Texto de Urbano Tavares Rodrigues
"De braço ao pescoço vou na memória do futuro. Rebentam petardos em casa de militantes sindicais, em fábricas dirigidas por comissões de trabalhadores. São fortes, não há dúvida, os desejos (os interesses) dos lobos: e o crime fica impune. Ficará? Dentes aguçados como rochas de mar bravo nesta carantonha hiante da reacção, que rosna em Lisboa pela calada da noite; que morde em Viseu a toda a hora.
Mas as vagas do sol dizem-nos que a vitória há-de chegar. Entretanto, cobrir-nos-ão espumas negras, jogos sujos; e as campainhas do medo hão-de ressoar por muitos lados; os répteis da injuria e da mentira hão-de rastejar pelas ruas da cidade.
Operário amigo, metalurgico, lavador de automóveis, companheiro do meu bairro azul, da minha freguesia, do meu prédio de quartos alugados, ainda bem que me confortas de manhã, com o sorriso da confiança (mesmo que os géneros subam, mesmo que a tua confiança, já vacinada, se indigne com a TV e enrugue a testa). Furtas-me a mão cheia de óleo, submersa a oficina neste Verão de mel e de pobreza, dás-me a apertar o teu braço de ganga autentica.
--Então isto está a voltar ao mesmo?!
Mas não acreditas, lá no fundo não acreditas. Nem preciso de te falar na Constituição. Não a comes, é certo, mas sabes que existe. E, mais do que isso, viveste um Abril que não pode esquecer..."
"Apenas um ano depois, a «Alternativa 76», que há-de falhar, cobre à noite as paredes, por bom preço. Eis a reacção já aos urros numa imprensa de calúnia e difamação (chamada «livre», que insulto à tão boa palavra «livre»!), pedindo as cabeças de Alvaro Cunhal, de Melo Antunes de Vitor Crespo, de Otelo... e verrumando até o nome de Mário Soares.
Vem, camarada, vem escever comigo esta história. Lisboa coze a sua bebedeira de Verão burguês. Tanta coisa mudou. Tão depressa. Mas vento algum fecha as portas da imaginação, nem o líquido deste real sintético--a beber também.
Entremos em duas casas diversas de dois quarteirões da Avenida António aaAugusto de Aguiar. Entremos".
Quelha Funda
domingo, 27 de junho de 2010
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