sexta-feira, 25 de junho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Texto de Urbano Tavares Rodrigues

"A manhã decorria ao ritmo de uma paixão, mais rápida do que os gritos, do que o estalar dos tiros desgarrados, disparados para o ar, que faziam refluir muitos dos populares para debaixo das arcadas de um prédio novo fronteiro ao RAL I
Escarranchados no muro da cerca, soldados de camuflado, com a barba e o cabelo crecidos, confraternizavam com jovens militantes da LUAR.
Dinis de Almeida surgiu no terreiro e subiu a uma peça antiaéria, para serenar e controlar os voluntários de mãos nuas que se comprimiam em redor. Os pára-quedistas tinham-se rendido.
Mais tarde havia de chegar o Dias Lourenço, logo convidado a falar para a TV. A Revolução triunfara.
Tinhamos as calças e os sapatos cheios de lama, o coração como um balão a subir aos ares. O que é meu, o que é teu, tudo isso ficava na noite de ontem. Tratava-se agora de criar a claridade necessária às grandes transformações históricas por que o País havia de passar.
É certo que nem tudo era belo. Os maoístas clamavam pelo sangue dos dos culpados; uns sinceramente convictos de que o sangue chama o sangue e de que só pelo terror se poderia aprofundar a Revolução; outros, os do sector reaccionário e traidor da clique pró-chinesa, visavam apenas, como o futuro havia de demonstrar, quebrar à nascença, maculando-a aos olhos do povo ( o que não conseguiram), essa arrancada que se iniciava na húmida manhã do 11 de Março. Distinguian-se os comunistas pela sua enérgica humanidade. Mesmo os mais esquerdistas, que os havia, e compreensivelmente, no seio do Partido, e que em capacidade de luta e de dádiva pediam meças fosse a quem fosse.
--Amigos--gritava, junto ao portão (vim depois a saber que era enfermeira), uma rapariga alta e loira, desse áspero loiro alentejano cor do trigo maduro, quase masculina de tão ginasticada e decidida, corpo espartano, olhos garços em alvorço--, amigos, vamos daqui ao Carmo: o pvo já mostrou que pode derrubar as armas, que pode tudo, se quiser. Não deixamos, nem deixaremos,
que alguem se volte contra a Revolução. Ao Carmo, camaradas! Ao Carmo!
Havia ainda quem chamasse pelo Copcon. Mas o Copcon já não fazia falta. O Ralis consagrara-se, corpo e mito de vitória, com o unico apoio das massas."

Continua

Quelha Funda

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