sexta-feira, 5 de março de 2010

Politzer

V. — Como nasceu o materialismo dialéctico: Hegel e Marx.

Se perguntamos como se operou essa transformação do materialismo metafísico em dialéctico, responde-se
geralmente dizendo:
1. Havia o materialismo metafísico, o do século XVIII;
2. As ciências mudaram;
3 Marx e Engels intervieram; separaram o materialismo metafísico em dois; abandonando a metafísica,
ficaram com o materialismo, juntando-lhe a dialéctica.
Se temos tendência em apresentar as coisas assim, isso provém do método metafísico, que quer que
simplifiquemos as coisas, para fazer um esquema. Devemos, pelo contrário, ter sempre bem presente que
jamais os factos da realidade devem ser esquematizados. Os factos são mais complicados do que parecem,
do que pensamos. Pelo que não há uma transformação tão simples do materialismo metafísico em dialéctico.
A dialéctica foi, de facto, desenvolvida por um filósofo idealista alemão, Hegel (1770-1831), que soube
compreender a mudança operada nas ciências. Retomando a velha ideia de Heráclito, constatou, ajudado
pelos progressos científicos, que, no Universo, tudo é movimento e mudança, nada está isolado, mas tudo
depende de tudo, criando, deste modo, a dialéctica. É a propósito de Hegel que falamos hoje de movimento
dialéctico do mundo. O que Hegel compreendeu primeiro foi o movimento do pensamento, e, naturalmente,
chamou-lhe dialéctico.
Mas Hegel é idealista, isto é, dá a importância primeira ao espírito, e, por consequência, faz do movimento e
da mudança uma concepção particular. Pensa que são as mudanças do espírito que provocam as da matéria.
Para Hegel, o universo é a ideia materializada, e, antes dele, existe primeiramente o espírito que descobre o
universo. Em resumo, constata que o espírito e o universo estão em perpétua mudança, mas, daí, conclui que
as mudanças do espírito determinam as da matéria.
Exemplo: o inventor tem uma ideia, realiza-a, e é esta, materializada, que cria mudanças na matéria.
Hegel é, pois, na verdade, dialéctico, mas subordina a dialéctica ao idealismo.
É então que Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895), discípulos de Hegel, mas discípulos materialistas, e
dando, por consequência, a importância primeira à matéria, pensam que a sua dialéctica dá afirmações
exactas, mas ao contrário. Engels dirá, a este respeito: com Hegel a dialéctica conservava-se na cabeça, era
preciso repô-la nos pés. Marx e Engels, transferem, portanto, para a realidade material a causa inicial desse
movimento do pensamento definido por Hegel, e chamam-no, naturalmente, dialéctico, servindo-se daquele
seu mesmo termo.
Pensam que tem razão para dizer que o pensamento e o universo estão em perpétua mudança, mas se engana,
afirmando que são as mudanças das ideias que determinam as das coisas. São, pelo contrário, estas que nos
dão aquelas, e as ideias modificam-se porque as coisas se modificam.
Outrora, viajava-se em diligência. Hoje, de comboio. Não é por termos a ideia de viajar de comboio que este
meio de locomoção existe. As nossas ideias modificaram-se, porque se modificam as coisas.
Devemos, pois, evitar dizer: «Marx e Engels possuíam, por um lado, o materialismo resultante do
materialismo francês do século XVIII, por outro, a dialéctica de Hegel; por consequência, apenas tinham que
os juntar um ao outro».
É uma concepção simplista, esquemática, que esquece que os fenómenos são mais complicados; é uma
concepção metafísica.
Marx e Engels tomarão, na verdade, a dialéctica a Hegel, mas transformá-la-ão. O mesmo farão do
materialismo, para nos dar o materialismo dialéctico.

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