Texto de Urbano Tavares Rodrigues
Eu, narrador, me confesso:
Confesso escrever não só com a razão, mas com o próprio corpo, com os meus sentidos, com a minha sensualidade, sublimada ou não; e confesso que disso não me arrependo. Não acredito que prejudique--pelo contrário--a causa que é a minha luta.
A minha literatura foi sempre e continua a ser livre, avessa ao arrivismo, esquecida (no acto da produção) de qualquer perspectiva de lucro. Contudo, é (eu sinto) em certa medida narcísica, porventura no amor excessivo da palavra, da metáfora. Aceito, sem discussão, como um «pecado», se o é, a minha inelutável tendência (ou necessidade?) para o texto poético. Todavia, procuro, nessa minha pesquisa (e jogo) verbal, furtar-me ao determinismo social e ao cunho ideológico do discurso burguês que nem todos os meus camaradas conseguirão esquivar. Se nessa batalha com a linguagem não souber vencer, então serei dominado precisamente pelas instâncias políticas e financeiras que pretendo e creio combater.
Lenine distinguia entre a literatura pretensamente livre e a literatura realmente livre, descondicionada. Vamos mais longe e mais fundo. Não existe acto literário fora das classes. A Lenine, importava-lhe «promover uma literatura vasta, rica, variada, em ligação íntima e indissolúvel com o movimento operário». Lato sensu é o que fazer. Simplesmente, com a minha cultura universitária e cosmopolita (sejamos francos), com as minhas vivências de intelectual (que fez, de há muito, a sua opção ideológica, mas conserva o lastro de um certo «humanismo»), vivências que são diferentes--a isso não há que fugir-- das de um operário ou de um camponês, o que eu escreveria seria provavelmente uma merda se forcejasse por substituir-me, nestas ou noutras páginas do livro, ao proletário. Se forçasse a nota da simulação. No entanto, com toda a força do meu projecto, desejo dar voz a esse proletário: integrar a sua voz no meu discurso. Ouço, tomo apontamentos, gravo conversas (sim, é um trabalho duro e humilde, o mais necessário, o mais belo), mas não abdico da minha escrita, do meu estilo. Nem tudo o que componho e redijo será imediatamente perceptível e mobilizador, para as camadas trabalhadoras menos afeita à leitura, mas admito, espero, aposto no amanhã, na elevação da cultura de massas. De resto, sem me violentar, situo-me sempre, natural, espontaneamente numa perspectiva socialista. O que significa que, fora dos terrenos de uma ortodoxia que sempre se me afigurou anacrónica entre nós, continuo presente, e cada vez mais, na voz dos outros e na minha. No contraponto.
Será que, afinal, eu narrador me confesso ou busco justificar-me?
Quelha Funda
sexta-feira, 2 de julho de 2010
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