quinta-feira, 29 de julho de 2010

Foi Demócrito, um materialista da antiguidade, que pôs de pé esta teoria; foi ele que, primeiro,
tentou dar uma explicação materialista do mundo. Pensava, por exemplo, que o corpo humano era
composto por átomos grosseiros, que a alma era um aglomerado de átomos mais finos e, como
admitia a existência dos deuses, e quisesse explicar tudo como materialista, afirmava que os
próprios deuses eram compostos por átomos extrafinos.
No século XIX, esta teoria modificou-se profundamente.
Pensava-se sempre que a matéria se dividia em átomos, que estes eram partículas muito duras atraindo-se
umas às outras. Abandonara-se a teoria, dos Gregos, e os átomos já não eram curvos ou lisos, mas continuava
a sustentar-se que eram impenetráveis, indivisíveis e sofriam um movimento de atracção uns contra os
outros.
Hoje, demonstra-se que o átomo não c um grão de matéria impenetrável e insecável (isto é, indivisível), mas
que se compõe de partículas denominadas electrões girando a enorme velocidade à volta de um núcleo, onde
se encontra condensada a quase totalidade da massa do átomo. Se este é neutro, electrões e núcleo têm uma
carga eléctrica, mas a carga positiva do núcleo é igual à soma das cargas negativas transportadas pelos
electrões. A matéria é um aglomerado desses átomos, e se opõe uma resistência à penetração é precisamente
por causa do movimento das partículas que a compõem.
A descoberta destas propriedades eléctricas da matéria e, em particular, a dos electrões provocou, no
princípio do século XX, um assalto dos idealistas contra a própria existência da matéria.
«O electrão não tem nada de material, pretendiam eles. É apenas uma carga eléctrica em movimento. Se não
há matéria na carga negativa, por que a haveria no núcleo positivo? Portanto, a matéria deixou de existir. Só
há energia!»
Lenine, em «Materialismo e empirocriticismo» (cap. V), repôs as coisas no seu devido lugar, mostrando que
energia e matéria são inseparáveis. A energia é material, e o movimento é apenas o modo de existência da
matéria. Em suma, os idealistas interpretavam ao contrário as descobertas da ciência. No momento em que
esta punha em evidência aspectos da matéria ignorados até então, concluíam que a matéria não existe, sob
pretexto de que não é semelhante à ideia que dela se fazia outrora, quando se acreditava que matéria e
movimento eram duas realidades distintas22.
III. — O que é a matéria para os materialistas.
Sobre este assunto, é indispensável fazer uma distinção. Trata-se de ver, em primeiro lugar:
1. O que é a matéria?
depois,
2. Como é a matéria?
A resposta que os materialistas dão à primeira pergunta é que a matéria é uma realidade exterior,
independente do espírito, e que não necessita deste para existir. Lenine diz, a propósito:
A noção de matéria exprime apenas a realidade objectiva que nos é dada na sensação23.
Quanto à segunda pergunta: «Como é a matéria?», os materialistas dizem: «Não é a nós que compete
responder, é à ciência».
22 A II parte deste capítulo foi refeita com a ajuda de Luce Langevin e Jean Orcei. Sobre o progresso realizado depois
do princípio do século no estudo da estrutura da matéria, ver F. JOI-IOT-CURIE: «Textos escolhidos», Edições sociais,
pp. 85-89.
23 LÉNINE: «Materialismo e empirocriticismo», Ed. Avante 1982

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