quinta-feira, 24 de junho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Texto de Urbano Tavares Rodrigues

Os coros. As árvores secas. Sacudo a gaiola onde um canário morreu. O extintor de incêndios jaz, partido e abandonado, no meio da rua.
Um homem espirra na atmosfera quente. Os rostos de indiferença. Assim vais, meu país reencontrado e perdido, meu país interior, meu país Portugal que nos rodeias, onde sou, onde somos, mesmo os que te conduzem à beira do precipício ou da glória, cabeças de alfinete sem valor, porque só a vontade do povo é a verdade--e ainda há povo que não sabe que tem vontade.
Que me lembram estes coros?
Eram, são, duas raparigas coradas e tranquilas (empregadas de escritório, disseram-mo depois), sob a sombra da asa dos caças a picarem, discutindo com os pára-quedistas no alto de um talude, na manhã da morte do soldado Luís. Inquietando-os, tentando explicar-lhes a sem-razão do seu acto inconscientemente contra-revolucionário, logo contra eles próprios.
--Vem, camarada--chamaram-me
A passagem para o RAL I estava aberta. Tinhamos sido dos primeiros a chegar. Depois, muitos, muitos mais vieram e desarmaram os olhos que apontavam, inutilizaram os canos das espingardas. A aliança MFA-Povo ainda era então sagrada.

Continua

Quelha Funda

Sem comentários:

Enviar um comentário