sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Bispos e banqueiros são velhos companheiros

Tem interesse e ajuda a compreender o que no mundo actualmente se passa, recordar em traços gerais as afinidades que sempre ligaram as hierarquias religiosas aos altos postos e ao aparelho do capitalismo político e financeiro mundial. Necessariamente numa abordagem muito superficial e só para nossa informação.
A expressão igreja começou a ser usada na antiga Grécia vários séculos antes de Cristo. Designava conselhos eleitos entre os cidadãos com a finalidade de gerirem a polis ou cidade, conceito que depois evoluiu para a noção mais sofisticada de cidade-estado ou seja, cidade que era cabeça política de um território mais vasto.
Nessa fase tão recuada não havia grandes religiões organizadas. A igreja – uma estrutura de base popular – ligava-se no entanto aos mitos anteriores ao conhecimento científico e que sobreviveram depois no inconsciente colectivo como milagres. Atribuíam origens fantasiosas aos fenómenos naturais.
Estas funções básicas da igreja vieram a tomar outros sentidos. Convém reter que o termo Eklesia é muito anterior à noção de capitalismo. A Eklesia data do século V AC. A Igreja só viria a estabelecer-se em Roma cerca de mil anos depois. Finalmente, o sistema capitalista só a partir dos séculos XIV e XV se foi definindo, já era então o Papa autoridade suprema à qual obedeciam reis e imperadores.
Os primeiros papas, através da intriga diplomática, das alianças dinásticas e das famosas guerras da «Reconquista Cristã», tinham acumulado tesouros imensos, de certo modo herdados das rapinas do império romano. Porém, no Ocidente, entre as populações, o dinheiro era escasso ou inexistente e grande parte das terras permanecia ao abandono. Não havia suficientes navios mercantes e de pesca, nem linhas marítimas seguras para o escoamento da produção. Alternativas possíveis, nessa altura, implicariam enormes investimentos.
Só a partir dos finais do século XVI começaram a surgir no mercado poderosas empresas lideradas pelos mais ricos: a Coroa, a Igreja, a Nobreza e uma certa burguesia emergente – que impuseram a transição da economia para um sistema de capitalismo monopolista: «todo o dinheiro se deve transformar em capital de empresas monopolistas», era a palavra de ordem.
O alvo-tipo dos monopólios foi alcançada à custa do esmagamento da propriedade individual, pelas grandes empresas constituídas por acções. Toda a economia tradicional reagiu negativamente: as políticas comerciais dos monopólios orientavam-se para as colónias de onde vinham os diamantes, o oiro, as especiarias, o algodão, etc. – as matérias-primas que se transaccionavam com mais altas margens de lucro. Os campos ficavam cada vez mais desertos, aumentava o desemprego, a corrupção e a fuga dos trabalhadores para as colónias. A escravatura era prática corrente.
Os lucros financeiros acumulavam-se nos cofres dos grupos dominantes, nomeadamente os da Coroa e da Igreja. Não chegavam ao povo. Aliás, só a Igreja dispunha de uma rede social à escala nacional, centralizada e decalcada nas formas de organização das velhas eklesias. Uma marca que ainda persiste no projecto de «sociedade civil» fortemente apoiado pelo Patriarcado e pelas IPSS confessionais.
Agravava-se a dívida pública e a situação geral dos estados abeirava-se da bancarrota. Os pobres pagavam a crise. Os impostos subiam, o Estado lançava novas derramas e contraía dívidas sobre dívidas mas não reconhecia a gravidade da situação. «Resolveremos a crise… Nada de bancarrota, nada de subida dos impostos, nada de empréstimos externos...», clamava Turgot, homem do Vaticano e ministro de França. Ontem como hoje. As crises do capitalismo são insolúveis. Residem nas próprias contradições do sistema.
Quanto à Igreja, envolta nos seus dogmas, permanecia calada, tentando situar-se à margem da situação e sair com lucro da crise social. Os bispos eram, simultaneamente, políticos da direita radical, homens de negócios e banqueiros. A hierarquia tinha consciência do seu poder financeiro e da sua imensa influência em matérias-chaves como as do Ensino, da Assistência Social e do nebuloso e lucrativo «combate à pobreza» que orientava no plano da Caridade e da Resignação.
Curioso é este paralelo entre o que se passou há trezentos anos e o que se vai processando no nosso tempo. O namoro entre a Igreja e o poder continua. Não enfraqueceu a atracção pelo dinheiro que está na base do convívio fraterno entre bispos e banqueiros. A gula dos ricos pela carne dos pobres é insaciável.
Não esqueçamos, porém, que o capitalismo de Estado setecentista culminou, em França, com uma Revolução universal.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Política

O voto comunista

Mesmo em aberto cenário de luta de classes importa parar por uns instantes e reflectir. Dentro de dias, vamos votar. É essencial que o nosso voto comunista transmita a carga – que é o nosso orgulho – dos princípios marxistas-leninistas e da proposta de sociedade democrática que entregámos ao povo português. Queremos uma sociedade socialista construída por fases, com o seu eixo centrado no homem e no povo. Queremos consolidar em Portugal um Estado livre e democrático apoiado no povo e pelo povo.
O voto comunista é de ruptura. No estado degradante em que se encontra a vida política, sê-lo-ia em quaisquer circunstâncias. Agora, porém, mais do que nunca a ruptura é uma exigência. A próxima eleição vai decorrer por entre os riscos do povo ficar à mercê das imposições, directas e brutais, das centrais mundiais do grande capital. Nesta perspectiva, o voto comunista assume posições radicais: denuncia os erros e os crimes, exige o desmantelamento do aparelho capitalista responsável e avança com medidas a adoptar imediatamente: supressão dos privilégios das fortunas, respeito pela Constituição da República, mobilização dos recursos financeiros, investimento do Estado na economia produtiva, saneamento do desemprego e erradicação da pobreza, maiores apoios à indústria, agricultura, pescas, sistemas do ensino, saúde, segurança social, etc. Valorização de tudo quanto, enfim, possa dar força consistente aos pequenos e médios produtores e aos trabalhadores, em vez de tentar vergá-los aos pés do grande capital mundial.

O «desastre» capitalista e a «vaga de fundo»

A actual situação económica e social do País é catastrófica. Vê-se agora claramente qual é o poder demolidor da adesão «inocente» de Portugal à União Europeia e à moeda única. Sucessivas camarilhas de aventureiros instalados no poder prometeram mundos e fundos ao nosso povo e assim deram lugar à destruição da economia, à pobreza e à miséria, às falências e ao desemprego, enquanto davam lugar à formação de novas e colossais fortunas privadas. Agora, incapazes de controlarem os monstros que geraram, os grandes sultões do capital procuram reconstruir a todo o custo o Império Financeiro que foi a trave-mestra do fascismo.
É neste panorama preocupante que vai decorrer o próximo acto eleitoral para a PR, na campanha do qual a força revolucionária do povo português se encontra tão bem representada pela candidatura do PCP. Ainda que as dificuldades conjunturais se encontrem – como sempre! – agravadas pelas cumplicidades do poder dos grandes senhores com outros parceiros mais discretos ...
Nessa área, então, o caso da hierarquia da Igreja é uma vergonha! Roma cala-se perante a corrupção generalizada dos políticos, dos banqueiros e dos bispos. As igrejas nacionais, como a portuguesa, acomodam-se à imoralidade pública e aconselham aos trabalhadores passividade, solidariedade e perdão, perante a exploração que os conduz à miséria. Entretanto, aproveitando a tão falada «crise», o Vaticano e a malha financeira que controla continuam a somar lucros fabulosos.
O voto comunista não alimenta ilusões quer em relação aos milagres das teocracias e dos sistemas corruptos, quer quanto às mentiras das utopias palavrosas dos patrões.
Os comunistas estão habituados às situações de risco e sabem como defrontá-las. Têm a clara noção de que o combate nas urnas é, em quaisquer circunstâncias, um poderoso meio de aproximação das forças revolucionárias às massas populares. E que a denúncia pública, em linguagem frontal, das acções dos ladrões e dos exploradores acarreta, com o tempo, a degradação da imagem e da noção popular da força dos exploradores. Estes, hão-de ser derrotados.
Por tudo isto, o voto comunista acumula saber nas alas militantes. Recebem as lições do contacto directo com os humilhados e ofendidos. E enriquecem a sua teoria ao aceitarem que o voto é importante mas não é tudo... Votar, é certo que constitui um direito democrático insubstituível. Mas as lutas dos pobres e dos trabalhadores não terminam aí. A batalha das urnas prolonga-se depois cá fora, nas ruas, nos campos, nas escolas, nas oficinas, nos sindicatos, nos tribunais, nos centros de saúde, na agitação das conversas com os amigos… onde quer que, enfim, os cidadãos comuns estejam presentes. E o voto comunista aprende, igualmente, que este fluxo quando se desencadeia é imparável.
A «vaga de fundo» das exigências do povo começa nunca se sabe quando. Quando o «copo está cheio», basta uma centelha para o incendiar. Um simples balbuciar quase inaudível de repente ganha voz e atroa os ares. Nada a poderá calar.
O voto comunista sabe que assim é!

Jorge Messias ( Jornal Avante )

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Os Novos Mestres

Os Novos Intelectuais
Não passa despercebido, a quem esteja atento, o trabalho silencioso dos intelectuais da moda ou do poder estabelecido, na procura de desintegrar tudo o que é ideologia. Procurando criar novos modelos culturais eles tentam esvaziar, por etapas, todo o conceito político,pilar da sociedade. conseguiram, nas ultimas duas ou três décadas, decapitar os partidos comunistas em muitos países da Europa. Os casos da França e da Itália, que nos anos 60 eram partidos de governo, são, hoje, uma manta de retalhos com a qual se procuram cobrir.
Mas não são só os partidos comunistas que eles têm em mira. Outros partidos: sociais democratas, democratas cristãos ou socialistas, estão a sofrer a mesma erosão.
O caso do Partido Socialista Francês, estudado por dois sociólogos franceses é o exemplo do efeito de desintegração produzida pela nova estratégia educativa do país.
A divisão do partido em níveis culturais sobrepostos conduziu-o a eliminar, no seu interior, a representação popular e a se transformar num partido de eleitos largamente desligados da estrutura social global.
Este fenómeno podemos transporta-lo para outros partidos e também para Portugal que, tirando o Partido Comunista Português, todos os outros estão estruturados à volta de umas centenas de intelectuais, pequenos burgueses, e de doutores que se julgam senhores de todo o saber e de toda a verdade.
É de toda a oportunidade deixar, aqui, a opinião de uma militante socialista francesa que faz parte dessa casta dita superior.
Diz ela. "Eu penso que é um pouco caricatural mas no entanto na nossa secção de intelos, de empregados superiores e de professores, não o podemos negar. Eu, os militantes populares,pouco os conheço e poucos há na minha secção. Mas quando os vejo ao trabalho imagino logo como deve ser noutras secções. Há três ou quatro muito servi- entes, disponíveis, sempre lá... são um pouco as pequenas mãos da secção mas são eles de verdadeiros militantes? Quando se trata de fazer numero, de dizer àmen, de fazer sandes ou de abrir garrafas, podemos contar com eles, mas no debate,quando se trata de refletir, é como se não estivessem lá. É certo que eles estão no terreno, mas o terreno não é o importante, é preciso ter ideias, ter qualquer coisa para dizer...para mim o militante é aquele que pensa, que fala, escreve, discute, dá a sua opinião,faz avançar as coisas, não é o que sabe só abrir garrafas."
Resta que a descrição da mutação do militantismo é exacta, mas na França este militante ideal abriu o caminho à extrema direita em esperando o sarkozismo.
O antigo militante popular considerava que estava ao serviço do Partido, numa ligação passiva à doutrina. Mas ele estava activo na difusão e colagem da propaganda do partido, na organização de festas incluindo a confecção de sandes e abrir garrafas.
Felizmente que não é o caso no nosso Partido-O PCP-onde a militância está de perfeita saúde e se recomenda. Nada tem a ver com o que se passa noutros partidos e noutros países. Os nossos militantes, vindos da classe operária e popular continuam de mãos dadas com outros camaradas vindos de outras camadas da sociedade. Todos estão empenhados na construção de outro Portugal. Podemos encontrar um operário a escrever um texto para um panfleto e ao mesmo tempo ver um intelectual a pintar um cartaz ou cola-lo numa parede. Todos são operários da mesma construção...Construir um Mundo Melhor e um Portugal Novo.

Quelha Funda

Para este escrito servi-me de um livro de Emmanuel Todd (Après La Démocratie)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Política e Religião

O «pantanal»um charco capitalista (1)


Na fase actual que Portugal atravessa, cruzada por intrigas, cumplicidades, fraudes e promessas vãs, há novos dados que merecem a maior atenção. São vozes que começam a reclamar mudanças profundas e ruptura com as políticas do Estado, em terrenos que giram já em alucinante parafuso de desintegração. Há um lodoso pântano a formar-se sob os nossos pés.
Vozes que vêm de sectores inesperados como, por exemplo, o da própria Justiça, uma área que tem sido impunemente reveladora de escandalosas corrupções. Sugerem uma reacção à ideia generalizada de que tudo se compra e vende, desde que dê lucro. Mesmo a nacionalidade. E, sobretudo, os direitos e a própria vida do povo explorado e dos trabalhadores.
Assim, há potencialidades que começam a emergir. Se acertarem o passo numa mesma atitude de firme resistência ética e política, serão perfeitamente capazes de virar o rumo dos acontecimentos e de impor ao grande capital respeito pelos valores básicos de uma verdadeira sociedade livre e democrática: o homem, o trabalho, a família, os direitos humanos, a economia produtiva, a justa distribuição da riqueza e o acatamento total dos princípios da justiça social. Há que dar força e consistência a este regresso salutar às raízes profundas do nosso passado colectivo. E, simultaneamente, rompermos com a carga negativa do passado.
«Agir, informar e propor definindo metas» é uma pedagogia simples mas revolucionária cujos créditos populares também vão crescendo. Todas as decisões de base de unidade de classe e de acção passam pela via única da denúncia, da ruptura e da proposta de mudança.
Falar com desassombro e com verdade é exigência da própria Revolução.

Simples «pedradas no charco»

No iniciar deste ano de 2011, citar-se o caso português isolando-o do mar de lama em que navega o capitalismo mundial seria falsear deliberadamente a verdade. O comportamento dos governantes (portugueses e outros) segue um figurino único e obedece às orientações de várias centrais federadas em «mercados». Ditam as modas e vestem-se a rigor. Os estados ricos, compram as dívidas dos estados pobres; por toda a parte aumentam os números do desemprego, do custo de vida e da pauperização de estratos cada vez mais alargados das populações; diminuem, inversamente, os investimentos públicos na saúde, no ensino, nas reformas estruturais, na cultura, nos apoios à produção, nos serviços sociais, etc.; crescem em flecha os resultados negativos manifestados pela banca mundial a qual, entretanto, se mantém próspera graças ao desvio para as instituições privadas do dinheiro pago ao Estado pelos contribuintes. Lá, como cá!
De tudo isto resulta que a distribuição da riqueza pelas várias camadas sociais acusa cada vez maiores desníveis. Como sempre, os ricos devoram os pobres mas a ementa cresce agora com a destruição sistemática da malha das pequenas e médias empresas levadas à ruína pelas políticas de crédito geridas no interesse dos mais ricos; ou com a destruição sistemática da rede de pequenas poupanças convertidas em acções das multinacionais e desvalorizadas nas operações especulativas das bolsas de valores. Daqui resulta que o índice das fortunas cresce lentamente enquanto sobe o da formação dos grupos desclassificados da média burguesia atirados para uma mediania a rondar a pobreza e o dos pedintes expulsos dos cenários financeiros pelas práticas económicas do capitalismo.
Neste mundo talhado à sua medida pelo grande capital, que papel desempenham as grandes religiões, nomeadamente a que a Igreja católica representa? Exigem-se aqui respostas directas e frontais!
A Igreja católica não é uma entidade externa ao sistema capitalista. É parte dele. Possui ou domina redes financeiras mundiais, malhas de grandes empresas, monopólios, latifúndios, sistemas de saúde e de ensino, complexos industriais, químicos e farmacêuticos, construtoras de armamentos e telecomunicações, etc., etc. Comanda nas bolsas e nos mercados. Passa de escândalo em escândalo financeiro. Coordena nas suas universidades os projectos das grandes operações capitalistas que levam à miséria centenas de milhares de famílias.
Tão grande é a confusão assim estabelecida que é difícil dizer-se liminarmente que a actual crise mundial apenas resulta do esmagamento da economia pelos interesses puramente financeiros. Ou se ela consiste, apenas, numa jogada calculista das altas finanças mundiais. Ou, ainda, se todos esses factores estão conjuntamente presentes nesta crise.
Tentaremos participar nesta aventura da informação.

Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Economia Política

Pão para a boca

A Rússia viveu o ano passado a pior seca dos últimos 50 anos. A Austrália sofre inundações gigantescas num território do tamanho da França e da Alemanha que já afectam mais de 200 mil pessoas. Estes dois casos, que concitam natural consternação em todo o mundo, são noticiados entre nós como incidentes longínquos, terríveis e devastadores para as vítimas directas mas sem quaisquer consequências para as nossas vidas. E no entanto... seja no respeitante ao pão que comemos ou à carne que pomos na mesa, para dar apenas dois exemplos, não é de somenos o que se passa na Rússia, na Austrália e em muitos outros pontos do globo, pela simples razão de que temos de importar praticamente tudo o que consumimos em matéria de cereais (incluindo para alimentação de gado), porque temos de importar mais de 60 por cento da carne (a de bovino é toda importada e quanto à de aves e de porco só em parte Portugal satisfaz as suas necessidades), porque importamos todo o açúcar que consumimos, porque o olival (só há pouco tempo se voltou à plantação) não chega para as encomendas. Numa palavra, Portugal enfrenta um sério problema de soberania alimentar que não pára de se agravar: na última década o défice alimentar cresceu 23,7 por cento. Hoje, 70 por cento do que consumimos é importado.
A explicação para tal estado é conhecida. Como afirmou há dia o director-geral da Federação das Indústrias Agro-alimentares (FIPA), esta situação é fruto de «anos e anos de uma política agrícola comum (PAC) que nos fez desinvestir na produção».
As consequências estão à vista, seja quanto à dependência do estrangeiro para provirmos às nossas necessidades, o que se traduz numa efectiva perda de soberania, seja nos custos que tal representa para a economia nacional: apesar do aumento das exportações nos últimos 10 anos, as importações subiram mais de 50 por cento, representando quase o dobro do que se exporta (dados do INE).
Quer isto dizer, em linguagem crua, que nos endividamos para comer. Mais grave ainda, para comer o que podíamos produzir. A culpa morre solteira, diz-se onde não se assume responsabilidades, mas os culpados andam todos por aí, bem instalados no poder político e/ou económico, fingindo nada ter a ver com a PAC, fazendo de conta que não mataram a Reforma Agrária, que não destruíram a indústria e as pescas, travestidos de defensores da Pátria e insistindo nas políticas que estão a levar Portugal para o abismo, apelando ao «sacrifício de todos» para impor mais exploração e miséria aos trabalhadores e ao povo português. Os culpados de ontem e de hoje, que escarnecem do PCP e da sua campanha Portugal a Produzir ou – na melhor das hipóteses – os silenciam, são os mesmo que querem continuar amanhã no poleiro do poder, não se cansando de apregoar as suas públicas virtudes para melhor esconder os muito (e muitos) secretos podres.
Se a hipocrisia pagasse imposto, bastava uma campanha eleitoral para resolver o défice. Não é o caso. A hipocrisia cobra, e muito, aos portugueses que se deixam enganar. O resultado, amargo, está à vista, e não é pela falta de açúcar. A exigir, como pão para a boca, uma ruptura decisiva.

Anabela Fino (Jornal Avante)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Uma resposta a outra resposta

António Moreira disse...
Boa noite.É com agrado que constato que "passa" pelo meu blog e espero que não deixe de o fazer. Como vê também "passo" pelo seu...Significado de politica: s.f. Ciência do governo dos povos. / Direção de um Estado e determinação das formas de sua organização. / Conjunto dos negócios de Estado, maneira de os conduzir. / Fig. Maneira hábil de agir; astúcia; civilidade. // Ciência política, ramo das ciências sociais que trata do governo e da organização dos Estados.Tal como diz, é claro que todos nós temos uma opinião sobre um qualquer assunto e quando digo que não falo em politica no blog é no sentido de não fazer politica por quem quer que seja pois o que para mim realmente interessa é o que se faz e o que se deixa de fazer na nossa terra, não me interessando minimamente por quem tem o tacho: os vermelhos, os azuis, os laranjas... Não sendo obrigado a dar explicações do que quer que seja a quem quer que seja, tenho também a coragem de assumir uma posição. Posição esta que assumo perante todos (o que a maioria não faz) sabendo de antemão que uns gostam e outro não. Isto para dar-lhe a explicação da "cobardia" que retirei: Por não falar, ou fazer o possível para não falar de politica no blog, é que retirei o que retirei pois só à posterior verifiquei o que tinha "cortado e colado" de um blog amigo. O meu único erro foi o de ter postado sem ler !Agora pergunto-lhe eu que politica o(a) senhor(a) faz ? Notei nas palavras que escreveu que ficou bastante "incomodado(a)" por eu ter referido, com ou sem intenção (isto fica a seu critério), sobre o Partido Comunista e acho que foi esta parte da dita politica que realmente o(a) incomodou ! Acho que aqui é que está o ponto fulcral desta história !Sobre o post, e se por acaso passou na minha página do Facebook, poderá ter também verificado que sou da sua opinião quando diz que ninguém entende o restante do texto.Não querendo falar mais sobre o assunto, espero que também tenha a coragem de postar aqui este meu comentário....Sem mais, assim me despeço com o desejo que continue a navegar pelo meu blog (Um Torto de Blog) onde estou sempre disponível para aceitar as fotos, reclamações e opiniões de todos os Tortosendenses.PS: Só no emprego é que aceito ordens de alguém... salientando que não é sempre e só quando têm razão !Cumprimentos,


Bom Ano Novo

Como vê, não me incomoda nem me falta a coragem para, aqui, publicar a minha resposta.
E tem toda a razão de dizer que fiquei incomodado por se ter referido ao Partido Comunista.
É que aos comunistas nunca faltou coragem e nunca se acobardaram na luta contra o fascismo,
algo que aconteceu com muita boa gente.
Por mim dou por encerrado este diálogo sem deixar de o aconselhar a que não publique o que quer que seja sem primeiro o ler. E já agora um reparo: não se refira aos partidos pela sua cor.
Não são vermelhos nem amarelos, todos eles têm nome próprio. Cumprimentos

Quelha Funda

domingo, 9 de janeiro de 2011

Os Boys

CUNHAd@s

9 de Janeiro de 2011 por Tiago Mota Saraiva

O país das cunhas não surgiu de um momento para o outro. Os boys são uma criação do bloco central, um regime tentacular que se conseguiu ir instituindo em Portugal. O socratismo (dos Varas, Coelhos ou Rui Pedro Gonçalves e afins), nunca teriam conseguido chegar ao poder se não tivessem crescido em ambiente fértil: o cavaquismo (dos Loureiros, Oliveira Costa e afins). Por ironia do destino a CUNHAda de um teve as mesmas vantagens do CUNHAdo do outro.
Cunhada de Sócrates é assessora na EPALA EPAL, empresa pública tutelada pelo Ministério do Ambiente, contratou em Junho deste ano, já em plena derrapagem das contas públicas, a cunhada do primeiro-ministro para assessora do conselho de administração. A admissão de Mara Mesquita Carvalho Fava, irmã de Sofia Fava (ex-mulher de José Sócrates), nos quadros da EPAL ocorreu após quase dois anos como trabalhadora da empresa a recibos verdes. A cunhada de José Sócrates terá um salário mensal bruto de 2103 euros, acrescido de 21,5% do ordenado por isenção de horário de trabalho.

Eu faço política

Costumo passar pelo blog do senhor António Moreira pois nele encontro, muitas vezes, coisas interessantes e com as quais eu comungo. Foi o caso do seu artigo do 30-12-2010, sobre o que se não tinha feito no Tortosendo. Ninguém que ame a sua Terra não podia deixar de aplaudir.
Só que no fim, o senhor Moreira sujou a escrita ao dizer que não fazia política e que ela não entra no seu blog.
Não sei o que o senhor Moreira entende por política já que, ao publicar o seu escrito,outra coisa não fez que política. Mas mais, e aí o senhor Moreira entra em contradição, alguns dias depois publicava o conto-rendou da ultima assembleia da Junta de Freguesia e onde era mal tratado, covarde mente, o Partido Comunista Português. Aí o senhor Moreira não deixou de fazer política, mas uma política suja e cobarde. E digo cobarde porque não foi capaz de assumir aquilo que no princípio publicou tirando, dois dias depois, uma parte do que tinha publicado.
Seria bom saber se ele publicou o que não se tinha dito ou se foi obrigado a cumprir ordens de alguém. De qualquer maneira não deixa de ser lamentável.
Seja como for não venha o senhor António Moreira dizer que não faz política. Política todos nós fazemos nos actos do nosso dia a dia. Só que a política tem várias vertentes: O debate de ideias, a luta pelos nossos direitos, o direito ao voto. Mas também há a política de sarjeta que é aquela que muitos "honrados" cidadãos utilizam nas relações com os outros.
Para terminar faço um apelo ao senhores da Junta de Freguesia para terem uma redacção com palavras que povo compreenda. É que nem todos são doutores ou professores universitários.
Procurei no dicionário o'que queria dizer a palavra :" empowerment"e não encontrei.

Quelha Funda

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Política e Religião

Agir e preparar a acção – II

Fala-se repetidamente em solidariedade no abstracto, sem se referir como ou porquê devemos ser solidários. E quando o não devemos ser. É o caso, por exemplo, das práticas políticas, religiosas, económicas e financeiras; dos esquemas de conquista de influências, das formas públicas e privadas de enriquecimento e de suborno, do funcionamento da Justiça, da Saúde, do Ensino, do Trabalho, do sistema de redistribuição da riqueza, etc., etc. Nestes casos, os que mais corrompem e roubam, remetem o cidadão comum para o cumprimento dos princípios constitucionais que eles próprios violam impunemente. Depois, apelam à solidariedade entre os exploradores (no meio dos quais eles se contam) e as vítimas da exploração que as suas práticas capitalistas por todos os meios procuram esmagar. São simultaneamente polícias e ladrões, imorais e moralistas, tiranos e democratas. Com esses, nenhuma solidariedade deve haver.
Actualmente, vamos passar a uma nova fase de aceleração do processo de exploração do homem do povo e constatar de que forma ele irá reagir à agudização da sua exploração. Seremos não só testemunhas mas também participantes activos nas lutas de classes e nos embates sociais em que os «punhos de renda» vão ceder lugar à acção. Viveremos horas duras.
O povo português não provocou esta situação. Foi a cupidez dos outros, dos banqueiros seus patrões. O povo sabe que será ele o grande sacrificado nas lutas que se aproximam. Mas não se deixará enganar pelas grandes mentiras que o enojam.
Nem consentirá em ser solidário com os seus carrascos ou com os seus repressores tradicionais – políticos e padres – que à sombra de uma imagem por eles próprios concebida e manipulada continuam a tentar «dividir o país, para reinar».

As amnésias dos bispos e a pobreza dos pobres

O capitalismo, com as suas alucinações de grandeza e de poder, produziu e produz a desgraça no mundo. Actualmente, mesmo as sociedades ocidentais mais ricas vivem situações de crise económica, desemprego, inflação, descrédito político e de alastramento da corrupção. Portugal é um país mais pobre mas ostenta todos estes índices de degradação. O Estado português encontra-se claramente à beira da bancarrota. Nação apostólica, católica e romana por definição, é das que maiores índices de corrupção ostentam.
Este estado de coisas ainda mais se agrava com a fase política que vivemos em campanha eleitoral. O poder que está deturpa números e realidades segundo o que mais lhe convém. O poder que virá promete mundos e fundos desde que recolha votos. Os «maus», os «criminosos», são sempre aqueles que fazem outras leituras das realidades. Cidadãos solidários na pequena política, só nas culpas que a «todos cabem» pelo país estar no estado em que está.
A hierarquia católica, cérebro de tantas fraudes e de tantos crimes, tudo conhece por miúdo e quase tudo cala. Disse em recente entrevista (DN, 26.12.10) D. José Policarpo, cardeal-patriarca, à guisa de justificação: «A Igreja tem um papel: criar na população uma atitude de esperança…é através da lei do orçamento que temos de ajudar as pessoas a viver com coragem e sem revolta!».
Clara confissão com duas faces. Em teologia, esperança será aquilo que os teólogos quiserem que seja. Mas em política, esperança é um dos elos da cadeia dinâmica que passa pela informação, pela reflexão, pela denúncia, pela crítica, pela proposta e termina no trabalho construtivo do projecto e da acção. Não será com este jogo duplo que a hierarquia católica conseguirá recuperar prestígio entre o povo. O facto é que a Igreja nada de novo tem a propor. Não dispõe de alternativas e só gere bem os seus próprios negócios: misericórdias, ONGS, IPSS, fundações, bancos, offshores, ensino privado, multinacionais, farmacêuticas, seguradoras… um império sem princípio nem fim! Um universo fabuloso digno das «Mil e uma noites» e dos grandes escândalos financeiros do Vaticano!
Já no final da entrevista, D. José queixa-se dos ataques que, em sua opinião, o actual Governo constantemente desfere contra a Igreja. É atitude que mal se entende, visto Sócrates ser católico convicto que vai ao ponto de se benzer antes de falar em público.
Se, todavia, mesmo assim tais ataques se verificam, explica o cardeal patriarca segundo a sua perspectiva moral: «É porque, quando é preciso apertar o cinto e cortar, faz-se onde é mais fácil. E a Igreja não tem poder reivindicativo para impedir esses cortes». É preciso desfaçatez!
Terminemos com outra breve citação do cardeal (DN, 26.12.2010: «A reeleição de Cavaco Silva seria favorável à pacificação da situação nacional… CS habituou-se a que os católicos nas suas reacções falem baixinho».

Jorge Messias (Jornal Avante)