segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

IV. — O que é a matéria? O que é o espírito? (Politzer)

Acabámos de ver, de uma maneira geral, como se foi levado a classificar as coisas, conforme são matéria ou

espírito.

Mas devemos precisar que esta distinção se faz sob diversas formas e com palavras diferentes.

É assim que, em vez de falar do espírito, falamos, afinal, do pensamento, das nossas ideias, da nossa

consciência, da alma, assim como, falando da natureza, do mundo, da terra, do ser, é da matéria que se trata.

Assim, ainda quando Engels, no seu livro «

Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã

», fala do

ser e do pensamento, o ser é a matéria; o pensamento, o espírito.

Para definir o que é o pensamento ou o espírito, o ser ou a matéria, diremos:

O pensamento

é a ideia que fazemos das coisas; algumas dessas ideias vêm-nos ordinariamente das nossas

sensações e correspondem a objectos materiais; outras, como as de Deus, filosofia, infinito, do próprio

pensamento, não correspondem a objectos materiais. O essencial, que devemos fixar aqui, é que temos

ideias, pensamentos, sentimentos, porque vemos e sentimos.

A matéria

ou o ser é o que as nossas sensações e percepções nos mostram e apresentam, é, duma maneira

geral, tudo o que nos rodeia, a que se chama o «mundo exterior». Exemplo: a minha folha de papel é branca.

Saber

que é branca é uma ideia, e são os meus sentidos que me dão tal ideia. Mas a matéria é a própria folha.

É por isso que, quando os filósofos falam das relações entre o ser e o pensamento, ou entre o espírito e a

matéria, ou entre a consciência e o cérebro, etc, tudo isso diz respeito à mesma pergunta, e significa: qual é,

da matéria ou do espírito, do ser ou do pensamento, o termo mais importante? Qual é o que é anterior ao

outro? Tal é a interrogação fundamental da filosofia.

V. — A pergunta ou o problema fundamental da filosofia.

Não há ninguém que não se tenha interrogado em que nos tornamos depois da morte, de onde vem o mundo,

como se formou a Terra. E é-nos difícil admitir que

sempre

existiu qualquer coisa. Tem-se tendência em

pensar que num dado momento nada haveria. É por isso que é mais fácil acreditar no que ensina a religião:

«O espírito pairava sobre as trevas... depois veio a matéria». Do mesmo modo, perguntamo-nos onde estão

os nossos pensamentos, e, assim, põe-se-nos o problema das relações que existem entre o espírito e a

matéria, entre o cérebro e o pensamento. Há, aliás, muitas outras maneiras de pôr a questão. Por exemplo,

quais são as relações entre a vontade e o poder? A vontade é, aqui, o espírito, o pensamento; e o poder é o

que é possível, é o ser, a matéria. Encontramos, assim, muitas vezes, a questão das relações entre a

«consciência social» e a «existência social».

A pergunta fundamental da filosofia apresenta-se, pois, sob diferentes aspectos, e vê-se quanto é importante

reconhecer sempre a maneira em que se põe este problema das relações da matéria e do espírito, uma vez que

sabemos que só pode haver duas respostas a essa pergunta:

1. Uma resposta científica.

2. Uma resposta não científica.

Quelha Funda

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