quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Bento de Jesus Caraça

Em Maio de 1933, numa conferência titulada "A cultura Integral do Indivíduo - Problema do Nosso Tempo"Bento de Jesus Caraça dizia coisas que podemos, sem quaquer problema, transporta-las para os dias de hoje pela sua actualidade!


Dizia ele:


Encargo pesado, pois não é fácil tarefa o alguém abalançar-se hoje a emitir juízo, por
mais despretensioso que ele deseje ser, sobre o tempo que vivemos. Mas não há também
tarefa mais importante nem mais urgente. O que o mundo for amanhã, é o esforço de todos
nós que o determinará. Há que resolver os problemas que estão postos à nossa geração e essa
resolução não a poderemos fazer sem que, por um prévio esforço do pensamento,
procuremos saber, por uma análise fria e raciocinada, quais são esses problemas, quais as
soluções que importa dar-lhes – saber donde vimos, onde estamos, para onde vamos.
E pensemos, agora que ainda o podemos fazer. Amanhã pode ser tarde, porque a
tempestade que tem vindo a acumular-se sobre as nossas cabeças pode desencadear-se e
arrastar-nos nos seus turbilhões brutais. A violência da borrasca não nos permitirá que
façamos mais do que gestos elementares e instintivos que só não nos trairão se forem, a todo
o momento, orientados e dominados por uma personalidade de uma só peça, aquela
personalidade que agora temos de forjar – enquanto é tempo.
O dizer-se que a época actual é caracterizada essencialmente por uma perturbação e
inquietação vivas, é já quase um lugar comum, de tal maneira isso se impõe, mesmo após o
mais superficial exame. Não é, contudo, demasiado repeti-lo, pois há muitos sujeitos de
ouvido duro que ainda o não compreenderam ou não quiseram compreender e que, numa
cegueira teimosa, continuam a querer aplicar, para medida de valores numa sociedade
abalada nos seus fundamentos, aqueles padrões cujo uso já de há muito não é legítimo.
Desenganem-se essas pessoas. O que estamos actualmente vivendo e sofrendo não é
apenas uma borbulhagem fugaz, destinada a passar como tantas coisas passam, sem deixar
sinal; é, muito pelo contrário, uma época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo
que desaparece e o que vai surgir. E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes,
coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na
realidade, um formidável laboratório de vida.


Quelha Funda

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