sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Religião

Varrer a casa enquanto o Papa não vem...


Os bispos portugueses afadigam-se em preparativos. Antes que «ele» chegue, é preciso varrer, limpar e arrumar a casa episcopal. Tarefa dura que não se faz do pé para a mão. Porque a casa está em obras e os operários são obedientes mas poucos são. Logo se verá se o tempo chega para tantas arrumações na velha casa.O que mais custa a retocar é sem dúvida o desemprego. Mais fácil seria passar por entre dois pingos de chuva do que encontrar maneira de pegar neste problema e agradar a gregos e troianos, trabalhadores e patrões, famílias desamparadas e milionários, juventudes sem fé e sem futuro. Quem dera que o Papa viesse e o milagre acontecesse... Mas Fátima dificilmente se repetirá!A par dos números do desemprego, cresce o escândalo da corrupção, cava-se mais fundo o fosso entre pobres e ricos e os políticos (uns desbocados!) desautorizam-se a si próprios com as suas piruetas de arlequins. É tudo isto que alarma os bispos e os faz entrar em situações de ansiedade. Como conciliar, em tão curto espaço, proveitos adquiridos e um necessário enquadramento da ética cristã ?Os bispos já meteram mãos à obra. Apostam, sobretudo, na sua «sociedade civil», nos dinheiros que jorram dos canais do Estado e na tradição, por muitos esquecida, que descreve a Igreja como protectora dos pobres.O galopar do tempoEntretanto, os bispos filosofam: como tudo seria diferente se hoje fosse como há meses atrás... A Igreja vivia santamente com Sócrates, como em «lua de mel». Não era necessário escolher as palavras para criar na plebe a imagem de um país dinâmico, livre, integrado na Europa e confiante nos seus dirigentes e nas suas instituições. Os bispos bem sabiam que não era assim mas fechavam os olhos aos pecadilhos do poder.Agora, tudo se corrompeu. Os portugueses não confiam no Governo, nas instituições privadas e estatais e perderam a fé. Habituaram-se a ler as estatísticas e sabem que tudo vai de mal a pior. Estão conscientes de que patinham na lama do dinheiro fácil e que os cerca uma corrente infindável de sucessivos escândalos sociais. Panorama, aliás, que não é só português mas sim comum a todo o mundo capitalista. Que será do dia de amanhã – reflectem os bispos – se os povos se revoltarem e «tomarem o freio nos dentes»? Mas o Papa vem aí e é isso que conta. Embora, na própria Igreja, haja quem pense que esta visita pastoral comporta os seus riscos. Pois, não é Bento XVI o mentor das correntes mais fechadas do pensamento católico? E que dizer da vinda a um país pobre e em ruínas, como é Portugal, do chefe majestático de um Estado que é bem conhecido pelas suas intimidades com a banca mundial e com as grandes fortunas ? Que reacções desencadeará ?Todas estas questões permitem compreender melhor por que razão os bispos portugueses estão a começar a violar a sua estratégia do silêncio e procuram recuperar a iniciativa e o uso da palavra. Declarou o Arcebispo de Braga: «É tempo de acordar para a luta e promoção do Bem Comum.» Em contraponto, afirmou o cardeal-patriarca: «A salvação do Homem é a expressão plena do Bem Comum... A Igreja Católica sempre esteve na primeira linha da luta contra a pobreza!»Note-se que estas tomadas de posição «à esquerda» decorreram num momento muito delicado para o governo de Sócrates cuja máscara se vai degradando. A solicitude da Igreja católica - que não quer de modo algum agravar a situação em que os socialistas se afundaram - foi já ao ponto de silenciar perante a legalização dos casamentos gay, atitude verdadeiramente impensável em homens como D. José Policaro ou Joseph Ratzinger. E muito se começa a murmurar quanto à existência de um «pacto de não-agressão» entre o Governo e o Patriarcado.Logo se verá! A visita a Portugal de Bento XVI é só em Maio. Até lá os bispos ficam sob atenta observação... Os bispos, o papa, a «sociedade civil» e as contrapartidas que, em silêncio, Governo e Igreja continuam a negociar entre si.


Jorge Messias ( Jornal Avante )

Quelha Funda

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Politzer


IV. — O que é a matéria? O que é o espírito?

Acabámos de ver, de uma maneira geral, como se foi levado a classificar as coisas, conforme são matéria ou
espírito.
Mas devemos precisar que esta distinção se faz sob diversas formas e com palavras diferentes.
É assim que, em vez de falar do espírito, falamos, afinal, do pensamento, das nossas ideias, da nossa
consciência, da alma, assim como, falando da natureza, do mundo, da terra, do ser, é da matéria que se trata.
Assim, ainda quando Engels, no seu livro «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», fala do
ser e do pensamento, o ser é a matéria; o pensamento, o espírito.
Para definir o que é o pensamento ou o espírito, o ser ou a matéria, diremos:
O pensamento é a ideia que fazemos das coisas; algumas dessas ideias vêm-nos ordinariamente das nossas
sensações e correspondem a objectos materiais; outras, como as de Deus, filosofia, infinito, do próprio
pensamento, não correspondem a objectos materiais. O essencial, que devemos fixar aqui, é que temos
ideias, pensamentos, sentimentos, porque vemos e sentimos.
A matéria ou o ser é o que as nossas sensações e percepções nos mostram e apresentam, é, duma maneira
geral, tudo o que nos rodeia, a que se chama o «mundo exterior». Exemplo: a minha folha de papel é branca.
Saber que é branca é uma ideia, e são os meus sentidos que me dão tal ideia. Mas a matéria é a própria folha.
É por isso que, quando os filósofos falam das relações entre o ser e o pensamento, ou entre o espírito e a
matéria, ou entre a consciência e o cérebro, etc, tudo isso diz respeito à mesma pergunta, e significa: qual é,
da matéria ou do espírito, do ser ou do pensamento, o termo mais importante? Qual é o que é anterior ao
outro? Tal é a interrogação fundamental da filosofia.
V. — A pergunta ou o problema fundamental da filosofia.
Não há ninguém que não se tenha interrogado em que nos tornamos depois da morte, de onde vem o mundo,
como se formou a Terra. E é-nos difícil admitir que sempre existiu qualquer coisa. Tem-se tendência em
pensar que num dado momento nada haveria. É por isso que é mais fácil acreditar no que ensina a religião:
«O espírito pairava sobre as trevas... depois veio a matéria». Do mesmo modo, perguntamo-nos onde estão
os nossos pensamentos, e, assim, põe-se-nos o problema das relações que existem entre o espírito e a
matéria, entre o cérebro e o pensamento. Há, aliás, muitas outras maneiras de pôr a questão. Por exemplo,
quais são as relações entre a vontade e o poder? A vontade é, aqui, o espírito, o pensamento; e o poder é o
que é possível, é o ser, a matéria. Encontramos, assim, muitas vezes, a questão das relações entre a
«consciência social» e a «existência social».
A pergunta fundamental da filosofia apresenta-se, pois, sob diferentes aspectos, e vê-se quanto é importante
reconhecer sempre a maneira em que se põe este problema das relações da matéria e do espírito, uma vez que
sabemos que só pode haver duas respostas a essa pergunta:
1. Uma resposta científica.
2. Uma resposta não científica.

Quelha Funda
A Filosofia de Politzer


I. — Como devemos começar o estudo da filosofia?

Na nossa introdução, dissemos, várias vezes, que a filosofia do materialismo dialéctico era a base do
marxismo.
O fim a que nos propomos é o estudo dessa filosofia; mas, para chegar a ele, é preciso avançarmos por
etapas.
Quando falamos do materialismo dialéctico, deparam-se-nos duas palavras: materialismo e dialéctico, o que
quer dizer que o materialismo é dialéctico. Sabemos que antes de Marx e Engels o materialismo existia já,
mas que foram estes, com a ajuda das descobertas do século XIX, que o transformaram e criaram o
materialismo «dialéctico».
Examinaremos, mais tarde, o sentido da palavra «dialéctico», que designa a forma moderna do materialismo.
Mas, visto que, antes de Marx e Engels, houve filósofos materialistas (por exemplo, Diderot, no século
XVIII), e visto que há pontos comuns em todos os materialistas, é-nos, pois, necessário estudar a história do
materialismo, antes de abordar o materialismo dialéctico. É-nos preciso conhecer, igualmente, as concepções
que se opõem ao materialismo.
II. — Duas maneiras de explicar o mundo.
Vimos que a filosofia é o «estudo dos problemas mais gerais», e que tem por fim explicar o mundo, a
natureza, o homem.
Se abrirmos um manual de filosofia burguesa, ficamos espantados com o grande número de filosofias
diversas que aí se encontram. São designadas por múltiplas palavras, mais ou menos complicadas,
terminando em «ismo»: o criticismo, o evolucionismo, o intelectualismo, etc, e esta quantidade cria a
confusão. A burguesia, aliás, nada fez para esclarecer a situação, antes pelo contrário. Mas, podemos já fazer
a triagem de todos esses sistemas, e distinguir duas grandes correntes, duas concepções nitidamente opostas:
a) A concepção científica.
b) A concepção não científica do mundo.
III. — A matéria e o espírito.
Quando os filósofos tentaram explicar o mundo, a natureza, o homem, tudo o que nos rodeia, enfim, foram
levados a fazer distinções. Nós próprios constatamos que há coisas, objectos que são materiais, que vemos e
tocamos. Depois, outras realidades que não vemos e não podemos tocar, nem medir, como as nossas ideias.
Classificamos, portanto, assim as coisas: por um lado, as que são materiais; por outro, as que não o são, e
pertencem ao domínio do espírito, do pensamento, das ideias.
Foi assim que os filósofos se encontraram em presença da matéria e do espírito

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Palhaço


O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.
O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.
Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.
O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.
E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.
Ou nós, ou o palhaço.

Mário Crespo ( Jornal de Notícias )

Quelha Funda

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Pobreza, FMI e Igreja

As recentes eleições legislativas em Portugal não travaram o declive que termina no abismo para onde Sócrates conduz o Estado. Quinhentos trabalhadores são diariamente lançados no desemprego e o caudal não cessa de crescer. O défice público, ou seja, o dinheiro que o capitalismo mundial «empresta» ao capitalismo português para este não entrar em bancarrota, deu um salto de gigante e, segundo consta, representa já cerca de 10% do PIB. No próximo Orçamento do Estado se verá que contas faz o Governo quanto ao «Estado da Nação». Por falarmos em contas: o Eurostat, estrutura da União Europeia, também deitou contas aos números do desemprego e contou 561 mil desempregados em Portugal. É evidente que, como sempre acontece com as estatísticas, estes números são incompletos. Os desempregados de que fala o Eurostat são apenas os que se encontram registados nos ficheiros dos serviços de emprego oficiais. Não compreendem a multidão daqueles que não estão registados ou trabalham sem garantias (isto é, trabalham mas não têm emprego). A cada momento cresce este «exército da noite», alimentado permanentemente pelo Governo do PS que anula direitos, corta orçamentos e não desiste de tentar impor mais e mais sacrifícios aos trabalhadores. Por cada novo desempregado há uma família que atinge a linha da pobreza. Por isso, a «mancha de pobreza» alastra em Portugal e o número de pobres, calcula-se, é de cerca de dois milhões. Para desenvolver a economia e criar postos de trabalho, o Governo de Sócrates afirma não ter verbas. Mas, só até Setembro, os cinco maiores bancos do país registaram lucros de 1403 milhões de euros.Não há margem para dúvidas: o grande senhor do poder em Portugal é o Fundo Monetário Internacional, o FMI. A partir de Janeiro de 2010 vai instalar no País uma rede de delegações que velarão pela imposição dos interesses argentários internacionais. Para não perder tempo, o FMI começou a divulgar, desde já, as suas «recomendações»: em 2010, cortes nos salários e nas pensões, ajustamentos na Função Pública, correcções nos apoios sociais, aumento dos impostos, revisões dos subsídios, etc., etc. Mais miséria, mais desemprego, mais falências, mais exploração.Noutro quadrante – o militar – registou-se recentemente uma equívoca declaração do Chefe do Estado-Maior do Exército(CEME): «O Exército está disponível para ajudar na área da segurança interna.» Para bom entendedor meia palavra basta.Caridade cristãEste panorama catastrófico parece não afectar os bispos, a julgar pelo seu espesso silêncio. Nem mesmo quando a degradação moral se revela em sucessivos casos de corrupção e de intrigas. Mas a pobreza, sobretudo a «envergonhada» – lembra a Igreja – é filha dilecta do episcopado. Ainda há bem pouco tempo, na quadra natalícia, a Igreja lembrou-se dos pobres e organizou, através da Cáritas e de outras ONGS piedosas, uma grande recolha de produtos alimentares oferecidos pela população e distribuídos pelas instituições da sociedade civil católica. O esquema da operação foi planificado pelo Patriarcado, organizado pelas IPSS e servido pelo Voluntariado católico que se distribuiu estrategicamente pelas «grandes superfícies» de Lisboa. Foi um êxito e as IPSS recolheram muitas toneladas de vários produtos. A população comprava nas «grandes superfícies» os produtos que quisesse oferecer, a preços do mercado; a organização católica e caritativa central recebia as ofertas, dividia-as em lotes e distribuía-os, depois pelas ONGS e IPSS, também católicas. Encargos com a iniciativa: nulos. O voluntariado não é pago e as organizações interveniente não têm intuitos lucrativos. É certo que o papel do «combate à pobreza» deveria competir ao Estado. Mas como este nada faz, ao menos que se dê uma esmola cristã aos pobres. Sem lucros materiais ou benefícios de influência.É aqui que se pode levantar uma dúvida.Nos supermercados, o aumento das vendas traduz-se em lucros. E se a compra das ofertas foi feita a preços correntes, esse lucro foi bem recebido pelo patronato. Em segundo lugar, a organização caritativa agiu sob estrito controlo da Igreja que distribuiu os produtos por outras instituições católicas, as quais as entregaram a pobres que elas próprias previamente seleccionaram. Aqui, os lucros foram de influência para a acção católica.Poderá afirmar-se que a Igreja não lucrou indirectamente? Enfim, será possível. Mas só em presença da «carteira de acções» que ela detém na área dos supermercados se poderia concluir. E esse dado é confidencial. Está «no segredo dos deuses»...

Jorge Messias ( Jornal Avante )

Quelha Funda

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Porreiro, pá

2009-12-07

Eu sei que é importante. Ou melhor. Uma parte de mim acha que é importante. Melhor ainda. Parte de mim acha que deve ser importante embora, muito de mim, ache que não é. Este tratado de Lisboa não pode ter importância nenhuma para as centenas de pessoas da Quimonda que já não havia há anos mas que ninguém queria ver que já lá não estava. O que quer que tenha sido rubricado em Lisboa nada significa para as centenas da Lear que vão juntar-se às centenas da Quimonda e da Delphi e da Aerosoles e da Opel e da Leoni e para as centenas de milhar que trabalhavam em coisas que estão desaparecer sem deixar sequer um nome a recordar promessas passadas do ontem que dor deixou e não deixou mais nada. Só que, contrariamente a mim, essas centenas de milhar já não hesitam. Não concedem benefícios de dúvida. Têm a certeza que o que foi assinado em Lisboa nada tem a ver com esta Segunda-feira com as crianças a ir para a escola: "Bebe o leite a meio da manhã filha.". "Bebe o leite a meio da manhã filho.". "Come tudo ao lanche porque senão ficas com fome durante o resto do dia.". E o resto da noite. "Come tudo, filho", que a mãe hoje vai ao Banco Alimentar. E amanhã é já outro dia. "Tenho aqui um curso de jardineiro. Para estofadores não há nada. Nem para torneiros. Nem para escriturários. Assine aqui por favor." Não. De facto a assinatura de Lisboa não lhes pode dizer nada. E só com muito esforço é que vale alguma coisa para mim. Um esforço feito de infinitas cumplicidades em que eu (já só pode ser por desleixo) finjo acreditar que é justo gastar um milhão de Euros numa tenda de plástico e em luzes e em fogo de artifício para secar a chuva da noite de um Domingo de plástico para me convencerem de que a Europa vai bem e fazer-me esquecer que nas Segundas-feiras a seguir há centros de saúde com gente cheia de dores de dentes, mesmo sabendo que lá não se trata dos dentes, mesmo sabendo que se tem setenta pessoas à frente e se vai ficar no corredor de pé à espera, com frio e com calor, e com dores de dentes. E que agora se vai nascer a Espanha porque é melhor. É um esforço de desmazelo espiritual, acreditar que na tenda electrónica de Domingo, depois de um qualquer pacto monstruoso, o projecto Europeu está vibrante e pujante e importante quando a chuva que anuncia todos os invernos que aí vêm continua cair e só não encharca as comitivas que vêm a Lisboa de jacto executivo porque o plástico da barraca nacional cobre tudo até à passadeira vermelha feita na China onde param as altas cilindradas alemãs feitas no Leste por gentes sem serviço nacional de saúde. E há cada vez mais polícia cá fora. Depois fica relva pisada e lama no chão. É o que sobra levantada a tenda e o circo. E sem bom senso e pudor, não sobra nada a não ser um décimo de Portugal que vai na Segunda-feira aos centros de desemprego, ao leite gratuito da escola, ao Banco Alimentar e aos outros sítios onde é difícil acreditar no que quer que seja. Porque não faz sentido acreditar. Não é real. Não há realidade na Presidência transferida para um hotel de luxo no Estoril para fingir, não se sabe bem o quê, durante três dias de imitação de preocupações democráticas globais num vamos-brincar-às-super-potências. Nem há realidade na barraca do tratado das ilusões plásticas e ópticas e electrónicas onde se finge que se governa, que se preside, que se é relevante. Quando não se é. A realidade está na fila do desemprego. O Fundo Monetário Internacional sabe disso.

Mário Crespo ( Jornal De Notícias )

Quelha Funda

domingo, 6 de dezembro de 2009

Filosofia de Politzer


VI. — Campanhas da burguesia contra o marxismo.

Estas tentativas de falsificação apoiam-se em bases muito variadas. Procura-se levantar contra o marxismo os
autores socialistas do período pré-marxista (antes de Marx). É assim que vemos, muitas vezes, utilizar contra
Marx os «utopistas». Outros servem-se de Proudhon; outros, ainda, bebem nos revisionistas de antes de 1914
(portanto magistralmente refutados por Lénine). Mas o que interessa sobretudo sublinhar é a campanha de
silêncio que a burguesia faz contra o marxismo. Particularmente, tudo tem feito para impedir que seja
conhecida a filosofia materialista sob a sua forma marxista. Impressionante a este respeito é o conjunto do
ensino filosófico tal como é dado em França.
Nos estabelecimentos de ensino secundário, ensina-se a filosofia. Mas pode acompanhar-se todo esse ensino
sem jamais aprender que existe uma filosofia materialista elaborada por Marx e Engels. Quando, nos
manuais de filosofia, se fala de materialismo (porque é conveniente falar nisso), o marxismo e o
materialismo são sempre abordados em separado. Apresenta-se o marxismo, em geral, unicamente como
uma doutrina política, e, quando se fala do materialismo histórico, não se fala a este respeito da filosofia do
materialismo; enfim, ignora-se tudo do materialismo dialéctico.
Esta situação não existe somente nas escolas e liceus: é exactamente a mesma nas Universidades. O facto
mais característico é que pode ser-se, em França, um «especialista» da filosofia, munido dos diplomas mais
distintos que as Universidades francesas passam, sem saber que o marxismo tem uma filosofia, que é o
materialismo, e sem saber que o materialismo tradicional tem uma forma moderna, que é o marxismo, ou
materialismo dialéctico.
Nós, queremos demonstrar que o marxismo comporta uma concepção geral, não apenas da sociedade, mas,
ainda, do próprio universo. É, pois, inútil, contrariamente ao que alguns pretendem, lamentar que o grande
defeito do marxismo seja a sua falta de filosofia, e querer, como alguns teóricos do movimento operário, ir à
procura dessa filosofia que falta ao marxismo. Porque o marxismo tem uma filosofia, que é o materialismo
dialéctico.
Porém, apesar desta campanha de silêncio, apesar de todas as falsificações e precauções tomadas pelas
classes dirigentes, o marxismo e a sua filosofia começam a ser cada vez mais conhecidos

Quelha funda

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Amarguras de Natal

O Natal tem um sabor cada vez mais amargo num mundo cada vez mais cruel. Os ricos são cada vez mais ricos. Os pobres cada vez mais pobres. As guerras alimentam as fortunas. A mentira encobre a corrupção. A tortura é prática normal. Na malha dos países ditos civilizados imperam as mafias, a maçonaria, o Opus Dei, o secretismo das magnas operações fraudulentas de bancos e banqueiros.Mas vem aí o Natal e isso é que conta. Belo pretexto para perdoar o crime e para mascarar de virtude tudo aquilo que é, de facto, escândalo e corrupção. O Natal é a época dos indultos e este ano há muito que indultar. Veremos o que acontece aos ladrões...Portugal é um vasto pantanal. O emprego é de tal forma caótico que ninguém sabe ao certo qual o número de desempregados, quantos cidadãos recebem a «esmola» de um recibo verde, quantas famílias dependem, para comer, da «caridade» do Estado ou dos privados, qual é a política do Governo para atalhar à crise financeira, acelerar a produção, distribuir a riqueza e garantir emprego aos portugueses. Um dos picos da imoralidade pública e privada atinge-se quando os ministros fingem ignorar o que se passa ou os banqueiros declaram acerca dos roubos ou dos desfalques terem «a consciência tranquila». É um nojo.Mas vem aí mais um Natal, a quadra dos bons sentimentos. As ONGS e as IPSS desdobram-se em actividades caritativas com os olhos postos nos desempregados. Compram, vendem e trocam. Para os pobres migalhas e para os supermercados grossas fatias do suculento bolo. Também, agora que estamos no Natal, a Fundação Bill Gates lançou, com sentido de humor, uma rede de bancos para os pobres. E, numa linha da cultura da santa ignorância, Bento XVI declarou no Vaticano acerca do desemprego: «Sei que várias famílias passam necessidades... Não percam a coragem.»Entretanto, em Portugal, as finanças da igreja prosperam graças a muitos factores como as cotações da Bolsa, os negócios dos jogos da Santa Casa, a sábia política dos investimentos eclesiásticos ou as novas oportunidades de negócios no turismo, no imobiliário, nas energias renováveis, nos conteúdos informáticos, etc., etc.Os mitos do NatalO casamento da Igreja com o capitalismo é um facto a tal ponto reconhecido que o Vaticano já nem sequer desmente aqueles que se lembram de o denunciar. Sentados nos seus cadeirões do Patriarcado, os bispos olham com curiosidade o que se passa no País mas nada dizem. É que neste casamento, a Igreja não é um ser passivo mas um agente activo do mercado. Melhor é calar do que afundar ainda mais os amigos de peito. São atitudes inconcebíveis que se chocam com a proclamada «solicitude social» da Igreja e colidem com os textos sagrados («é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus»). Quando é preciso, os bispos mandam tudo isto às urtigas. O segredo é bem a alma do negócio.Por entre os mitos do Natal não faltam outras contradições. A que parece ser a mais importante tem a ver com a incapacidade de reacção do povo católico face ao que está a acontecer. Duas décadas atrás, num quadro religioso bem menos grave, a teologia da libertação arrastou multidões e fez estremecer o Santo Ofício. Agora, nada. O povo católico parece anestesiado e, ao que parece, conforma-se com a traição ideológica dos seus chefes. Muitos católicos perderam a fé que até aí confundiam com a ética pregada pela Igreja e com as falsas imagens de riqueza e de prosperidade em que o materialismo capitalista é fértil. Para muita gente, o «saco das promessas» esvaziou-se. E pensam: «se tudo é mentira não vale a pena lutar!».É esta atitude que deve ser combatida. O católico é crente mas também é cidadão. Tem deveres para com a Igreja mas deve recusar colocá-los acima do respeito pelo bem comum e pela rectidão. O casamento com o capitalismo tem de dar lugar ao divórcio. O respeito pela própria fé exige do povo católico uma intervenção activa junto do clero, no sentido de «expulsar os vendilhões do templo».

Jorge Messias ( Jornal Avante )

Quelha Funda