O grande problema que se coloca ao Vaticano é o da salvaguarda da própria imagem pública. Por isso mesmo, os papas colocam as Comunicações sociais no centro da suas complexas questões. Porque não têm ilusões. Sabem que as grandes religiões (e não só a católica) lutam com um crescente alheamento religioso por parte das populações. O povoamento disperso rareia, os pobres procuram em vão empregos nas cidades, a pobreza transforma-se em miséria e a miséria em descrença. A religião na sua forma inicial passou a segundo plano.
No pólo oposto, quando os pobres vêm para as cidades e enriquecem (ou aparentam enriquecer) o resultado para as grandes religiões é idêntico. Formam-se fortunas e estas transformam-se em cultos pessoais. O novo-rico vive para si mesmo e para os lucros do seu clã, da sua «família» ou do seu bando – para nada mais. E o proselitismo transforma-se em marketing.
O mal da indiferença também atinge as hierarquias. Os «príncipes das igrejas» cercam-se de cortesãos e acantonam-se nos aposentos doirados dos seus paraísos artificiais do Vaticano, de Jerusalém ou de Riad. Também eles sofreram grandes mudanças. Agora são simplesmente mandantes, políticos, accionistas e gestores. Embolsam as fortunas, controlam os câmbios e dirigem de longe, através dos meios audiovisuais, as obscuras hostes menores do clero secular e do laicado.
Mas a chama íntima da fé, essa ... apagou-se!
Justiça social é ponto de ruptura
Num tão ambíguo quadro geral, toda a actividade milionária do clero mergulha num opaco nevoeiro. Nada é transparente. Mas por vezes há pequenas abertas que deixam entrever a realidade.
Foi o caso de um investigador norte-americano falecido em 1990, Avro Manhattan, em cujos dados podemos confiar, apenas acrescentando à sua intervenção a noção de que foi precisamente nos últimos vinte anos que a Santa Sé mais enriqueceu.
Nessa altura, o Vaticano controlava a maioria do capital dos grandes bancos mundiais, nomeadamente do Bank of America onde detinha 51% da carteira de acções. Ocupava posições idênticas noutros gigantescos grupos financeiros tais como o Rothschih, o Ambros, o Crédit Suisse, o Chase Manhattan, o City Bank, o Morgans, o Bankers Trust, etc. Na grande indústria do petróleo, aço, electricidade, aviação, motores e noutros importantes subsectores da economia americana, era accionista de referência na Gulf Petroleum, na Shell, General Motors, General Electric, Bethlem Steel, Boeing, Lockeed, Curtis Wright, e outras. Grandes fontes dos lucros da Igreja católica vinham ainda dos subsídios do Estado, das isenções de impostos, das mais-valias das ordens religiosas, das vendas de terrenos para a construção, dos jogos de lotarias, da produção de bebidas alcoólicas, da exploração de «paraísos fiscais», da indústria publicitária, dos laboratórios químicos e farmacêuticos, etc., etc. O lobby católico americano era já esmagador. Actualmente, em plena crise financeira, mercê das falência e das operações especulativas das bolsas, o gigantismo católico não cessa de aumentar.
Articulada a esta tremenda rede financeira, o Vaticano dispõe nos EUA (tal como na Europa) de uma extensa malha de colégios privados, hospitais, lares, escolas paroquiais, jardins de infância, universidades, refúgios e dormitórios, estações de rádio e de televisão – todas essas organizações com finalidades lucrativas e subsídios estatais – instituições perfeitamente integradas no modelo norte-americano de «sociedade civil».
Recorde-se, finalmente, que o Vaticano aplica rigorosamente no seu aparelho financeiro as regras da «organização em dominó». Cada acção detida pela Igreja nos principais bancos ou grupos económicos e financeiros valoriza-se à custa das empresas mais pequenas dependentes dos favores do grande capital acumulado. Nessas áreas – geradoras de muitas falências e desemprego – a influência da Igreja expande-se permanentemente.
Afirma A. Manhattan (um outro analista norte-americano): «A igreja exerce controle em todos os sectores da sociedade americana, horizontal e verticalmente. O resultado é que praticamente todas as estruturas dos EUA estão interligadas, directa ou indirectamente, com as estruturas católicas. As consequências dessa interligação assemelham-se às de um velho carvalho abraçado por um parasita vigorosamente saudável».
Em breve veremos aquilo em que tudo isto dá. Nas Américas, na Europa, nas «pátrias do petróleo» enfim, por toda a parte onde a miséria alastra ...
Jorge Messias ( Jornal Avante )
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Sócrates à solta
Comentando os resultados do último Conselho Europeu, nomeadamente a ideia da «governação económica», o primeiro-ministro não hesitou em classificar o enclave de «acontecimento histórico».
Faz hoje oito dias, no debate quinzenal no Parlamento, voltou a não esconder a sua satisfação por este passo no sentido de «uma maior coordenação económica».
O pior foi quando se viu confrontado pelo Secretário-geral do PCP para que esclarecesse os conteúdos da dita, em particular o chamado «pacto para a competitividade» subscrito pelo eixo franco-alemão.
Tratava-se de clarificar se era verdade ou não que entre as medidas preconizadas estava, por exemplo, a desvalorização dos salários ou o aumento da idade de reforma para os 67 anos.
José Sócrates, que antes não poupara elogios às medidas do Conselho Europeu, acabou a dizer que «não sabia», que «não houve nenhuma discussão sobre nenhuma medida em concreto».
Admitindo que não faltou à verdade, cabe perguntar como pode gabar tanto o que «desconhece»...
Jornal Avante
Faz hoje oito dias, no debate quinzenal no Parlamento, voltou a não esconder a sua satisfação por este passo no sentido de «uma maior coordenação económica».
O pior foi quando se viu confrontado pelo Secretário-geral do PCP para que esclarecesse os conteúdos da dita, em particular o chamado «pacto para a competitividade» subscrito pelo eixo franco-alemão.
Tratava-se de clarificar se era verdade ou não que entre as medidas preconizadas estava, por exemplo, a desvalorização dos salários ou o aumento da idade de reforma para os 67 anos.
José Sócrates, que antes não poupara elogios às medidas do Conselho Europeu, acabou a dizer que «não sabia», que «não houve nenhuma discussão sobre nenhuma medida em concreto».
Admitindo que não faltou à verdade, cabe perguntar como pode gabar tanto o que «desconhece»...
Jornal Avante
O poço sem fundo das redes sociais (1)
A informática veio revolucionar toda a comunicação e é uma das mais geniais conquistas da mente humana. Mas seria absurdo dizer-se o mesmo quanto à sua utilização. Neste sentido, a informática presta-se às mil maravilhas para ser temível agente do obscurantismo, da difusão da mentira e da corrupção ou das intrigas que promovem as guerras de rapina. Terrenos onde o Vaticano é perito. É o caso da Comunicação.
A noção de rede começou a ser valorizada nos princípios do século XX e significava que um grupo de pessoas ou de organizações partilhava entre os seus agentes os mesmos valores e objectivos. Nessa fase inicial a sua ligação à informatização ainda nem sequer existia. Mas já reconheciam os defensores de uma tal aproximação e do aproveitamento das suas potencialidades: «Redes não são apenas uma outra forma de estrutura mas a negação deste conceito, no sentido de que parte da sua força está na sua capacidade em se fazer e desfazer rapidamente… os seus limites não são fronteiras inultrapassáveis mas expectativas flexíveis de confiança e lealdade, as quais são permanentemente mantidas e renegociadas pelas redes de comunicações» ( Fábio Duarte, O Tempo das Redes ).
Os progressos da Informática da Comunicação foram fulminantes, em grande parte estimulados pela «guerra fria» e pelo crescente peso económico das indústrias electrónicas e dos armamentos que exigiam gerações cada vez mais sofisticadas de computadores. A noção de rede social, já insuficiente, ampliou-se cedendo o primado à fórmula mais alargada de sistemas de redes sociais capazes de cruzarem entre as suas componentes as informações mais complexas, independentemente da origem da «família» a que pudessem pertencer (comunitária, política, económica, profissional, etc.).
A ponderação dos resultados parciais de cada «rede social» ou «sistema de redes» permite agora avaliar não só a forma como as organizações se empenham em alcançar as metas estabelecidas mas, de igual modo, tornam possível quantificar o desempenho de cada cidadão individualmente, no sentido da valorização positiva ou negativa do seu capital social (a sua força de trabalho na rede expressa em lucro ou défice). Aqui, a informática transforma-se numa «polícia de proximidade».
Como seria natural e inevitável, aos teólogos do Vaticano e aos teóricos da globalização não escapou que esta linha filosófica traria um inesperado reforço aos seus planos ocultos de estabelecimento universal de uma Nova Ordem num mundo capitalista rejuvenescido. Assinala-se na Wikipédia, a enciclopédia livre da Internet: «Um ponto dominante nos diversos tipos de rede social é a partilha de informações, conhecimentos, interesses e esforços que valorizem objectivos comuns». A multiplicação constante do número de redes sociais activas reflecte, pois, uma intenção de reforço e controlo da Sociedade Civil e do Conhecimento por parte dos que dividem entre si os lucros da exploração neoliberal: o capitalismo financeiro, o capitalismo político e a Igreja capitalista.
Com maior evidência numas áreas do que noutras, é já indiscutível que a comunhão de interesses entre estes três parceiros se deve sempre sobrepor às dissensões do passado. Para o capitalismo «de confissão», a situação mundial é brilhante mas instável. É preciso reforçar veladamente o poder dos mais ricos e dos grandes patrões, instalando entre eles o «espírito cristão». E é preciso esquecer de momento as queixas históricas contra os «irmãos desavindos» de outros credos, também eles com religiões ricas e poderosas. Por isso, na actual fase papal do cardeal Ratzinger coloca-se como parceria mais importante a ocupar a Comunicação Social. «O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações que está a unificar a humanidade transformando-a, como é costume dizer-se, em aldeia global. Os meios de comunicação social alcançam tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais» – refere o colégio cardinalício na carta pastoral Aetatis Nova.
Mas não se pense que, para dominar os meios de comunicação, o Vaticano precise de comprar empresas, uma a uma. A organização em rede pode operar milagres. O ideal, portanto, é dizer missa e ficar mudo, enriquecer e guardar o voto de pobreza, vencer na política mantendo o segredo dos deuses e, enfim, conquistar santa e anonimamente o poder.
Há dados curiosos sobre este projecto menos conhecido.
Jorge Messias (Jornal Avante)
A noção de rede começou a ser valorizada nos princípios do século XX e significava que um grupo de pessoas ou de organizações partilhava entre os seus agentes os mesmos valores e objectivos. Nessa fase inicial a sua ligação à informatização ainda nem sequer existia. Mas já reconheciam os defensores de uma tal aproximação e do aproveitamento das suas potencialidades: «Redes não são apenas uma outra forma de estrutura mas a negação deste conceito, no sentido de que parte da sua força está na sua capacidade em se fazer e desfazer rapidamente… os seus limites não são fronteiras inultrapassáveis mas expectativas flexíveis de confiança e lealdade, as quais são permanentemente mantidas e renegociadas pelas redes de comunicações» ( Fábio Duarte, O Tempo das Redes ).
Os progressos da Informática da Comunicação foram fulminantes, em grande parte estimulados pela «guerra fria» e pelo crescente peso económico das indústrias electrónicas e dos armamentos que exigiam gerações cada vez mais sofisticadas de computadores. A noção de rede social, já insuficiente, ampliou-se cedendo o primado à fórmula mais alargada de sistemas de redes sociais capazes de cruzarem entre as suas componentes as informações mais complexas, independentemente da origem da «família» a que pudessem pertencer (comunitária, política, económica, profissional, etc.).
A ponderação dos resultados parciais de cada «rede social» ou «sistema de redes» permite agora avaliar não só a forma como as organizações se empenham em alcançar as metas estabelecidas mas, de igual modo, tornam possível quantificar o desempenho de cada cidadão individualmente, no sentido da valorização positiva ou negativa do seu capital social (a sua força de trabalho na rede expressa em lucro ou défice). Aqui, a informática transforma-se numa «polícia de proximidade».
Como seria natural e inevitável, aos teólogos do Vaticano e aos teóricos da globalização não escapou que esta linha filosófica traria um inesperado reforço aos seus planos ocultos de estabelecimento universal de uma Nova Ordem num mundo capitalista rejuvenescido. Assinala-se na Wikipédia, a enciclopédia livre da Internet: «Um ponto dominante nos diversos tipos de rede social é a partilha de informações, conhecimentos, interesses e esforços que valorizem objectivos comuns». A multiplicação constante do número de redes sociais activas reflecte, pois, uma intenção de reforço e controlo da Sociedade Civil e do Conhecimento por parte dos que dividem entre si os lucros da exploração neoliberal: o capitalismo financeiro, o capitalismo político e a Igreja capitalista.
Com maior evidência numas áreas do que noutras, é já indiscutível que a comunhão de interesses entre estes três parceiros se deve sempre sobrepor às dissensões do passado. Para o capitalismo «de confissão», a situação mundial é brilhante mas instável. É preciso reforçar veladamente o poder dos mais ricos e dos grandes patrões, instalando entre eles o «espírito cristão». E é preciso esquecer de momento as queixas históricas contra os «irmãos desavindos» de outros credos, também eles com religiões ricas e poderosas. Por isso, na actual fase papal do cardeal Ratzinger coloca-se como parceria mais importante a ocupar a Comunicação Social. «O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações que está a unificar a humanidade transformando-a, como é costume dizer-se, em aldeia global. Os meios de comunicação social alcançam tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais» – refere o colégio cardinalício na carta pastoral Aetatis Nova.
Mas não se pense que, para dominar os meios de comunicação, o Vaticano precise de comprar empresas, uma a uma. A organização em rede pode operar milagres. O ideal, portanto, é dizer missa e ficar mudo, enriquecer e guardar o voto de pobreza, vencer na política mantendo o segredo dos deuses e, enfim, conquistar santa e anonimamente o poder.
Há dados curiosos sobre este projecto menos conhecido.
Jorge Messias (Jornal Avante)
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
"Os Servidores da Pátria"
" Houve-se dizer todos os dias e a todas as horas,-e é o que faz a força do discurso dominante-, que não há nada a opor à visão neoliberal, que consegue a se apresentar como evidente, como não havendo outra alternativa. Se isto não passa de uma banalidade, há no entanto todo um trabalho de" inculcação" simbólico ao qual participam, passivamente, os jornalistas, os simples cidadãos e, em particular, activamente, um certo numero de intelectuais". Assim falava, em Outubro de 1996, Pierre Bourdieu, na sua intervenção, na Confederação do Trabalhadores Gregos.
Max Weber dizia também: "Que os dominantes têm sempre necessidade de uma teoria que justifique os seus privilégios. A competência é hoje ao coração desta sociedade, que é aceite, evidentemente, pelos dominantes-é o seu interesse-mas também pelos outros. Na miséria dos excluídos do trabalho, na miséria dos desempregados de longa duração, há mais qualquer coisa que no passado. A ideologia anglo-saxone, sempre um pouco na vanguarda, distinguia os pobres entre os imorais e os merecedores-digamos da caridade. A esta justificação ética veio juntar-se ou substituir-se uma justificação intelectual. Os pobres não são somente imorais, alcoólicos, corrompidos, eles são estúpidos e não são inteligentes.
Platão tinha uma visão do mundo social que se assemelha à dos nossos tecnocratas; com os filósofos,os guardas e depois o povo. Esta ideia está profundamente enraizada. Porquê passamos do intelectual engajado ao intelectual "desengajado"? Em parte os porque os intelectuais são detentores de capital cultural e que, mesmo se eles são dominados entre os dominantes, eles fazem parte dos dominantes.
-É bem neste clima que se vive em Portugal onde assistimos, todos os dias, ao servilismo perante o capital e o poder estabelecido, de uma grande parte dos nossos intelectuais e jornalistas.
É ver os debates na televisão-Prós e Contras, Quadratura do Circulo, Eixo do Mal e outros para nos darmos conta da falta de ideias e de honestidade intelectual de que essa gente é portadora.
Hoje talvez não tenhamos a censura política; mas temos a censura do dinheiro que corrompe as consciências.
Quelha Funda
Max Weber dizia também: "Que os dominantes têm sempre necessidade de uma teoria que justifique os seus privilégios. A competência é hoje ao coração desta sociedade, que é aceite, evidentemente, pelos dominantes-é o seu interesse-mas também pelos outros. Na miséria dos excluídos do trabalho, na miséria dos desempregados de longa duração, há mais qualquer coisa que no passado. A ideologia anglo-saxone, sempre um pouco na vanguarda, distinguia os pobres entre os imorais e os merecedores-digamos da caridade. A esta justificação ética veio juntar-se ou substituir-se uma justificação intelectual. Os pobres não são somente imorais, alcoólicos, corrompidos, eles são estúpidos e não são inteligentes.
Platão tinha uma visão do mundo social que se assemelha à dos nossos tecnocratas; com os filósofos,os guardas e depois o povo. Esta ideia está profundamente enraizada. Porquê passamos do intelectual engajado ao intelectual "desengajado"? Em parte os porque os intelectuais são detentores de capital cultural e que, mesmo se eles são dominados entre os dominantes, eles fazem parte dos dominantes.
-É bem neste clima que se vive em Portugal onde assistimos, todos os dias, ao servilismo perante o capital e o poder estabelecido, de uma grande parte dos nossos intelectuais e jornalistas.
É ver os debates na televisão-Prós e Contras, Quadratura do Circulo, Eixo do Mal e outros para nos darmos conta da falta de ideias e de honestidade intelectual de que essa gente é portadora.
Hoje talvez não tenhamos a censura política; mas temos a censura do dinheiro que corrompe as consciências.
Quelha Funda
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Olhar de frente as curvas do caminho
Estamos a apreender por experiência própria que os caminhos do futuro são duras experiências do presente. A liberdade não é um manjar servido em pratos de porcelana. Há fome, há pobreza, há corrupção e, sobretudo, o povo vive mergulhado num mar sem fundo de ilusões e de mentiras. Nunca tantos mentiram tanto às multidões. Assim, manter viva a chama de um mundo mais justo exige grande força moral e firmeza na luta.
Mas vê-se, em cada instante que passa, que o homem continua a ser capaz de resistir e vencer. Atravessamos a fase do processo histórico que os comunistas dos tempos de Marx e de Lenine definiam como o do apodrecimento do Estado parasita. O poder capitalista sobe ao cume mais alto, explora até aos últimos limites a força produtiva da humanidade, apodera-se da riqueza criada, forma a sua própria base social de apoio e prepara-se para impor por mais mil anos a sua tirania quando, subitamente, mergulha no oceano das suas contradições.
Tal como agora acontece. O dinheiro abunda mas o produto é cada vez menor. Os lucros e as fortunas não cessam de aumentar – mas não tanto como a miséria, a fome e o desemprego. As classes políticas e financeiras rivalizam entre si e lutam pelos lugares mais chegados à mesa do banquete. Já não se pode ocultar a corrupção do Estado. O poder capitalista caminha para o seu fim inevitável, para a ruptura e para a confirmação vitoriosa do Socialismo. Levará tempo mas assim será.
Para os trabalhadores esta caminhada não será nem simples, nem fácil. Pelo contrário, os próximos tempos caracterizar-se-ão pelas privações e pelas lutas. Porque a estrada é traiçoeira, foi desenhada em curvas e contra-curvas, por entre abismos. E os sinais estão trocados. Puseram-nos lá para nos enganarem.
É preciso não alimentar ilusões e conhecer bem este traçado. Qualquer passo em falso sair-nos-á bem caro. São as leis duras da «luta de classes».
Os sinais de alarme
Ainda há pouco o País saiu de uma etapa de vergonha e confirmou nas urnas o presidente que afinal já lá estava – e mal! – para logo voltar aos atalhos de lama percorridos aos tropeções. Sócrates «moralizou» os vencimentos das chefias mas permitiu «excepções» que tornaram as leis em autênticos passadores. Procurou adiar a falência do Estado vendendo-o ao desbarato, como se Portugal fosse um quintal seu. Afirmou-se defensor da independência nacional mas obedece às ordens do grande capital. Despediu à toa, fundiu empresas para disfarçar privatizações, mascarou as estatísticas, auto-elogiou-se e contratou elogios, usou a mentira como cortina de fumo.
Os núcleos dominantes da «sociedade civil» – partidos políticos, grupos de interesses e Igreja – colaboram na farsa, emudecem e sabotam os sinais do caminho. Mudam-lhes as cores e trocam-lhes as tintas para, logo a seguir, voltarem ao velho discurso «de esquerda». O povo assiste ao espectáculo, entende-o e afasta-se desiludido. A revolta vai crescendo mas sem se sistematizar, sem ganhar corpo colectivo e organizado.
Entretanto, a reacção começa a recolher os frutos do seu «trabalho de sapa», desenvolvido à sombra das vistas indiscretas. Instalou-se no poder quase logo a seguir ao 25 de Abril. Homens seus envenenaram ao longo de anos os conceitos revolucionários de Estado reconhecidos na Constituição da República. Ministros secretamente simpatizantes do antigo regime foram fechando os olhos ao permanente desenvolvimento de uma nova «conspiração silenciosa». Agora, são muitos os políticos que se sentem bem no actual Estado-parasita português.
Vivemos já numa nação totalmente dominada pelo grande capital mundial. As ordens a que o Governo obedece vêm de fora, das centrais do dinheiro e dos mercados. A Igreja é catedral financeira que usa em seu proveito toda uma gramática moral roubada ao ideário histórico do Socialismo e do povo trabalhador. Mas justiça social não é caridade, nem militante deve ser sinónimo de voluntário ou de fiel conciliador. Na prática e nos objectivos, temos outras perspectivas. A sociedade que queremos construir nada tem de sobrenatural.
Mas os riscos a correr são muitos e de diferentes fontes. Surgem das grandes fortunas, dos países ricos e imperialistas e do próprio sistema, no ponto de desenvolvimento em que ele se encontra. Mas também nascem dentro da comunidade, pela mão dos revanchistas, dos oportunistas que julgam poder fugir à crise e dos tecnocratas que aspiram a gerir a História e as multidões através da mentira, da cibernética e das suas famosas redes sociais.
Cá estaremos para os enfrentar.
Jorge Messias ( Jornal Avante)
Mas vê-se, em cada instante que passa, que o homem continua a ser capaz de resistir e vencer. Atravessamos a fase do processo histórico que os comunistas dos tempos de Marx e de Lenine definiam como o do apodrecimento do Estado parasita. O poder capitalista sobe ao cume mais alto, explora até aos últimos limites a força produtiva da humanidade, apodera-se da riqueza criada, forma a sua própria base social de apoio e prepara-se para impor por mais mil anos a sua tirania quando, subitamente, mergulha no oceano das suas contradições.
Tal como agora acontece. O dinheiro abunda mas o produto é cada vez menor. Os lucros e as fortunas não cessam de aumentar – mas não tanto como a miséria, a fome e o desemprego. As classes políticas e financeiras rivalizam entre si e lutam pelos lugares mais chegados à mesa do banquete. Já não se pode ocultar a corrupção do Estado. O poder capitalista caminha para o seu fim inevitável, para a ruptura e para a confirmação vitoriosa do Socialismo. Levará tempo mas assim será.
Para os trabalhadores esta caminhada não será nem simples, nem fácil. Pelo contrário, os próximos tempos caracterizar-se-ão pelas privações e pelas lutas. Porque a estrada é traiçoeira, foi desenhada em curvas e contra-curvas, por entre abismos. E os sinais estão trocados. Puseram-nos lá para nos enganarem.
É preciso não alimentar ilusões e conhecer bem este traçado. Qualquer passo em falso sair-nos-á bem caro. São as leis duras da «luta de classes».
Os sinais de alarme
Ainda há pouco o País saiu de uma etapa de vergonha e confirmou nas urnas o presidente que afinal já lá estava – e mal! – para logo voltar aos atalhos de lama percorridos aos tropeções. Sócrates «moralizou» os vencimentos das chefias mas permitiu «excepções» que tornaram as leis em autênticos passadores. Procurou adiar a falência do Estado vendendo-o ao desbarato, como se Portugal fosse um quintal seu. Afirmou-se defensor da independência nacional mas obedece às ordens do grande capital. Despediu à toa, fundiu empresas para disfarçar privatizações, mascarou as estatísticas, auto-elogiou-se e contratou elogios, usou a mentira como cortina de fumo.
Os núcleos dominantes da «sociedade civil» – partidos políticos, grupos de interesses e Igreja – colaboram na farsa, emudecem e sabotam os sinais do caminho. Mudam-lhes as cores e trocam-lhes as tintas para, logo a seguir, voltarem ao velho discurso «de esquerda». O povo assiste ao espectáculo, entende-o e afasta-se desiludido. A revolta vai crescendo mas sem se sistematizar, sem ganhar corpo colectivo e organizado.
Entretanto, a reacção começa a recolher os frutos do seu «trabalho de sapa», desenvolvido à sombra das vistas indiscretas. Instalou-se no poder quase logo a seguir ao 25 de Abril. Homens seus envenenaram ao longo de anos os conceitos revolucionários de Estado reconhecidos na Constituição da República. Ministros secretamente simpatizantes do antigo regime foram fechando os olhos ao permanente desenvolvimento de uma nova «conspiração silenciosa». Agora, são muitos os políticos que se sentem bem no actual Estado-parasita português.
Vivemos já numa nação totalmente dominada pelo grande capital mundial. As ordens a que o Governo obedece vêm de fora, das centrais do dinheiro e dos mercados. A Igreja é catedral financeira que usa em seu proveito toda uma gramática moral roubada ao ideário histórico do Socialismo e do povo trabalhador. Mas justiça social não é caridade, nem militante deve ser sinónimo de voluntário ou de fiel conciliador. Na prática e nos objectivos, temos outras perspectivas. A sociedade que queremos construir nada tem de sobrenatural.
Mas os riscos a correr são muitos e de diferentes fontes. Surgem das grandes fortunas, dos países ricos e imperialistas e do próprio sistema, no ponto de desenvolvimento em que ele se encontra. Mas também nascem dentro da comunidade, pela mão dos revanchistas, dos oportunistas que julgam poder fugir à crise e dos tecnocratas que aspiram a gerir a História e as multidões através da mentira, da cibernética e das suas famosas redes sociais.
Cá estaremos para os enfrentar.
Jorge Messias ( Jornal Avante)
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Acordo histórico
Na reunião de chefes de governo que teve lugar em Bruxelas o duo franco-alemão, que ambicionam ser os donos da Europa, lançaram uma proposta, "governação Económica", que tem por finalidade porem e disporem da vida dos povos da Europa. Muitos países,-Bélgica,Luxemburgo, Áustria e outros mais,- mostraram o seu desacordo obrigando a Senhora Merkel a recuar dizendo que a proposta apenas estava em discussão.
Mas houve um senhor que achou a ideia genial e que logo veio falar de acordo histórico. Esse senhor não podia ser outro que o servente do capital, primeiro ministro português, José Sócrates.
Todos nós sabemos que a Alemanha tenta por todos os meios conseguir, por via mais pacífica, aquilo que não conseguio com a guerra de 39-45: dominar a Europa.
Ela só o conseguira se tiver ao seu serviço lacaios dispostos a fazer o sujo trabalho. Mas ela sabe, também, que em cada país encontrará, sempre,um Laval para a servir.
Quelha Funda
Mas houve um senhor que achou a ideia genial e que logo veio falar de acordo histórico. Esse senhor não podia ser outro que o servente do capital, primeiro ministro português, José Sócrates.
Todos nós sabemos que a Alemanha tenta por todos os meios conseguir, por via mais pacífica, aquilo que não conseguio com a guerra de 39-45: dominar a Europa.
Ela só o conseguira se tiver ao seu serviço lacaios dispostos a fazer o sujo trabalho. Mas ela sabe, também, que em cada país encontrará, sempre,um Laval para a servir.
Quelha Funda
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Intervenção de António Felipe na Assembleia da República
A redução de Deputados não resolve nenhum dos problemas do país
Se alguma coisa vinda deste Governo ainda fosse capaz de nos surpreender, teríamos ficado surpreendidos pela adesão serôdia do Ministro Jorge Lacão à velha tese da direita mais demagógica e populista de que é preciso reduzir o número de Deputados.
Porém, na situação desesperada em que este Governo se encontra, esta manobra de diversão do Ministro dos Assuntos Parlamentares, não nos surpreende.
Perante a situação desgraçada a que este Governo conduziu o país; perante o roubo dos salários dos trabalhadores da Administração Pública; perante o aumento do custo de vida; perante o aumento do desemprego e das falências; perante o corte das prestações sociais; perante uma política que premeia a especulação e se rende perante a espoliação da economia nacional; perante a proposta do Governo de tornar os despedimentos mais fáceis e baratos; perante uma política que condena centenas de milhares de famílias a uma revoltante pobreza; este Governo não tem nada que o defenda.
Para o Ministro Jorge Lacão, o problema do nosso país não está na taxa de desemprego, não está na destruição do tecido produtivo nacional, não está no aumento chocante das desigualdades sociais. O problema, para o Ministro Jorge Lacão, é que a Assembleia da República tem 230 Deputados quando deveria ter 180.A redução do número de deputados tem, em Portugal, três grupos de defensores.
O primeiro grupo é o dos que nunca se conformaram com a democracia e que fazem eco da concepção de Salazar que, nos anos trinta, em célebre entrevista a António Ferro, afirmava que para Parlamento lhe bastava o Conselho de Ministros. Para esses, qualquer Deputado é um Deputado a mais e atacam o Parlamento em todas as circunstâncias. A razão desse ataque é que o Parlamento, enquanto expressão da representatividade democrática do país, é o único órgão de soberania onde a oposição encontra espaço de intervenção institucional. Por isso, o ataque salazarento ao parlamento é acima de tudo um ataque à oposição e à democracia. Entre este primeiro grupo estão alguns porta-vozes do poder económico mais saudosista e que encontram eco em alguma comunicação social cada vez mais rendida ao populismo e à demagogia barata.
Um segundo grupo, integra muitos cidadãos que, influenciados por um discurso anti-parlamentar, e não necessariamente mal intencionados, estão convencidos de que a redução do número de deputados seria uma forma de punir os responsáveis pela má governação do país, roubando o lugar a uma mão-cheia deles. O que estes cidadãos não estão a ver, porque isso lhes é normalmente escondido, é que aqueles políticos que pretendem punir, seriam precisamente os grandes beneficiários da medida que propõem e que, em vez de lesar quem exerce o poder, a redução do número de deputados lesaria precisamente quem pretende fazer oposição, fiscalizar o poder e contribuir para uma alternativa às más políticas que têm desgovernado o país.
Finalmente o terceiro grupo, onde agora se alistou insere o ministro Jorge Lacão, é o dos defensores dessa espécie de partido único do situacionismo, que é o Bloco Central e da alternância sem alternativa entre o PS e o PSD. Esses sabem muito bem quais os efeitos da redução do número de deputados na proporcionalidade do sistema eleitoral e encaram a redução como uma forma ardilosa de obter um seguro de vida para os partidos do Bloco Central. O PS e o PSD assegurariam a hegemonia da Assembleia da República e os demais partidos ficariam limitados a uma expressão residual, com fracas possibilidades de influenciar soluções governativas e com muito menos possibilidades de fiscalizar a acção do Governo.
A redução do número de Deputados é uma velha bandeira demagógica do PSD. Foi erguida em 1989, quando nessa revisão constitucional o PS aceitou a redução do número de Deputados de 250 para 230. Essa redução teria muitas virtudes. Tantas como as que hoje teria a redução para 180. Mas alguém notou essas virtudes? Pelo contrário. O efeito dessa redução foi aumentar na secretaria o peso relativo dos dois maiores partidos na composição do Parlamento. A redução do número de Deputados é uma fórmula mágica para reduzir a proporcionalidade do sistema eleitoral e para que o PS e o PSD obtenham maiores maiorias com menor número de votos.
O princípio da representação proporcional foi uma importante conquista democrática e um elemento fundamental para a legitimação das instituições representativas. Um Parlamento, para ser uma Casa da Democracia e para representar um Povo, tem de ser representativo das correntes políticas em que esse Povo se revê e que tenham uma expressão minimamente significativa. Quando a engenharia eleitoral distorce a representação para favorecer as correntes políticas maioritárias em desfavor das restantes é a própria democracia que sai distorcida.
Um estudo ainda recentemente dado à estampa sobre a reforma do sistema eleitoral, encomendado precisamente pelo Grupo Parlamentar do Partido Socialista a três distintos politólogos portugueses, concluiu, em face da análise comparativa da dimensão do Parlamento Português que, Portugal não tem Deputados a mais, muito pelo contrário. Quando comparamos a situação portuguesa à de países com uma dimensão populacional equivalente à nossa, verificamos que o ratio indica claramente que a dimensão do Parlamento Português não é exagerada, muito pelo contrário: temos um Parlamento pequeno.
Além disso - conclui o estudo – uma redução significativa da dimensão do Parlamento poderia contribuir para comprimir a proporcionalidade, poderia reduzir a representação territorial e social, bem como contrariaria a ideia de aumentar a qualidade da representação.
Será que o Ministro Jorge Lacão desconhece este estudo e estes factos? Seguramente que não. Será que o Ministro Jorge Lacão, ao fim de tantos anos de experiência política descobriu, na redução do número de Deputados, virtudes de que nunca havia suspeitado antes? Seguramente que não.
O que o Ministro Jorge Lacão encontrou, com a sua adesão a um velho propósito do PSD, foi uma conveniente manobra de diversão, para afastar a agenda política e mediática daquilo que realmente preocupa os portugueses, que são as consequências negativas da política do seu Governo no dia-a-dia dos trabalhadores e das suas famílias.
Não, Senhor Ministro Jorge Lacão, o que preocupa a grande maioria dos portugueses e faz recair o descrédito sobre a política e os políticos, não é a dimensão da Assembleia da República. É a dimensão do fracasso da política do seu Governo.
É a política de desastre nacional que o Governo tem conduzido, de braço dado com um PSD que colabora prestimosamente com o que de mais negativo esta política contém e que, não satisfeito, nos brinda com reivindicações da mais completa irresponsabilidade, como a redução da despesa pública sem saber dizer onde, quando e como, com a extinção de organismos públicos sem saber dizer quais e com que consequências, ou com esse absoluto dislate do discurso político que é a defesa da extinção das empresas públicas de transportes, é essa política de desastre nacional – dizia eu – que é responsável pelo descontentamento que justamente alastra pelo país.
A situação a que o nosso país chegou não se deve ao facto de haver 230 Deputados na Assembleia da República. A situação a que o nosso país chegou é da responsabilidade dos partidos que têm governado o país nos últimos 35 anos, numa alternância sem alternativa, em que o PS e o PSD, com ou sem o CDS, têm repartido entre si cargos e prebendas no Governo, nas empresas públicas e no aparelho de Estado, sacrificando os interesses nacionais e destruindo direitos sociais fundamentais do povo português em nome dos interesses e da ganância dos detentores do poder económico.
A defesa da democracia não passa pela redução do número de Deputados. Passa por uma prática política de todos os detentores de cargos públicos que dignifique o exercício dos mandatos conferidos pelo povo português, que cumpra as promessas feitas e honre os compromissos assumidos.
Disse.
Se alguma coisa vinda deste Governo ainda fosse capaz de nos surpreender, teríamos ficado surpreendidos pela adesão serôdia do Ministro Jorge Lacão à velha tese da direita mais demagógica e populista de que é preciso reduzir o número de Deputados.
Porém, na situação desesperada em que este Governo se encontra, esta manobra de diversão do Ministro dos Assuntos Parlamentares, não nos surpreende.
Perante a situação desgraçada a que este Governo conduziu o país; perante o roubo dos salários dos trabalhadores da Administração Pública; perante o aumento do custo de vida; perante o aumento do desemprego e das falências; perante o corte das prestações sociais; perante uma política que premeia a especulação e se rende perante a espoliação da economia nacional; perante a proposta do Governo de tornar os despedimentos mais fáceis e baratos; perante uma política que condena centenas de milhares de famílias a uma revoltante pobreza; este Governo não tem nada que o defenda.
Para o Ministro Jorge Lacão, o problema do nosso país não está na taxa de desemprego, não está na destruição do tecido produtivo nacional, não está no aumento chocante das desigualdades sociais. O problema, para o Ministro Jorge Lacão, é que a Assembleia da República tem 230 Deputados quando deveria ter 180.A redução do número de deputados tem, em Portugal, três grupos de defensores.
O primeiro grupo é o dos que nunca se conformaram com a democracia e que fazem eco da concepção de Salazar que, nos anos trinta, em célebre entrevista a António Ferro, afirmava que para Parlamento lhe bastava o Conselho de Ministros. Para esses, qualquer Deputado é um Deputado a mais e atacam o Parlamento em todas as circunstâncias. A razão desse ataque é que o Parlamento, enquanto expressão da representatividade democrática do país, é o único órgão de soberania onde a oposição encontra espaço de intervenção institucional. Por isso, o ataque salazarento ao parlamento é acima de tudo um ataque à oposição e à democracia. Entre este primeiro grupo estão alguns porta-vozes do poder económico mais saudosista e que encontram eco em alguma comunicação social cada vez mais rendida ao populismo e à demagogia barata.
Um segundo grupo, integra muitos cidadãos que, influenciados por um discurso anti-parlamentar, e não necessariamente mal intencionados, estão convencidos de que a redução do número de deputados seria uma forma de punir os responsáveis pela má governação do país, roubando o lugar a uma mão-cheia deles. O que estes cidadãos não estão a ver, porque isso lhes é normalmente escondido, é que aqueles políticos que pretendem punir, seriam precisamente os grandes beneficiários da medida que propõem e que, em vez de lesar quem exerce o poder, a redução do número de deputados lesaria precisamente quem pretende fazer oposição, fiscalizar o poder e contribuir para uma alternativa às más políticas que têm desgovernado o país.
Finalmente o terceiro grupo, onde agora se alistou insere o ministro Jorge Lacão, é o dos defensores dessa espécie de partido único do situacionismo, que é o Bloco Central e da alternância sem alternativa entre o PS e o PSD. Esses sabem muito bem quais os efeitos da redução do número de deputados na proporcionalidade do sistema eleitoral e encaram a redução como uma forma ardilosa de obter um seguro de vida para os partidos do Bloco Central. O PS e o PSD assegurariam a hegemonia da Assembleia da República e os demais partidos ficariam limitados a uma expressão residual, com fracas possibilidades de influenciar soluções governativas e com muito menos possibilidades de fiscalizar a acção do Governo.
A redução do número de Deputados é uma velha bandeira demagógica do PSD. Foi erguida em 1989, quando nessa revisão constitucional o PS aceitou a redução do número de Deputados de 250 para 230. Essa redução teria muitas virtudes. Tantas como as que hoje teria a redução para 180. Mas alguém notou essas virtudes? Pelo contrário. O efeito dessa redução foi aumentar na secretaria o peso relativo dos dois maiores partidos na composição do Parlamento. A redução do número de Deputados é uma fórmula mágica para reduzir a proporcionalidade do sistema eleitoral e para que o PS e o PSD obtenham maiores maiorias com menor número de votos.
O princípio da representação proporcional foi uma importante conquista democrática e um elemento fundamental para a legitimação das instituições representativas. Um Parlamento, para ser uma Casa da Democracia e para representar um Povo, tem de ser representativo das correntes políticas em que esse Povo se revê e que tenham uma expressão minimamente significativa. Quando a engenharia eleitoral distorce a representação para favorecer as correntes políticas maioritárias em desfavor das restantes é a própria democracia que sai distorcida.
Um estudo ainda recentemente dado à estampa sobre a reforma do sistema eleitoral, encomendado precisamente pelo Grupo Parlamentar do Partido Socialista a três distintos politólogos portugueses, concluiu, em face da análise comparativa da dimensão do Parlamento Português que, Portugal não tem Deputados a mais, muito pelo contrário. Quando comparamos a situação portuguesa à de países com uma dimensão populacional equivalente à nossa, verificamos que o ratio indica claramente que a dimensão do Parlamento Português não é exagerada, muito pelo contrário: temos um Parlamento pequeno.
Além disso - conclui o estudo – uma redução significativa da dimensão do Parlamento poderia contribuir para comprimir a proporcionalidade, poderia reduzir a representação territorial e social, bem como contrariaria a ideia de aumentar a qualidade da representação.
Será que o Ministro Jorge Lacão desconhece este estudo e estes factos? Seguramente que não. Será que o Ministro Jorge Lacão, ao fim de tantos anos de experiência política descobriu, na redução do número de Deputados, virtudes de que nunca havia suspeitado antes? Seguramente que não.
O que o Ministro Jorge Lacão encontrou, com a sua adesão a um velho propósito do PSD, foi uma conveniente manobra de diversão, para afastar a agenda política e mediática daquilo que realmente preocupa os portugueses, que são as consequências negativas da política do seu Governo no dia-a-dia dos trabalhadores e das suas famílias.
Não, Senhor Ministro Jorge Lacão, o que preocupa a grande maioria dos portugueses e faz recair o descrédito sobre a política e os políticos, não é a dimensão da Assembleia da República. É a dimensão do fracasso da política do seu Governo.
É a política de desastre nacional que o Governo tem conduzido, de braço dado com um PSD que colabora prestimosamente com o que de mais negativo esta política contém e que, não satisfeito, nos brinda com reivindicações da mais completa irresponsabilidade, como a redução da despesa pública sem saber dizer onde, quando e como, com a extinção de organismos públicos sem saber dizer quais e com que consequências, ou com esse absoluto dislate do discurso político que é a defesa da extinção das empresas públicas de transportes, é essa política de desastre nacional – dizia eu – que é responsável pelo descontentamento que justamente alastra pelo país.
A situação a que o nosso país chegou não se deve ao facto de haver 230 Deputados na Assembleia da República. A situação a que o nosso país chegou é da responsabilidade dos partidos que têm governado o país nos últimos 35 anos, numa alternância sem alternativa, em que o PS e o PSD, com ou sem o CDS, têm repartido entre si cargos e prebendas no Governo, nas empresas públicas e no aparelho de Estado, sacrificando os interesses nacionais e destruindo direitos sociais fundamentais do povo português em nome dos interesses e da ganância dos detentores do poder económico.
A defesa da democracia não passa pela redução do número de Deputados. Passa por uma prática política de todos os detentores de cargos públicos que dignifique o exercício dos mandatos conferidos pelo povo português, que cumpra as promessas feitas e honre os compromissos assumidos.
Disse.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
As "Crises" e as "Concordatas"
No plano dos interesses eclesiásticos, esta «crise» do capitalismo é francamente animadora. Os cortes financeiros esmagam os mais pobres mas representam também um alto poleiro para as grandes fortunas e para os mercados e grupos económicos onde o Vaticano tem muito dinheiro metido. Abrem-se novas oportunidades para o rejuvenescimento das gerações de servidores do grande capital, a maior parte deles formados em colégios e institutos católicos. Alteram-se favoravelmente as estruturas das camadas sociais dominantes, com claros benefícios para a Igreja e para a «sociedade civil». Se não durar tempo demasiado, a «crise» será um mal menor, suscitará novas alianças, criará outras oportunidades e dará uma outra imagem do poder político. Mas a crise tem de ser sabiamente gerida.
Na penumbra dos silêncios oficiais, os tecnocratas do altar rejubilam. Há biliões e biliões em jogo. Milhões de seres vagueiam, disponíveis, sem destino certo e definido. Grandes fortunas, banqueiros, especuladores e accionistas, investidores, políticos, aventureiros, homens sem escrúpulos mas com ambição, marginalizados, migrantes – toda uma multidão imensa e dispersa corre de país em país, de nação em nação, em busca da sua sorte e de um lugar ao sol. São nómadas que podem vir a constituir o embrião de uma «Nova Ordem» capitalista e confessional. A situação mundial parece talhada à medida das ambições da Igreja.
No microcosmos português todo este panorama se projecta nitidamente, ponto por ponto. O poder é corrupto, os políticos mentirosos e a «sociedade civil» uma ficção. A independência nacional é uma balela que serve para embalar os ingénuos.
Veja-se só como os ministros pulam de capelinha em capelinha para juntarem o dinheiro com que correm a salvar os bancos falidos, a subsidiar acordos secretos e a satisfazer clientelas institucionais. Os governos limitam-se a cumprir as ordens recebidas das centrais capitalistas mundiais.
A Igreja católica portuguesa, «guia moral» da nação, assiste e cala-se, soma e segue. Considera-se ao abrigo de todas as suspeitas. Faz tudo quanto for necessário para garantir a unidade táctica da direita política. E põe sistematicamente em prática um plano consistente de projectos e ambições. A sua posição privilegiada está defendida pela couraça legal (?) de uma Concordata com a Santa Sé firmada com o regime fascista em 1940 e «actualizada» em 2004 por um executivo que se auto-denominava «democrata». É um texto sem dúvida importante, uma moldura jurídica das relações Igreja/Estado mas que nem por isso faz esquecer aspectos básicos omitidos, como a questão da fiscalização das contas eclesiásticas ou o quadro emaranhado das relações legais do episcopado com a banca, os off shores, as fundações, as lotarias, os investimentos nas bolsas e nos «mercados» – enfim ! – o mundo mudo e surdo por onde se escoam torrentes do dinheiro que falta depois ao «combate à pobreza», à Segurança Social ou a sectores essenciais da vida do povo português.
A área da acção social constitui para a hierarquia católica uma espécie de laboratório experimental das suas teses. Se a parceria políticos/banqueiros gera a injustiça e a exploração, à Igreja convirá apagar todas as pistas das relações políticas e sociais que com esses parceiros mantém. Depois, no passo seguinte, constrói-se a nova ficção do «combate à pobreza», dos valores da caridade cristã, da resignação e da multidão de esfomeados capazes de a si próprios se organizarem na luta. Surgem os «iluminados», os «leigos voluntários» que aparentemente sobrevivem pela fé e os «condutores de homens» que pastoreiam a «sociedade civil». Em breve o «milagre» acontece. Estruturas antigas e bem enraizadas como as misericórdias ou as instituições não lucrativas «convertem-se» aos novos ideais civis. Os capitais necessários para financiar a acção surgem naturalmente dos bolsos dos banqueiros solidários com o povo encorajados pelos políticos, afinal injustamente acusados até ali de corrupção.
Em Portugal, este eventual prodígio miraculoso não pertence ao reino da fantasia. Vem a caminho. Trata-se de aumentar a pobreza, combatendo-a. De destruir a democracia, defendendo-a. E de unir os explorados, desunindo-os.
É bom que despertemos para estes perigos e os combatamos, desde já ! Não são de agora. Eles foram largamente promovidos no passado, no tempo das Cruzadas, também quando se elaborou o pensamento jesuíta ou quando a «democracia cristã» abriu caminho à escalada para o poder das hordas fascistas.
Jorge Messias ( Jornal Avante)
Na penumbra dos silêncios oficiais, os tecnocratas do altar rejubilam. Há biliões e biliões em jogo. Milhões de seres vagueiam, disponíveis, sem destino certo e definido. Grandes fortunas, banqueiros, especuladores e accionistas, investidores, políticos, aventureiros, homens sem escrúpulos mas com ambição, marginalizados, migrantes – toda uma multidão imensa e dispersa corre de país em país, de nação em nação, em busca da sua sorte e de um lugar ao sol. São nómadas que podem vir a constituir o embrião de uma «Nova Ordem» capitalista e confessional. A situação mundial parece talhada à medida das ambições da Igreja.
No microcosmos português todo este panorama se projecta nitidamente, ponto por ponto. O poder é corrupto, os políticos mentirosos e a «sociedade civil» uma ficção. A independência nacional é uma balela que serve para embalar os ingénuos.
Veja-se só como os ministros pulam de capelinha em capelinha para juntarem o dinheiro com que correm a salvar os bancos falidos, a subsidiar acordos secretos e a satisfazer clientelas institucionais. Os governos limitam-se a cumprir as ordens recebidas das centrais capitalistas mundiais.
A Igreja católica portuguesa, «guia moral» da nação, assiste e cala-se, soma e segue. Considera-se ao abrigo de todas as suspeitas. Faz tudo quanto for necessário para garantir a unidade táctica da direita política. E põe sistematicamente em prática um plano consistente de projectos e ambições. A sua posição privilegiada está defendida pela couraça legal (?) de uma Concordata com a Santa Sé firmada com o regime fascista em 1940 e «actualizada» em 2004 por um executivo que se auto-denominava «democrata». É um texto sem dúvida importante, uma moldura jurídica das relações Igreja/Estado mas que nem por isso faz esquecer aspectos básicos omitidos, como a questão da fiscalização das contas eclesiásticas ou o quadro emaranhado das relações legais do episcopado com a banca, os off shores, as fundações, as lotarias, os investimentos nas bolsas e nos «mercados» – enfim ! – o mundo mudo e surdo por onde se escoam torrentes do dinheiro que falta depois ao «combate à pobreza», à Segurança Social ou a sectores essenciais da vida do povo português.
A área da acção social constitui para a hierarquia católica uma espécie de laboratório experimental das suas teses. Se a parceria políticos/banqueiros gera a injustiça e a exploração, à Igreja convirá apagar todas as pistas das relações políticas e sociais que com esses parceiros mantém. Depois, no passo seguinte, constrói-se a nova ficção do «combate à pobreza», dos valores da caridade cristã, da resignação e da multidão de esfomeados capazes de a si próprios se organizarem na luta. Surgem os «iluminados», os «leigos voluntários» que aparentemente sobrevivem pela fé e os «condutores de homens» que pastoreiam a «sociedade civil». Em breve o «milagre» acontece. Estruturas antigas e bem enraizadas como as misericórdias ou as instituições não lucrativas «convertem-se» aos novos ideais civis. Os capitais necessários para financiar a acção surgem naturalmente dos bolsos dos banqueiros solidários com o povo encorajados pelos políticos, afinal injustamente acusados até ali de corrupção.
Em Portugal, este eventual prodígio miraculoso não pertence ao reino da fantasia. Vem a caminho. Trata-se de aumentar a pobreza, combatendo-a. De destruir a democracia, defendendo-a. E de unir os explorados, desunindo-os.
É bom que despertemos para estes perigos e os combatamos, desde já ! Não são de agora. Eles foram largamente promovidos no passado, no tempo das Cruzadas, também quando se elaborou o pensamento jesuíta ou quando a «democracia cristã» abriu caminho à escalada para o poder das hordas fascistas.
Jorge Messias ( Jornal Avante)
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Um Blogue
A 26 de Janeiro de 2009 publicava o senhor Eduardo Alves no seu blogue " O verdadeiro Tortosendo" ( não conheço um falso Tortosendo), a seguinte informação: A Junta de Freguesia do Tortosendo acaba de criar "mais um",-com toda a certeza,entre os muitos que tem e detêm-, canal de comunicação. É verdade, um blogue. Uma iniciativa que temos de apoiar por inteiro e sublinhar, aproveitando também para lembrar que daqui a uns meses, com toda a certeza teremos a "campanha dos blogues".
Pensei eu, que a partir daquele momento, todos os tortosendenses,em particular os que vivem longe da sua terra, passariam a ter notícias e a serem informados do que nela se fazia.
Acontece que assim não se passa e o blogue, como uma flor que não é regada murchou pouco depois.
Quando se fazem campanhas eleitorais com a palavra de ordem: "Tortosendo em Movimento" o blogue merecia um outra sorte.
Quelha Funda
Pensei eu, que a partir daquele momento, todos os tortosendenses,em particular os que vivem longe da sua terra, passariam a ter notícias e a serem informados do que nela se fazia.
Acontece que assim não se passa e o blogue, como uma flor que não é regada murchou pouco depois.
Quando se fazem campanhas eleitorais com a palavra de ordem: "Tortosendo em Movimento" o blogue merecia um outra sorte.
Quelha Funda
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