quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Política e Religião

Bem aventurados os mais ricos da Terra

«Dinheiro é poder. O poder enlaçou-se com a política. A partir deste ponto, os problemas políticos fundem-se com a influência financeira do Vaticano na administração monetária» (Estebam Torres/Internet).
«A Igreja está a tornar-se para muitos no principal obstáculo à fé. Nela não conseguem ver mais que a ambição humana pelo poder... » (Joseph Ratzinger, 1977, como Prefeito do ex-Tribunal do Santo Ofício), antes de ser papa.
«A constituição de uma Autoridade Pública Mundial ao serviço do bem comum é o único horizonte compatível com as realidades globais… dando vida a alguma forma de controlo monetário para gerir o mercado financeiro… mesmo que à custa da transferência gradual e equilibrada de uma parte das atribuições (de soberania) nacionais» («Nota sobre a reforma do sistema financeiro e monetário mundial», Comissão Pontifícia Justiça e Paz, Outubro 2011).
O Vaticano abandonou o seu silêncio «de chumbo» para mostrar como está atento à crise geral do capitalismo e como se empenha em salvar o sistema. Não é sem razão de ser que isto acontece. A Igreja católica é actualmente o mais poderoso grupo financeiro mundial. Embora seja impossível dar sequer uma ideia aproximada das dimensões reais do seu poderio – sobretudo político, económico e financeiro – façamos no entanto uma incursão no que é praticamente desconhecido.
Temos visto pelos jornais como o preço dos metais preciosos, nomeadamente o oiro, tem crescido em flecha nos recentes tempos da crise. Pois a Igreja mundial, reconhecida como a mais importante detentora de metais preciosos, tem recolhido a maior parte dos lucros destas oscilações cambiais. Nos anos 80 do século vinte, antes da galopada dos preços começar, calculava-se que em todo o mundo o Vaticano detivesse nos seus cofres lingotes num valor superior a 6 mil milhões de dólares. Isso, só em «oiro sólido» (oiro em barras, com exclusão de outros metais preciosos trabalhados ou não (pepitas, objectos de oiro, moedas, peças incrustadas em altares, etc.).
Também, tanto quanto se sabe, por alturas dos finais do século XX e só nos bancos suíços e ingleses o Vaticano detinha em acções, pedras preciosas, objectos de arte, etc., etc., reservas superiores a 11 biliões de dólares. Os poucos dados conhecidos permitem, igualmente, calcular que os bens eclesiásticos num só país – os EUA – considerado espelho da prosperidade capitalista, a Igreja administrava valores em bens imobiliários, acções, depósitos financeiros e outros investimentos que excediam a soma dos capitais sociais dos dez principais grupos económicos norte-americanos.
Na declaração da «Comissão Pontifícia Justiça e Paz» a que à margem deste texto se alude, reconhece-se que actualmente, em todo o mundo, um trilião de seres humanos sobrevive com um rendimento de 1 dólar por dia. Por outro lado, admite-se que uma tal situação resulta de deficiências da gestão política e da prática de um liberalismo «tecnocrático». Mas não se fala no papel activo que o Vaticano tem desempenhado na construção deste quadro político e social.
A complexa rede financeira dirigida pela Santa Sé depende directamente do Papa, da Cúria Romana e do IOR – Instituto para Obras Religiosas, correntemente conhecido como Banco do Vaticano. Aparentemente, desempenha as funções que são comuns a qualquer banco. Na realidade, a rede vai muito mais além e é a sede da mais importante central financeira mundial. Giram na sua órbita bancos extremamente poderosos como o Pax, o J.P. Morgan ou o Deutsch Bank. Domina extensos impérios bancários, através da compra directa de grandes lotes de acções. Domina, por intervenção de terceiros, interesses que determinam as orientações dos verdadeiros centros de decisão mundial, tais como o G20, o Clube de Bilderberg,o Foreign Council norte-americano ou os Illuminati. Desenvolve constantes actividades criminosas, nomeadamente as lavagens de dinheiros, os desfalques, o contrabando e a corrupção, como está demonstrado pelos permanentes escândalos que envolvem o IOR (Ambrosiano, P2, falsas fundações, IPSS ou Fundos de Caridade, desvio de subsídios do Estado, operação «Mãos Limpas», etc., etc.).
Em Itália, como em Portugal, aos responsáveis por estes crimes nada acontece.Estão protegidos pelos escudos invisíveis das «Concordatas».É o princípio de uma longa história. Mas, por hoje, temos de ficar por aqui.

Jorge Messias ( Jornal Avante)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Argumentos

O Natal dos ricos


Dificilmente esquecerei aquele dia em que, devido aos bons ofícios da televisão, soube da enorme dificuldade, pela própria confessada, que a drª. Manuela Ferreira Leite tem em distinguir os ricos dos pobres. Lembro-me de que durante muito tempo andei deprimido, a imaginar a confusão que andaria por aquela pobre cabeça, aliás excelente e porque excelente com grande vocação ministerial na área das finanças e não só, como é sabido. A mim, felizmente, pouparam os céus tamanha desgraça, e por isso vou distinguindo entre ricos e pobres decerto graças aos sinais que decerto me são enviados do alto acompanhados pelo discernimento que me permite distinguir entre uns e outros. E por esta altura do ano, muito especialmente neste ano de 2011 que se acaba agora, essa capacidade tem ainda maiores possibilidades de se exercer. É que a chamada quadra do Natal é particularmente propícia não só a que a televisão se lembre dos pobres mas também a que os próprios pobres surjam pessoalmente nos ecrãs dos televisores, o que dificilmente ocorre durante o resto ano. Bem se pode dizer, pelo menos quando se fala de TV, que o Natal é o tempo da hiperpublicidade dirigida ao consumismo infantil e das imagens de pobrezinhos a aquecerem-se com uma sopa que generosamente lhes é servida por excelentes senhoras ou, se não propriamente por elas, pelo menos a seu mandado e sob seu apoio financeiro. São imagens que de um modo ou de outro nos tocam o coração, naturalmente. Tanto ou mais quanto as mensagens natalícias do senhor Presidente da República, desta vez coadjuvado pela sua esposa, assim se provando como é pesado o exercício das funções que exerce e como lhe é conveniente que alguém o ajude a suportar-lhes o peso.

Se
Entretanto, e decerto porque a providência suprema nunca está totalmente adormecida, nem tudo são penúrias e carências neste Natal português de 2011. Não apenas pelo que a televisão nos vem contando mas também pelo que à margem dela se vai conhecendo, vamos tendo o reconforto de saber não apenas que os ricos continuam a existir em Portugal mas também que, segundo fontes internacionais, estão cada vez mais distantes e acima dos pobres, o que certamente lhes é óptimo. É certo que o País globalmente considerado não ganha nada com isso: esses «ricos cada vez mais ricos» não se dão ao incómodo de investir sequer parte das suas capacidades financeiras em actividades produtivas que possam atenuar o défice das nossas contas externas, preferindo presumivelmente a transferência para off-shores que são colocação mais compensadora, mas pelo menos permitem que Portugal se possa orgulhar da sua existência, o que já é bonito. É de crer, além disto, que pelo menos uma pequena parte deles dê algum apoio a iniciativas caritativas que um pouco por todo o lado vão acontecendo, o que não só pode calar a boca aos que se obstinam em falar de classes e da sua permanente luta como garantirá a esses ricos, em reconhecimento do seu excelente coração, um lugar na primeira fila do Além quando lhes chegar a hora final. Entretanto e enquanto esse inevitável desenlace não chega, é óbvio que os ricos, os tais que a doutora não consegue distinguir, vão recebendo nesta vida substanciais adiantamentos por conta e, precisamente, este Natal é um momento óptimo para que isso se torne visível. Todos nós, gente comum, graças ou não à TV podemos saber dos milhares de cidadãos em quem o desemprego frutificou em fome, das crianças a quem mesmo durante as férias de Natal as cantinas escolares fornecem a comida que elas não encontram em casas dos pais, do total desamparo que acaba por se exprimir no aumento da delinquência. Mas, porque a mesma TV nos disse do aumento do tal fosso entre ricos e pobres, sabemos também que forçosamente haverá excelentes e muito felizes Natais entre os mais ricos, e bem se poderá dizer que é o que nos vale, pois do horizonte permitido pela intensa actividade do Governo não é visível que nos possa valer mais nada. De tudo quanto se sabe pela TV e não só, este Natal de 2011 vai ser o Natal dos ricos e o inferno dos pobres. Com um só factor para um eventual e muito relativo sentimento de conformação: o Governo já anunciou, ainda que indirectamente e por meias palavras que aos bons entendedores hão-de bastar, que o Natal de 2012 será ainda pior. Para os pobres. Entenda-se: se estes, compreensivos, deixarem.

Correia da Fonseca (Jornal Avante)

Política e Religião

Camarote para a Concordata

«A espada que não se enterra no coração dos senhores,
dos culpados/enterra-se no coração dos pobres,
dos inocentes» (Paul Eluard, poeta francês comunista, século XX, «Poemas para todos»).

«Para transformar o mundo é preciso mais do que orações. São necessários actos. Mais do que actos privados actos universais, políticos. O proletariado aprendeu isso à sua custa e ensina-o hoje a toda a humanidade. O amor moderno que se tem aos outros é político ou, então, não será amor. Poder-se-á hoje amar os homens sem pôr em causa o Capital, quando tanto sofrimento ele lhes causa? Poder-se-á amar a humanidade, ou as pessoas, sem lutar contra a guerra quando esta pode pôr em causa a existência da humanidade, como espécie? E, uma vez que a propriedade e a guerra são negócios de Estado, poder-se-á amar os homens do século XX sem vigiar o Estado? Não é a política o único meio de dar ao amor um conteúdo prático e universal?» (Karl Marx, «Sobre a religião»).

«Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever, em razão de ascendência, sexo, raça, língua, territórios de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social» (Constituição da República Portuguesa,
artº. 13º., nº. 2).

De entre os chavões usados pela hierarquia católica contam-se «palavras de ordem» destinadas a descrever a sociedade civil como apolítica e moralmente sensível aos problemas desencadeados pela exploração do homem e aos direitos deste. Não é assim entendido em boa parte do país católico. Mas é por demais evidente que quanto maior for a pobreza, maior é a exploração. Quanto mais crescer o desemprego mais se avolumarão as grandes fortunas. Com o capitalismo neoliberal e imperialista nos comandos do País caminhar-se-á irreversivelmente para uma sociedade concentracionária, monocolor e policial. A «Nova Era» é a «Velha Ordem» fascista. E não é verdade que a influência de uma religião conduza a mais apurada consciência cívica.
O comportamento do alto clero é prova viva desta mortal situação. Apoia explicitamente a «equidade» dos sacrifícios impostos ao povo e os critérios do pacto de agressão e prospera, à sombra disso, com novos subsídios estatais, com a devolução à Igreja de bens e equipamentos, com a vergonhosa protecção do Estado à banca (que a Igreja directa ou indirectamente domina), com o encaixe de grossas fatias das chamadas verbas comunitárias, com crescentes isenções fiscais, com os lucros das suas lotarias e offshores, com os «poços sem fundo» das suas fundações, etc. Isto, no plano dos ganhos materiais.
Mas com a crise provocada pelas vertigens do capitalismo, a Igreja também soma e segue no plano político. Muitos dos atropelos legislativos praticados pela maioria do centro-direita serviram como vias rápidas para a escalada do poder do aparelho católico. Refira-se, a título de simples exemplos, a legislação que permite às instituições não lucrativas (IPSS) a associação com holdings lucrativas; as medidas que reformam ou extinguem freguesias ou serviços essenciais do Poder Local, deixando as populações novamente nas mãos das velhas paróquias e das organizações caritativas da Igreja; o encerramento compulsivo de serviços estatais essenciais, o que promove o aumento da procura de estabelecimentos privados quase sempre ligados à Igreja; leis perversas, tais como as do Programa de Emergência Social e da Rede Nacional de Solidariedade, que minam os alicerces da democracia e são talhadas à medida da capacidade dos meios que a Igreja já possui. Assim, a Igreja católica, tradicionalmente instalada nas cúpulas de todos os centros de decisão, penetra anonimamente nas bases e níveis intermédios do colectivo democrático.
O cardeal e os bispos instalam-se comodamente nos camarotes da Concordata, como se fossem meros espectadores, e deixam andar. A Concordata é um lugar seguro. É indiferente que o Estado português se proclame laico, segundo a Constituição e negue na prática o que afirma em teoria. Também diz que a soberania reside no povo e… na realidade, é o que se vê!
A fortuna total da Igreja é segredo bem guardado, como seria de esperar. Porém, apoiados na comunicação social, talvez possamos arriscar um passo que seja nessa selva ferozmente defendida dos olhares dos leigos. A fonte serão os jornais e a Internet.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Política e Religião

A fatídica pirâmide de degraus


«Os cristãos não se podem limitar a praticar actos de culto, têm de estar na rua, têm de saber dizer não quando sentem que há que dizer “não” … porque dizer não em voz alta, mesmo de forma ruidosa, é um direito que assiste a todos aqueles que se sentem ofendidos na sua dignidade e àqueles a quem são retiradas possibilidades de vida digna» (António Soares, Comissão Justiça e Paz, Setúbal, 21.11.2011).
«A ideia de que a função dos portugueses é dizer mal dos governos… não pode ser ! O problema não se resolve se cada um puxar a brasa à sua sardinha. Portugal sempre honrou os seus compromissos ! Se nós colaborarmos todos, o próprio Governo encontrará as soluções mais adaptadas ...» (D. José Policarpo ao Jornal de Notícias, 4.10.2011).
«Não é a consciência do homem que determina o seu ser; é o inverso, é o seu ser social que determina a sua consciência» (Karl Marx, «Contribuição à crítica da economia política»).
Dizem os conhecedores que a pirâmide perfeita só foi concebida após longas tentativas e a partir de outras pirâmides irregulares, de degraus. O problema não estava na concepção da construção em vista. Residia na deslocação dos materiais pesados; quando essa dificuldade ficou resolvida, logo as pirâmides de faces lisas começaram a surgir nos desertos. Depois, o tempo arruinou a maior parte delas. Tombaram as grandes placas de pedra. Voltaram a surgir os degraus irregulares. Poucas construções sobreviveram.
Esta imagem pode servir de ilustração às realidades actuais do capitalismo como sistema universal o qual, dia-a-dia, irremediavelmente se degrada. No seu percurso, os capitalistas conduziram os povos ao deserto e construíram aí um paraíso artificial. Imaginaram um mundo à medida dos seus desejos. Depois – como não podia deixar de ser – a realidade sobrepôs-se à utopia. Se prestarmos atenção ao que os próprios banqueiros agora reconhecem, notaremos que falam cada vez menos em crise e cada vez mais em derrocada eminente do euro, alicerce principal da União Europeia e do próprio capitalismo como sistema político e financeiro.
Entretanto, os próximos tempos vão surpreender multidões desprevenidas. Também elas confiaram um dia na «varinha mágica» dos «bons banqueiros» que tudo prometiam. Admitiram, talvez para alimentarem a sua própria ilusão, que o dinheiro fácil do crédito que jorrava da banca era tirado aos ricos para dar os pobres. Completa burla. E a igreja colaborou nesse crime.
Afinal, esse dinheiro era o do povo, pago com o seu suor. Ao «emprestá-lo» aos trabalhadores, os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. O dinheiro produzia cada vez mais dinheiro, mais desemprego, mais fomes e mais guerras, subida do custo de vida, golpe sobre golpe no Estado social. Os lucros concentravam-se nas mãos dos multimilionários. É nesta fase de transição que nos encontramos.
Logo a seguir virá o caos.
Os povos depressa aprenderão que os sacrifícios impostos são dirigidos contra os pobres e que as tentativas de saque selvagem agudizam sempre as lutas de classes. O que ainda falha em muitos cidadãos atingidos pela exploração é a compreensão de que eles próprios constituem um poder decisivo ao qual só falta em parte a consciência da força que possui. Outro será o homem de amanhã. Marx previu-o naquele pensamento citado à cabeça das linhas deste texto: a consciência social forma-se na escola da realidade.
Os católicos começam a entender todas estas razões. A partir de agora nada será como dantes. As portas de oiro cerram-se uma a uma. Encurralado, o Capitalismo vai tentar cilindrar o Trabalho e esmagar os direitos dos trabalhadores, sejam eles ateus, agnósticos ou crentes. Do «outro lado da barricada» alinha a hierarquia da igreja que valida as medidas do grande capital universal, adere às acções do Governo, apoia a troika e reclama um só poder no governo das nações. Os cardeais e os bispos agem em termos de mercado. É-lhes indiferente que as suas opções resultem na recondução das situações que conduziram, entre as duas guerras, à ascensão do fascismo e à militarização da sociedade, factores que voltam a estar sobre a mesa e que apontam para uma III Guerra Mundial.
Será rápida, cruel e decisiva esta fase do despertar das massas populares. Lutaremos lado a lado e sofreremos. Mas, finalmente, venceremos!.
O Socialismo é a única via aberta ao futuro colectivo da Humanidade.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Política e Religião

Um esboço de poder confessional

«As instituições sociais são fundamentais, absolutamente essenciais para podermos dar uma resposta em tempo de crise. É preciso que o Estado tenha a humildade de pedir ajuda às instituições sociais. Neste momento, nós sabemos que o Estado não pode estar sozinho… Conhecemos a situação de cerca de um milhão de pensionistas que recebem uma pensão mínima de 247, 227 ou 189 euros !» (Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade e Segurança Social, Jornal Solidariedade, Novembro de 2011).
«Não gosto de falar em actividades lucrativas em instituições sociais, não têm essa vocação. No entanto, elas podem ter resultados operacionais positivos que ajudem a potenciar as respostas que as próprias instituições têm...» (P. M. Soares, idem, idem).
«São tarefas fundamentais do Estado...Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais» (Constituição da República, Art.º 9.º).
A «dívida soberana» portuguesa e os sacrifícios impostos pelo Estado aos cidadãos não cessam de crescer. Criou-se uma situação irreversível que é da total responsabilidade do sistema capitalista que motiva as actuais forças dominantes. O Estado gastou recursos de que o País não dispunha, asfixiou as actividades produtivas e impôs uma política consumista que conduziu o País à falência. Assinou com o FMI um contrato criminoso que entrega a estrangeiros a soberania nacional. Agora, procura vender património ao desbarato, encontrar sócios financeiros interessados e manter, simultaneamente, as políticas de destruição dos institutos constitucionais. É lixo, a Constituição de Abril.
Naturalmente que o «caso» português seria muito simples de resolver pelas oligarquias e pelos monopólios numa situação capitalista próspera. Mas como o panorama universal que se apresenta é catastrófico, os falidos governantes portugueses precisam de se socorrer de remédios caseiros. Vão sacar o dinheiro onde quer que ele esteja, menos aos bancos. Aí, nas catedrais do capital, o terreno é sagrado.
Em tais cenários, portas adentro as alternativas são mínimas.
O Estado tem muitos produtos para oferta. Mas o mercado é tremendamente limitado. Reduz-se, na verdade, a dois gigantescos grupos económicos: o dos monopólios financeiros e o lobby da Igreja Católica nacional que dispõe igualmente de uma gigantesca massa de recursos e ligações a nível mundial. Constata-se, em termos globais, que nos planos político e económico, esses dois gigantescos polvos se organizam, sobretudo, por detrás de estruturas abissais e secretas como o Opus Dei e a Maçonaria. Nelas se fixam os olhares angustiados dos ministros. Mas para se progredir nessa via é necessário conciliar interesses.

O segredo é a alma do negócio

E é aqui que «a porca torce o rabo».
À boca de cena, Igreja e Maçonaria parecem incompatíveis, o que não é tanto assim. Ambos pretendem a substituição do Estado burguês, falido e desprestigiado, e uma nova arrumação de valores. Simplesmente, num caso e noutro, os figurinos são diferentes. Os grandes capitalistas laicos, puros e duros, querem que a Nova Ordem avance já, sem olhar a consequências, com os olhos postos num universo onde o trabalho seja completamente escravizado ao lucro e ao crescimento monopolista. Tudo pela força.
A Igreja escolhe outros caminhos. Também ela visa assumir o poder e instalar no País uma chefia dura, fundamentalista e confessional com um governo «forte». Mas sabe que tudo tem o seu tempo e que vale a pena esperar… avançando. Para isso, precisa da gerir a crise. O Vaticano sabe que o caos não só pode provocar-se mas que também pode gerir-se. De que modo? Conquistando os centros de decisão, um após outro. A Segurança Social, a Educação, a Saúde, a Cultura, a Justiça. Para já, um a um, todos lhe vão caindo nas mãos. Usando a persuasão ou a força. Não esquecendo, por exemplo, que a caridade em tempos de fome é uma excelente ferramenta do Poder.
É claro que há-de ser o Povo a pagar os custos de tudo isto. E não por um dia, por um mês, por uma semana, por um ano ou por um século. Se no mundo o capitalismo sobreviver penetraremos num novo ciclo da História. O da Nova Era ou Nova Ordem, saqueadora, brutal, fascista e capaz de impor à massa anónima o capitalismo como uma religião e a religião como ópio.
Ocupemos os nossos postos de combate

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Politica e Religião

Caos e Nova Ordem Mundial


«É uma grande ideia a de uma Nova Ordem Mundial, onde diversas nações se unam por uma causa comum para realizarem as aspirações universais da humanidade: paz, segurança, liberdade e autoridade da lei. Para tal, só os Estados Unidos reúnem duas condições essenciais de liderança – a posição moral e os meios de garanti-la!» (Georges Bush, presidente dos EUA e membro da Maçonaria).
«Aproximadamente 200 delegados encerraram uma reunião interfé que durou uma semana, em Standford USA, prevendo-se que tenham criado um Movimento, bem como uma instituição espiritual. Digam às pessoas que existem as Religiões Unidas.... Após vários anos de discussões, os promotores da iniciativa passaram a tratar de negócios». (NETSaber, Walter Cipriano).
«Segundo os ensinamentos do socialismo, isto é, do marxismo (pois de socialismo não-marxista não podemos agora falar seriamente), a verdadeira força motriz da história é a luta revolucionária das classes, ao contrário do que dizem os filósofos burgueses quando afirmam que a força que impulsiona o progresso é a solidariedade de todos os elementos da sociedade» (Lenine e F. Fedosoeyev in «A Teoria marxista das classes e da luta de classes»).
A palavra de ordem dos sistemas agora no poder é destruir. Cultiva-se a desordem e a miséria. Os responsáveis políticos, económicos e religiosos procuram impor ao povo uma só condição: nós gastámos; nós endividámo-nos; nós somos ricos; nós comprometemo-nos a pagar... Vocês pagam!
Os que não cessam de enriquecer são sempre os mesmos. Chega a ser monótono… Banqueiros, especuladores, governantes e ex-governantes, traficantes, demagogos, etc. Os que pagam, também os mesmos são: trabalhadores, famílias, pensionistas, juventude, humildes, crianças e marginalizados. A responsabilidade desta situação – dizem os ladrões –
A falsidade desta alegação é evidente. É fundamental tirar ao povo tudo o que tem e juntar ao roubo a noção de culpa dos próprios espoliados. Com isto, baralhar e confundir todas as classes e a opinião pública. Uma estratégia familiar aos capitalistas.
Por muito que nos pese, o 25 de Abril não foi o acto final do pesadelo fascista. Data inegavelmente básica, apenas marcou uma baliza da «luta de classes». O generoso projecto de uma sociedade mais justa e desenvolvida apenas se deixou entrever. Logo foi reabsorvido pelas forças ultra conservadoras. A princípio, prudentemente, de forma gradual. Mas depois, a operação foi-se acelerando até se mostrar à luz do sol, descaradamente.

Os compadres do episcopado

Seria claramente injusto «meter no mesmo saco» príncipes da Igreja e povo católico. Os príncipes cantam de galo e sobem ao poleiro dos banqueiros. O povo católico vai suportar, exactamente como o povo laico os mesmos assaltos dos ricos. Estes, depois debitam as despesas e as suas facturas não olham à justiça social. Exigem pagamento. Enriquecem os ricos e empobrecem os pobres. Esta arrogância liga o motor de arranque da luta de classes.
O chamado magistério da Igreja está a receber, assim, um rude golpe. A questão é que, ao alinhar incondicionalmente com os objectivos do capitalismo, a hierarquia católica aumenta desmedidamente a sua fortuna e afirma-se como grande pilar das finanças mundiais. Mas destrói irremediavelmente o que resta da sua imagem tutelar de guia espiritual. A Igreja, passa a ser um gestor bem sucedido no mundo dos gestores. Fica com as escolas, com os hospitais, com os off-shores, com os seus bancos, com os seus latifúndios, com as suas sociedades secretas, com a sua manifesta influência a nível do poder. Mas perde perante os seus fiéis todos os sinais distintivos que eventualmente a definiam como entidade aparte do materialismo mais boçal. Paz à sua alma!...
Pelos caminhos que os acontecimentos tomam, o caos é já amanhã. O povo vai erguer-se e lutar, o que exige um enquadramento a que a Igreja renunciou ao optar pela nova ordem fascista dos multimilionários. Que farão nessa altura os cidadãos católicos senhores dos seus direitos e dos seus deveres de cidadania? Calam-se e esperam que a vontade de Deus se revele? Deixam que os seus bispos interpretem os factos ao sabor dos seus interesses? Ou passam à luta?
A luta, amigos católicos, é para todos nós. Complexa e para os católicos livres ainda mais difícil do que para nós. Terão de bater-se em duas frentes: contra o capitalismo e pela moralização da sua própria Igreja.
Combates a que os católicos não virarão as costas!


Jorge Messias (Jornal Avante)