A Política - Segundo André Comte-Sponville
O homem é um animal sociável: ele não pode viver e aprender que no meio dos seus semelhantes.
Mas ele é também um animal egoísta. A sua "insociável sociabilidade" como diz Kant, faz que ele não pode se passar dos outros nem renunciar, por eles, à satisfação dos seus desejos.
É por isso que nós temos necessidade da política. Para que os conflitos de interesses se regulem de outra maneira que pela violência. Para que as nossas forças se juntem em vez de se oporem. Para escapar à guerra, ao medo e à barbaridade.
O que é a política? É a gestão, sem ser pela guerra, dos conflitos, das alianças e da relação de forças, não entre os indivíduos somente, mas à escala de toda a sociedade. É a arte de viver em conjunto, num mesmo país, numa mesma sociedade com pessoas que não escolhemos, pelas quais, muitas vezes, não temos algum sentimento e que por vezes são mais nossos rivais do que aliados. Isso supõe um governo, e mudanças de governos. Isso supõe de afrontamentos mais regulados, de compromissos, mas provisórios, enfim acordos de maneira a suprimir de desacordos. Não há que a violência e é a política que a deve impedir. A política começa onde guerra acaba.
Trata-se de saber quem comanda e quem obedece, quem faz a lei,como se diz, é o que chamam um soberano. Pode ser um rei ou um déspota (numa monarquia absoluta), pode ser o povo ( numa democracia ), pode ser um ou outro grupo de indivíduos (uma classe social, um partido, uma elite: uma aristocracia)... Poderá ser, e é muita vez, um misto singular destes três tipos de regime ou de governo. No entanto nunca haverá política sem esse poder, que é o maior de todos, pelo menos sobre a terra e o garante de todos os outros. "O poder é por todo o lado" como diz Foucault, ou dito de outra maneira, os poderes são enumeraveis; mas eles não podem coexistir que sob a autoridade reconhecida ou imposta do mais poderoso de entre eles. Multiplicidades de poderes, unidade do soberano ou do Estado: toda a política se joga lá. Mas vamos nós nos submeter ao primeiro bruto que aparece? Ao primeiro pequeno chefe que surge? De certeza que não! Nós sabemos muito bem que é necessário um poder, ou vários, nós sabemos bem que é preciso obedecer. Mas não a qualquer preço. Nós queremos obedecer livremente: nós queremos que o poder ao qual nos submetemos, não possa abolir o nosso, mas o reforce e o garanta.
Nem sempre se conseguirá mas nunca devemos renunciar. É por isso que fazemos, que nós fazemos política. É por isso que continuaremos a fazê-la. Para sermos mais livres. Para sermos mais felizes. Para sermos mais fortes.
Continúa
Quelha funda
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
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