quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Religião

Nomes de Deus ( De André Comte-Sponville )



Numa conversa com André Comte-Sponville, foi-lhe posta a seguinte questão: - Vós dizeis a propósito de Deus, "A sua existência, depois da sua não existência, foi sempre para mim a questão principal". Existência primeiro, não existência não existência de seguida? Como se operou em você a passagem da fé ao ateísmo?

-É bem a questão principal. Toda a nossa vida muda, me parece, ao menos na sua primeira parte - creio que é menos verdade no fim do percurso, - mas toda a nossa vida parece mudar segundo se acredita ou não, em Deus. Quero dizer que se acreditamos ou não, que a verdade é do lado dos nossos sonhos, que a verdade é do lado das nossas esperanças.

No fundo o que é acreditar-mos em Deus? Acreditar em Deus, é acreditar que o essencial dos nossos desejos, os nossos desejos mais fortes, serão satisfeitos, ou que já o sejam. O que é que nós desejaríamos, em primeiro? Não morrer, reencontrar todos os que perdemos, sermos amados... E o que nos diz a religião? Que nós não morremos, ou morrer verdadeiramente, que nós vamos ressuscitar; que nós reencontraremos os que tínhamos amado e perdemos; enfim que nós somos amados para lá de toda a esperança. Como eu amaria que isso fosse verdade! Você me pergunta:"Como é que passei da fé ao ateísmo?" Pois direi, que passei da fé ao ateísmo em passando da esperança ao desespero.

-Não é a escolha mais fácil. você escreveu no livro, O Mito de Ícaro: O difícil é de estar só, sem Deus, sem amigos,sem amor. O ateísmo è difícil." Você escolheu a dificuldade?

-Sim, porque é difícil renunciar às suas esperanças. Porque é difícil de afrontar o que há de desesperante na condição humana. E ainda mais quando renunciamos ao que eu chamo as "religiões de substituição", quer dizer estas outras esperanças que serviram durante muito tempo como produto de substituição da religião.

E na minha biografia, que você evocou, houve o que se chama hoje, o "messianismo marxista", o que quer dizer uma esperança, certo, valendo para esta Terra, uma esperança imanente,como dizem os filósofos, mas que tinha bem todos os caracteres do absoluto religioso.

Dito de outra maneira, é bom de esperar isto ou aquilo, seja por uma ou outra via; mas há uma realidade, a vida continua! A vida tal que ela é: a vida real. ora o que eu constato ( como toda a gente creio eu,) é que a vida, no fundo, é enganadora. Porque ela não corresponde às nossas esperanças. de maneira que, diante das decepções que a vida não deixa de lhes infligir, muita gente julga que, se a vida não satisfaz as suas esperanças, é porque a vida é madrasta. E elas se fecham assim, ainda com vida na amargura e no ressentimento.
- portanto a escolha, de alguma maneira filosófica, do que chamam o materialismo. Pode-se explicar assim, o que Lenine chamava "A Linha de Démocrite".
-Sim. A escolha do materialismo, é exactamente - antes de o dizer: "Se a vida não responde às minhas esperanças, é a vida que não tem razão",-deve-se dizer: "A vida faz o que pode!" A vida ou se aceita ou se recusa. Porque não há outra coisa. O real é a tomar ou a deixar. Deixamos de sonhar a vida, deixamos de esperar viver e vivamos! A linha de Démocrite, como dizia Lenine para definir o materialismo, e em primeiro o movimento que determina a escolher o mundo real,este mundo material ( de onde vem a palavra materialismo ), que consiste a pensar que não há outra vida que esta, corporal, material; que nada há a esperar da morte; que não há uma ultima esperança. Mas que, neste espaço, neste mundo, nesta vida, podemos esperar o prazer, o que é a experiência de todos nós, no dia a dia; podemos alcançar a felicidade.


Continua


QUELHA FUNDA



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