«A táctica marxista consiste em combinar as diferentes formas de luta, em passar habilmente de uma para a outra, em elevar firmemente a consciência das massas e a amplitude das suas acções colectivas, cada uma das quais é umas vezes ofensiva, outras defensiva enquanto que todas, em conjunto, conduzem a um conflito de classe mais profundo e decisivo».
V.I. Lenine («Obras», tomo 20).
«Os cristãos vivem um momento difícil de esperança a roçar o desespero. Esperança, na profunda renovação da Igreja. Desespero perante as pertinazes resistências oferecidas, sobretudo, pelos mais altos responsáveis eclesiásticos, ao ritmo de evolução anunciado pelo Concílio (Vaticano II).
Não se oculta que esta vivência atinge uma minoria de cristãos (presbíteros ou leigos). A grande maioria não sente qualquer necessidade de renovação. Uns, porque têm nas mãos as alavancas da condução da vida oficial da Igreja. Esses, temem perder a sua incontestada dominação e tudo tentam para que nada mexa...São os patrões da religião. Outros, porque estão modelados por um sistema de alienação
que não lhes permite o exercício do espírito crítico sobre a situação de infantilismo religioso a que estão reduzidos. São os escravos da religião cuja função é sevirem-se da mercadoria religiosa e sustentarem os mandarins».
Padre Felicidade Alves («Enquanto a esperança não morre», 1969).
Para quem esqueça facilmente a História: o padre Felicidade Alves foi um notável pensador dos tempos inacabados da «Teologia da Libertação» e um corajoso antifascista. Sobretudo os católicos deveriam recordá-lo. Hoje, tal como então, a hierarquia eclesiástica continua a envolver-se nos mais repugnantes crimes contra a humanidade. Assim, para ajudar a que a memória se mantenha, vamos arquivar nestas colunas algumas pistas a desenvolver em investigações futuras.
O tema que presentemente mais chama a atenção é o da instalação evidente de um oculto governo mundial único das grandes fortunas, dotado de um minucioso projecto de «Nova Ordem» à escala planetária. Calcula-se que em todo o mundo capitalista o fosso entre ricos e pobres seja de tal ordem que 0,5% da população mundial, dotada de fortunas pessoais gigantescas, comandam as políticas que esmagam os restantes 99,5% de seres humanos.
São óbvias, assim, as razões que tornam urgente a concentração do poder político nas mãos de uma só entidade central da fortuna. O capitalismo selvagem assume dimensões globais. O controlo dos créditos não pode escapar aos próprios banqueiros. No horizonte social, cresce o fantasma da luta de classes. Teme-se que as instituições capitalistas sejam incapazes de dominar com os meios de que dispõem o perigo catastrófico de uma derrocada das bolsas de valores mundiais.
E o tempo urge. A concentração da riqueza assume contornos de uma corrida «contra relógio». Embora seja evidente que, em tempos recentes, a organização financeira neoliberal tenha vindo a alcançar metas importantes. Sobretudo no que se refere à agilização de uma pesada estrutura semi-secreta de «organizações em rede», sociais e lucrativas. O universo capitalista dispõe, pela primeira vez na História, de uma imensa malha, praticamente indetectável, de partilha dos lucros do saque, de consolidação do seu aparelho e de expansão do poder. Simples exemplos disto são as redes de off-shores, o funcionamento interligado de estruturas mundiais como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial de Saúde, a União Europeia ou o G8, etc. Mas todas estas instituições (e muitas outras) têm vindo a actuar sobre si mesmas, com graves perdas para as oligarquias mundiais. É preciso, sem perda de tempo, centralizar o poder num só Governo cujas decisões sem apelo dominem o homem e o mundo.
Tudo está em marcha, a partir das grandes centrais políticas do capitalismo tradicional: a banca, a direita partidária, o mundo subterrâneo do negócio, as religiões, as chamadas organizações filantrópicas com fins não-lucrativos, as sociedades secretas como a Máfia, a Maçonaria ou o Opus Dei, enfim, as forças gigantescas que baralham as pistas mas visam, como objectivo último, a sujeição do homem comum à condição de escravo.
Teremos de progredir aos poucos na invocação destes riscos que nos ameaçam mas que seremos capazes de derrotar. Força positiva que será tanto maior quanto melhor nos soubermos aproximar uns dos outros, num mesmo esforço de ruptura e de revolução social.
Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 16 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O povo que também é povo e a Igreja dos mercadores
«O homem não é um ser abstracto, exterior ao mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a Sociedade, os quais produzem a religião, consciência corrompida do mundo… Os princípios sociais do cristianismo pregam a necessidade de uma classe dominante e limitam-se a fazer votos piedosos de que a primeira seja caridosa com a outra… Os princípios sociais do cristianismo são servis e o proletariado é revolucionário !».
V.I. Lénine (O Comunismo dos Observadores Renanos, 1847)
«Ninguém pode servir a dois patrões. Porque, ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro... Seja pois o vosso falar: sim, sim, não, não. Porque o que passa adiante disto procede das fontes do Mal».
Bíblia Sagrada ( Evangelho Segundo S. Mateus, cap. V e VI )
Na pobreza mundial que cresce a olhos vistos, o universo católico dispersa-se, divide-se em heresias, despreza qualquer noção de mensagem, envolve-se em negócios, mas nesta fase decadente as suas instituições continuam a revelar influência política e social e coesão.
Potencialmente, há uma cisão que se anuncia entre a base e o topo da pirâmide eclesial. O povo católico pobre e trabalhador inquieta-se quanto ao futuro e olha, com uma contida incompreensão, as posições das hierarquias quanto aos gravíssimos problemas que esmagam os humildes e ameaçam as classes médias. Cada vez mais católicos vão-se apercebendo de que as hierarquias eclesiásticas serão tudo o que quiserem menos cristãs. Os seus actos visam apoiar e participar na esfera do grande capital, aquele mesmo que, explicitamente, os textos da Igreja condenam.
Dir-se-ía, então, que a base social da luta de classes está estabelecida no mundo católico. Mas não é, por enquanto, assim. A religião ensinou aos «crentes» (deve reconhecer-se que esta crítica afecta igualmente todas as outras religiões) os princípios da obediência da base ao topo, da origem divina das chefias, do carácter indistinto da Igreja e da fé e dos dogmas que ligam as noções de desobediência, ruptura e pecado.
O povo cristão e os mercadores
É claro que tudo isto também se reflecte nas atitudes dos povos, sejam elas religiosas ou laicas. A Igreja católica, na sua dimensão de instituição altamente organizada, vem desde o Concílio do Niceia, no século IV e a partir de então não cessou de se expandir, de arrecadar fortunas, de participar no mundo dos negócios e de colaborar activamente com as políticas de Estado, primeiro dinásticas e nacionais, depois sucessivamente imperiais, absolutistas, iluministas e liberais. Tudo pode ser consentido desde que contribua para a maior glória de Deus e da Igreja. Pecar contra um é pecar contra o outro. Este preconceito agrilhoa, ainda, milhões de católicos. E continua a fazer todo o sentido dizer-se que «a religião é o ópio do povo».
A situação em que hoje mergulha Portugal, se não é aquela que desejaríamos, é pelos menos aquela que «é», a que «existe», a situação «real». E a realidade que os cidadãos honestos (católicos ou não) registam no dia-a-dia são revoltantes, «bradam aos céus». Bispos, cardeais e o Vaticano metidos em negócios milionários que envolvem o branqueamento financeiro dos lucros resultantes dos offshores, das fraudes bancárias, das misérias morais das transacções subterrâneas resultantes dos armamentos, da prostituição de seres humanos, do jogo e do vício, das falcatruas dos políticos, etc., etc. Havemos de regressar a estas matérias.
De momento, é importante registar que se constata um aumento de nível da consciência cívica e moral do povo católico mas que ela ainda é insuficiente. Tal como em 1974, muitos católicos portugueses limitam-se a «ver, ouvir e ler» os acontecimentos da vida real. Mas não agem consequentemente nem tentam desmascarar os sofismas das hierarquias, denunciá-las ou romper com a dupla adoração de Deus e do Dinheiro. Os católicos só falam no «ladrão» quando ele é ateu ou de outra cor.
A questão é essencialmente ética e moral. Mas enquanto ela dominar os horizontes sociais, parece improvável que se expanda a tão desejável cooperação entre iniciativas católicas e comunistas.
O tempo dirá se assim é.
Jornal Avante (Jorge Messias)
V.I. Lénine (O Comunismo dos Observadores Renanos, 1847)
«Ninguém pode servir a dois patrões. Porque, ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro... Seja pois o vosso falar: sim, sim, não, não. Porque o que passa adiante disto procede das fontes do Mal».
Bíblia Sagrada ( Evangelho Segundo S. Mateus, cap. V e VI )
Na pobreza mundial que cresce a olhos vistos, o universo católico dispersa-se, divide-se em heresias, despreza qualquer noção de mensagem, envolve-se em negócios, mas nesta fase decadente as suas instituições continuam a revelar influência política e social e coesão.
Potencialmente, há uma cisão que se anuncia entre a base e o topo da pirâmide eclesial. O povo católico pobre e trabalhador inquieta-se quanto ao futuro e olha, com uma contida incompreensão, as posições das hierarquias quanto aos gravíssimos problemas que esmagam os humildes e ameaçam as classes médias. Cada vez mais católicos vão-se apercebendo de que as hierarquias eclesiásticas serão tudo o que quiserem menos cristãs. Os seus actos visam apoiar e participar na esfera do grande capital, aquele mesmo que, explicitamente, os textos da Igreja condenam.
Dir-se-ía, então, que a base social da luta de classes está estabelecida no mundo católico. Mas não é, por enquanto, assim. A religião ensinou aos «crentes» (deve reconhecer-se que esta crítica afecta igualmente todas as outras religiões) os princípios da obediência da base ao topo, da origem divina das chefias, do carácter indistinto da Igreja e da fé e dos dogmas que ligam as noções de desobediência, ruptura e pecado.
O povo cristão e os mercadores
É claro que tudo isto também se reflecte nas atitudes dos povos, sejam elas religiosas ou laicas. A Igreja católica, na sua dimensão de instituição altamente organizada, vem desde o Concílio do Niceia, no século IV e a partir de então não cessou de se expandir, de arrecadar fortunas, de participar no mundo dos negócios e de colaborar activamente com as políticas de Estado, primeiro dinásticas e nacionais, depois sucessivamente imperiais, absolutistas, iluministas e liberais. Tudo pode ser consentido desde que contribua para a maior glória de Deus e da Igreja. Pecar contra um é pecar contra o outro. Este preconceito agrilhoa, ainda, milhões de católicos. E continua a fazer todo o sentido dizer-se que «a religião é o ópio do povo».
A situação em que hoje mergulha Portugal, se não é aquela que desejaríamos, é pelos menos aquela que «é», a que «existe», a situação «real». E a realidade que os cidadãos honestos (católicos ou não) registam no dia-a-dia são revoltantes, «bradam aos céus». Bispos, cardeais e o Vaticano metidos em negócios milionários que envolvem o branqueamento financeiro dos lucros resultantes dos offshores, das fraudes bancárias, das misérias morais das transacções subterrâneas resultantes dos armamentos, da prostituição de seres humanos, do jogo e do vício, das falcatruas dos políticos, etc., etc. Havemos de regressar a estas matérias.
De momento, é importante registar que se constata um aumento de nível da consciência cívica e moral do povo católico mas que ela ainda é insuficiente. Tal como em 1974, muitos católicos portugueses limitam-se a «ver, ouvir e ler» os acontecimentos da vida real. Mas não agem consequentemente nem tentam desmascarar os sofismas das hierarquias, denunciá-las ou romper com a dupla adoração de Deus e do Dinheiro. Os católicos só falam no «ladrão» quando ele é ateu ou de outra cor.
A questão é essencialmente ética e moral. Mas enquanto ela dominar os horizontes sociais, parece improvável que se expanda a tão desejável cooperação entre iniciativas católicas e comunistas.
O tempo dirá se assim é.
Jornal Avante (Jorge Messias)
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