Texto de Urbano Tavares Rodrigues
"Nunca mais estarei só, pensei naquela noite a caminho de São Bento. Ou de Belém? As imagens sobrepôem-se. Protestávamos. Não, ainda não era o tempo dos protestos. Festejávamos vitórias. Marchávamos sobre as reuínas da classe que haviamos combatido, do mundo dos «senhores», do seu nepotismo, da sua corrupção. Desmontamos a maquina do fascismo. Nem é preciso forçar muito para fazer rodar os parafusos e mexer, transformar os órgãos do país que é o nosso.
A Lisboa deste segundo (tão quieta de repente, quando a manifestação se dispersa) tornou-se logo lunar. Repousamos de olhos nos olhos. É tarde. Os cafés estão fechados e só agora nos damos conta de que nem comemos. Há que sujeitar em cada um de nós o homem antigo, surdamente em conflito com a imagem limpa e generosa que queremos moldar para amanhã.
Assim é. Nem sei quem foram há pouco os tribunos. Não importa. As escadarias, as bancadas de uma arena, o povo... A dramatis persona da festa ardente, ou representação, que o torvelinho deste tempo tão rápido já sorveu.
Porque não juntarmos, amiga, as faces, as mãos, os corpos neste cruzamento casual dos nossos destinos? Temos ambos o suor na fronte, os dedos trémulos de fadiga. No teu ventre uma couraça, a do quotidiano de ontem, de há pouco. Mas retira-la (e eu me espanto, eu que nada pedi mas te desejo em silêncio de exaltação extrema), retira-la e abres-te à seta que o cansaço em mim acicata,esmago o silvedo teu onde me firo docemente, sondo-te o verde tão turvo dos olhos pueris, cinza estupefacção, exaspero. Mas nada disto aconteceu. Excepto em imaginação. O tempo era tão veloz, nem consentia paragens, o tempo da Revolução... Vigilân cias, reuniões, plenários. Amávamo-nos, apenas de pé e à distância, a cair de fadiga, de olhos nos olhos, colectivamente.
Vivo?, sonho? Abraçam-me, vou no ar. Do alto do varandim da FIL camaradas gritam e aplaudem. O incêndio dos nossos rostos empalidece os candeeiros. É verdade que acabou mal essa manifestação da FUR, mas também é certo que teve para nós sem galões qualquer coisa de juramento de sangue, tão cedo quebrado. Claro, era lógico. O absurdo seria acreditar. Mas se as palavras eram como aves, pombos-correios deste barco Portugal à procura de si mesmo?!
Março, Maio, o Verão decisivo. As comissões de trabalhadores controlam as empresas onde o Estado interveio. Apareceram, como as agulhas que têm de orientar esta cruzada ao contrário
(porque é a do povo bastardo contra as velhas instituições), os jovens determinados, de barba ao acaso, inimigos da gravata, que falam com muitos «pás» (que saudade desse mau português tão puro!) e tomam a dianteira nas avançadas, gritam mais mais claro nos plenários.
Pedro, Joaquim, Augusto, Belchior, Guerreiro, uma gota de sol em cada um de vós.
Continua
Quelha Funda
sábado, 26 de junho de 2010
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