sábado, 26 de junho de 2010

As Pombas São Vermelhas

Texto de Urbano Tavares Rodrigues

"Nunca mais estarei só, pensei naquela noite a caminho de São Bento. Ou de Belém? As imagens sobrepôem-se. Protestávamos. Não, ainda não era o tempo dos protestos. Festejávamos vitórias. Marchávamos sobre as reuínas da classe que haviamos combatido, do mundo dos «senhores», do seu nepotismo, da sua corrupção. Desmontamos a maquina do fascismo. Nem é preciso forçar muito para fazer rodar os parafusos e mexer, transformar os órgãos do país que é o nosso.
A Lisboa deste segundo (tão quieta de repente, quando a manifestação se dispersa) tornou-se logo lunar. Repousamos de olhos nos olhos. É tarde. Os cafés estão fechados e só agora nos damos conta de que nem comemos. Há que sujeitar em cada um de nós o homem antigo, surdamente em conflito com a imagem limpa e generosa que queremos moldar para amanhã.
Assim é. Nem sei quem foram há pouco os tribunos. Não importa. As escadarias, as bancadas de uma arena, o povo... A dramatis persona da festa ardente, ou representação, que o torvelinho deste tempo tão rápido já sorveu.
Porque não juntarmos, amiga, as faces, as mãos, os corpos neste cruzamento casual dos nossos destinos? Temos ambos o suor na fronte, os dedos trémulos de fadiga. No teu ventre uma couraça, a do quotidiano de ontem, de há pouco. Mas retira-la (e eu me espanto, eu que nada pedi mas te desejo em silêncio de exaltação extrema), retira-la e abres-te à seta que o cansaço em mim acicata,esmago o silvedo teu onde me firo docemente, sondo-te o verde tão turvo dos olhos pueris, cinza estupefacção, exaspero. Mas nada disto aconteceu. Excepto em imaginação. O tempo era tão veloz, nem consentia paragens, o tempo da Revolução... Vigilân cias, reuniões, plenários. Amávamo-nos, apenas de pé e à distância, a cair de fadiga, de olhos nos olhos, colectivamente.
Vivo?, sonho? Abraçam-me, vou no ar. Do alto do varandim da FIL camaradas gritam e aplaudem. O incêndio dos nossos rostos empalidece os candeeiros. É verdade que acabou mal essa manifestação da FUR, mas também é certo que teve para nós sem galões qualquer coisa de juramento de sangue, tão cedo quebrado. Claro, era lógico. O absurdo seria acreditar. Mas se as palavras eram como aves, pombos-correios deste barco Portugal à procura de si mesmo?!
Março, Maio, o Verão decisivo. As comissões de trabalhadores controlam as empresas onde o Estado interveio. Apareceram, como as agulhas que têm de orientar esta cruzada ao contrário
(porque é a do povo bastardo contra as velhas instituições), os jovens determinados, de barba ao acaso, inimigos da gravata, que falam com muitos «pás» (que saudade desse mau português tão puro!) e tomam a dianteira nas avançadas, gritam mais mais claro nos plenários.
Pedro, Joaquim, Augusto, Belchior, Guerreiro, uma gota de sol em cada um de vós.

Continua

Quelha Funda

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