Divagar sobre um livro de Badiou lllº
Voltando ao Maio de 68 e seguindo a análise de Alain Badiou leva-nos a reconhecer que houve mais que um Maio 68. Começando por uma revolta estudantil e sendo as imagens desta revolta como os momentos mais fortes que , ainda, hoje revivemos, não se pode esquecer que, nessa época, a juventude estudantil representava uma minoria de toda a juventude francesa.
A força e a particularidade de Maio de 68 é de ter entrelaçado quatro processos bastante heterogêneos. E se o balanço destes acontecimentos é tão diverso, ele mostra um só aspecto e não a totalidade complexa que fez a sua verdadeira grandeza
Nos anos sessenta, quando se falava de estudantes falava-se de uma pequena fracção do conjunto da juventude, muito separada da juventude popular. Um dos elementos mereceu uma reflexão de duas ordens: De uma parte, a força extraordinária da ideologia e de símbolos, o vocabulário marxista, a ideia revolucionária. De outra parte, a aceitação da violência, defensiva de acordo, mas violência. Foi isto que deu côr a esta revolta. Foi isto que fez o Maio de 68.
Mas houve um outro Maio de 68, muito diferente e menos conhecido: Foi a maior greve geral de toda a história francesa. Foi um componente muito importante; ela foi estruturada à volta das grandes fábricas, animada pelos sindicatos, em particular a CGT (Confederação Geral do Trabalho). Ela teve como referência uma outra greve do mesmo tipo, a da Frente Popular de 1936.
Houve, neste Maio de 68 operário, um elemento de revolta que é, também, interno à juventude. Estes jovens operários praticaram, muitas vezes, o que se chama: "greves selvagens" para as distinguir das grandes jornadas sindicais tradicionais.
Um outro elemento nesta revolta é o seu radicalismo: o uso sistemático de ocupações de fábricas. Evidentemente uma herança das grandes greves de 1936 ou 1947, mas é mais generalizada. A maior parte das fábricas são ocupadas e cobertas de bandeiras vermelhas. É uma grande imagem que quem a viu não a pode esquecer.
Um terceiro elemento do Maio de 68 é o que se pode chamar o Maio da libertinagem. Transformaram-se os costumes, as relações amorosas, a liberdade individual, questão que vai dar no movimento das mulheres e depois os direitos da emancipação dos homossexuais.
Estes tres componentes são bem distintos e houve, entre eles, conflitos significativos.Entre o esquerdismo e a esquerda clássica houve vários afrontamentos, igualmente entre o esquerdismo político (representado pelo trotskismo e o maoísmo) e o esquerdismo cultural, mais anarquista.
O quarto elemento é todo ele investido pela questão: "O que é a política?". É uma questão de um lado muito teórica, muito difícil e no entanto tributária de um conjunto de experiências imediatas nas quais nos envolvemos com entusiasmo.
O velho conceito, com o qual se procura romper, repousa sobre a ideia dominante e que é aceite no campo "revolucionário", que existe um agente histórico que tem a possibilidade da emancipação. Chamam-lhe classe operária, proletário, algumas vezes povo discutindo-se por vezes a sua composição mas aceitando a sua existência. Esta convicção partilhada de que existe um agente "objectivo", inscrito na realidade social que tem a possibilidade da emancipação, é sem dúvida a maior diferença entre o passado e o presente. Entre os dois: os sinistros anos oitenta, onde procuravam fazer acreditar que a política de emancipação não era uma ideia pura, uma vontade, mas que ela estava inscrita e quase programada, na realidade histórica e social. Uma consequência desta convicção é que este agente objectivo deve ser transformado em força subjectiva, que esta identidade social se deve transformar num actor subjectivo. Por isso, é preciso que seja representado por um organismo específico que é o que se chama um partido, o partido da classe operária,ou o partido popular. Este partido deve estar presente em todo o lado onde exista poder ou intervenção.
Este partido político deve ter como não pode deixar de ser, relações estreitas com organizações de massas, que mergulhem as suas raízes na realidade social imediata. É toda a questão do lugar do sindicalismo, da sua relação ao partido,o que quer dizer um sindicalismo de massas.
Isto significa qualquer coisa que subsiste ainda hoje, que é a acção políticamente emancipadora a duas faces. Há, em primeiro os movimentos sociais, ligados a reivindicações particulares, e onde as organizações naturais são os sindicatos,e em seguida a componente partido,que consiste a travar batalhas para estar presente em todos os lugares onde haja poder,e transportar com ele a força e o conteudo dos movimentos sociais.
Quelha funda
sábado, 4 de julho de 2009
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