sexta-feira, 5 de março de 2010

Os Gregos impressionaram-se pelo facto de se encontrar por toda a parte a mudança e o movimento. Vimos
que Heráclito, o chamado «pai da dialéctica», foi o primeiro a dar-nos uma concepção dialéctica do mundo,
isto é, descreveu-o em movimento e não congelado. A maneira de ver de Heraclito pode tornar-se um
método.
Mas este método dialéctico não pôde afirmar-se senão muito mais tarde, e é-nos necessário ver porque razão
a dialéctica foi muito tempo dominada pela concepção metafísica.
III. — Por que foi a dialéctica, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
Vimos que a concepção dialéctica nascera muito cedo na história, mas que os conhecimentos insuficientes
dos homens permitiram à concepção metafísica desenvolver-se e passar à frente da dialéctica.
Podemos fazer aqui um paralelo entre o idealismo, que nasceu da grande ignorância dos homens, e a
concepção metafísica, que nasceu dos conhecimentos insuficientes da dialéctica.
Como e porquê foi isso possível?
Os homens começaram o estudo da natureza num estado de completa ignorância. Para estudar os fenómenos
que constatam, começam por classificá-los. Mas, da maneira de classificar resulta um hábito do espírito. Ao
criar categorias, e separando-as umas das outras, o nosso espírito habitua-se a efectuar tais separações, e
voltamos a encontrar aí os primeiros caracteres do método metafísico. É, pois, na verdade, da insuficiência
do desenvolvimento das ciências que sai a metafísica. Ainda há 150 anos, se estudava as ciências separandoas
umas das outras. Estudava-se à parte a química, a física, a biologia, por exemplo, e não se via entre elas
qualquer relação. Continuava-se, também, a aplicar esse método no interior das ciências: a física estudava o
som, o calor, o magnetismo, a electricidade,, etc., e pensava-se que estes diferentes fenómenos não tinham
qualquer relação entre si; estudava-se cada um deles em capítulos separados.
Na verdade, reconhecemos, aí, o segundo carácter da metafísica, que quer que se desconheçam as relações
das coisas e nada haja de comum entre elas.
Do mesmo modo, é mais fácil conceber as coisas no estado de repouso do que em movimento. Tomemos
como exemplo a fotografia: vemos que, em primeiro lugar, se procura fixar as coisas na sua imobilidade (é a
fotografia), depois, somente pela sequência, no seu movimento {é o cinema). Pois bem! A imagem da
fotografia e do cinema é a do desenvolvimento das ciências e do espírito humano. Estudamos as coisas em
repouso, antes de as estudar no seu movimento.
E isso porquê? Porque não se sabia. Para aprender, tomou-se o ponto de vista mais fácil; ou as coisas
imóveis são mais fáceis de perceber e estudar. Certamente, o estudo das coisas em repouso é um momento
necessário do pensamento dialéctico — mas só um momento, insuficiente, fragmentário, e que é preciso
integrar no estudo das coisas em transformação.
Encontramos esse estado de espírito na biologia, por exemplo, no estudo da zoologia e da botânica. Porque
não se conheciam bem, classificaram-se, primeiro, os animais em raças, espécies, pensando que entre elas
não havia nada de comum e que fora sempre assim (terceiro carácter da metafísica). Ê daí que vem a teoria a
que se chama o «fixismo» (que afirma, contrariamente ao «evolucionismo», que as espécies animais foram
sempre o que são, que nunca evoluíram), que é, por conseguinte, uma teoria metafísica, proveniente da
ignorância dos homens.

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