueles por quem o escândalo vier»! Muito bem. Mas não será que os bispos fazem parte do escândalo? Como, por exemplo, no caso recente da compra da TVI, um escândalo entre tantos outros que marcam os «caminhos da Igreja»?Não está em causa ser-se católico, protestante, muçulmano ou budista. Nem está em causa, em dimensões de fé, que um cidadão português pertença a uma congregação qualquer. Mas é indesculpável que para se ser crente se despreze a razão, os deveres de cidadania e, sobretudo, a defesa dos direitos dos povos e dos trabalhadores.Ainda este mês, os movimentos da Acção Católica tiveram um encontro nacional mas evitaram os «temas fracturantes». Também a Conferência Episcopal se reuniu e comunicado final da reunião foi oco e decepcionante. Interpelado pela imprensa, o seu porta-voz, o padre Morujão, revelou que «a Igreja não quer ter problemas com o actual Governo».Não é preciso pôr mais na carta...

Jorge Messias -- Jornal Avante

Quelha Funda

sábado, 28 de novembro de 2009

Ary dos Santos

Ary dos Santos

O senhor Eduardo Alves quis, no seu blog, homenagear o Ary dos santos, o que só o enaltece. Pena é que ao fazê-lo, não tivesse escolhido a melhor prosa e enveredasse por caminhos um pouco tortuosos.
Tem razão quando diz:"Ary dos Santos è uma figura incontornável da cultura portuguesa", mas deixa de ter razão quando diz: "e é também um verdadeiro comunista". Primeiro, já não é pois a sua morte levou-o muito cedo. Segundo, foi um comunista a quem o Partido Comunista Português muito deve, pelo seu valor intelectual e pela militância dedicada ao seu partido. E, disso estou certo, terá sempre um lugar no coração de todos os comunistas. Dizer que é, ou foi, um verdadeiro comunista é de uma leviandade confrangedora. terá o amigo Eduardo algumas contas a acertar com algum comunista ou com o organização do Partido no Tortosendo? Se tem então que seja mais claro e não use artimanhas, e já não é a primeira vez, que apenas o desacreditam. E já agora gostaria de saber qual é o aparelho de medida para poder avaliar quem são os verdadeiros comunistas e os que o não são? Com tal aparelho talvez possa avaliar os que são verdadeiros jornalistas e os que não são. ou até os verdadeiros homens e os que não são.
Quanto aos comodistas, meu caro Eduardo, eles estão espalhados por todo o lado e em todas as actividades. É um mal de que sofre a sociedade.


Quelha Funda


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Filosofia de Politzer


V. — Quais são as relações entre o materialismo e o marxismo?

Podemos resumi-las da seguintes maneira:

1. A filosofia do materialismo constitui a base do marxismo.
2.- Esta filosofia materialista, que quer dar uma explicação científica aos problemas do mundo, progride, no
decurso da História, ao mesmo tempo que as ciências. Por consequência, o marxismo tem origem nas
ciências, apoia-se nelas e evolui com elas.
3. Antes de Marx e Engels, houve, em várias etapas e sob formas diferentes, filosofias materialistas. Mas, no
século XIX, dando as ciências um grande passo em frente, Marx e Engels renovaram esse materialismo
antigo, a partir das ciências modernas, e deram-nos o materialismo moderno, a que se chama materialismo
dialéctico, e que constitui a base do marxismo.
Vemos, por estas breves explicações, que a filosofia do materialismo, contrariamente ao que dizem, tem uma
história. Esta está intimamente ligada à das ciências. O marxismo, baseado no materialismo, não teve origem
no cérebro de um só homem. É o resultado, a continuação do materialismo antigo, que estava já muito
avançado em Diderot. O marxismo é a manifestação do materialismo desenvolvido pelos Enciclopedistas do
século XVIII, enriquecido pelas grandes descobertas do século XIX. O marxismo é uma teoria viva, e, para
mostrar imediatamente de que maneira considera os problemas, vamos tomar um exemplo que toda a gente
conhece: o problema da luta de classes.
Que pensam as pessoas sobre tal assunto? Uns, que a defesa do pão isenta da luta politica. Outros, que basta
lutar na rua, negando a necessidade de organização. Outros, ainda, pretendem que só a luta política trará uma
solução a este problema.
Para o marxismo, a luta de classes compreende:
a. Uma luta económica.
b. Uma luta política.
c. Uma luta ideológica.
O problema deve, pois, ser posto, simultaneamente, nestes três campos;
a. Não se pode lutar pelo pão sem lutar pela paz, sem defender a liberdade e todas as ideias que servem a luta
por tais objectivos.
b. O mesmo acontece na luta política, que, depois de Marx, se tornou uma verdadeira ciência: é-se obrigado
a ter em conta, ao mesmo tempo, a situação económica e as correntes ideológicas para conduzir essa luta.
c. Quanto à luta ideológica, que se manifesta pela propaganda, deve ter-se em consideração, para que seja
eficaz, a situação económica e política.
Vemos, pois, que todos estes problemas estão intimamente ligados e, assim, que não é possível decidir face a
qualquer aspecto deste grande problema que é a luta de classes - numa greve, por exemplo -, sem tomar em
consideração cada dado do problema e o conjunto do próprio problema.
É, portanto, aquele que for capaz de lutar em todos os campos que dará ao movimento a melhor direcção.
É assim que um marxista compreende este problema da luta de classes. Ora, na luta ideológica que devemos
conduzir todos os dias, encontramo-nos perante problemas difíceis de resolver: imortalidade da alma,
existência de Deus, origens do mundo, etc. É o materialismo dialéctico que nos dará um método de
raciocínio, que nos permitirá resolver todos estes assuntos e, de igual modo, descobrir todas as campanhas de
falsificação do marxismo, que pretendem completá-lo e renová-lo.


Quelha Funda
Escândalos: vantagens e vantagens ainda maiores

Estar envolvido num escândalo é grave; estar metido em vários é uma garantia de segurança

7:10 Quinta-feira, 26 de Nov de 2009

Há mais de dez minutos que não vem a público um escândalo envolvendo o nome de José Sócrates. Que se passa com este país? O escândalo Face Oculta perdeu o encanto inicial, o escândalo Freeport deixou de produzir notícias, o escândalo das escutas ao Presidente da República esmoreceu, o escândalo da Universidade Independente parece estar parado, o escândalo das casas projectadas na Guarda prometeu mais do que cumpriu, e confesso já ter esquecido o que estava em causa no escândalo Cova da Beira. Julgo falar em nome de todos quando digo que precisamos urgentemente de um novo escândalo.
José Sócrates, certamente, não se importa: o primeiro-ministro parece ter tomado uma vacina contra os escândalos. Não há suspeita de indecência escabrosa à qual ele seja vulnerável. Políticos menos resistentes já foram obrigados a demitir-se por causa de anedotas, de sisas que afinal tinham pago, de corninhos. O primeiro-ministro transita de escândalo em escândalo como Tarzan de liana em liana. Nenhum homem é uma ilha, diz o poeta, mas José Sócrates é um homem rodeado de escândalos por todos os lados.
Não há escândalo que consiga verdadeiramente furar a barreira de escândalos que o rodeia. Aparece um escândalo novo e a opinião pública boceja: já vimos melhor. Surge uma suspeita inédita e o País encolhe os ombros: podia ser mais escandalosa. Estar envolvido num escândalo é grave; estar metido em vários é uma garantia de segurança. O povo conhece José Sócrates há já algum tempo e sabe que ele pode estar envolvido num escândalo, mas duvida que ele tenha a iniciativa, o desembaraço e a capacidade de trabalho para estar envolvido em tantos.
O problema da oposição é, justamente, de abundância: encontra-se perante os escândalos como o burro de Buridan em frente ao feno. De todos os paradoxos filosóficos em que comparecem asnos, este é o meu preferido: o burro faminto tem diante de si dois montes de feno exactamente iguais. Não havendo uma razão para optar por um em vez de outro, é incapaz de escolher e morre de fome. No caso de Sócrates, os escândalos são os montes de feno e a oposição é o burro (há acasos felizes na vida de quem se entretém a compor símiles). A única diferença é que o burro morre sossegado, enquanto os dirigentes dos partidos da oposição definham aniquilando-se mutuamente. Mas ninguém espera que os militantes do PSD tenham o discernimento de um burro.

Artigo de Ricardo Araújo Pereira (Visão)

Quelha Funda

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Comunicado

De Mário Crespo ( jornal de Notícias )


"Ilibação progressiva" devia ser um termo da ciência jurídica em Portugal. Descreve uma tradição das procuradorias-gerais da República. Verifica-se quando o poder cai sob a suspeita pública. Pode definir-se como a reabilitação gradual das reputações escaldadas por fogos que ardem sem se ver porque a justiça é cega. Surge, sempre, a meio de processos, lançando uma atmosfera de dúvida sobre tudo. As "Ilibações" mais famosas são as declarações de Souto Moura sobre alegadas inocências de alegados arguidos em casos de alegada pedofilia. As mais infames, por serem de uma insuportável monotonia, são os avales de bom comportamento cívico do primeiro-ministro que a Procuradoria-Geral da República faz regularmente. Dos protestos verbais de inocência dos arguidos que Souto Moura deu à nossa memória colectiva, Pinto Monteiro evoluiu para certidões lavradas em papel timbrado com selo da República onde exalta a extraordinária circunstância de não haver "elementos probatórios que justifiquem a instauração de procedimento criminal contra o senhor primeiro-ministro". Portanto, pode parecer que sim. Só que não se prova. Ou não se pode provar. Embora possa, de facto e de direito, parecer que sim. Este género de aval oficial de "parem-lá-com-isso-porque-não-conseguimos-provar" já tinha sido feito no "Freeport". Surge agora no princípio do "Face Oculta" com uma variante assinalável. A "Ilibação progressiva" deixou de ser ad hominem para ser abrangente. Desta vez, o procurador-geral da República não só dá a sua caução de abono ao chefe do Governo como a estende a "qualquer outro dos indivíduos mencionados nas certidões", que ficam assim abrangidos por estes cartões de livre-trânsito oficiais que lhes vão permitir dar voltas sucessivas ao jogo do Poder sem nunca ir para a prisão. Portanto, acautelem-se os investigadores e instrutores de província porque os "indivíduos mencionados em certidões" já têm a sua inocência certificada na capital e nada pode continuar como dantes.
Desta vez, nem foi preciso vir um procurador do Eurojust esclarecer a magistratura indígena sobre limites e alcances processuais. Bastou a prata da casa para, num comunicado, de uma vez só, ilibar os visados e condicionar a investigação daqui para a frente. Só fica a questão: que Estado é este em que o chefe do Executivo tem de, com soturna regularidade, ir à Procuradoria pedir uma espécie de registo criminal que descrimine vários episódios de crime público e privado e que acaba sempre com um duvidoso equivalente a "nada consta - até aqui".
Ângelo Correia, nos idos de 80, quando teve a tutela da Administração Interna acabou com a necessidade dos cidadãos terem de apresentar certidões de bom comportamento cívico nos actos públicos. A Procuradoria-Geral da República reabilitou agora estes atestados de boa conduta para certos crimes. São declarações passadas à medida que os crimes vão sendo descobertos, porque é difícil fazer valer um atestado de ilibação progressiva que cubra a "Independente", o "Freeport" e a "Face Oculta". Quando se soube do Inglês Técnico não se sabia o que os ingleses tinham pago pelos flamingos de Alcochete e as faces ainda estavam ocultas. Portanto, o atestado de inocência passado pelo detentor da acção penal, para ser abrangente, teria de conter qualquer coisa do género… "fulano não tem nada a ver com a 'Face Oculta' nem tem nada a ver com o que eventualmente se vier a provar no futuro que careça de qualquer espécie de máscara", o que seria absurdo. Por outro lado, a lei das prerrogativas processuais para titulares de órgãos de soberania do pós-"Casa Pia", devidamente manipulada, tem quase o mesmo efeito silenciador da Justiça.


Quelha Funda

sábado, 21 de novembro de 2009

Filosofia

Filosofia de Politzer


III. — O que é a filosofia?
Vulgarmente, entende-se por filósofo: ou àquele que vive nas nuvens, ou o que toma as coisas pelo lado bom,
aquele que nada faz. Ora, muito ao contrário, o filósofo é aquele que quer, a certas perguntas, dar respostas
precisas, e, se se considerar que a filosofia quer dar uma explicação aos problemas do universo (de onde vem
o mundo? para onde vamos? etc), vê-se, por conseguinte, que o filósofo se ocupa de muitas coisas, e, ao
contrário do que dizem, trabalha muito.
Diremos, portanto, para definir a filosofia, que ela quer explicar o universo, a natureza, que é o estudo dos
problemas mais gerais. Os menos gerais são estudados pelas ciências. A filosofia é, pois, um prolongamento
das ciências, no sentido em que se apoia nas ciências e delas depende.
Acrescentaremos, em seguida, que a filosofia marxista utiliza um método de resolução de todos os
problemas, e que tal método depende do que se chama o materialismo.
IV. — O que é a filosofia materialista?
Também aí existe uma confusão, que devemos denunciar imediatamente; é vulgar entender-se por
materialista aquele que só pensa em gozar com os prazeres materiais. Jogando com a palavra materialismo -
que contém a palavra matéria -, chegou a dar-se-lhe um sentido completamente falso.
Vamos, estudando o materialismo - no sentido científico da palavra -, restituir-lhe o seu verdadeiro
significado; ser materialista, não impede, iremos vê-lo, de ter um ideal e de lutar para o fazer triunfar.
Dissemos que a filosofia quer dar uma explicação aos problemas mais gerais do mundo. Mas, no decurso da
história da humanidade, esta explicação não foi sempre a mesma.
Os primeiros homens procuraram, na verdade, explicar a natureza, o mundo, mas não o conseguiram. O que
permite, com efeito, explicar o mundo e os fenómenos que nos rodeiam são as ciências; ora, as descobertas
que permitiram às ciências progredir são muito recentes.
A ignorância dos primeiros homens era, pois, um obstáculo às suas investigações. Por isso é que no decurso
da História, por causa desta ignorância, vemos surgir as religiões, que querem explicar, também elas, o
mundo, mas por forças sobrenaturais. É esta uma explicação anticientífica. Ora, como, pouco a pouco, no
decurso dos séculos, a ciência se vai desenvolver, os homens vão tentar explicar o mundo através de factos
materiais, a partir de experiências científicas, e é daí, desta vontade de explicar as coisas pelas ciências, que
nasce a filosofia materialista.
Nas páginas seguintes, vamos estudar o que é o materialismo, mas, desde já, devemos fixar que o
materialismo não é mais do que a explicação científica do universo.
Estudando a história da filosofia materialista, veremos quanto foi áspera e difícil a luta contra a ignorância. É
preciso, aliás, constatar que, mesmo nos nossos dias, esta luta não terminou ainda, uma vez que o
materialismo e a ignorância continuam a subsistir juntos, lado a lado.
É no coração desta luta que Marx e Engels intervieram. Compreendendo a importância das grandes
descobertas do século XIX, permitiram à filosofia materialista fazer enormes progressos na explicação
científica do universo. Foi assim que nasceu o materialismo dialéctico. Depois, os primeiros, compreenderam
que as leis que regem o mundo permitem também explicar a evolução das sociedades; formularam, assim, a
célebre teoria do materialismo histórico.
Propomo-nos estudar, nesta obra, primeiramente, o materialismo, depois, o materialismo dialéctico e, por
fim, o materialismo histórico. Mas, antes de mais, queremos estabelecer as relações entre o materialismo e o marxismo.

Quelha Funda

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Interesses públicos e negócios privados

A sucessão dos factos escandalosos recentemente noticiados, bem como a revelação da existência em Portugal de poderosas redes mafiosas que põem e dispõem na banca, na comunicação social e na política, são achegas à compreensão de que forças obscuras mas altamente organizadas têm em curso um plano de esmagamento da democracia de Abril. Sucedem-se as grandes fraudes, os roubos mais descarados e os atropelos da lei. O Estado apaga-se e cai no mais completo descrédito. Com a maior impunidade, as redes das «mafias» funcionam à vista de todos nós. Os seus tentáculos dominam um sector público muito fragilizado e comandam o sector privado que se prepara para se sobrepor ao Estado nas funções públicas vitais.Os pólos estratégicos desta vasta conspiração tem-se notado situarem-se na banca, na Igreja Católica e no Governo. A banca manipula as bolsas, escraviza as pequenas e médias empresas e financia os poderosos trusts que monopolizam o mercado. O Governo coloca-se ao serviço do grande patronato, canaliza para as sedes das holdings mais poderosas as verbas enviadas pela União Europeia, corta orçamentos nas áreas da economia e do trabalho e impõe nova legislação que, a exemplo do Código do Trabalho, se inscreve nos quadros da mais feroz perseguição aos direitos dos trabalhadores. A Igreja completa este quadro de intervenção antidemocrática: silencia perante os crimes cometidos, avança para os grandes negócios do capital e reorganiza activamente a sua «sociedade civil», de forma a prepará-la para as grandes tarefas que terão lugar num futuro próximo, quando o Estado entrar em colapso e os principais sectores da sociedade (Saúde, Educação, Segurança Social, etc.) forem finalmente entregues às instituições católicas privadas.Curta metragem do campo da reacçãoEmbora a tecnologia actualmente usada na sabotagem do aparelho de Estado envolva alguns instrumentos de compreensão transcendente, no essencial as técnicas usadas não são novas e fazem lembrar o que se passou na Europa logo a seguir ao termo da II Grande Guerra mundial. Os estados fascistas tinham baqueado, os povos europeus viviam na miséria e as fontes da economia, pura e simplesmente, estavam destruídas. Por toda a parte, no entanto, os trabalhadores reagiam e lançavam mãos à construção de uma sociedade nova conduzida por forças da esquerda política. Reanimou-se a economia, a indústria e o comércio. Milhares de empresas foram nacionalizadas. Os Estados socialistas europeus tornaram-se o grande motor da recuperação.Alarmados ficaram o Vaticano, a banca e as forças políticas da direita.Como fazer para travar esta tendência alarmante? Veio, então, o «Plano Marshall» e com ele uma nova estratégia. Já que as nacionalizações tinham caído bem na opinião pública, deixá-las ficar. Para domá-las bastaria fazê-las gerir por gente da confiança dos banqueiros... O ardil resultou em cheio. As ovelhas voltaram ao redil. E uma nova ética política consagrou este princípio: interesses públicos, negócios privados. O dinheiro era americano, os alimentos vinham da América, tudo era made in USA. Quando estoirassem grandes escândalos que envolvessem banqueiros, políticos, cardeais ou generais, a comunicação social, bem controlada, conseguia o «milagre» de transformar os criminosos em heróis e os ladrões em santos.Em Portugal, estamos agora a assistir à reedição dessa curta metragem dos anos 50. Abril caminhou inicialmente na senda do socialismo. Então, os políticos reaccionários disfarçaram-se com os fatos da Revolução, fizeram discursos demagógicos com que enganaram o povo, tomaram o poder e infiltraram-se maciçamente na economia e no aparelho do Estado. São esses os que nos enganam e exploram.A Igreja calou-se e fez fortuna à sombra da corrupção geral. A comunicação social corrompeu-se e prostrou-se aos pés dos vilões. O povo português deixou-se hipnotizar pelas falsas promessas mas hoje acorda esmagado pelo desemprego, pela pobreza e com a angústia do dia de amanhã.É urgente romper-se com tudo isto. É preciso lutar, recuperar as liberdades e construir o nosso futuro, colectivo e socialista.


Jorge Messias - Jornal Avante

QUELHA FUNDA

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Economia

Reunião da FAO

Ambição em baixa na reunião da FAO em Roma

Os chefes de Estado e de governo querem acabar com a fome no mundo, sem fixar um prazo nem tomar compromissos. Uma reunião organizada pelos países do Sul e as grandes organizações não governamentais (ONG) teve lugar na Itália mas não começou da melhor maneira.

Todos os seis segundos, uma criança morre de fome no mundo. mais de mil milhões de pessoas à escala do planeta são vitimas da fome. Uma situação gravíssima e portanto nenhum dos grandes países ricos do G8, excepção da Itália,país organizador, se dignou representar na reunião sobre a "segurança alimentar". Estes países revelaram, pela sua ausência, uma grande falta de solidariedade e de participação para lutar contra o flagelo da fome no mundo.
Assim vai o capitalismo na sua grandeza.

QULHA FUNDA

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Filosofia de Politzer

Os problemas Filosóficos ( Segundo Georges Politzer )

Porque apresentar e explicar os princípios elementares da Filosofia materialista? A esta questão Politzer respondia: "Porque o materialismo está ligado a uma filosofia e a um método: Os do materialismo dialéctico".
É pois indispensável estudar essa filosofia e esse método, para na verdade compreender o marxismo e refutar os argumentos das teorias burguesas, assim como para compreender uma luta política eficaz.
Com efeito, Lenine disse: "Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário" Isto quer dizer, antes de mais: é preciso juntar a teoria à prática.
O que é a prática? É o acto de realizar. Por exemplo, a indústria, a agricultura realizam (isto é: tornam reais) certas teorias (teorias químicas,físicas ou biológicas).
Pode ser-se apenas prático-mas, então, realiza-se por rotina. Pode ser-se apenas teórico-mas, então, o que se concebe é muitas vezes irrealizavel. É preciso, portanto, que haja ligação entre a teoria e a prática. A questão é saber quais devem ser essa teoria e a sua ligação com a prática. Pensamos que é necessário ao militante operário esse método de analise e de raciocínio justo para poder realizar uma acção revolucionária justa.
Que lhe é preciso um método que não seja um dogma, dando-lhe soluções acabadas, mas um método que nunca separe a teoria da prática, o raciocínio da vida. Ora, esse método está contido na filosofia do materialismo dialéctico, base do marxismo, que nos propomos explicar.
O estudo da filosofia é uma coisa difícil?
Pensa-se, geralmente, que o estudo da filosofia é, para os operários, uma coisa cheia de dificuldades, necessitando conhecimentos especiais. É preciso confessar que a maneira como estão redigidos os manuais burgueses tem a intenção de os levar a pensar desse modo, e não pode senão aborrece-los. Não pensamos negar as dificuldades que o estudo, em geral, comporta, e a filosofia, em particular; mas estas dificuldades são perfeitamente superáveis, e ocorrem, sobretudo pelo facto de se tratar de coisas novas para muito dos nossos leitores.
Desde o início, vamos, por outro lado, precisando as coisas, chama-los a rever certas definições de palavras que estão deturpadas na linguagem corrente.

CONTINUA

QUELHA FUNDA

sábado, 14 de novembro de 2009

A Crise

Viva a Crise

No ultimo boletim da LAT vem um artigo do senhor Mário Raposo, que não pode deixar ninguém indiferente.
Diz ele, ou melhor escreve, sem que a mão lhe trema, que "os grandes avanços da humanidade estão sempre ligados a épocas de crise". Sem corar escreve ele: "Para alguns a crise é somente um estado de ânimo, do mesmo modo que o sucesso e as circunstâncias do meio envolvente são unicamente o campo de jogo onde se joga uma partida e há que dar o melhor de si mesmo".
Não sei a quem se dirigia, o autor destas linhas, mas de certeza não era aos mais de 200 milhões de crianças com menos de cinco anos que passam fome neste mundo onde vivemos.( Dados da UNICEF ). Se atendermos que estas crianças têm pais e irmãos,poderemos, facilmente, multiplicar por 4 ou 5 estes 200 milhões. Será isto um estado de ânimo ou uma partida que se desenrola num campo de jogo?
O senhor Mário Raposo faria bem em procurar outras leituras e autores mais credíveis, como, por exemplo, Robert Castel, director à Escola dos Altos Estudos em Ciencias Sociais de França que há poucos dias, numa entrevista dizia: O coração da transformação se situa, primeiro, ao nível da organização do trabalho e se traduz por uma degradação do estatuto profissional. A precariedade se desenvolve no interior do emprego e vem se juntar ao desemprego de massas. Não é mais possível de pensar a precariedade como o fizemos durante anos, como se fosse um mau momento a passar antes de encontrar um emprego durável. Existe, mesmo, um numero crescente de pessoas que se instalam na precariedade. Esta transforma-se, por paradoxal que pareça, num estado permanente... Os operários menos qualificados, os jovens que procuram entrar pela primeira vez no mercado do trabalho são sempre, em termos quantitativos, as categorias mais tocadas pelo crescimento da precariedade. No entanto não podemos esquecer que a precariedade do trabalho é uma linha de fractura".
Isto deixa-nos ver o sistema capitalista está caduco e atrás de uma crise outra virá que não será menor, e por muitos jogos que se façam o resultado será sempre o mesmo: cada vez maior o numero de famintos em todo o Planeta.
É certo que haverá sempre aqueles que conseguem tirar as castanhas do fogo e por isso procuram defender o sistema sem olhar à sua volta e, muitos, para o seu passado.

Quelha Funda

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Filosofia

Georges Politzer

Em maio deste ano 2009 fez 67 anos que o filósofo Georges Politzer foi assassinado pelos ocupantes nazis da França. De origem húngara, participante da Revolução Húngara de 1919 refugiara-se em França depois do esmagamento da Revolução pela aliança militar entre as burguesias ocidentais e húngara e a sequente instauração do regime fascista na Hungria. A sua vida de revolucionário terminaria ao ser entregue ao ocupante alemão pelo governo burguês colaboracionista da França em 1942, pelo crime de ser comunista e patriota que levaria ao seu fuzilamento depois de meses de tortura. Deixou-nos o livro que hoje apresentamos, escrito por um seu aluno na Universidade Operária de Paris com as notas das aulas de Politzer.
Um livro que é hoje ainda uma das mais didácticas introduções ao Materialismo Dialéctico, à filosofia do Marxismo-Leninismo, E que muito recomendamos.

Publicado pelo jornal da ORL do PCP

Tive o privilégio de ler este livro em 1969 e foi nele que me embebi no ideal comunista.
Vou procurar partilhar com os que me lêem alguns trechos que eu julgue serem de maior importância

Quelha Funda






Aumento do salário

Os Salários

O senhor ministro da economia, Vieira da Silva, já veio pôr a claro o seu pensamento e a sua submissão ao patronato afirmando, do alto do seu saber, que: "Com este plano de fundo a actualização de 1,5 por cento dos salários em 2010 pode não ser sustentável. Não será sustentável seguirmos políticas de rendimento e políticas salariais desajustadas do ciclo económico em que vivemos, pois não vejo como é possível que a riqueza seja distribuida se não for criada consistentemente". Citado pelo Diário Económico.
Se assim é e todos nós sabemos, se o país não cria riqueza ela não pode ser distribuida, porquê não inverte, o ministro, o rumo das coisas? Não pode distribuir riqueza mas poderá distribuir a pobreza. Não pode nivelar o nível de vida dos portugueses por cima, há que nivela-los por baixo começando logo pelo seu salário e dos seus colegas de governo e indo até aos governadores de bancos e outros administradores!
Não é justo Senhor Ministro da Economia?

Quelha Funda

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Muro de Berlim

Entrevista com Egon Krenz, ultimo presidente do Conselho de Estado da RDA.*

-O Senhor esteve preso durante vários anos, o que tem adizer?
Tenho a sorte de ter uma família intacta e amigos fieis. Tenho a esperança que os meu netos conseguirão o que nós tentámos construir. Em 1989, não foram as ideias socialistas que foram enterradas, mas antes um certo modelo de socialismo. Estes anos de prisão foram, principalmente para a minha família muito duros pois os ataques, que me eram feitos, visavam a minha honra. Eu sabia que não me ofereceriam flores. Por uma razão simples: desde a sua elaboração, a lei fundamental da RFA estipulava que os territórios alemães situados fora da RFA deviam ser recuperados; todos aqueles que exerciam uma função responsável eram considerados como criminosos e malfeitores. Eu sabia isso já à muito tempo mas recuso e recusarei sempre as acusações que foram levantadas contra mim. A história me libertará. A Minha sorte pessoal pouco importa. Ao contrário, o calvário vivido por numerosos cidadãos da RDA releva do inadmissível. Eu penso a todos, que foram marginalizados. A divisão da Alemanha não era uma coisa natural. Ela era contrária à nossa História.
-Mas o senhor apercebeu-se que os dirigentes da RFA tudo fizeram para evitar a prisão dos nazis?
-Eu respeitei escrupulosamente as leis da RDA.Não cometi nenhum crime.
-Como viveu os últimos dias da RDA?
-Eu não sou da geração dos que vieram dos campos de concentração, da guerra da Resistência ou de Moscovo.
No"bureau" político do SED,eu era o mais jovem. Eu sou um infante da RDA. Todos os outros tinham sobrevivido ao nazismo. Eu ocupei numerosas funções: de representante dos alunos no meu colégio, até à presidencia do Conselho de Estado. Com o desaparecimento da RDA, é uma boa parte da minha vida que eu enterrei.
-Passou algum acordo com o chanceler Kohl?
-Nós tinhamos dicidido de abrir avários pontos de passagem. A data foi fixada, pelo meu governo, a 10 de Novembro de 1989. Ora na vespera um membro do "bureau" político, Schabowski, anunciou publicamente,não a abertura das passagens," mas a destruição do muro".Nós tinhamos acordado com Kohl pela abertura em "doçura" das fronteiras.
-Pensou, em algum momento, a usagem da força?
-Posso jurar que nós nunca envisajámos uma tal decisão. Eu sabia que uma só morte teria consequências trágicas. O uso da força, e nós tinhamos os meios, teriam coduzido à castástrofe.
Num dos vossos livros, o senhor protésta contra a reescritura da história.
-Tantas coisas foram ditase escritas... É preciso voltar ao essencial: sem Hitler, o nazismo, a Segunda Guerra mundial e a reforma monetária de 1948, a história da Alemanha poderia se ter escrito de outra maneira. O mal do povo alemão, foi o facismo.
-Vinte anos depois do fim da RDA, o socialismo, no seu entender, é morto?
-A ideia socialista, os valores do socialismo vivem e viverão. Eu estou persuadido que o futuro será o socialismo ou a barbaridade. O antigo sistema é definitivamente morto. Eu considero que falhei. A outros de Construir o socialismo moderno e democrático. Um novo socialismo


* Egon Krenz vive com a família perto de Rostok

Entrevista feita por José Fort-----Humanité

Publicado por Quelh Funda

terça-feira, 3 de novembro de 2009


Opinião de Mário Crespo

Os intocáveis
Ontem
O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

Quelha Funda