sexta-feira, 5 de março de 2010

As dificuldades que encontramos provêm de que, até há vinte e cinco anos, pregámos caixotes, e,
subitamente, nos colocam em frente dos aparelhos de T.S.F. para fazer a montagem. É certo que teremos
grandes dificuldades, que as nossas mãos serão pesadas, osdedos inábeis. Só pouco a pouco conseguiremos
suavizar-nos e realizar esse trabalho. O que era muito difícil no princípio, parecer-nos-á, depois, mais
simples. Para a dialéctica, é a mesma coisa. Estamos embaraçados, perros pelo antigo método de pensamento
metafísico, e devemos adquirir a maleabilidade, a precisão do método dialéctico. Mas, vemos que, ainda aí,
nada há de misterioso nem de muito complicado.

II. — De onde nasceu o método dialéctico?

Sabemos que a metafísica considera o mundo como um conjunto de coisas congeladas, e, ao contrário, se
olharmos a natureza, vemos que tudo se move, tudo muda. Constatamos a mesma coisa com o pensamento.
Resulta desta constatação, portanto, um desacordo entre a metafísica e a realidade. É por isso que, para
definir de uma maneira simples e dar uma ideia essencial, se pode dizer: quem diz «metafísica» diz
«imobilidade», e quem diz «dialéctica» diz «movimento».
O movimento e a mudança, que existem em tudo o que nos rodeia, estão na base da dialéctica.
Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa, própria
actividade mental, o que se nos oferece, em primeiro lugar, é o quadro de uma confusão infinita de relações,
de acções e reacções, onde nada permanece o que era, onde era, como era, onde tudo se move, se
transforma, vem a ser e passa47.
Vemos, depois deste texto tão claro de Engels, que, do ponto de vista dialéctico, tudo muda, nada fica onde
está, nada permanece o que é, e, por consequência, tal ponto de vista está em perfeito acordo com a
realidade. Nenhuma coisa permanece no lugar que ocupa, uma vez que mesmo o que nos aparece como
imóvel se move; move-se com o movimento da terra em volta do sol; e no movimento da terra sobre ela
mesma. Na metafísica, o princípio de identidade quer que uma coisa permaneça ela própria. Vemos, pelo
contrário, que nenhuma coisa permanece o que é.
Temos a impressão de ficar sempre os mesmos, e, portanto, diz-nos Engels, «os mesmos são diferentes».
Pensamos ser iguais e já mudámos. Da criança que éramos, tornámo-nos homem, e este, fisicamente, jamais
fica o mesmo: envelhece todos os dias.
Não é, pois, o movimento que é a aparência enganadora, como o sustentavam os Eleatas, é a imobilidade,
visto que, de facto, tudo se move e tudo muda.
A história também nos prova que as coisas não permanecem o que são. Em nenhum momento a sociedade
está imóvel. Primeiramente, houve, na antiguidade, a sociedade esclavagista, sucedeu-lhe a feudal, depois a
capitalista. O estudo dessas sociedades mostra-nos que, continuamente, insensivelmente, os elementos que
permitiram o nascimento de uma sociedade nova desenvolveram-se nelas. É assim que a sociedade
capitalista muda todos os dias e deixou de existir na U.R.S.S.. Porque nenhuma sociedade fica imóvel, a
socialista, edificada na União Soviética, está destinada, também ela, a desaparecer. Transformasse já a olhos
vistos, e é por isso que os metafísicos não compreendem o que aí se passa. Continuam a julgar uma
sociedade completamente transformada, com os seus sentimentos de homens sofrendo ainda a opressão
capitalista.
Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas
uma simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas vezes, em ódio.
O que vemos por toda a parte, na natureza, na história, no pensamento, é a mudança e o movimento. É por
esta constatação que começa a dialéctica.

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