" Houve-se dizer todos os dias e a todas as horas,-e é o que faz a força do discurso dominante-, que não há nada a opor à visão neoliberal, que consegue a se apresentar como evidente, como não havendo outra alternativa. Se isto não passa de uma banalidade, há no entanto todo um trabalho de" inculcação" simbólico ao qual participam, passivamente, os jornalistas, os simples cidadãos e, em particular, activamente, um certo numero de intelectuais". Assim falava, em Outubro de 1996, Pierre Bourdieu, na sua intervenção, na Confederação do Trabalhadores Gregos.
Max Weber dizia também: "Que os dominantes têm sempre necessidade de uma teoria que justifique os seus privilégios. A competência é hoje ao coração desta sociedade, que é aceite, evidentemente, pelos dominantes-é o seu interesse-mas também pelos outros. Na miséria dos excluídos do trabalho, na miséria dos desempregados de longa duração, há mais qualquer coisa que no passado. A ideologia anglo-saxone, sempre um pouco na vanguarda, distinguia os pobres entre os imorais e os merecedores-digamos da caridade. A esta justificação ética veio juntar-se ou substituir-se uma justificação intelectual. Os pobres não são somente imorais, alcoólicos, corrompidos, eles são estúpidos e não são inteligentes.
Platão tinha uma visão do mundo social que se assemelha à dos nossos tecnocratas; com os filósofos,os guardas e depois o povo. Esta ideia está profundamente enraizada. Porquê passamos do intelectual engajado ao intelectual "desengajado"? Em parte os porque os intelectuais são detentores de capital cultural e que, mesmo se eles são dominados entre os dominantes, eles fazem parte dos dominantes.
-É bem neste clima que se vive em Portugal onde assistimos, todos os dias, ao servilismo perante o capital e o poder estabelecido, de uma grande parte dos nossos intelectuais e jornalistas.
É ver os debates na televisão-Prós e Contras, Quadratura do Circulo, Eixo do Mal e outros para nos darmos conta da falta de ideias e de honestidade intelectual de que essa gente é portadora.
Hoje talvez não tenhamos a censura política; mas temos a censura do dinheiro que corrompe as consciências.
Quelha Funda
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
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