II. — Por que devemos estudar o idealismo de Berkeley?
O propósito do seu sistema filosófico será, pois destruir o materialismo, tentar demonstrar-nos que a
substância material não existe. Escreveu, no prefácio do seu livro «Diálogos de Hylas e de Philonoüs»:
Se estes princípios são aceites e olhados como verdadeiros, resulta que o ateísmo e o cepticismo são, com o
mesmo golpe, completamente abatidos, as perguntas obscuras esclarecidas, dificuldades quase insolúveis
resolvidas, e os homens que se compraziam com os paradoxos reduzidos ao senso comum4.
Deste modo, para Berkeley, o que é verdadeiro é que a matéria não existe, e é paradoxal pretender o
contrário.
Vamos ver como se agarra a isso, para tal nos demonstrar. Mas, penso que não é inútil insistir com os que
querem estudar filosofia, para que tomem a teoria de Berkeley em muito grande consideração.
Bem sei que as teses de Berkeley farão sorrir alguns, mas é preciso não esquecer que vivemos no século XX
e beneficiamos de todos os estudos do passado. E veremos, aliás, quando estudarmos o materialismo e a sua
história, que os filósofos materialistas de outrora fazem também, por vezes, sorrir.
É preciso, portanto, saber que Diderot, que foi, antes de Marx e Engels, o maior dos pensadores materialistas,
ligava ao sistema de Berkeley alguma importância, uma vez que o descreve como um sistema que, para
vergonha do espírito humano e da filosofia, é o mais difícil de combater, embora o mais absurdo de todos.
O próprio Lénine consagrou numerosas páginas à filosofia de Berkeley, e escreveu:
[Os filósofos idealistas mais modernos] não produziram contra os materialistas qualquer...
argumento que não possamos encontrar no bispo Berkeley6.
Enfim, eis a apreciação sobre o imaterialismo de Berkeley, dada por um manual de história da
filosofia utilizado nos liceus:
Teoria ainda imperfeita, sem dúvida, mas admirável, e que deve destruir para sempre, nos espíritos
filosóficos, a crença na existência de uma substância material7.
Eis a importância para toda a gente - embora por razões diferentes, como vos foi mostrado por estas
citações - de tal raciocínio filosófico.
III. — O idealismo de Berkeley.
O propósito deste sistema consiste, pois, em demonstrar que a matéria não existe. Berkeley dizia:
A matéria não é o que acreditamos, pensando que existe fora do nosso espírito. Pensamos que as coisas
existem, porque as vemos, porque lhes tocamos; é porque nos dão essas sensações que acreditamos na sua
existência.
Mas as nossas sensações não são mais do que ideias que temos no nosso espírito. Pelo que os objectos que
percebemos através dos nossos sentidos mais não são do que ideias, e as ideias não podem existir fora do
nosso espírito.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
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