Os comunistas exigem uma sociedade nova!…
Quanto mais se intensifica a confusão geral como método para prolongar ao máximo a vida do sistema capitalista, tanto mais forte terá de ser a intervenção comunista no sentido da reposição da verdade, de ruptura com o sistema e de proposta alternativa de mudança. Os comunistas reclamam o saneamento da vida pública, é certo, mas ninguém pense que essa é a sua meta final. O marxismo-leninismo visa desmascarar as forças capitalistas, não para as reformar - tal como pretendem socialistas utópicos, católicos progressistas ou democratas pequeno-burgueses – mas para as expulsar definitivamente da área do poder político e económico. Os comunistas lutam por um novo espaço e por um novo tempo quando, rompendo com o actual estado de coisas, os povos conquistarem livre acesso aos centros de decisão e à sua intervenção preponderante em tudo o que diga respeito ao progresso colectivo e aos direitos e deveres de cidadania. Lutam, enfim, pela construção de uma democracia real cujo ponto de partida seja o pleno exercício dos direitos fundamentais já conquistados em Abril e depois se alargue e aperfeiçoe sempre através da livre expressão do voto popular. Repor-se-ão assim os princípios revolucionários da negação do fascismo e abrir-se-ão as portas do futuro a uma sólida base progressista de trabalhadores, intelectuais e outros homens livres, de todos os credos e de todas as cores. As barreiras convencionais serão ultrapassadas e o povo comum – até aqui ignorado pelo Poder - será chamado a pronunciar-se sobre as formas de condução de todas as linhas de força de governação do grande colectivo nacional. Então, se o povo português assim o entender, chegará o dia em que um país rejuvenescido poderá proclamar em Portugal uma sociedade sem classes. Tudo isto não é para já. Só virá mais tarde.
O projecto comunista é pois de unidade e de mudança. Mas os comunistas têm plena consciência de que para se concretizar, o projecto que defendem necessita de ganhar o apoio de uma maioria esmagadora do povo português. Não admira, portanto, que as propostas que vão fazendo, uma a uma, sejam fruto permanente da experiência colectiva dos trabalhadores e do povo em geral. Nem causa espanto que no lamaçal de intrigas e de escândalos a que assistimos, os comunistas permaneçam intocáveis. Têm uma Ética que não lhes é imposta mas que exige de cada um deles entrega e serviço. É o que a história demonstra.
O tema pobreza não surge deslocado num espaço atribuído à crítica das religiões. Por toda a parte no mundo, a pauperização brutal dos trabalhadores e das famílias é acompanhada não só pela formação de novas fortunas milionárias de uma minoria mas também pela valorização em flecha dos patrimónios religiosos. Isto acontece não só com o Catolicismo cristão (a cujas majestáticas instituições financeiras se acolhem os interesses materiais do imenso cortejo de outras confissões religiosas e laicas, das fundações, das estruturas «caritativas» da sociedade civil, da especulação financeira, etc.) mas com todas as grandes religiões organizadas ligadas ao Estado, do Islamismo às obscuras «Novas Igrejas», tão aparentadas com os off-shores.
Em todos estes gigantescos impérios, as religiões aliam-se às classes dominantes e identificam-se com os seus interesses. E como a fortuna pessoal mal distribuída gera a miséria, as religiões acumulam lucros, enriquecem, transformam-se elas próprias em braços da exploração e sofrem, consequentemente, os efeitos da erosão moral. Os tabus vão-se apagando. As igrejas tapam essa brecha com a aquisição de mais poder.
Os próprio livros sagrados manifestam uma certeza: «Os pobres, tê-los-eis sempre convosco». Os pobres são matéria-prima que a doutrina cristã olha com interesse. A «pobreza» pode ser um castigo de Deus. Atinge os mais humildes, os seres inferiores que na vida não não têm talento para se organizarem e defenderem. A pobreza pode resultar do castigo dos pecados. Mas Jeová que a criou, também dotou os crentes com sentimentos de Caridade e de Solidariedade para com os mais desfavorecidos. A oração «contra a pobreza» é uma forma de combater o pecado enquanto Deus ilumina os corações dos ricos. A solidariedade cristã é outra via que passa, naturalmente, pelas instituições católicas.
O marxismo faz uma análise da pobreza completamente oposta.
Há no mundo biliões de pobres. Existem porque a organização social os produz. Morrem de sede, morrem à fome, morrem sem abrigo, morrem vítimas das guerras ? É porque os interesses dominantes de classe assim o impõem. Depois da morte das gerações de pobres, outros pobres virão. Sobre as suas campas rasas erguer-se-ão catedrais, entrepostos, mansões de luxo, prostíbulos doirados, paraísos fiscais…
Só rompendo com tudo isto os povos erguerão cabeça e o rio de lama se estancará! E isso está ao nosso alcance, se tivermos coragem para lutar. Em parceria com os católicos honestos, se quiserem escutar as nossas razões.
Jorge Messias (Jornal Avante)
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Politica e Religião
Os abutres cobiçam a pobreza…
A traços gerais e muito incompletos pode traçar-se o perfil de uma Igreja católica cujo projecto central cresceu à custa de uma troca permanente entre os valores da sua doutrina social e a economia social de mercado exigida pelos interesses do capitalismo. Se revisitarmos o passado recente, iremos constatar como uma constante as cumplicidades entre dois dos grandes parceiros que construíram o Mercado Comum e o coroaram mais tarde como União Europeia – o Capital e a Igreja. Passeio penoso mas de extrema utilidade. Ao longo do percurso veríamos, se tentássemos a aventura, que os mitos europeus e capitalistas se revestem de roupagens litúrgicas; que o discurso dos seus responsáveis vem sempre na linha característica dos grandes pregadores de púlpito; que a poderosa «reviravolta doirada» dos anos 80 colocou no cimo da nuvem não só a banca e os banqueiros mas também o Vaticano, com as suas formações financeiras, as suas instituições caritativas, as suas escolas, os seus hospitais, as suas organizações laborais e patronais. Todas estas áreas foram crescendo com poderes eclesiais redefinidos e jamais sonhados. Fundamentalmente, a nível universal, a Igreja abriu então verdadeiras auto-estradas de acesso ao poder e às formas de destruição do Estado laico, democrático e social. Usou, para tanto, de todas as armas disponíveis, desde a diplomacia à compra silenciosa das consciências. Nesta gigantesca «revolução de veludo», desempenharam papel determinante as operações realizadas à sombra das concordatas firmadas com o capitalismo em vários estados europeus. Quando, enfim, se estabeleceu a União Europeia, o que era particular nas concordatas transformou-se em lei geral e em em norma legal de cumprimento obrigatório, mesmo nos estados comunitários que anteriormente se tinham negado a negociar com a Santa Sé.
Como é evidente, todos estes mega-negócios entre os poderes laicos e capitalistas e o Vaticano foram protegidos por um manto do mais completo sigilo. Mas a prática veio revelar essas relações íntimas entre a cruz e o cifrão : os políticos e os banqueiros discursam como que a pregar os mitos proclamados pelos antigos profetas ; os escândalos financeiros continuaram a estoirar por toda a parte, perante a passividade dos papas, dos bispos e cardeais. Foi reforçada a impunidade implicitamente reconhecida a políticos e ao clero. A tal ponto que é já facto consumado admitir-se ter-se instalado entre os que podem e mandam o crime organizado e aceitar-se que contra isso nada se pode fazer a não ser «resignarmo-nos e perdoar».
Esta filosofia permissiva fez caminho com os «valores cristãos e concordatários» e permitiu que os grandes crimes sociais ficassem por punir. Neste sentido, há-que reconhecer que o pacto europeu entre a Igreja e o capital teve êxito assinalável. Que dimensão terá a massa financeira entretanto desviada dos orçamentos públicos para a assistência confessional sócio-caritativa privada? Que aplicações foram dadas a esse dinheiro ? Que histórias macabras se ocultam atrás dos offshores , dos roubos da banca ou das falências fraudulentas ? Que vem a ser, afinal, essa rábula litúrgica que é a «conversão dos ricos ao combate à pobreza»? Não há sistemas efectivos de controlo fiscal sobre esses valores multimilionários, tudo se anuncia ir ser investigado e nada se investiga. Que respeito merecem à Comissão Europeia e ao Vaticano as normas constitucionais expressas pelo voto democrático das populações que sofrem os efeitos reais de todos esses crimes e vêem alargado, dia após dia, o fosso catastrófico que separa ricos e pobres?
Jogar «às escondidas»...
O alto clero gosta de reeditar a seu favor a velha história do metafísico distraído que um dia, mergulhado nas suas reflexões não reparou no poço que estava no seu caminho e nele acabou por cair. Os cardeais revelam comportamento semelhante quando se trata de jogar com os seus silêncios perante os crimes cometidos pelos ricos sobre os pobres. Sabem e não sabem. Estão presentes e não estão, segundo o que mais lhes convenha. A Igreja condena a «pobreza» imposta pelos ricos mas é à custa dela que vai resolvendo os seus próprios problemas e materialmente prospera. Na Europa do dinheiro, bem instalada na sua «crise financeira», abundam os exemplos destas cumplicidades do «bate e foge».
Segundo as estatísticas oficiais do Estado – torcidas e retorcidas pelos ministros sem escrúpulos de Sócrates – existem em Portugal 700 mil desempregados, número em crescimento mas que, mesmo assim, fica muito aquém da realidade. O desemprego é a fonte principal da miséria entre os pobres. E é, por outro lado, um dos factores principais do aumento dos lucros entre os ricos. Atrás de cada desempregado perfila-se uma família. Em toda a sua crueza, a leitura das estatísticas do desemprego tem de ter em conta esta verdade.
Mas o desemprego não surge por geração espontânea. Resulta do aventureirismo empresarial, da ganância do lucro, do oportunismo da especulação ou do simples desprezo pelos direitos da condição humana. Tudo, anti-valores que a Igreja diz condenar. Mas a «doutrina social da Igreja», sempre que fala em pobreza remete para o divino o que é culpa da organização da sociedade.
A este assunto apaixonante, voltaremos.
Jorge Messias (Jornal Avante)
A traços gerais e muito incompletos pode traçar-se o perfil de uma Igreja católica cujo projecto central cresceu à custa de uma troca permanente entre os valores da sua doutrina social e a economia social de mercado exigida pelos interesses do capitalismo. Se revisitarmos o passado recente, iremos constatar como uma constante as cumplicidades entre dois dos grandes parceiros que construíram o Mercado Comum e o coroaram mais tarde como União Europeia – o Capital e a Igreja. Passeio penoso mas de extrema utilidade. Ao longo do percurso veríamos, se tentássemos a aventura, que os mitos europeus e capitalistas se revestem de roupagens litúrgicas; que o discurso dos seus responsáveis vem sempre na linha característica dos grandes pregadores de púlpito; que a poderosa «reviravolta doirada» dos anos 80 colocou no cimo da nuvem não só a banca e os banqueiros mas também o Vaticano, com as suas formações financeiras, as suas instituições caritativas, as suas escolas, os seus hospitais, as suas organizações laborais e patronais. Todas estas áreas foram crescendo com poderes eclesiais redefinidos e jamais sonhados. Fundamentalmente, a nível universal, a Igreja abriu então verdadeiras auto-estradas de acesso ao poder e às formas de destruição do Estado laico, democrático e social. Usou, para tanto, de todas as armas disponíveis, desde a diplomacia à compra silenciosa das consciências. Nesta gigantesca «revolução de veludo», desempenharam papel determinante as operações realizadas à sombra das concordatas firmadas com o capitalismo em vários estados europeus. Quando, enfim, se estabeleceu a União Europeia, o que era particular nas concordatas transformou-se em lei geral e em em norma legal de cumprimento obrigatório, mesmo nos estados comunitários que anteriormente se tinham negado a negociar com a Santa Sé.
Como é evidente, todos estes mega-negócios entre os poderes laicos e capitalistas e o Vaticano foram protegidos por um manto do mais completo sigilo. Mas a prática veio revelar essas relações íntimas entre a cruz e o cifrão : os políticos e os banqueiros discursam como que a pregar os mitos proclamados pelos antigos profetas ; os escândalos financeiros continuaram a estoirar por toda a parte, perante a passividade dos papas, dos bispos e cardeais. Foi reforçada a impunidade implicitamente reconhecida a políticos e ao clero. A tal ponto que é já facto consumado admitir-se ter-se instalado entre os que podem e mandam o crime organizado e aceitar-se que contra isso nada se pode fazer a não ser «resignarmo-nos e perdoar».
Esta filosofia permissiva fez caminho com os «valores cristãos e concordatários» e permitiu que os grandes crimes sociais ficassem por punir. Neste sentido, há-que reconhecer que o pacto europeu entre a Igreja e o capital teve êxito assinalável. Que dimensão terá a massa financeira entretanto desviada dos orçamentos públicos para a assistência confessional sócio-caritativa privada? Que aplicações foram dadas a esse dinheiro ? Que histórias macabras se ocultam atrás dos offshores , dos roubos da banca ou das falências fraudulentas ? Que vem a ser, afinal, essa rábula litúrgica que é a «conversão dos ricos ao combate à pobreza»? Não há sistemas efectivos de controlo fiscal sobre esses valores multimilionários, tudo se anuncia ir ser investigado e nada se investiga. Que respeito merecem à Comissão Europeia e ao Vaticano as normas constitucionais expressas pelo voto democrático das populações que sofrem os efeitos reais de todos esses crimes e vêem alargado, dia após dia, o fosso catastrófico que separa ricos e pobres?
Jogar «às escondidas»...
O alto clero gosta de reeditar a seu favor a velha história do metafísico distraído que um dia, mergulhado nas suas reflexões não reparou no poço que estava no seu caminho e nele acabou por cair. Os cardeais revelam comportamento semelhante quando se trata de jogar com os seus silêncios perante os crimes cometidos pelos ricos sobre os pobres. Sabem e não sabem. Estão presentes e não estão, segundo o que mais lhes convenha. A Igreja condena a «pobreza» imposta pelos ricos mas é à custa dela que vai resolvendo os seus próprios problemas e materialmente prospera. Na Europa do dinheiro, bem instalada na sua «crise financeira», abundam os exemplos destas cumplicidades do «bate e foge».
Segundo as estatísticas oficiais do Estado – torcidas e retorcidas pelos ministros sem escrúpulos de Sócrates – existem em Portugal 700 mil desempregados, número em crescimento mas que, mesmo assim, fica muito aquém da realidade. O desemprego é a fonte principal da miséria entre os pobres. E é, por outro lado, um dos factores principais do aumento dos lucros entre os ricos. Atrás de cada desempregado perfila-se uma família. Em toda a sua crueza, a leitura das estatísticas do desemprego tem de ter em conta esta verdade.
Mas o desemprego não surge por geração espontânea. Resulta do aventureirismo empresarial, da ganância do lucro, do oportunismo da especulação ou do simples desprezo pelos direitos da condição humana. Tudo, anti-valores que a Igreja diz condenar. Mas a «doutrina social da Igreja», sempre que fala em pobreza remete para o divino o que é culpa da organização da sociedade.
A este assunto apaixonante, voltaremos.
Jorge Messias (Jornal Avante)
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