O Ateísmo - segundo - Compte-Soonville ( continuação )
Porque não há provas da existência de Deus, os ateus, nesse aspecto, foram sempre mais lúcidos que os crentes. Não há guerra, na história do ateísmo, de pretendidas "provas da existência de Deus"... Como provar uma não existência? Quem poderá provar, por exemplo, que o Pai Natal não existe? Que os fantasmas não existem? Como provar, com maior razão, que Deus não existe? Como demonstrar que a nossa razão não é ultrapassada? Como poderá ela recusar o que, na sua essência, será fora do seu alcance? Esta impossibilidade não nos leva portanto à asneira, nem se justifica, de renunciar a pensar. Não há provas, mas há argumentos. E porque sou ateu, quero esboçar alguns.
O primeiro, muito simples, é puramente negativo: uma forte razão de ser ateu, é em primeiro a fraqueza dos argumentos opostos. Fraqueza de "provar", mas também fraquezas das experiências. Se Deus existice, deveria se ver ou se sentir. Porque é que Deus se esconde? Os crentes respondem, a maior parte das vezes, que é para preservar a nossa liberdade: se Deus se mostrasse em toda a sua glória, nós não seriamos mais livres de crer ou não.
Esta resposta não satisfaz. Primeiro porque nós seriamos mais livres que Deus o que parece filosóficamente e teológicamente difícil de pensar.
Em seguida porque há sempre menos liberdade na ignorancia que no saber. Deviamos nós para respeitar a liberdade das crianças,renunciar as educar? Todos os professores e todos os pais fazem o inverso: que os jovens serão mais livres quanto maior for o seu saber! A ignorancia nunca fez alguem livre. O conhecinento não faz um escravo
No fundo e principalmente, porque o argumento parece incompativel com a imagem, que é hoje dominante, de um Deus Pai. Que se respeite a liberdade das crianças, é evidentemente desejável. Mas a sua liberdade é de amar ou não, de obedecer ou não, de respeitar ou não, o que significa que eles saibam ao menos que os pais existem! Que triste pai não será, aquele que, para respeitar a liberdade dos seus filhos, recusará viver com eles, de os acompanhar, e mesmo de se fazer conhecer! A Revelação? Mas que pai se contentará, para criar os seus filhos, de uma palavra dirigida a outros, mortos depois de séculos, e que lhe é transmitida por textos equivocos ou duvidosos? Que pai é este que dá aos seus filhos a leitura de obras escolhidas ou as dos seus discípulos (A Biblia? O Corão?) em vez de lhes falar directamente e de os apertar contra o seu peito? Drole de pai, drole de Deus! E que pai mais cruel que aquele, que vendo seus filhos sofrer se esconde? Que Pai é esse que se esconde a Auschwitz, que se esconde aoRwanda, que se esconde quando os seus filhos estão doentes ou têm medo. Como o amar? Como podemos acreditar? O ateísmo faz uma hipótese mais credivel. Se Deus não se vê e se o não compreendemos, porque ele se esconde, é talves, simplesmente, que ele não existe...
O segundo argumento é igualmente negativo, mas desta vez menos empírico,que teórico. A principal força de Deus, pelo pensamento, é de explicar o mundo, a vida, o pensamento ele mesmo. Mas que vale esta explicação, logo que Deus, se ele existe, é por definição inexplicável? Que a religião seja uma crença possivel, não o podemos negar. Que ela seja respeitável,convenhamos. Mas temos que nos interrogar sobre o seu conteudo do pensamento. Uma religião, é uma doutrina que explica qualquer coisa que não compreendemos
(a existência do Universo, da vida, do pensamento) por qualquer coisa que se compreende ainda menos (Deus)? E que pode valer, de um ponto de vista racional ésta explicação? É o "asilo da ignorância" como dizia Spinóza, "Deus,ou seja uma substancia constituida por uma infinidade de atributos onde cada um exprime uma essência iterna e infinita, existe necessáriamente". É o que se lê na Ética. Mas que sabemos nós de um tal Deus e desta infinidade de atributos infinitos? Nada, se não o que nos assemelha ou que nos atravessa (o alcance, o pensamento) que não faz um Deus. Mas então porque crer? É Freud que aqui tem razão: " A ignorância é a ignorânci", em outros termos, temos o direito de acreditar mas isso não significa conhecimento.
Ser ateu, não dispensa que se seja inteligente e lúcido. É o que destingue o ateísmo do cientismo,que será um ateísmo cego. O cientismo é uma religião da ciência, não é a essência do ateísmo, do materialismo ou do racionalismo;é o seu coveiro dogmático e religioso. Diga-se que é a religião dos não crentes. Este livre pensamento é o contrário, quase sempre, de um pensamento livre.
Quelha Funda
quinta-feira, 30 de julho de 2009
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