segunda-feira, 28 de junho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Texto de Urbano Tavares Rodrigues

Cornélia:

"--O assassino do Neto! Nem na têvê posso vê-lo. Destruiram Angola. Quando penso, meu Deus, em tudo o que tem acontecido neste pobre país! Felizmente que as vítimas do 11 de Março já estão a sair reabilitadas. Ao menos isso. Nem tudo está perdido. Agora, vá lá que as coisas começam a endireitar-se. Muito temos que aprender com esta grande catástrofe. Ainda estamos a aprender. E mais aprenderemos. Bem sei que as senhoras, é diferente, perderam muito do que tinham, quase tudo, casas, joias, automóveis, os vossos criados, não imaginam como sinto. Podiam ter ficado as coisas tão compostinhas sm África, com um pouco, só com um poucachinho de diplomacia... E que fizeram esses loucos do MFA?! Deram-lhes tudo de mão beijada. O que era vosso, o que era nosso. Assassinaram a liberdade. Assassinos! Vaidosos, irresponsáveis... Nem imaginam como eu os detesto! Se pudesse, nem sei o que lhes fazia!..."


Dona Maria de Santo André:

"--Não sei se a África terá sido pior que o Alentejo? Já os viu bem de perto, a esses tais líderes dos sindicatos agricolas? Pareciam lobos esfomiados. Dizem que ocuparam as terrras. Ocuparam o quê? roubaram! Apanharam as searas já ceifadas. Tomaram conta das nossas máquinas. E ficaram-se a rir. Ao meu sobrinho Qito, não lhe deixaram nem a casa nem seqier o automóvel. Nada. E andor se não que lhe davam um tiro, ala! Mas não é deles que eu me queixo, são uns pobres brutos, a quem eu tenho mais asco é ao Copcon. Fui lá reclamar e, que é que tu cuidas?, abriram a boca, coçaram o rabo e mandaram-me voltar.
Se, ao menos, me garantissem uns quinhentos hectares! Sim, que eu ainda sou mulher para saltar para cima de um tractor e pôr-me a lavrar. que até sei! Pró que estava destinada, mais os meus filhos! Para isto andou o meu pai a trabalhar toda a vida. Não fazia férias, não ia ao estrangeiro a não ser quando o rei faz anos, e era para comprar , para comprar o que houvesse de melhor nas grandes feiras de gado e de produtos agrícolas. A distracção dele, de verdade, era só o campo. Corria as herdades, de jipe, a ver os homens nos serviços, a fazer recomendações ao feitor. Lá tinha a sua fraqueza e gostava de caçar. Chegámos a ter lá em casa o Thomaz... Já então nós não estávamos de acordo com muita coisa, está claro; e todos o sabem, não me venham dizer o contrário, eu sempre fui contra o que achava mal, mas era uma questão de regras de cortesia...tínhamos que nos dar com as pessoas da nossa condição. Caso contrário, nos anos maus precisava-se de um empréstimo, e sopa!"

Continua

Quelha Funda

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