terça-feira, 29 de junho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Texto de Urbano Tavares Rodrigues

Maria Virgina

"--Pois que dúvida!, também eu penso que os orgãos do poder popular são o caminho para a Revolução. Mas não julguem vocês que inventaram uma fórmula. Tudo isso vem da Comuna e dos sovietes de Outubro. Mesmo de mais longe: da Revolução Francesa.
Agora todos dizem que é a hora do regresso à normalidade, que acabou o que eles chamam as desordens. É o tempo das cartas anónimas, das nove ou vinte nove mentiras que se equilibram em cima de uma semiverdade, quando não de uma mentira mais verosímil. Lá para o Norte vêem-se os padres de gorra com marginais, açulando-os contra os operários mais renitentes à rendição. Fui lá num fim de semana. É de susto, e eu, vá que não vá, ainda passava despercebida, ninguém me conhece a cara. As nossas canções revolucionárias quase só se ouvem na rádio pela calada da noite. Não faltam agora açambarcadores. Oportunistas a ganharem dinheiro e mais dinheiro. E, entre duas explosões, nas vilas onde os Centros de Trabalho tiveram de fechar por precaução, temos outra vez, como durante o fascismo, as nossas casas iluminadas à cautela, para as reuniões, que pouca diferença fazem das antigas. Ainda se fala de justiça e em socialismo, mas as palavras têm já outro valor. É triste. É um bluff de interesses de classe.
De toda a maneira, não podemos ignorar tudo o que aconteceu. Não pdemos, mesmo nós, empregar a mesma linguagem de Março de 75. Seria fazer o jogo do adversário, facilitar-lhe a tarefa. Quanto às comissões de moradores e de trabalhadores, será a vossa memória tão curta que não se lembrem do esforço clandestino do Partido e da organização da CDE em 73, da divisão de Lisboa em bases, por freguesias, e em grupos socioprofissionais? Fazíamos o que podíamos. Agora , amigos, os tempos são outros. Mas não desmoralizamos. pelo contário. Não podemos é dexar-nos ultrapassar. Mais do que nunca temos de ir aos bairros de barracas, onde moram tantos trabalhadores, infelizmente, e onde os demagogos de esquerda, que também os há, prometem sem poder cumprir. Mas, reparem --e agora em termos de realidade concreta--se há alguém que tudo tem a ganhar (logo, logo!) com o triunfo da nossa linha, é precisamente essa gente. A burguesia demora mais a convencer, porque é matreira, pensa cada um em si, estão-se nas tintas para o País e só admitem a ausreridade que afecte os outros...
O meu moral!? Nem sei... Há muito que não penso (ou faço por não pensar) em mim, como célula isolada. Mato-me a trabalhar no laboratório. Produzo? Creio que sim. E vivo a vida de todos, no desespero, no ressurgir da confiança, na organização da luta na resistência, na convivência com os «outros», dia a dia..."

Continua

Quelha Funda

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