quinta-feira, 26 de maio de 2011

Católicos e Comunistas... por que não?

«Ao que é católico convicto, ao que está certo das doutrinas, também sociais, da Igreja, não devemos dizer : “ Nós queremos trazer-te para o Socialismo ; portanto, deixa de lado essas doutrinas... Mas devemos perguntar-lhe : quais os valores que desejas ver realizados quando falas numa Sociedade Cristã?.»
Palmiro Togliatti, dirigente comunista italiano, 1964.

«A Igreja, pela sua própria natureza, é uma sociedade desigual. Apenas a hierarquia nela decide e manda. Quanto às multidões, é seu dever sofrerem, deixarem-se conduzir submissamente e obedecerem às ordens daqueles que as dirigem».
Papa Pio X, Vaticano, 1906.

Esta ideia de uma formação unitária ligando as forças da resistência ao capitalismo, vem de longe. Fala-se um pouco no assunto, logo surgem os doutos demolidores e a tese volta a esquecer. Porém, tempos passados sobre o silenciar das primeiras vozes, eis que o tema regressa pela mão de novos observadores católicos, comunistas ou aparentemente surgidos de lado nenhum. Esta recorrência é opção alternativa sempre fundamentada nos factos da vida real. Tanto basta para que a História cedo ou tarde a imponha a um grande debate.
Um outro aspecto determinante de uma futura correcção inevitável de atitudes e posições, é a natureza de classe das lutas que por todo o mundo se travam e assumem aparências distintas mas convergentes. Pouco importa que as disputas sejam em torno do petróleo, dos pontos estratégicos ou do ouro. Elas são invariavelmente um reflexo da forma injusta como se organizam e relacionam as sociedades humanas.
A degradação dos valores, por exemplo, tem as suas raízes nas estruturas que formam a base das sociedades que o homem edificou. Assim, é apenas o homem que através de uma luta – dura, prolongada mas vitoriosa- corrigirá os seus próprios erros, castigará os crimes cometidos e estabelecerá uma nova sociedade unitária onde direitos e deveres sejam comuns a todos os seres humanos. No plano político, o homem constituirá a medida de todas as coisas”. Quanto ao resto, ao preenchimento do seu espaço e do seu tempo, gozará de inteira liberdade.
Esta é a perspectiva e o projecto comunista, com os pés cada vez mais assentes na terra e a ideologia sempre mais firme e sempre mais solta para a unidade com os cidadãos honestos de todo o mundo. O próprio Lénine reconhecia que esta ambição de uma sociedade nova é tão desmedida que os comunistas jamais lhe poderão dar corpo sem o concurso dos homens e mulheres não-comunistas.
Insistir nestas imagens não é acto simplesmente gratuito. O pensamento comunista associa inseparavelmente o projecto e a acção ou o fenómeno e a essência.
A acção assenta na experiência concreta e gera, como reflexos, projectos novos. É esta a origem das posições políticas dos comunistas que se recusam a penetrar nesse mar de lama em que mergulham os capitalistas não só portugueses mas do mundo inteiro.
Católicos de hoje, de amanhã ou de um passado tenebroso ?
Vamos citar, de passagem, um problema sério da Igreja católica mas não insistiremos no assunto. É ao povo católico que cumpre enfrentá-lo e resolvê-lo.
Referimo-nos à imagem multiforme da Igreja católica, não apenas em Portugal mas em todo o mundo. Há uma igreja para os ricos e uma igreja para os pobres. Uma igreja progressista (ou melhor, aberta ao progresso) e uma igreja fundamentalista (que assume as posições de Pio X – ver citação no alto da página). Há a igreja voluntária e não-lucrativa e a igreja multimilionária dos offshores, das operações bolsistas, das imobiliárias, do negócio das fundações, etc. Há as igrejas da denúncia, do silêncio, do ópio do povo, da cruzada, da caridade, do milagre, das ciência e do conhecimento, etc., etc. Ou seja, para todas as ocasiões há uma igreja disponível. Os católicos verão o que lhes será possível fazer para tornar credível o Vaticano aos olhos do povo português.
Por ora, é esta a situação real. Com graves prejuízos para os mais pobres entre os quais se contam milhões de crentes e de cidadãos que ainda vivem nas franjas da fé. Se a realidade de hoje é tão tenebrosa como a de ontem o foi, a hierarquia da Igreja há-de convir que no século XXI é mais difícil ocultar do povo os números, os nomes e as cifras que geram a denúncia, a revolta e a indignação.
Ao falarmos destas coisas não perdemos de vista que o nosso objectivo é promovermos a aproximação e a unidade de acção entre comunistas e católicos, pelo menos em certas áreas do campo operacional. Fica para um próximo espaço no Avante!.


Jorge Messias (Jornal Avante)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Uma história das Mil e uma noites

«A miséria religiosa é, por um lado, a expressão da miséria real e, por outro lado, o protesto contra a miséria real. A religião não é só o suspiro da criatura oprimida ou o coração de um mundo sem coração. Ela é também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo»
K. Marx - «A Sagrada Família».

Enquanto aguardamos que passem os dias que nos separam de 5 de Junho, data em que iremos votar, aproveitemos para recordar uma novela vivida há cem anos, por alturas da Proclamação da República.
Andava-se por volta de 1910, nas vésperas da «Revolução de Outubro». O regime monárquico estava de rastos, após o descalabro de sucessivos governos, as exigências do ultimato inglês, o grande fosso entre pobres e ricos e o descrédito moral dos partidos do poder. O povo era quase totalmente analfabeto. O estado dependia dos empréstimos estrangeiros.
Um par de anos antes, em 1908, dois «suicidas», membros da Carbonária (uma sociedade secreta) tinham morto o rei e o príncipe herdeiro. O governo era chefiado por um político duro, demagogo e incapaz: João Franco. Perante um país em destroços e um regime moribundo, a Igreja benzia-se e os padres limitavam-se a clamar dos púlpitos ao povo devoto: «Orai por El-Rei e pelo Príncipe!». Fingiam nada saber acerca da fome nos campos, dos salários de miséria e das «levas» de soldados, marinheiros, operários e camponeses que ousavam gritar a sua revolta contra as injustiças.

A ruptura de 5 de Outubro de 1910

A Igreja era grande beneficiária das políticas do Estado. Detinha a posse de enormes latifúndios, de tesouros alimentados pelos fluxos financeiros vindos das colónias onde predominava o trabalho escravo. A monarquia garantia-lhe o monopólio de sectores vitais da sociedade como, por exemplo, os do Ensino, da Caridade e Assistência Social e da Cultura. Os favores do trono e o Erário Régio permitiam-lhe explorar os lucros de empresas comerciais e financeiras, de milhares de templos e de instalações assistenciais, de confrarias, de enormes conventos que eram centros da vida regional, etc. A tudo a legislação em vigor servia de cobertura.
Em 1911, com a I República, deu-se finalmente uma ruptura formal: a «Lei da Separação do Estado e das Igrejas». O Estado passava a ser laico e a Igreja juridicamente responsável pelos seus actos.
O Clero acusou o toque mas o aparelho católico reorganizou-se em segredo. A influência da Igreja passou a fazer-se nos corredores do Parlamento, nos centros de cavaqueira, no aconchego dos gabinetes e nos partidos onde era suposto gerar-se a vida democrática. Como cogumelos, surgiram novas instituições confessionais, tais como o Centro Católico, as associações católicas, o CADC, o Apostolado da Oração e muitas mais. Todas elas estiveram, depois, envolvidas na degradação da vida dos partidos, na constituição de governos de «União Sagrada» (que viriam a constituir referência para a «União Nacional»), nos golpes militares que levaram ao poder Sidónio Pais e Oliveira Salazar, etc.
A «Lei de Separação do Estado e das Igrejas» nunca chegou a ser totalmente respeitada pelo poder. Mais tarde, com o fascismo (1926) tudo voltou à forma inicial de sujeição ao Vaticano. Neste aspecto, a leitura da Concordata de 1940 é, na verdade, elucidativa. A Concordata é um «golpe de Estado» dentro de um Estado golpista.
Mas importa concluir.
Em termos comparativos, são evidentes as semelhanças que existem entre o que de mais importante se passou, antes e depois do «5 de Outubro», e o que está agora em curso de desenvolvimento. A confusão, a degradação pública moral, a falsificação dos valores, a mentira descarada, a estatística falsa, a notícia por encomenda, o desemprego e a miséria como técnicas de formação do lucro, a promoção das guerras regionais como apoios à expansão dos mercados, todas essas imagens se foram libertando e agora pairam sobre nós como uma nuvem negra. Não só em Portugal mas em todo o mundo capitalista. Se Portugal mergulhou no abismo, tudo aponta também para o próximo desabar do capitalismo mundial.
A vitória será das massas trabalhadoras se elas agora se souberem unir e lutar pelos seus direitos e pelas suas propostas para um mundo melhor.
É neste enquadramento que os católicos, como importante minoria do povo português, deveriam repensar os seus deveres de cidadania.
Há entre eles muita gente lúcida e honesta...


Jorge Messias (Jornal Avante)