IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVlll?
Sabemos que a mecânica desempenhou um grande papel no materialismo do século XVIII e que este é
muitas vezes chamado o «materialismo mecanicista». Por que aconteceu assim? Porque a concepção
materialista está ligada ao desenvolvimento de todas as ciências e, entre estas, foi a mecânica que se
desenvolveu primeiro. Na linguagem corrente, a mecânica é o estudo das máquinas; em linguagem científica,
o do movimento no que respeita a deslocação. E se a mecânica foi a ciência que primeiro se desenvolveu, é
porque o movimento mecânico é o mais simples. Estudar o movimento de uma maçã que balança ao vento,
num pomar, é muito mais fácil do que estudar a mudança que se produz na maçã que amadurece. Pode
estudar-se mais facilmente o efeito do vento sobre a maçã do que a sua maturação. Mas este estudo é
«parcial», abrindo, assim, a porta à metafísica.
Muito embora observem que tudo é movimento, os antigos Gregos não podem tirar partido de tal observação,
porque o seu saber é insuficiente. Então, observam-se as coisas e os fenómenos, classificam-se, contentam-se
em estudar a deslocação, daí a mecânica; e a insuficiência dos conhecimentos nas ciências dá origem à
concepção metafísica.
Sabemos que o materialismo é sempre baseado nas ciências e que, no século XVIII, a ciência era dominada
pelo espírito metafísico. De todas, a mais desenvolvida nessa época era a mecânica.
É por isso que era inevitável, dirá Engels, que o materialismo do século XVIII fosse um materialismo
metafísico e mecanicista, porque as ciências eram assim.
Diremos, portanto, que o materialismo metafísico e mecanicista era materialista, porque respondia à pergunta
fundamental da filosofia - o factor primeiro é a matéria -, mas era metafísico, porque considerava o universo
como um conjunto de coisas congeladas e mecânicas, porque estudava e via todas as coisas através da
mecânica.
Virá um dia em que se chegará, por acumulação das pesquisas, a constatar que as ciências não são imóveis;
aperceber-se-á que, nelas, se produziram transformações. Depois de ter separado a química da biologia e da
física, dar-se-á conta de que se torna impossível tratar qualquer delas sem ter de recorrer às outras. Por
exemplo, o estudo da digestão, que é do domínio da biologia, torna-se impossível sem a química. No século
XIX, aperceber-se-á, pois, que as ciências estão ligadas entre si, e resultará um retrocesso do espírito
metafísico nas ciências, porque se terá um conhecimento mais aprofundado da natureza. Até lá, tinha-se
estudado os fenómenos da física separadamente; agora, era-se obrigado a constatar que todos esses
fenómenos eram da mesma natureza. É assim que a electricidade e o magnetismo, que se estudavam
separadamente, estão reunidos hoje numa ciência única: o electromagnetismo.
Ao estudar os fenómenos do som e do calor, descobriu-se, do mesmo modo, que ambos eram provenientes de
um fenómeno da mesma natureza.
Batendo com um martelo, obtém-se um som e produz-se calor. É o movimento que produz calor. E sabemos
que o som provém de vibrações no ar, também estas são movimento. Portanto, eis dois fenómenos da mesma
natureza.
Em biologia, chegou-se, classificando cada vez mais minuciosamente, a encontrar espécies que não se
podiam classificar, nem como vegetais, nem como animais. Não havia, pois, separação brusca entre uns e
outros. Desenvolvendo-se sempre os estudos, chegou-se a concluir que os animais não foram sempre o que
são. Os factos têm condenado o fixismo e o espírito metafísico.
Foi no decurso do século XIX que se produziu esta transformação que acabamos de ver, e que permitiu ao
materialismo tornar-se dialéctico. A dialéctica é o espírito das ciências que, ao desenvolver-se, abandonaram
a concepção metafísica. O materialismo pôde transformar-se, porque as ciências mudaram. Às ciências
metafísicas corresponde o materialismo metafísico, e às novas um materialismo novo, o dialéctico.
sexta-feira, 5 de março de 2010
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