III. — O que é a matéria para os materialistas.
Sobre este assunto, é indispensável fazer uma distinção. Trata-se de ver, em primeiro lugar:
1. O que é a matéria?
depois,
2. Como é a matéria?
A resposta que os materialistas dão à primeira pergunta é que a matéria é uma realidade exterior,
independente do espírito, e que não necessita deste para existir. Lenine diz, a propósito:
A noção de matéria exprime apenas a realidade objectiva que nos é dada na sensação23.
Quanto à segunda pergunta: «Como é a matéria?», os materialistas dizem: «Não é a nós que compete
responder, é à ciência»
A primeira resposta não mudou da antiguidade aos nossos dias.
A segunda mudou e deve mudar, porque depende das ciências, do estado dos conhecimentos humanos. Não é
uma resposta definitiva.
Vemos que é absolutamente indispensável pôr bem o problema e não deixar os idealistas misturar as duas
perguntas. É preciso separá-las bem, mostrar que a primeira é a principal e que a nossa resposta ao assunto é,
desde sempre, invariável.
Porque, a única «propriedade» da matéria cuja admissão definiu o materialismo filosófico é ser uma
realidade objectiva, existir fora da nossa consciência24.
IV. — O espaço, o tempo, o movimento e a matéria.
Se afirmamos, porque o constatamos, que a matéria existe fora de nós, precisamos, também:
1. Que a matéria existe no tempo e no espaço.
2. Que a matéria está em movimento.
Os idealistas, esses pensam que o espaço e o tempo são ideias do nosso espírito {é Kant quem, primeiro, tal
defendeu). Para eles, o espaço é uma forma que damos às coisas, nasceu do espírito do homem. O mesmo
acontece em relação ao tempo.
Os materialistas afirmam, pelo contrário, que o espaço não está em nós, nós é que estamos nele. Afirmam,
também, que o tempo é uma condição indispensável ao desenvolvimento da nossa vida; e que, por
consequência, o tempo e o espaço são inseparáveis do que existe fora de nós, isto é, da matéria.
...As formas fundamentais de todo o ser são o espaço e o tempo, e um ser fora do tempo é um absurdo tão
grande como um ser fora do espaço25.
Pensamos, portanto, que há uma realidade independente da consciência. Acreditamos que o mundo existiu
antes de nós e que, depois de nós, continuará a existir. Acreditamos que o mundo, para existir, não precisa de
nós. Estamos persuadidos que Paris existiu antes de nascermos e, a menos que seja definitivamente arrazada,
existirá depois da nossa morte. Estamos certos que Paris existe, mesmo quando não pensamos nisso, do
mesmo modo que há dezenas de milhares de cidades que nunca visitámos, de que nem sequer sabemos o
nome, e que, todavia, existem. Tal é a convicção geral da humanidade. As ciências permitiram dar a este
argumento uma precisão e uma firmeza que aniquilam as astúcias idealistas.
As ciências da natureza afirmam positivamente que a terra existiu em estados tais, que nem o homem, nem
nenhum ser vivo a habitava, nem podia habitar. A matéria orgânica é um fenómeno tardio, o produto de uma
evolução muito longa26.
Se as ciências nos fornecem, portanto, a prova de que a matéria existe no tempo e no espaço, ensinam-nos,
ao mesmo tempo, que está em movimento. Esta última precisão, que as ciências modernas nos forneceram, é
muito importante, porque destruiu a velha teoria segundo a qual a matéria seria incapaz de movimento,
inerte.
O movimento é o modo de existência da matéria... A matéria sem movimento é tão inconcebível como o
movimento sem matéria27
Sabemos que o mundo, no seu estado actual, é o resultado, em todos os domínios, de uma longa evolução e,
por consequência, de um movimento lento, mas contínuo. Precisamos, portanto, depois de ter demonstrado a'
existência da matéria, que
o universo é apenas matéria em movimento, e esta matéria em movimento só se pode mover no espaço e notempo.
V. — Conclusão.
Resulta destas constatações que, a ideia de Deus, a ideia de um «puro espírito» criador do universo não tem
sentido, porque um Deus fora do espaço e do tempo é qualquer coisa que não pode existir.
É preciso participar da mística idealista, por consequência, não admitir nenhum controlo científico, para
acreditar num Deus existindo fora do tempo, isto é, não existindo em nenhum momento, e existindo fora do
espaço, ou seja, não existindo em parte alguma.
Os materialistas, seguros das conclusões das ciências, afirmam que a matéria existe no espaço e num dado
momento (no tempo). Por consequência, o universo não pôde ser criado, porque teria sido preciso a Deus,
para poder criar o mundo, um momento que não existiu em nenhum momento (uma vez que o tempo para
Deus não existe), e seria preciso, também, que de nada saísse o mundo.
Para admitir a criação, é preciso, pois, admitir, em primeiro lugar,, que houve um momento em que o
universo não existia, depois, que de nada saiu qualquer coisa, o que a ciência não pode admitir.
Vemos que os argumentos dos idealistas, confrontados com as ciências, não podem manter-se, enquanto que
os dos filósofos materialistas não podem ser separados das próprias ciências. Sublinhamos assim, uma vez
mais, as relações íntimas que ligam o materialismo e as ciências.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
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