quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Religião

Nomes de Deus De André Comte-Sponville (continuação)

"O materialismo", escreve em determinada altura, "sem ser sempre ateu, é inseparável da crítica da religião." No livro, Uma Educação Filosófica, não poupa a crítica em relação à religião, escrevendo: "A religião é uma ilusão. Pior, uma cobardia e uma renegação." É por isso uma falta. É duro, como afirmação".
-Sim,é duro. mas aí, é preciso entrar um pouco no detalhe. Porquê "uma ilusão"? Eu parti do texto de Freud, O Futuro de uma Ilusão, onde Freud explica que uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, não é forçadamente um erro. Quando eu digo que a religião é uma ilusão, não quero dizer que Deus não existe,mesmo se é o que eu creio. Freud diz: "uma ilusão é um pensamento derivado dos desejos humanos". Se fazer de ilusões como dizem, é acreditar que é verdade o que se deseja, acreditar que é verdade o que esperamos. Dito de outra maneira, familiarmente: tomar os nossos desejos por realidade.
Que desejamos nós? Não morrer, ser amado. E o que nos diz a religião? Que nós não morremos e que nós somos amados para lá de toda a esperança... Por isso a religião é uma ilusão em si, pois é um pensamento derivado de um saber - pois não se trata de saber de Deus - mas dos nossos desejos! É portanto uma ilusão: acreditar em Deus, ´´e tomar os nossos desejos por realidade. Este é o primeiro ponto. Porquê , o segundo ponto, é uma cobardia ou uma renegação? Porque, me parece, ser religioso, é considerar que a verdade é já conhecida, já que ela é revelada. É portanto come ter a liberdade do seu espírito a um corpo de doutrina que é já constituído, independentemente de todo o exame.
E é verdade que nesse sentido, como intelectual, como racionalista, como livre pensador (não no sentido dogmático ou estreito que a palavra tem por vezes, mas no sentido literal),eu recuso que o meu pensamento, se some-ta, antes de todo o exame, a verdades pretensamente reveladas, sejam elas quais forem. Recuso os dogmas assim como as promessas.
-É a famosa frase de Renan!
-"É possível que a verdade fosse triste". É a isso que pensa? Sim, talvez que a verdade seja triste. Dito de outra maneira, quando procuro saber o que pode ser a verdade - não a conheço mais que os outros, mas como cada um, procuro ver qual é a verdade mais provável, o que me parece verdade, - não devo ter em conta as minhas esperanças. Nada prova que a verdade corresponde ao que eu espero. Se eu devo escolher em função das minhas esperanças, acredite que preferia que Deus existisse. Se isso não dependesse de mim! Mas a esperança não é um argumento. E é o que significa o ateísmo.
-Enfim, a "renegação".
-A renegação, justamente, porque é renegar esta liberdade de espírito, é renunciar a esse poder, e a esse dever, de livre-exame. Depois, terceiro ponto é também aceitar o horror. Aceitar o horror, porque o mundo tal como o conhecemos, a vida como a conhecemos, não são globalmente atrozes, mas contêm atrocidades. Há males onde os homens são responsáveis, como as guerras e a injustiça, mas há também muitos horrores de que eles não são responsáveis: os cataclismos,as doenças, o sofrimento de crianças...
Como, diante de uma criança que sofre, diante uma criança que morre, diante da mãe desta criança,como ousar celebrar a bondade e o todo poder de Deus ou as maravilhas da sua criação? Crer em Deus, crer em um Deus bom e todo poderoso, é tolerar o intolerável! É o que eu chamo a cobardia: aceitar o inaceitável. É violar, creio eu, o dever de compaixão, de solidariedade, com os que estão no horror, com os que estão em face da atrocidade. Ninguém, diante de uma criança que sofre e que morre, ninguém, diante da mãe dessa criança não poderá dizer:"Este mundo foi criado por um Deus bom e todo poderoso." E bem, o que não se pode dizer diante de uma criança que sofre, não se poderá dizer, nunca, porque há sempre em qualquer canto do mundo,crianças que sofrem atrozmente.
Não transigimos, mas nunca, com o horror.


QUELHA FUNDA

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