I. — Por que devemos estudar o materialismo?
Vimos que, para este problema: «Quais são as relações entre o ser e o pensamento?», não pode haver mais
que duas respostas, opostas e contraditórias.
Estudámos, no capítulo precedente, a resposta idealista e os argumentos apresentados para defender a
filosofia idealista.
Torna-se necessário examinar, agora, a segunda resposta a leste problema fundamental (problema, repetimolo,
que se encontra na base de toda a filosofia), e ver quais são os argumentos que o materialismo emprega
em sua defesa. Tanto mais que o materialismo é, para nós, uma filosofia muito importante, visto que é a do
marxismo.
É, pois, por consequência, indispensável conhecer bem o materialismo. Indispensável, sobretudo porque as
concepções desta filosofia são muito mal conhecidas e foram falsificadas. Indispensável, também, porque,
pela nossa educação, pela instrução que recebemos - seja primária ou mais desenvolvida -, pelos nossos
hábitos de viver e de raciocinar, estamos todos, mais ou menos, sem darmos conta disso, impregnados de
concepções idealistas. (Veremos, aliás, noutros capítulos, vários exemplos desta afirmação, e porque é assim.)
É, portanto, uma necessidade absoluta para os que querem estudar o marxismo conhecer a sua tese: o materialismo.
II. — De onde vem o materialismo?
Definimos, de uma maneira geral, a filosofia como um esforço para explicar o mundo, o universo. Mas
sabemos que, segundo o estado dos conhecimentos humanos, as suas explicações mudaram, e que duas
atitudes, no decurso da história da humanidade, foram adoptadas para explicar o mundo: uma, anticientífica,
fazendo apelo a um ou a espíritos superiores, a forças sobrenaturais; a outra, científica, fundamentando-se em factos e experiências
Uma destas concepções é defendida pelos filósofos idealistas; a outra, pelos materialistas.
É por isso tjue, desde o início deste livro, dissemos que a primeira ideia que se devia fazer do materialismo é
que esta filosofia representa a «explicação científica do universo».
Se o idealismo nasceu da ignorância dos homens - e veremos como a ignorância foi mantida, sustentada na história das sociedades por forças culturais e políticas que partilhavam as concepções idealistas
o materialismo nasceu da luta das ciências contra a ignorância ou obscurantismo.
É por isso que esta filosofia foi tão combatida, e é também por isso que, sob a forma moderna (o
materialismo dialéctico), é pouco conhecida, senão ignorada ou desconhecida do mundo universitário oficial.
.
III. — Como e porquê evoluiu o materialismo.
Contrariamente ao que pretendem os que combatem esta filosofia e dizem que tal doutrina não evoluiu desde
há vinte séculos, a história do materialismo mostra-nos neste qualquer coisa de vivo e sempre em movimento.
No decorrer dos séculos, os conhecimentos científicos dos homens progrediram. No princípio da história do
pensamento, na antiguidade grega, os conhecimentos científicos eram quase nulos, e os primeiros sábios, ao
mesmo tempo, filósofos, porque, em tal época, a filosofia e as ciências nascentes formavam um todo, sendo
uma o prolongamento das outras.
Em seguida, precisando as ciências ia explicação dos fenómenos do mundo, precisões que incomodavam e
estavam mesmo em contradição com os dogmas das filosofias idealistas, nasceu um conflito entre a filosofia
e as ciências.
Estando estas em contradição com a filosofia oficial dessa época, tornara-se necessário que se separassem.
Por isso,
o melhor que têm a fazer é libertar-se, urgentemente, da balbúrdia filosófica, e deixar aos filósofos as vastas
hipóteses de tomar contacto com problemas restritos, os que estão maduros para uma solução próxima.
Então, faz-se esta distinção entre as ciências... e a filosofia11.
Mas o materialismo, nascido com as ciências, ligado a elas e delas dependendo, progrediu, evoluiu com elas,
para chegar, com o materialismo moderno, o de Marx e Engels, a reunir, de novo, a ciência e a filosofia no
materialismo dialéctico.
Estudaremos, mais adiante, esta história e tal evolução, que estão ligadas ao progresso da civilização, mas
constatamos já, e é o que é muito importante fixar, que o materialismo e as ciências não estão separados, e
que aquele está absolutamente dependente da ciência.
Resta-nos estabelecer e definir as bases do materialismo, comuns a todas as filosofias que, sob aspectos
diferentes, se valem dele.
IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
Para responder, torna-se necessário voltar ao problema fundamental da filosofia, o das relações entre o ser e
o pensamento: qual deles é o principal?
Os materialistas afirmam, em primeiro lugar, que há uma determinada relação entre o ser e o pensamento,
entre a matéria e o espírito. Para eles, é o ser, a matéria que é a realidade primeira, e o espírito a realidade
segunda, posterior, dependente da matéria.
Portanto, para os materialistas, não foi o espírito ou Deus que criaram o mundo e a matéria, mas foi o
mundo, a matéria, a natureza que criaram o espírito:
O espírito não é mais que o produto superior da matéria.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
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