sábado, 13 de fevereiro de 2010

O materialista é o que sabe reconhecer, em todas as situações, que sabe concretizar onde está o ser e onde
está o pensamento.
Exemplo: o cérebro e as nossas ideias.
É-nos preciso saber transformar a fórmula geral abstracta numa fórmula concreta. O materialista identificará,
portanto, o cérebro como sendo o ser e as nossas ideias como sendo o pensamento. Raciocinará, dizendo: é o
cérebro (o ser) que produz as nossas ideias (o pensamento). É este um exemplo simples, mas tomemos outro
mais complexo, o da sociedade humana, e vejamos como raciocinará um materialista.
A vida da sociedade compõe-se (por junto) de uma vida económica e de uma outra política. Quais as relações
entre elas?... Qual é o factor primeiro desta fórmula abstracta de que queremos fazer uma concreta?
Para o materialista, o factor primeiro, isto é, o ser, aquele que dá a vida à sociedade, é a vida económica.
O factor segundo, o pensamento que é criado pelo ser, que sem ele não pode viver, é a vida política.
O materialista dirá, pois, que a vida económica explica a vida política, uma vez que esta é um produto
daquela.
Tal constatação, feita aqui sumariamente, é a raiz do que se chama o materialismo histórico, e foi feita, pela
primeira vez, por Marx e Engels.
Eis um outro exemplo mais delicado: o poeta. É certo que numerosos elementos entram em linha de conta
para «explicar» o poeta, mas queremos aqui mostrar um aspecto desta questão.
Dir-se-á, geralmente, que o poeta escreve porque a tal é obrigado pela inspiração. É isso suficiente para
explicar que o poeta escreve isto de preferência àquilo? Não. O poeta tem certos pensamentos na cabeça, mas
é também um ser que vive na sociedade. Veremos que o factor primeiro, o que dá vida própria ao poeta, é a
sociedade, visto que o factor segundo são as ideias que o poeta tem no cérebro. Por consequência, um dos
elementos, o elemento fundamental que «explica» o poeta será a sociedade, isto é, o meio em que vive na
sociedade. (Voltaremos a encontrar o «poeta» quando estudarmos a dialéctica, porque teremos então todos os
elementos para estudar bem este problema.)
Vemos, por estes exemplos, que o materialista é aquele que sabe aplicar em toda a parte e sempre, a cada
momento e em todos os casos, a fórmula do materialismo.

III. — Como se é materialista na prática?

1. Primeiro aspecto da questão .
Vimos que não há terceira filosofia e que, se não se é consequente na aplicação do materialismo, ou se é
idealista, ou se obtém uma mistura de idealismo e materialismo.
O sábio burguês, nos seus estudos e experiências, é sempre materialista. Isso é normal, porque, para fazer
avançar a ciência, é preciso trabalhar na matéria, e se o sábio pensasse verdadeiramente que ela apenas existe
no seu espírito, acharia inútil fazer experiências.
Há, portanto, várias espécies de sábios.
1. Aqueles que são materialistas conscientes e consequentes
2. Os que são materialistas sem o saber: isto é, quase todos, porque é impossível fazer ciência sem admitir a
existência da matéria. Mas, entre estes últimos, é preciso distinguir:
a) Os que começam por seguir o materialismo, mas param, porque não ousam assim dizer-se: sãos
os agnósticos, aqueles a que Engels chama os «materialistas envergonhados».
b) Depois, os sábios materialistas sem o saber e inconsequentes. São materialistas no laboratório,
mas, fora do seu trabalho, são idealistas, crentes, religiosos.

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