Eram 16 horas e trinta quando o 44 chegou ao Cais do Sodré. Ribeiro foi o ultimo a sair não só porque tinha algum tempo à sua frente mas porque a mala que levava era encobrante e não valia apenas incomodar quem quer que fosse.
Estávamos em pleno Maio e o calor já se fazia sentir. Ribeiro procurou uma sombra para melhor se orientar e ver o melhor caminho para chegar à rua de São Paulo que ficava a algumas centenas de metros. Olhou à sua volta para se assegurar que não era vigiado pois todos os cuidados eram poucos. Tendo a certeza que ninguém se ocupava dele tomou a direcção do Mercado fazendo atenção ao transito que àquela hora começava a ser intenso. Muitos trabalhadores começavam a sair dos seus empregos enchendo os barcos que iam e vinham da outra banda, os eléctricos e autocarros circulavam repletos deixando uns e tomando outros, os comboios chegavam e partiam completamente cheios; era o mundo do trabalho que tomava conta da cidade, era o mundo do Ribeiro que muito o fascinava e no qual se sentia integrado. Cruzava uns,ultrapassava outros ou era ultrapassado por quem tinha pressa de chegar ao seu destino. Não eram desconhecidos para o Ribeiro embora deles nem sequer soubesse o nome; via o homem da lancheira, aparentando os 60 anos, andar lentamente, talvez, devido ao esforço do dia de trabalho, via aquela mulher que quase corria para chegar o mais cedo possível a casa onde, de certeza,outra tarefa a esperava para se ocupar dos filhos e do marido; mais alem aquele par de namorados que no meio de alguns beijos e sorrisos iam fazendo planos confiantes num futuro feliz. Era este cenário, este quadro vivo e animado que numa tarde de Maio de 1969 o Ribeiro contemplava numa rua de Lisboa mas que poderia ser noutra qualquer cidade ou vila do país. Este país que era o seu, o seu Portugal amordaçado e que o leva a estar ali a procurar cumprir uma tarefa, consciente do perigo que o rodeia, mas orgulhoso da confiança que nele depositaram.
Ribeiro ia chegando ao local combinado sem deixar de observar o que se passava à sua volta pois não podia esquecer que a sua tarefa tinha alguns riscos e que era preciso toda a atenção. Chegou ao local do encontro na hora marcada;sabia que não chegando o camarada nos dois ou três minutos que seguissem, teria de abandonar o local e ir dar uma volta sem perder o sitio de vista. Foi isso que aconteceu e mesmo depois do tempo de tolerância o camarada não apareceu o que deixou o Ribeiro preocupado. Não podia ficar mais tempo e havia que sair daquela zona o mais rápido possível, tendo a certeza que não era seguido. Em vez de tomar o 44, que o levaria directamente a casa, tomou outros caminhos mudando várias vezes de autocarro e só depois de ter a certeza que não o seguiam entrou em casa.
-Trazes de novo a mala?- Perguntou-lhe a esposa que o esperava para jantar.
-Como vês, trago-a e estou preocupado, parece confirmar-se o boato que para aí anda, respondeu o Ribeiro que previa o pior. Depois de alguns dias que se falava de umas prisões para o lado do Areeiro, só não se sabia quem tinha perdido mas a não comparência do camarada ao encontro deixava antever o pior.
Não foi preciso muito tempo para que o boato se tornasse realidade. Alguns dias depois lá vinha, nas páginas interiores dos jornais, um comunicado da D.G.S. (PIDE), com as respectivas fotografias, a noticiar a prisão de um grupo de "perturbadores da ordem pública".
Tais acontecimentos trouxeram alguma perturbação e tristeza à casa do Ribeiro. Alguns camaradas presos tinham passado lá por casa e um deles começava a fazer parte da família. Era lá que vinha pernoitar muitas noites e quantas vezes a esposa deixou de comer a isca do fígado ou o carapau frito para que o camarada pudesse retemperar forças.
Alguns meses se passaram sem que algo de importante acontecesse. Mas a vida, cada vez mais difícil, levou o Ribeiro a seguir o rumo de milhares de de portugueses e num fim de semana do mês de Setembro partiu para França. Pouco tempo depois tinha já junto de si a esposa e os filhos; uma vida nova começava com muitas esperanças e algumas desilusões.
Foram passando os dias e ao Ribeiro faltava-lhe algo que tinha deixado em Portugal: o seu Partido. Não lhe foi difícil encontra-lo e alguns meses depois já tinha uma ligação com alguns camaradas. A sua actividade junto da emigração não permitia ir de férias ao país e de Setembro de 69 a Junho de 74 Ribeiro não mais viu o seu Portugal.
Mas Abril aconteceu e o Ribeiro, como milhares de portugueses, pode ir ao seu país para abraçar os seus e todos os amigos.
Ironia da vida, tendo sido o transporte de uma mala a sua ultima tarefa antes de emigrar, foi , também, o transporte de uma outra mala a sua primeira viagem e a sua primeira tarefa no "Portugal Livre e Democrático".
Relembro o meu passado
Que o vivi ao presente
Por onde tenho andado
Há sempre um afluente
Afluente de um grande rio
Que deixa sempre saudade
Que vai indicando aos homens
O caminho da LIBERDADE
Viva o 90 Aniversário do Partido Comunista Português (6-03-2011
Quelha Funda
domingo, 6 de março de 2011
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