quarta-feira, 23 de junho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Vasculhando nos velhos papeis e alguns livros, esquecidos num cartão, encontrei um livro de Urbano Tavares Rodrigues, editado em 1977, e que tem como título. «As Pombas São Vermelhas». Sabendo que Urbano não me levará a mal resolvi publicar, no meu blog, alguns dos textos. Começo hoje e procurarei publicar um por dia.
"Praia loira de trigo ainda arecolher. Os gestos novos, a vida nova nas cooperativas. É onde passo as férias, olhando o ceu de esmalte, desejando a chuva, temendo-a depois. Não há abrigo para os cereais, não há meta (ou não se avista na governação) para este espaço imenso, este deserto humanizado dos rurais alentejanos.
Alteia-se, apesar da quietude do ar, a albufeira da «Pedro Soares», onde ninguém toma banho. As moças ainda trajam de negro. Por dentro e por fora. Suados os corpos do trabalho, liquidados (?) os medos antigos, fresca, tão fresca a água guardada nas bilhas, e no frigorífico do monte, as excursões chegam, partem, deslizam pelas vidraças, pelos olhares sem espanto dos que estão, não chegam a tocar a pele das sobreiras nem a ternura da tarde asfixiante. São alemães, italianos, espanhois, com palavras políticas na boca. Falamos. Os camponeses apenas os observam.
Pergunto-me se sou «político». Não. «Político» profissional não sou nnem serei nunca. Escritor, sim. E, contudo, a Revolução é para mim mais importante do que a literatura.
Simultaniamente doloroso e exaltante é que nesta cooperativa--e noutras-- fala-se ainda a linguagem de Abril de 75. Há quem me diga que em Portugal só existem duas possibilidades: socialismo ou fascismo ( as técnicas sofisticadas da recuperação capitalista ficam para lá de Vendas Novas, para lá da «Sol Nascente», a anos de distância dos barrancos secos, das casas velhas, do caminho aos solavancos até aqui).
O discurso actual só chegou à vila. Aqui mói-se a esperança no moinho do trabalho (quase) feliz.
Quatro mil e quinhentos hectares de socialismo. Ainda.
Ajuda aí pá!
E eis-me a meter o ombro aos quarenta quilos de um saco de cevada-aveia. Um riso esguelhado, mas amigo, é o fruto do mau jeito que ganhei no pescoço. E que me aquece. Enfim, saio da ilha das palavras. Nem venerado nem excluido. Aqui o discurso de oh pá, tu pá, diz pá, eh pá vamos embora, a Revolução não espera--continua a ressoar. E as cigarras , os gafanhotos, as libélulas, tudo, todos me adoptaram, seres, coisas, olhos invisiveis que povoam os arredores do calor alentejano, o velho cão amarelento que me fareja, já familiar, os bonecos de louça dentro de casa, de pelico no pino do Verão, assim são os pastores...

Continua

Quelha Funda


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