quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Política e Religião
De Jorge Messias (Jornal Avante)
Os sofrimentos arrepiantes por que passa o povo do Haiti despertam, como é evidente, sentimentos de solidariedade humana. Não devemos, no entanto, furtar-nos a recolher e classificar informação do que se está a passar, não na perspectiva da causas das catástrofes naturais, mas a partir dos factos sociais, políticos e religiosos que estão na base da instalação da actual situação de anarquia e miséria num país onde o povo é tratado como se fosse gado.
Quando o castelhano Cristóvão Colombo descobriu a América (1492) defrontou-se com uma nação dos índios Taíno, que pareciam nadar em oiro. Chamavam à sua terra Ayiti. Colombo chacinou os índios, apropriou-se das minas de oiro e mudou para Hispaniola o nome da terra índia. Estabeleceu uma força armada de ocupação e os missionários católicos baptizaram à força os índios escravizados. A ocupação espanhola manteve-se até 1697. Entretanto, dizimados os povos índios, procedeu-se à importação maciça de escravos africanos que garantiram aos senhores europeus a mão-de-obra necessária à exploração mineira.
Entretanto, nesse mesmo ano, a Espanha concluiu com a França um tratado que repartia entre as duas potências as terras de Hispaniola: a França ficou com a parte ocidental (Santo Domingo, a actual República Dominicana) e a Espanha com o restante território. O preço do oiro tinha caído muito e grande número de veios e de minas estavam esgotados. A defesa da economia europeia impunha assim o recurso à produção agrícola extensiva. Foram arrebanhadas multidões de escravos africanos que passaram a trabalhar a terra e a exportar para a Europa o açúcar, o tabaco, o milho, o sisal e o café. Os escravos eram tratados da forma mais desumana.
Em 1791, comandados por Louverture - o «Espartacus Negro» - os escravos revoltaram-se. A guerra da independência durou 13 anos de inenarráveis horrores e levou Napoleão a enviar para a ilha um exército de 43 mil soldados do exército francês treinados no combate. Os escravos enfrentaram-nos e derrotaram-nos. Morreram nessa guerra mais de 150 mil escravos e 70 mil franceses. O nome de Santo Domingo foi então mantido, enquanto que para a outra jovem nação se recuperou a antiga designação índia de Haiti.
Então e agora, pelas mesmas razões...
A independência do riquíssimo Haiti apenas foi reconhecida pela França em 1825. Mas Napoleão exigiu, como contrapartida, que o Estado haitiano pagasse à França 150 milhões de francos, a título dos prejuízos causados pela perda de escravos! O Haiti pagou e passou a abrir as fronteiras aos imigrantes europeus e norte-americanos. Todos exigiram então do Estado rios de dinheiro e privilégios. Multiplicam-se os golpes de Estado, os crimes, as traições e a corrupção.
Em 1888, 1915, 1934, 1937 e noutros anos, os norte-americanos ocuparam militarmente o território do Haiti, com a sua Guarda Nacional e os seus «marines». Desmantelaram o aparelho administrativo, destruíram florestas e plantações, abriram auto-estradas e estabeleceram linhas de montagem industriais. Depois, entregaram o poder a François Duvalier – o tenebroso Papa Doc – que durante 15 anos, até 1971 governou cruelmente, apoiado pela sua milícia fascista - os Tonton Macoutes. Generalizou-se a corrupção e a miséria galopante. Golpes e golpes militares, intervenções norte-americanas e da ONU (sob a capa de promover a estabilização política e a ajuda humanitária) passaram a constituir o dia-a-dia do massacrado povo do Haiti.
Em toda esta longa procissão de terror, o Vaticano tem surgido de mão-dada com a administração americana. Grandes ordens religiosas, como por exemplo a Dominicana e os Jesuítas, controlam extensas terras e a Santa Sé silencia perante os crimes dos mais fortes. À corrupção somam-se as torturas, os assassínios políticos e a miséria do povo.
No entanto, declarou há dias o Bispo de San Sebastian: «O que acontece no Haiti não é o pior de tudo. Mais grave é o materialismo e a perda de espiritualidade no Ocidente»!... É a perspectiva católica mais fundamentalista e desumana.
Contudo, o povo do Haiti é forte. Endureceu no combate, permanente e sem quartel, ao longo de gerações. Há-de vencer. As lutas prolongadas produzem a unidade e o que se passa no Haiti e no conjunto da América Latina é uma luta de classes de gigantescas dimensões.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Politzer
I. - Porquê uma terceira filosofia?
II. - Argumentação desta terceira filosofia.
III. - De onde vem esta filosofia?
IV. - As suas consequências.
V. - Como refutar esta «terceira» filosofia?
VI. - Conclusão.
I. — Porquê uma terceira filosofia?
Pode parecer-nos, depois destes primeiros capítulos, que, afinal, deve ser bastante fácil orientarmo-nos no
meio de todos os raciocínios filosóficos, uma vez que só duas grandes correntes dividem entre si todas as
teorias: o idealismo e o materialismo. E que, além disso, os argumentos que militam em favor do
materialismo dominam a convicção de maneira definitiva.
Parece, portanto, que, depois de algum exame, tenhamos encontrado o caminho que conduz a filosofia da
razão: o materialismo.
Mas, as coisas não são tão simples. Como já o assinalámos, os idealistas modernos não têm a franqueza do
bispo Berkeley. Apresentam as suas ideias
com muito mais artifício, sob uma forma obscurecida pelo emprego de uma terminologia «nova», destinada
a fazê-las tomar, por pessoas ingénuas, pela filosofia «mais moderna»16.
Vimos que à pergunta fundamental da filosofia podem ser dadas duas respostas, totalmente opostas,
contraditórias e inconciliáveis. São claras, e não permitem nenhuma confusão.
E, com efeito, até cerca de 1710, o problema era posto assim: de um lado, os que afirmavam a existência da
matéria fora do nosso pensamento - eram os materialistas; do outro, os que, com Berkeley, negavam a
existência da matéria, e pretendiam que esta existia apenas em nós, no nossso espírito - eram os idealistas.
Mas, nessa época, progredindo as ciências, outros filósofos intervieram, os quais tentaram desempatar
idealistas e materialistas, criando uma corrente filosófica que lançasse a confusão entre essas duas teorias; tal
confusão tem a sua origem na procura de uma terceira filosofia.
II. — Argumentação desta terceira filosofia.
A base desta filosofia, elaborada depois de Berkeley, é que é inútil procurar conhecer a natureza real das
coisas, e que nunca conheceremos senão as aparências.
É por isso que se chama a esta filosofia agnosticismo (do grego a, negação, e gnósticos, capaz de conhecer;
portanto: «incapaz de conhecer»).
Segundo os agnósticos, não se pode saber se o mundo é, na realidade, espírito ou natureza. É-nos possível
connecer a aparência das coisas, mas não a realidade.
Retomamos o exemplo do sol. Vimos que não é, como o pensavam os primeiros homens um disco achatado e
vermelho. Esse disco não era, portanto, mais que uma ilusão, uma aparência (a aparência é a ideia superficial
que temos das coisas; não é a sua realidade).
Eis porque, considerando que idealistas e materialistas se disputam para saber se as coisas são matéria ou
espírito, se existem ou não fora do nosso pensamento, se nos é possível ou não conhecê-las, os agnósticos
dizem que se pode, na verdade, conhecer a aparência, mas nunca a realidade.
Os nossos sentidos, dizem, permitem-nos ver e sentir as coisas, conhecer os aspectos exteriores, as
aparências; estas aparências existem, portanto, para nós; constituem o que se chama, em linguagem
filosófica, a «coisa para nós». Mas não podemos conhecer a coisa independente de nós, com a realidade que
lhe é própria, o que se chama a «coisa em si».
Os idealistas e os materialistas, discutindo continuamente sobre estes assuntos, são comparáveis a dois
homens que tivessem, lum, óculos azuis, o outro, cor--de-rosa; passeariam na neve, e discutiriam para saber
qual a sua cor verdadeira. Supúnhamos que nunca pudefiem tirar os óculos. Poderão um dia conhecer a
verdadeira cor de neve?... Não. Pois bem! os idealistas e os materialistas, que se disputam para saber qual das
duas facções tem razão, trazem óculos azuis e cor-de-rosa. Nunca conhecerão a realidade. Terão um
conhecimento da neve «para eles»; cada um vê-la-á à sua maneira, mas nunca a conhecerão «em si mesma».
Tal é o raciocínio dos agnósticos.
III. — De onde vem esta filosofia?
Os fundadores desta filosofia são Hume (1711-1776), que era Escocês, e Kant (1724-1804), um Alemão.
Ambos tentaram conciliar o idealismo e o materialismo.
Eis uma passagem dos raciocínios de Hume, citados por Lenine no seu livro «Materialismo e
empirocriticismo»:
Pode considerar-se como evidente que os homens são propensos, por instinto natural..., a fiar-se na sua
opinião, e que, sem o menor raciocínio, supomos sempre a existência de um universo exterior, independente
da nossa percepção, que existiria mesmo que fôssemos destruídos com todos os seres dotados de
sensibilidade...
Mas, esta opinião primordial e universal é prontamente desacreditada pela filosofia mais superficial, que
nos ensina que nada (para além da imagem ou da percepção será jamais acessível ao nosso espírito e que
as sensações são apenas canais seguidos por essas imagens, não estando em condições de estabelecer, elas
próprias, uma relação directa, qualquer que seja, entre o espírito e o objecto. A mesa que vemos parece-nos
mais pequena quando nos afastamos, mas a mesa real, que existe independentemente de nós, não muda; o
nosso espírito percebeu, portanto, apenas a imagem da mesa. Tais são as indicações evidentes da razão17.
Vemos que Hume admite, em primeiro lugar, o que é por demais evidente: a «existência de um universo
exterior» que não depende de nós. Mas, imediatamente, recusa-se a admitir tal existência como uma
realidade objectiva. Para ele, não é mais que uma imagem, e os nossos sentidos, que constatam essa
existência, essa imagem, são incapazes de estabelecer uma relação, qualquer que seja, entre o espírito e o
objecto.
Numa palavra, vivemos no meio de coisas como no cinema, onde constatamos, no écran, a imagem dos
objectos, a sua existência, mas onde, por detrás das próprias imagens, isto é, por detrás do écran, nada há.
Agora, se quisermos saber como o nosso espírito tem conhecimento dos objectos, isso pode ser devido
à energia da nossa própia inteligência ou à acção de qualquei espírito invisível e desconhecido, ou, então, a qualquer causa nemos conhecida ainda.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Politzer
I. — Como devemos pôr o problema.
II. — É verdade que o mundo existe apenas no nosso pensamento?
III. — É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
IV. — É verdade que o espírito cria a matéria?
I. — Como devemos pôr o problema.
Agora, que conhecemos as teses dos idealistas e dos materialistas, vamos tentar saber quem tem razão.
Recordemos que nos é preciso, primeiramente, constatar, por um lado, que elas são absolutamente opostas e
contraditórias; por outro, que, logo que se defende uma ou outra teoria, esta nos leva a conclusões que, pelas
suas consequências, são muito importantes.
Para saber quem tem razão, devemos reportar-nos aos três pontos pelos quais resumimos cada argumentação.
Os idealistas afirmam:
1. Que é o espírito que cria a matéria;
2. Que a matéria não existe fora do nosso pensamento, que é, portanto, ipara nós, apenas uma ilusão;
3. Que são as nossas ideias que criam as coisas. Os materialistas, esses afirmam exactamente o contrário.
Para facilitar o nosso trabalho, é preciso, em primeiro lugar, estudar o que é sobremaneira evidente e o que
mais nos surpreende.
1. É verdade que o mundo não existe senão nO nosso pensamento?
2. É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
Eis dois argumentos defendidos pelo idealismo «imaterialista» de Berkeley, cujas conclusões terminam,
como em todas as teologias, na nossa terceira pergunta:
3. É verdade que o espírito cria a matéria? São perguntas muito importantes, uma vez que se relacionam
com o problema fundamental da filosofia. É, por consequência, discutindo-as que vamos saber quem tem
razão; são particularmente interessantes para os materialistas, no sentido em que as suas respostas a tais
perguntas são comuns a todas as filosofias materialistas - e, por consequência, ao materialismo dialéctico.
II. — É verdade que o mundo existe apertas no nosso pensamento?
Antes de estudar esta questão, é-nos necessário situar dois termos filosóficos de que somos chamados a
servir-nos e encontraremos frequentemente nas nossas leituras.
Realidade subjectiva (que quer dizer: realidade que existe somente no nosso pensamento).
Realidade objectiva (realidade que existe fora do nosso pensamento).
Os idealistas dizem que o mundo não é uma realidade objectiva, mas subjectiva.
Os materialistas dizem que o mundo é uma realidade objectiva.
Para nos demonstrar que o mundo e as coisas não existem a não ser no nosso pensamento, o bispo Berkeley
decompõe-as nas suas propriedades (cor, tamanho, densidade, etc). Demonstra-nos que estas, propriedades,
que variam consoante os indivíduos, não estão nas próprias coisas, mas no espírito de cada um de nós.
Deduziu, pois, que a matéria é um conjunto de propriedades não objectivas, mas subjectivas, e que, por
consequência, não existe.
Se retomarmos o exemplo do sol, Berkeley pergunta-nos se acreditamos na realidade objectiva do disco
vermelho, e demonstra-nos, com o seu método de discussão das propriedades, que não é vermelho nem um
disco. Não é, portanto, uma realidade objectiva, porque não existe por si próprio, mas uma simples realidade
subjectiva, uma vez que existe apenas no nosso pensamento.
Mesmo assim, os materialistas afirmam que o sol existe, não porque o vemos como um disco achatado e
vermelho, porque isso é realismo ingénuo, o das crianças e dos primeiros homens, que não tinham senão os
seus sentidos para controlar a realidade, mas afirmam que existe invocando a ciência. Esta permite-nos, com
efeito, rectificar os erros que os sentidos nos fazem cometer.
Mas devemos, neste exemplo do sol, pôr claramente o problema.
Com Berkeley, diremos que não é um disco e que não é vermelho, mas não aceitamos as suas conclusões: a
sua negação como realidade objectiva.
Não pomos em causa as propriedades das coisas, mas a sua existência.
Não discutimos para saber se os sentidos nos enganam e deformam a realidade material, mas se esta existe
fora deles.
Pois bem! os materialistas afirmam a sua existência fora de nós, e fornecem argumentos que são a própria
ciência.
Que fazem os idealistas para nos demonstrar que têm razão? Discutem as palavras, fazem grandes discursos,
escrevem numerosas páginas.
(Suponhamos, por um instante, que têm razão. Se o mundo existe apenas no nosso pensamento, não existiu
antes dos homens. Sabemos que isso é falso, uma vez que a ciência nos demonstra que o homem apareceu
muito mais tarde sobre a terra. Certos idealistas dir-nos-ão, então, que, antes dele, havia os animais, e que o
pensamento podia habitá-los. Mas sabemos que, antes dos animais, existia uma terra inabitável, na qual
nenhuma vida orgânica era possível. Outros, ainda, dir-nos-ão que, mesmo que apenas existisse o sistema
solar, e o homem ainda não, o pensamento, o espírito já existiam em Deus. É assim que chegamos à forma
suprema do idealismo. É-nos preciso escolher entre Deus e a ciência. O idealismo não pode manter-se sem
Deus, e Deus não pode existir sem o idealismo.
Eis, pois, exactamente como deve ser posto o problema do idealismo e do materialismo. Quem tem razão?
Deus ou a ciência?
Deus é um puro espírito criador da matéria, uma afirmação sem prova.
A ciência vai demonstrar-nos, pela prática e pela experiência, que o mundo é uma realidade objectiva, e vai
permitir-nos responder à pergunta:
III. — É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
Tomemos, como exemplo, um autocarro que passa no momento em que atravessamos a rua em companhia
de um idealista, com quem discutimos para saber se as coisas têm uma realidade objectiva ou subjectiva, e se
é verdade que são as nossas ideias que as criam. É bem certo que, se não quisermos ser esmagados,
prestaremos muita atenção. Portanto, na prática, o idealista é obrigado a reconhecer a existência do
autocarro. Para ele, praticamente, não há diferença entre um autocarro objectivo e um outro subjectivo,
sendo isto de tal modo exacto, que a prática fornece a prova de que os idealistas, na vida, são materialistas.
Poderíamos, sobre este assunto, citar numerosos exemplos, pelos quais veríamos que os filósofos idealistas e
os que sustentam tal filosofia não desdenham certas baixezas «objectivas», para obter o que, para eles, não é
mais que realidade subjectiva.
É por isso, aliás, que não se vê mais ninguém afirmar, como Berkeley, que o mundo não existe. Os
argumentos são muito mais subtis e ocultos. (Consultai, como exemplo do modo de argumentar dos
idealistas, o capítulo intitulado A descoberta dos elementos do mundo, no livro de Lénine: «Materialismo e
empirocriticismo»15).
É, pois, segundo a palavra de Lenine, «o critério da prática» que nos permitirá confundir os idealistas.
Estes, por outro lado, não deixarão de dizer que a teoria e a prática não se identificam, e que são duas coisas
completamente diferentes. Não é verdade. Se uma concepção é exacta ou falsa, é só a prática que, pela
experiência, no-lo demonstrará.
O exemplo do autocarro mostra que o mundo tem, pois, uma realidade objectiva e não é uma ilusão criada
pelo nosso espírito.
Resta-nos ver agora, sendo dado que a teoria do imaterialismo de Berkeley não pode manter-se face às
ciências, nem resistir ao critério da prática, se, como o afirmam todas as conclusões das filosofias idealistas,
das religiões e das teologias, o espírito cria a matéria.
IV. — É verdade que o espírito cria a matéria?
Como já foi visto, o espírito, para os idealistas, tem a sua forma suprema em Deus. Ele é a resposta final, a
conclusão da sua teoria, e é por isso que o problema espírito-matéria se põe em última análise, saber quem,
do idealista ou do materialista tem razão, sob a forma do problema: «Deus ou a ciência».
Os idealistas afirmam que Deus existiu desde sempre, e que, não tendo sofrido qualquer mudança, é sempre
o mesmo. É o espírito puro, para quem o tempo e o espaço não existem. É o criador da matéria.
Nem mesmo para sustentar a sua afirmação de Deus, os idealistas apresentam qualquer argumento.
Para defender o criador da matéria, recorreram a uma profusão de mistérios, que um espírito científico não
pode aceitar.
Quando se remonta às origens da ciência, e se vê que é pelo coração e proporcionalmente à sua grande
ignorância que os homens primitivos forjaram no seu espírito a ideia de Deus, constata-se que os idealistas
do século XX continuam, como os primeiros homens, a ignorar tudo o que um trabalho paciente e
perseverante permitiu conhecer. (Porque, no fim de contas, Deus, para os idealistas, não pode explicar-se, e
continua a ser para eles uma crença sem qualquer prova. Quando os idealistas nos querem «provar» a
necessidade de uma criação do mundo, dizendo que a matéria não pôde existir sempre, que foi, na verdade,
necessário que tenha tido um começo, recorrem a um Deus que, ele, nunca teve princípio. Em que é mais
clara esta explicação?
Para sustentar os seus argumentos, os materialistas, pelo contrário, servir-se-ão da ciência, que os homens
desenvolveram à medida que faziam recuar as «fronteiras da sua ignorância».
Ora, a ciência permite-nos pensar que o espírito tenha criado a matéria? Não.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Politzer
Vimos que, para este problema: «Quais são as relações entre o ser e o pensamento?», não pode haver mais
que duas respostas, opostas e contraditórias.
Estudámos, no capítulo precedente, a resposta idealista e os argumentos apresentados para defender a
filosofia idealista.
Torna-se necessário examinar, agora, a segunda resposta a leste problema fundamental (problema, repetimolo,
que se encontra na base de toda a filosofia), e ver quais são os argumentos que o materialismo emprega
em sua defesa. Tanto mais que o materialismo é, para nós, uma filosofia muito importante, visto que é a do
marxismo.
É, pois, por consequência, indispensável conhecer bem o materialismo. Indispensável, sobretudo porque as
concepções desta filosofia são muito mal conhecidas e foram falsificadas. Indispensável, também, porque,
pela nossa educação, pela instrução que recebemos - seja primária ou mais desenvolvida -, pelos nossos
hábitos de viver e de raciocinar, estamos todos, mais ou menos, sem darmos conta disso, impregnados de
concepções idealistas. (Veremos, aliás, noutros capítulos, vários exemplos desta afirmação, e porque é assim.)
É, portanto, uma necessidade absoluta para os que querem estudar o marxismo conhecer a sua tese: o materialismo.
II. — De onde vem o materialismo?
Definimos, de uma maneira geral, a filosofia como um esforço para explicar o mundo, o universo. Mas
sabemos que, segundo o estado dos conhecimentos humanos, as suas explicações mudaram, e que duas
atitudes, no decurso da história da humanidade, foram adoptadas para explicar o mundo: uma, anticientífica,
fazendo apelo a um ou a espíritos superiores, a forças sobrenaturais; a outra, científica, fundamentando-se em factos e experiências
Uma destas concepções é defendida pelos filósofos idealistas; a outra, pelos materialistas.
É por isso tjue, desde o início deste livro, dissemos que a primeira ideia que se devia fazer do materialismo é
que esta filosofia representa a «explicação científica do universo».
Se o idealismo nasceu da ignorância dos homens - e veremos como a ignorância foi mantida, sustentada na história das sociedades por forças culturais e políticas que partilhavam as concepções idealistas
o materialismo nasceu da luta das ciências contra a ignorância ou obscurantismo.
É por isso que esta filosofia foi tão combatida, e é também por isso que, sob a forma moderna (o
materialismo dialéctico), é pouco conhecida, senão ignorada ou desconhecida do mundo universitário oficial.
.
III. — Como e porquê evoluiu o materialismo.
Contrariamente ao que pretendem os que combatem esta filosofia e dizem que tal doutrina não evoluiu desde
há vinte séculos, a história do materialismo mostra-nos neste qualquer coisa de vivo e sempre em movimento.
No decorrer dos séculos, os conhecimentos científicos dos homens progrediram. No princípio da história do
pensamento, na antiguidade grega, os conhecimentos científicos eram quase nulos, e os primeiros sábios, ao
mesmo tempo, filósofos, porque, em tal época, a filosofia e as ciências nascentes formavam um todo, sendo
uma o prolongamento das outras.
Em seguida, precisando as ciências ia explicação dos fenómenos do mundo, precisões que incomodavam e
estavam mesmo em contradição com os dogmas das filosofias idealistas, nasceu um conflito entre a filosofia
e as ciências.
Estando estas em contradição com a filosofia oficial dessa época, tornara-se necessário que se separassem.
Por isso,
o melhor que têm a fazer é libertar-se, urgentemente, da balbúrdia filosófica, e deixar aos filósofos as vastas
hipóteses de tomar contacto com problemas restritos, os que estão maduros para uma solução próxima.
Então, faz-se esta distinção entre as ciências... e a filosofia11.
Mas o materialismo, nascido com as ciências, ligado a elas e delas dependendo, progrediu, evoluiu com elas,
para chegar, com o materialismo moderno, o de Marx e Engels, a reunir, de novo, a ciência e a filosofia no
materialismo dialéctico.
Estudaremos, mais adiante, esta história e tal evolução, que estão ligadas ao progresso da civilização, mas
constatamos já, e é o que é muito importante fixar, que o materialismo e as ciências não estão separados, e
que aquele está absolutamente dependente da ciência.
Resta-nos estabelecer e definir as bases do materialismo, comuns a todas as filosofias que, sob aspectos
diferentes, se valem dele.
IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
Para responder, torna-se necessário voltar ao problema fundamental da filosofia, o das relações entre o ser e
o pensamento: qual deles é o principal?
Os materialistas afirmam, em primeiro lugar, que há uma determinada relação entre o ser e o pensamento,
entre a matéria e o espírito. Para eles, é o ser, a matéria que é a realidade primeira, e o espírito a realidade
segunda, posterior, dependente da matéria.
Portanto, para os materialistas, não foi o espírito ou Deus que criaram o mundo e a matéria, mas foi o
mundo, a matéria, a natureza que criaram o espírito:
O espírito não é mais que o produto superior da matéria.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Politzer
O propósito do seu sistema filosófico será, pois destruir o materialismo, tentar demonstrar-nos que a
substância material não existe. Escreveu, no prefácio do seu livro «Diálogos de Hylas e de Philonoüs»:
Se estes princípios são aceites e olhados como verdadeiros, resulta que o ateísmo e o cepticismo são, com o
mesmo golpe, completamente abatidos, as perguntas obscuras esclarecidas, dificuldades quase insolúveis
resolvidas, e os homens que se compraziam com os paradoxos reduzidos ao senso comum4.
Deste modo, para Berkeley, o que é verdadeiro é que a matéria não existe, e é paradoxal pretender o
contrário.
Vamos ver como se agarra a isso, para tal nos demonstrar. Mas, penso que não é inútil insistir com os que
querem estudar filosofia, para que tomem a teoria de Berkeley em muito grande consideração.
Bem sei que as teses de Berkeley farão sorrir alguns, mas é preciso não esquecer que vivemos no século XX
e beneficiamos de todos os estudos do passado. E veremos, aliás, quando estudarmos o materialismo e a sua
história, que os filósofos materialistas de outrora fazem também, por vezes, sorrir.
É preciso, portanto, saber que Diderot, que foi, antes de Marx e Engels, o maior dos pensadores materialistas,
ligava ao sistema de Berkeley alguma importância, uma vez que o descreve como um sistema que, para
vergonha do espírito humano e da filosofia, é o mais difícil de combater, embora o mais absurdo de todos.
O próprio Lénine consagrou numerosas páginas à filosofia de Berkeley, e escreveu:
[Os filósofos idealistas mais modernos] não produziram contra os materialistas qualquer...
argumento que não possamos encontrar no bispo Berkeley6.
Enfim, eis a apreciação sobre o imaterialismo de Berkeley, dada por um manual de história da
filosofia utilizado nos liceus:
Teoria ainda imperfeita, sem dúvida, mas admirável, e que deve destruir para sempre, nos espíritos
filosóficos, a crença na existência de uma substância material7.
Eis a importância para toda a gente - embora por razões diferentes, como vos foi mostrado por estas
citações - de tal raciocínio filosófico.
III. — O idealismo de Berkeley.
O propósito deste sistema consiste, pois, em demonstrar que a matéria não existe. Berkeley dizia:
A matéria não é o que acreditamos, pensando que existe fora do nosso espírito. Pensamos que as coisas
existem, porque as vemos, porque lhes tocamos; é porque nos dão essas sensações que acreditamos na sua
existência.
Mas as nossas sensações não são mais do que ideias que temos no nosso espírito. Pelo que os objectos que
percebemos através dos nossos sentidos mais não são do que ideias, e as ideias não podem existir fora do
nosso espírito.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Politzer
Denunciámos a confusão criada pela linguagem corrente, no que se refere ao materialismo. A mesma
confusão encontra-se a propósito do idealismo.
Não é necessário confundir, com efeito, o idealismo moral e o idealismo filosófico.
O idealismo moral consiste em devotar-se a uma causa, a um ideal. A história do movimento operário
internacional ensina-nos que um número incalculável de revolucionários, de marxistas, se devotaram até ao
sacrifício da sua vida por um ideal moral, e, portanto, eram os adversários deste outro idealismo que se
chama idealismo filosófico.
O idealismo filosófico é uma doutrina que tem por base a explicação do mundo pelo espírito.
É a doutrina que responde à pergunta fundamental da filosofia, dizendo: «é o pensamento o elemento
principal, o mais importante, o primeiro». E o idealismo afirmando a importância primeira do pensamento,
afirma que é ele que produz o ser, ou, por outras palavras, que: «é o espírito que produz a matéria».
Tal é a primeira forma do idealismo; encontrou o seu pleno desenvolvimento nas religiões, afirmando que
Deus, «espírito puro», era o criador da matéria.
A religião, que pretendeu, e pretende ainda estar fora das discussões filosóficas, é, na realidade, pelo
contrário, a representação directa e lógica da filosofia idealista.
Ora, a ciência, intervindo no decurso dos séculos, em breve se tornou necessária para explicar a matéria, o
mundo, as coisas, de outro modo que apenas por Deus. Porque, desde o século XVI, a ciência começou a
explicar os fenómenos da natureza sem ter em conta Deus e abstendo-se da hipótese da criação.
Para melhor combater estas explicações científicas, materialistas e ateias, foi preciso, pois, levar mais longe
o idealismo e negar a existência mesmo da matéria.
Foi ao que se dedicou, no princípio do século XVIII, um bispo inglês, Berkeley, considerado o pai do
idealismo.
Pela boca morre o peixe
O jogo dos compadrios
A Igreja católica cala e consente. Renuncia ao apostolado que anuncia e denuncia, como apostolicamente proclama. Vai mesmo muito mais além e intervém activamente nos grandes negócios que fomentam o lucro a qualquer preço. Tem duas faces: prega a Caridade e procura encobrir os escândalos das elites ricas. É uma «igreja tampão». As suas parcerias com o Governo de Sócrates e com a direita revela-se a cada passo.
O Patriarcado debate-se com o sério problema de conseguir travar o contínuo declínio da influência da Igreja junto das populações. Mas os bispos também compreendem que a inversão da queda pode ser conseguida através da criação de novos laços de dependência dos pobres em relação às instituições católicas.
Neste momento, diz o Governo, há em Portugal cerca de 2 milhões de pobres. Segundo as mesmas fontes, o desemprego atinge 600 000 trabalhadores dos quais apenas 260 000 recebem um subsídio equiparado ao salário mínimo nacional. As estatísticas admitem também que há 18 000 trabalhadores com salários em atraso. Sabe-se também que todos estes números ficam aquém da realidade e que a pobreza alastra galopantemente. E também é já evidente que a rede pública da Segurança Social é cada vez mais débil e inoperante.
Em sentido inverso, as instituições católicas caritativas reforçam-se com verbas do orçamento do Estado e vão ocupando as áreas sociais que o Governo generosamente lhes oferece. Prepara-se, no segredo dos deuses, uma rede de instituições público/privadas «não lucrativas» com quadros fornecidos pelo «voluntariado» católico, financiada pelo Estado e por multinacionais, pela área bancária do Vaticano e pelo Sector Solidário da Igreja, o qual dirigirá todas as operações. O seu campo de acção será constituído por todos os subsectores sociais até agora reservados ao Estado - do desemprego à saúde. O peso do Estado esfumar-se-á.
A reputação da Igreja avantajar-se-á aos olhos dos grupos sociais dependentes. O Estado laico servirá apenas para pagar as despesas da Caridade cristã.
Esta gigantesca operação de trespasse cria, inevitavelmente, dificuldades de gestão. Assim, cumpre à Igreja providenciar estruturas dirigentes intermédias que permitam coordenar as acções futuras. Essa missão caberá a um Conselho Nacional do Voluntariado, uma espécie de gabinete ministerial da Sociedade Civil. Do seu seio irradiará uma rede de formações assistenciais com implantação nas autarquias. Na sua fase inicial o projecto envolverá 400 misericórdias e 19 hospitais. O Estado compromete-se a pagar à sociedade civil uma primeira «fatia» de 424 milhões de euros.
Abrem-se as portas a um futuro Governo confessional. Assim vão as coisas no soçobrante mundo português.
Jorge Messias (Jornal Avante
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Os "Editocratas"
Estes personagens entram em nossas casas sem pedir licença; fazem parte da nossa paisagem como os cartazes publicitários das nossas ruas ou as árvores à beira das estradas. Com uma diferença de fundo, é que os cartazes e as árvores não falam e os "Éditocratas" sim.
Eles falam mesmo todo o tempo, da manhã à noite e da noite ao amanhecer, da Segunda-Feira ao Domingo e em todo o lado: nos jornais, na televisão, na rádio e mesmo na Internet. Todos nós os conhecemos bem. As suas caras e as suas vozes nos são familiares.
Eles assinam, todos os dias, editoriais nos jornais; eles nos trazem, todas as manhãs, crónicas na rádio; eles ocupam a televisão ao longo do ano; os seus livros são bem visiveis nas bancadas das livrarias.
Estes "Éditocratas" não são especialistas em nada mas têm sempre coisas a dizer sobre tudo e, ao longo do dia eles levam auditor-leitor-telespectador-cidadão os seus comentários vagos e delirantes sobre o mundo, como ele vai e como devia ir. Sentenciósos, eles recontam, mais ou menos, a mesma coisa e em (quase) todos os domínios, seja a vida política, a crise económica, os problemas da sociedade,as questões internacionais etc, etc,. Arrogantes e jurando que não estão ao serviço de qualquer partido ou ideologia, eles são os mais ilustres representantes do conformismo intelectual
Quelha Funda
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
IV. —
O que é a matéria? O que é o espírito? (Politzer)Acabámos de ver, de uma maneira geral, como se foi levado a classificar as coisas, conforme são matéria ou
espírito.
Mas devemos precisar que esta distinção se faz sob diversas formas e com palavras diferentes.
É assim que, em vez de falar do espírito, falamos, afinal, do pensamento, das nossas ideias, da nossa
consciência, da alma, assim como, falando da natureza, do mundo, da terra, do ser, é da matéria que se trata.
Assim, ainda quando Engels, no seu livro «
Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», fala do
ser e do pensamento, o ser é a matéria; o pensamento, o espírito.
Para definir o que é o pensamento ou o espírito, o ser ou a matéria, diremos:
O pensamento
é a ideia que fazemos das coisas; algumas dessas ideias vêm-nos ordinariamente das nossas
sensações e correspondem a objectos materiais; outras, como as de Deus, filosofia, infinito, do próprio
pensamento, não correspondem a objectos materiais. O essencial, que devemos fixar aqui, é que temos
ideias, pensamentos, sentimentos, porque vemos e sentimos.
A matéria
ou o ser é o que as nossas sensações e percepções nos mostram e apresentam, é, duma maneira
geral, tudo o que nos rodeia, a que se chama o «mundo exterior». Exemplo: a minha folha de papel é branca.
Saber
que é branca é uma ideia, e são os meus sentidos que me dão tal ideia. Mas a matéria é a própria folha.
É por isso que, quando os filósofos falam das relações entre o ser e o pensamento, ou entre o espírito e a
matéria, ou entre a consciência e o cérebro, etc, tudo isso diz respeito à mesma pergunta, e significa: qual é,
da matéria ou do espírito, do ser ou do pensamento, o termo mais importante? Qual é o que é anterior ao
outro? Tal é a interrogação fundamental da filosofia.
V. —
A pergunta ou o problema fundamental da filosofia.Não há ninguém que não se tenha interrogado em que nos tornamos depois da morte, de onde vem o mundo,
como se formou a Terra. E é-nos difícil admitir que
sempreexistiu qualquer coisa. Tem-se tendência em
pensar que num dado momento nada haveria. É por isso que é mais fácil acreditar no que ensina a religião:
«O espírito pairava sobre as trevas... depois veio a matéria». Do mesmo modo, perguntamo-nos onde estão
os nossos pensamentos, e, assim, põe-se-nos o problema das relações que existem entre o espírito e a
matéria, entre o cérebro e o pensamento. Há, aliás, muitas outras maneiras de pôr a questão. Por exemplo,
quais são as relações entre a vontade e o poder? A vontade é, aqui, o espírito, o pensamento; e o poder é o
que é possível, é o ser, a matéria. Encontramos, assim, muitas vezes, a questão das relações entre a
«consciência social» e a «existência social».
A pergunta fundamental da filosofia apresenta-se, pois, sob diferentes aspectos, e vê-se quanto é importante
reconhecer sempre a maneira em que se põe este problema das relações da matéria e do espírito, uma vez que
sabemos que só pode haver duas respostas a essa pergunta:
1. Uma resposta científica.
2. Uma resposta não científica.
Quelha Funda
sábado, 9 de janeiro de 2010
A Lista
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Anabela Fino
Quelha Funda
Como devemos começar o estudo da filosofia? (Politzer)
Na nossa introdução, dissemos, várias vezes, que a filosofia do materialismo dialéctico era a base do
marxismo.
O fim a que nos propomos é o estudo dessa filosofia; mas, para chegar a ele, é preciso avançarmos por
etapas.
Quando falamos do materialismo dialéctico, deparam-se-nos duas palavras:
materialismo e dialéctico, oque
quer dizer que o materialismo é dialéctico. Sabemos que antes de Marx e Engels o materialismo existia já,
mas que foram estes, com a ajuda das descobertas do século XIX, que o transformaram e criaram o
materialismo «dialéctico».
Examinaremos, mais tarde, o sentido da palavra «dialéctico», que designa a forma moderna do materialismo.
Mas, visto que, antes de Marx e Engels, houve filósofos materialistas (por exemplo, Diderot, no século
XVIII), e visto que há pontos comuns em todos os materialistas, é-nos, pois, necessário estudar a
históriado
materialismo, antes de abordar o materialismo dialéctico. É-nos preciso conhecer, igualmente, as concepções
que se opõem ao materialismo.
II. —
Duas maneiras de explicar o mundo.Vimos que a filosofia é o «estudo dos problemas mais gerais», e que tem por fim explicar o mundo, a
natureza, o homem.
Se abrirmos um manual de filosofia burguesa, ficamos espantados com o grande número de filosofias
diversas que aí se encontram. São designadas por múltiplas palavras, mais ou menos complicadas,
terminando em «ismo»: o criticismo, o evolucionismo, o intelectualismo, etc, e esta quantidade cria a
confusão. A burguesia, aliás, nada fez para esclarecer a situação, antes pelo contrário. Mas, podemos já fazer
a triagem de todos esses sistemas, e distinguir duas grandes correntes, duas concepções nitidamente opostas:
a)
A concepção científica.
b)
A concepção não científica do mundo.
III. —
A matéria e o espírito.Quando os filósofos tentaram explicar o mundo, a natureza, o homem, tudo o que nos rodeia, enfim, foram
levados a fazer distinções. Nós próprios constatamos que há coisas, objectos que são materiais, que vemos e
tocamos. Depois, outras realidades que não vemos e não podemos tocar, nem medir, como as nossas ideias.
Classificamos, portanto, assim as coisas: por um lado, as que são materiais; por outro, as que não o são, e
pertencem ao domínio do espírito, do pensamento, das ideias.
Foi assim que os filósofos se encontraram em presença da
matéria e do espíritoQuelha Funda
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Os Discursos do Vazio
O eng.º Sócrates e o dr. Cavaco falaram à pátria. A pátria ficou estarrecida. O primeiro teceu um plissado de banalidades, e procurou aliviar as nossas angústias inesgotáveis dizendo que as coisas corriam o melhor possível. O segundo reduziu a subnitrato o júbilo do orador. A situação é «catastrófica» e o horizonte é horroroso. O pior do pensamento do dr. Cavaco, se é que o tem ou alguma vez o teve, é que se ordena na desordem. Não há ponta de originalidade nem pingo de lirismo. Estamos danificados por dentro e por fora: falta-nos competitividade, andamos cheios de lazeira, devemos dinheiro a toda a gente, possuímos uma alma adormecida, não somos coerentes nem fluentes, o sol apagou-se dentro de nós. Enfim, segundo o dr. Cavaco, somos uns grandes desgraçados. Nem uma palavra, uma escassa, módica e tímida palavra sobre cultura, ciência, arte.
Reconheçamos que ele nunca foi consumidor do pensamento de outros. Kant ensinava que a razão partia das coisas simples e Nietzsche que as ideias nasciam do corpo. Ambos explicavam, afinal, que o difícil seria evitá-las. O dr. Cavaco conseguiu-o. É um homem feliz.
O alvoroço com que a vulgaridade das frases foi acolhida e comentada por políticos e por «comentadores» fornece-nos a exacta dimensão da mediocridade em que sobrenadamos.
Tanto o eng.º Sócrates como o dr. Cavaco são criaturas deterioradas pela rotina de quem se plagia a si próprio. Dizem, há anos, as mesmas coisas. O meu amigo Vítor Ramalho declarou, ao Sol, que eles são almas gémeas. Como não percebi a entoação ignoro se o retrato possui algo de crepuscular: lá que não é bom, não é. Nenhum deles alimentou qualquer projecto para Portugal. A ausência de ideias e a inexistência de ideologia marcaram a presença destes dois homens na política. O primeiro recebeu dinheiro a rodos, não soube distribui-lo com equanimidade e génio, e apagou a claridade espantosa do nosso sonho colectivo, reintroduzindo na sociedade portuguesa a rigidez do espeque e a gelidez do chefe. Uma das grandes mistificações da nossa história recente é aquela que induziu a tese de estarmos em presença de um «grande homem.»
José Sócrates seguiu-lhe a peugada. Obedeceu à ordem do possibilismo, às indicações económicas dominantes, e à insensata tentação dos políticos do nosso tempo: o compromisso com eles próprios. Um caminho que levou, por exemplo, o viçoso Tony Blair, de tropeção em tropeção, até ao estatelamento final. Blair é uma das inextinguíveis vergonhas da nossa época, e a «terceira via» uma fraude não só infantil porque assustadoramente perigosa.
Chegados aos discursos do fim do ano, independentemente das objecções gramaticais ou sintácticas que se lhes faça, o pior é a substância do que dizem: nada de nada.
Batista Bastos (Diário de Notícias)
Quelha Funda
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
O Ocidente
O Ocidente vê-se como um animal encurralado por inimigos que o assaltam por todo o lado: pela crise, que destrói o seu próprio modelo; pelo relativo declínio do império americano,que se sente ameaçado na sua liderança; pela China, descrita como a super-potência de amanhã; pelos integristas islâmicos, que sonham de tirar o pêlo ao "Grande Satã"; pela Rússia, saída da longa noite pós-soviética; pelos países latinos americanos, que procuram se emancipar da tutela dos Estados-Unidos; enfim, por todos aqueles que contestam, de maneira justificada ou não, a pretensão que eles guiem o Mundo como Moisés guiou o seu povo.
O Ocidente será uma sorte de cidadela sitiada, uma ilha de opulência perpétuamente tomada de assalto, um jardim de Éden atirando as cobiças dos que são excluídos, vindos de um desconhecido incerto, e por isso inquietante. A ler uma certa prosa, temos a impressão que o mundo nasceu com o Ocidente todo poderoso, encontrando-se ameaçado na sua existência e que poderá desaparecer em caso de partilha do poder e das responsabilidades.
Constantemente repetido, o discurso se ocidentaliza e impregna uma literatura que inspira os grandes meios de informação e não só. Ele tem os seus mestres pensadores, que são no debate intelectual o que os mestres de escola são nas classes primárias. Por todo o lado que eles exerçam o seu talento, eles fazem reinar o terrorismo intelectual, colando a pior das infamas a quem recuse venerar a sua palavra sagrada.
Para esses Reis do simplismo,há os bons (Estados-Unidos e os seus aliados) e os maus (todos os outros). Há o campo ocidental (forçosamente portador de valores emancipadores) e o resto do mundo (mais ou menos inclinado para o barbarismo). Há as regras do capitalismo (que nos asseguram que farão a felicidade da humanidade uma vez a crise resolvida) e o nada. Ninguém tem o direito de procurar outra alternativa, já que as regras da lei do mercado são de essência divina.
Singular reescritura do passado e do presente. Esquecem que o Ocidente é só uma pequena parte do Planeta, e que a outra tem o direito de bater à porta da história contemporânea. Esquecem de lembrar que a dominação ocidental não tem nada de eterna e que ela não se explica pelos méritos exclusivos dos países reunidos nesta etiqueta improvável. Ignoram as mudanças perpétuas entre civilizações, entre culturas, entre povos,entre o Ocidente e o Oriente, que deram os os fundamentos da humana civilização onde ninguém pode reivindicar o monopólio.
O Ocidente continua agarrado ao seu modelo com o seu chefe de fila (a América), seu exército (a OTAN), o seu sistema económico (o capitalismo), os seus tribunais de excepção (o OMC, o FMI o Banco Mundial) a sua moral (o direito do humanismo). Os outros são considerados, no melhor, como selvagens que devemos fazê-los entrar no bom caminho ou como inimigos a combater ou de espíritos perdidos que é preciso reeducar, à maneira dos selvagens que era preciso evangelizar ao bom tempo da colonização
Estas linhas foram escritas baseando-me no livro "O Ocidente Doente Do Ocidente"
de Martine Bulard e Jack Dion
Quelha Funda